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10/12/2006
Montagem sobre foto de Ricardo Nogueira/Gazeta Press

Por Luiz Ricardo Fini

“O Santos pode virar uma referência no mundo em prevenção de contusão”. A frase expõe a atual meta do fisioterapeuta Nilton Petrone, o Filé, que ficou conhecido no meio esportivo depois de recuperar o atacante Ronaldo nas vésperas da Copa do Mundo de 2002. O profissional foi contratado pelo Santos no começo de outubro para contribuir no projeto do clube de modernizar sua área médica.

Atualmente, quem atrai os holofotes para o setor clínico é o São Paulo em função do sucesso do núcleo de Reabilitação Esportiva, Fisioterápica e Fisiológica (Reffis). O clube do Morumbi recebe com freqüência jogadores de ponta, que atuam em outros países, interessados em se tratar no Reffis.

O Santos, por sinal, já abriu suas portas para quem quiser utilizar sua estrutura física e humana, mas Filé garante que o Peixe não está interessado em disputar uma “queda de braço” com o rival da capital. O motivo é simples: o Peixe não enfoca a reabilitação, e sim a prevenção. Mas isso também não impede o clube de receber atletas interessados em se reabilitar.

Depois de passar por um período turbulento no departamento médico em 2005, que inclusive resultou em uma reportagem especial da GE.Net, o Peixe acelerou seus investimentos no setor, inaugurando no fim do ano passado uma moderna sala de musculação e uma piscina própria para a recuperação dos jogadores, além de contratar o médico Joaquim Grava, de longa experiência no meio esportivo.

Agora, adquiriu também aparelhos italianos que serão acoplados aos equipamentos já existentes na sala de fisioterapia. “Vejo que o Santos não deve absolutamente nada em termos de estrutura física”, analisa Filé.

A pedra no caminho do Peixe no ano foram as contusões mais complicadas, que levaram para o departamento médico vários jogadores com necessidade de cirurgias, casos de Maldonado (tornozelo), Denis, Reinaldo, Fabiano, Jonas, Geílson (todos joelho), Ávalos (ombro) e Roger (hérnia de disco). Já Fábio Costa ficou longe dos gramados em função de uma contusão no ombro, mas não precisou de cirurgia.

Para casos como esses, o clube mantém a sala de fisioterapia pronta para recuperar possíveis problemas. Nesta entrevista exclusiva à GE.Net, Filé falou também sobre o trabalho com Wanderley Luxemburgo e o objetivo de ajudar o Peixe a chegar ao Mundial de Clubes de 2007.

Gazeta Esportiva.Net: Neste tempo de trabalho no Santos, como você avalia a infra-estrutura do clube?
Filé:
É mais do que a gente esperava. Eu já tinha falado desde o início: ela não deve absolutamente nada a nenhum clube. Nem para os clubes em que trabalhei, como a Inter de Milão, onde fiquei quatro anos. Conheci também a Roma, o Milan... Vejo que o Santos não deve absolutamente nada em termos de estrutura física. Quando houver a reforma na fisioterapia, que vai juntar os espaços do departamento médico e da musculação, vai ficar um bloco único e dará um upgrade porque todo mundo vê os colegas trabalhando. Serão informações praticamente a todo o momento, a comunicação ficará melhor. Outra coisa bacana que eu vi aqui é o carinho com que te recebem. Isso deixa você muito a vontade para fazer o seu trabalho.

GE.Net: O Santos anunciou recentemente a compra de novos equipamentos, de origem italiana, para a fisioterapia. No que vai ajudar esses aparelhos?
Filé:
Já conhecia esse trabalho na Itália, pois a empresa vende para todos os clubes grandes europeus. Nenhum clube brasileiro ainda trabalha com isso porque não conhece. O Santos vai dar esse passo e acho que, no ano que vem, começa o projeto de prevenção, que não é uma coisa que se vê em curto prazo, mas sim em médio ou longo prazo. É um projeto bacana e, se dermos continuidade nessa área, o Santos vira referência não só para o Brasil, mas para o resto do mundo. A Europa tem alguns locais que ainda não entraram com projeto de prevenção. Estamos começando a montar esse protocolo e, se der mesmo certo, os outros vão ter que copiar o modelo do Santos.

GE.Net: O Santos, então, pretende acabar com as contusões de seus jogadores?
Filé:
A gente vai criar um protocolo que possa ser utilizado e veremos no final de uma temporada se deu certo ou não. Prevenção não é uma coisa de curto prazo. Esse protocolo tem que ser analisado a cada momento e o que não estiver dando certo, temos que trocar. É um jogo de quebra-cabeça. Talvez em um ano consigamos ou não isso, mas o objetivo é diminuir a incidência de lesões de origem não-traumática. As de contato não têm jeito, não vai dar para prevenir se alguém cair em cima do seu joelho. Vamos trabalhar as lesões musculares e as demais de origem não-traumática. E o (Antonio) Mello hoje é o melhor de preparação física no Brasil. O Santos teve pouquíssimas lesões musculares, pode comparar com os outros times. Isso porque o treinamento composto pelo Mello e o Wanderley (Luxemburgo) não leva o atleta a um nível de solicitação que faça ter um estresse com risco de lesão muscular.

GE.Net: Você está falando em tornar o Santos referência no mundo da prevenção. Atualmente, o São Paulo tem o espaço na mídia com a reabilitação de jogadores no Reffis. Será um duelo entre os clubes?
Filé:
Os profissionais que estão no São Paulo são de altíssima competência e a gente não vai nem questionar. Todos eles são profissionais referências para qualquer lugar do mundo, como o Turíbio (Leite de Barros, fisiologista), o (fisioterapeuta Luiz) Rosan. A estrutura do São Paulo também é bela e a gente não quer nem ser comparado ao São Paulo. Queremos criar um modelo para atacar a prevenção, e não a reabilitação. Estava até brincado com o outro fisioterapeuta, o André (Souto), que vai ficar bacana o dia em que não fizermos nada. Quando o fisioterapeuta passar dois, três meses sem trabalhar, eu vou pode falar: “o protocolo deu certo”. Significaria que estamos conseguindo prevenir as contusões. Nós vamos preparar o protocolo de prevenção para cada atleta e cada um vai saber o que fazer. Se o São Paulo hoje tem a mídia, bato palmas e admiro os profissionais que estão lá. Não há uma queda de braço com o São Paulo.

GE.Net: A parceria é um sonho ou algo mais próximo da realidade entre os dois clubes?
Filé:
Se amanhã precisarmos de coisas do São Paulo, vamos falar com eles. Se eles precisarem ver algumas coisas nossa, bom também. Conhecimento tem que ser passado, é importante trocar experiências sem vaidade. A gente não quer fazer mais do que o São Paulo, e sim diferente. E eu só vim para o Santos porque o projeto é inovador. É para ser uma coisa diferente de tudo que existe na medicina esportiva, na fisioterapia, na preparação física.

GE.Net: Assim que o Santos te contratou, você e o Wanderley Luxemburgo disseram que o clube abriria as portas para outros atletas se tratarem aqui. Você é conhecido no meio do esporte. Já recebeu contato de algum jogador que queira se tratar?
Filé:
Estamos tratando de um jogador que já foi do Santos, o Alexandre. Hoje, ele está na Espanha (no Lorca, da segunda divisão). Ele já conhecia o Santos e veio para tratar o ligamento cruzado (do joelho) com a gente e só vai sair daqui para jogar. Mas, diretamente, ainda não (recebi contato). Mesmo porque estamos montando ainda, não está pronto, falta ser inaugurado. Quando tudo estiver montado, o Santos vai criar uma estrutura de marketing para oferecer o protocolo de prevenção a quem estiver com dificuldades para dar a seus atletas uma condição fisioterápica e física boa. Essa é a proposta, mas para o ano que vem. (*No dia da entrevista, o clube ainda não havia sido procurado por Gustavo Kuerten, que cogita passar por tratamento no Peixe em 2007).

GE.Net: Você já havia trabalhado com o Wanderley Luxemburgo na seleção brasileira, na Copa América de 1999. Como está sendo voltar a trabalhar com ele?
Filé:
Pesou muito a presença dele aqui. Eu teria grandes dificuldades de aceitar uma proposta se não fosse com ele, independente de financeiramente ser boa. Mais do que a parte financeira é o projeto, ainda mais se você está com pessoas competentes. Já trabalhei com todos os que estão aqui: Mello, Wanderley, Evaldo (Prudêncio, coordenador)... Já tem um mês que estou no Santos e vai criando carinho, raízes dentro do clube. Conheço o porteiro, o pessoal do hotel, da cozinha... São pessoas simples que fazem o Santos ser grande também. Mas o responsável por isso tudo foi o Wanderley. Desde 2002, quando saí da Inter de Milão, eu não queria mais futebol. Quando o Ronaldo foi para o Real Madrid, eu voltei para o Rio porque tínhamos um projeto de uma clínica muito grande. Mas, quando voltei para o Rio, recebi uma proposta da Universidade (Estácio de Sá) para ser vice-reitor, que era o cargo mais alto que eu poderia chegar em minha carreira acadêmica, e achei legal.

GE.Net: Depois disso não houve mais nenhum contato com o futebol, nem propostas?
Filé:
O Paulo César Gusmão tentou me levar para o Cruzeiro na época, mas eu estava envolvido em meu projeto. Eu estava com a carreira acadêmica, mas o Guga despertou uma parte de mim. Depois do Guga, agora veio o Wanderley com esse projeto. Acho que será um ano muito bom. O Santos vai se preparar para a Libertadores e se focar para buscar o terceiro título mundial.

GE.Net: Seleção ainda é uma pretensão na sua carreira?
Filé:
Claro que é, quem vai dizer que não é? Mas meu primeiro plano é o Santos. Se eu fosse convocado e o presidente do Santos dissesse que gostaria que eu não fosse para a seleção, eu não iria. Veja bem: claro que todo objetivo é chegar à seleção e eu já estive lá, em um momento polêmico. Em 1990, com o Romário, eu não era da comissão técnica, mas acabei sendo. O próprio Luiz Henrique (de Menezes), que hoje é gerente aqui pode falar sobre isso porque ele era preparador-físico naquela época, com o Lazaroni. Acabei atendendo vários atletas dentro do hotel da seleção. Não tinha fisioterapeuta naquela época. Nas Copas de 1994 e 98, o Lídio (Toledo, médico) levou o Claudionor. Voltei em 1999, mas em função de eu estar preso à Inter e ela não ter me liberado mais, a seleção optou pelo Rosan, que é um profissional inquestionável. Não vou questionar a competência dentro do espectro de trabalho dele. Se um dia eu puder participar junto do trabalho, vou ficar feliz. Se não puder, vou esperar.

GE.Net: Você tem no currículo trabalhos com astros do esporte do nível de Ronaldo, Romário e Gustavo Kuerten. Você acha que sua contratação também teve um aspecto de marketing por parte do Santos?
Filé:
Claro, por que não? Por que o Santos não faria isso? Ele tem que criar um portfólio para falar os profissionais que estão trabalhando aqui, quando for buscar um atleta de renome que não está conseguindo se recuperar na Europa. Vão perguntar ao Santos quem é o fisioterapeuta e quem ele recuperou. É obvio que o marketing do nome fortalece o clube, e eu me fortaleço com o trabalho no Santos. Meu currículo vai ter o nome do Santos. Quando eu estava na Europa, por exemplo, só três clubes eram conhecidos lá: Santos, Botafogo e Flamengo. Quando eu falei que trabalhei no Flamengo, eles falavam lá “meu Deus do céu!”. Eu tinha que levar várias camisas do Flamengo para lá. O nome do Santos também é muito forte. Um profissional que trabalha no Santos é olhado de outra maneira lá fora.

GE.Net: Você está trabalhando agora com um jogador que foi muito elogiado pelo vigor físico apresentado na Copa do Mundo: o Zé Roberto, que tem 32 anos. Você acha que ele conseguirá manter esse ritmo?
Filé:
O Zé eu conheço há muito tempo. Em 1999, ele estava naquela Copa América: era um ‘joooveeem’ rapaz. O Zé Roberto é assim porque trabalha. É 99% de transpiração e 1% de inspiração. Quando ele faz o treino direito, sabe que vai ter uma resposta. O Zé é concentrado, emocionalmente estável, altamente disciplinado e totalmente família. Ele sabe o que quer e treina para manter o aspecto. Ele é um fenômeno porque tem tudo isso. Ninguém consegue ser um fenômeno por muito tempo se não tiver disciplina, determinação, objetivo... E o Zé tem todas essas qualidades.

GE.Net: Cada vez mais o mundo da bola vê atletas encerrar a carreira com mais de 40 anos. É um resultado da evolução física e médica?
Filé:
O futebol quebrou alguns paradigmas muito interessantes. Há umas décadas atrás, ninguém diria que um atleta chegaria aos 40 anos para terminar a carreira, mas começou então a ter jogador com 36, 37 anos. Aí essa questão foi sendo quebrada. O futebol vai quebrar mais um paradigma daqui a alguns anos. Se essa coisa da prevenção vier forte e o atleta também pensar nisso, você vai ver gente terminando a carreira muito bem. Você vai perguntar por que determinado atleta está parando se está melhor que o garotão? Mas isso acontece porque ele já tem um lastro, aquela capacidade genética própria, e depois desenvolveu uma segunda capacidade no decorrer da carreira por ter trabalhado. O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

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