| Por Luiz Ricardo
Fini
“O Santos pode virar uma referência no mundo em prevenção
de contusão”. A frase expõe a atual meta do fisioterapeuta
Nilton Petrone, o Filé, que ficou conhecido no meio
esportivo depois de recuperar o atacante Ronaldo nas
vésperas da Copa do Mundo de 2002. O profissional foi
contratado pelo Santos no começo de outubro para contribuir
no projeto do clube de modernizar sua área médica.
Atualmente, quem atrai os holofotes para o setor clínico
é o São Paulo em função do sucesso do núcleo de Reabilitação
Esportiva, Fisioterápica e Fisiológica (Reffis). O clube
do Morumbi recebe com freqüência jogadores de ponta,
que atuam em outros países, interessados em se tratar
no Reffis.
O Santos, por sinal, já abriu suas portas para quem
quiser utilizar sua estrutura física e humana, mas Filé
garante que o Peixe não está interessado em disputar
uma “queda de braço” com o rival da capital. O motivo
é simples: o Peixe não enfoca a reabilitação, e sim
a prevenção. Mas isso também não impede o clube de receber
atletas interessados em se reabilitar.
Depois de passar por um período turbulento no departamento
médico em 2005, que inclusive resultou em uma reportagem
especial da GE.Net, o Peixe acelerou
seus investimentos no setor, inaugurando no fim do ano
passado uma moderna sala de musculação e uma piscina
própria para a recuperação dos jogadores, além de contratar
o médico Joaquim Grava, de longa experiência no meio
esportivo.
Agora, adquiriu também aparelhos italianos que serão
acoplados aos equipamentos já existentes na sala de
fisioterapia. “Vejo que o Santos não deve absolutamente
nada em termos de estrutura física”, analisa Filé.
A pedra no caminho do Peixe no ano foram as contusões
mais complicadas, que levaram para o departamento médico
vários jogadores com necessidade de cirurgias, casos
de Maldonado (tornozelo), Denis, Reinaldo, Fabiano,
Jonas, Geílson (todos joelho), Ávalos (ombro) e Roger
(hérnia de disco). Já Fábio Costa ficou longe dos gramados
em função de uma contusão no ombro, mas não precisou
de cirurgia.
Para casos como esses, o clube mantém a sala de fisioterapia
pronta para recuperar possíveis problemas. Nesta entrevista
exclusiva à GE.Net, Filé falou também
sobre o trabalho com Wanderley Luxemburgo e o objetivo
de ajudar o Peixe a chegar ao Mundial de Clubes de 2007.
Gazeta Esportiva.Net: Neste tempo de trabalho
no Santos, como você avalia a infra-estrutura do clube?
Filé: É mais do que a gente esperava. Eu já
tinha falado desde o início: ela não deve absolutamente
nada a nenhum clube. Nem para os clubes em que trabalhei,
como a Inter de Milão, onde fiquei quatro anos. Conheci
também a Roma, o Milan... Vejo que o Santos não deve
absolutamente nada em termos de estrutura física. Quando
houver a reforma na fisioterapia, que vai juntar os
espaços do departamento médico e da musculação, vai
ficar um bloco único e dará um upgrade porque todo mundo
vê os colegas trabalhando. Serão informações praticamente
a todo o momento, a comunicação ficará melhor. Outra
coisa bacana que eu vi aqui é o carinho com que te recebem.
Isso deixa você muito a vontade para fazer o seu trabalho.
GE.Net: O Santos anunciou recentemente a compra
de novos equipamentos, de origem italiana, para a fisioterapia.
No que vai ajudar esses aparelhos?
Filé: Já conhecia esse trabalho na Itália,
pois a empresa vende para todos os clubes grandes europeus.
Nenhum clube brasileiro ainda trabalha com isso porque
não conhece. O Santos vai dar esse passo e acho que,
no ano que vem, começa o projeto de prevenção, que não
é uma coisa que se vê em curto prazo, mas sim em médio
ou longo prazo. É um projeto bacana e, se dermos continuidade
nessa área, o Santos vira referência não só para o Brasil,
mas para o resto do mundo. A Europa tem alguns locais
que ainda não entraram com projeto de prevenção. Estamos
começando a montar esse protocolo e, se der mesmo certo,
os outros vão ter que copiar o modelo do Santos.
GE.Net: O Santos, então, pretende acabar com
as contusões de seus jogadores?
Filé: A gente vai criar um protocolo que possa
ser utilizado e veremos no final de uma temporada se
deu certo ou não. Prevenção não é uma coisa de curto
prazo. Esse protocolo tem que ser analisado a cada momento
e o que não estiver dando certo, temos que trocar. É
um jogo de quebra-cabeça. Talvez em um ano consigamos
ou não isso, mas o objetivo é diminuir a incidência
de lesões de origem não-traumática. As de contato não
têm jeito, não vai dar para prevenir se alguém cair
em cima do seu joelho. Vamos trabalhar as lesões musculares
e as demais de origem não-traumática. E o (Antonio)
Mello hoje é o melhor de preparação física no Brasil.
O Santos teve pouquíssimas lesões musculares, pode comparar
com os outros times. Isso porque o treinamento composto
pelo Mello e o Wanderley (Luxemburgo) não leva o atleta
a um nível de solicitação que faça ter um estresse com
risco de lesão muscular.
GE.Net: Você está falando em tornar o Santos
referência no mundo da prevenção. Atualmente, o São
Paulo tem o espaço na mídia com a reabilitação de jogadores
no Reffis. Será um duelo entre os clubes?
Filé: Os profissionais que estão no São Paulo
são de altíssima competência e a gente não vai nem questionar.
Todos eles são profissionais referências para qualquer
lugar do mundo, como o Turíbio (Leite de Barros, fisiologista),
o (fisioterapeuta Luiz) Rosan. A estrutura do São Paulo
também é bela e a gente não quer nem ser comparado ao
São Paulo. Queremos criar um modelo para atacar a prevenção,
e não a reabilitação. Estava até brincado com o outro
fisioterapeuta, o André (Souto), que vai ficar bacana
o dia em que não fizermos nada. Quando o fisioterapeuta
passar dois, três meses sem trabalhar, eu vou pode falar:
“o protocolo deu certo”. Significaria que estamos conseguindo
prevenir as contusões. Nós vamos preparar o protocolo
de prevenção para cada atleta e cada um vai saber o
que fazer. Se o São Paulo hoje tem a mídia, bato palmas
e admiro os profissionais que estão lá. Não há uma queda
de braço com o São Paulo.
GE.Net: A parceria é um sonho ou algo mais
próximo da realidade entre os dois clubes?
Filé: Se amanhã precisarmos de coisas do São
Paulo, vamos falar com eles. Se eles precisarem ver
algumas coisas nossa, bom também. Conhecimento tem que
ser passado, é importante trocar experiências sem vaidade.
A gente não quer fazer mais do que o São Paulo, e sim
diferente. E eu só vim para o Santos porque o projeto
é inovador. É para ser uma coisa diferente de tudo que
existe na medicina esportiva, na fisioterapia, na preparação
física.
GE.Net: Assim que o Santos te contratou, você
e o Wanderley Luxemburgo disseram que o clube abriria
as portas para outros atletas se tratarem aqui. Você
é conhecido no meio do esporte. Já recebeu contato de
algum jogador que queira se tratar?
Filé: Estamos tratando de um jogador que já
foi do Santos, o Alexandre. Hoje, ele está na Espanha
(no Lorca, da segunda divisão). Ele já conhecia o Santos
e veio para tratar o ligamento cruzado (do joelho) com
a gente e só vai sair daqui para jogar. Mas, diretamente,
ainda não (recebi contato). Mesmo porque estamos montando
ainda, não está pronto, falta ser inaugurado. Quando
tudo estiver montado, o Santos vai criar uma estrutura
de marketing para oferecer o protocolo de prevenção
a quem estiver com dificuldades para dar a seus atletas
uma condição fisioterápica e física boa. Essa é a proposta,
mas para o ano que vem. (*No dia da entrevista, o clube
ainda não havia sido procurado por Gustavo Kuerten,
que cogita passar por tratamento no Peixe em 2007).
GE.Net: Você já havia trabalhado com o Wanderley
Luxemburgo na seleção brasileira, na Copa América de
1999. Como está sendo voltar a trabalhar com ele?
Filé: Pesou muito a presença dele aqui. Eu
teria grandes dificuldades de aceitar uma proposta se
não fosse com ele, independente de financeiramente ser
boa. Mais do que a parte financeira é o projeto, ainda
mais se você está com pessoas competentes. Já trabalhei
com todos os que estão aqui: Mello, Wanderley, Evaldo
(Prudêncio, coordenador)... Já tem um mês que estou
no Santos e vai criando carinho, raízes dentro do clube.
Conheço o porteiro, o pessoal do hotel, da cozinha...
São pessoas simples que fazem o Santos ser grande também.
Mas o responsável por isso tudo foi o Wanderley. Desde
2002, quando saí da Inter de Milão, eu não queria mais
futebol. Quando o Ronaldo foi para o Real Madrid, eu
voltei para o Rio porque tínhamos um projeto de uma
clínica muito grande. Mas, quando voltei para o Rio,
recebi uma proposta da Universidade (Estácio de Sá)
para ser vice-reitor, que era o cargo mais alto que
eu poderia chegar em minha carreira acadêmica, e achei
legal.
GE.Net: Depois disso não houve mais nenhum
contato com o futebol, nem propostas?
Filé: O Paulo César Gusmão tentou me levar
para o Cruzeiro na época, mas eu estava envolvido em
meu projeto. Eu estava com a carreira acadêmica, mas
o Guga despertou uma parte de mim. Depois do Guga, agora
veio o Wanderley com esse projeto. Acho que será um
ano muito bom. O Santos vai se preparar para a Libertadores
e se focar para buscar o terceiro título mundial.
GE.Net: Seleção ainda é uma pretensão na sua
carreira?
Filé: Claro que é, quem vai dizer que não é?
Mas meu primeiro plano é o Santos. Se eu fosse convocado
e o presidente do Santos dissesse que gostaria que eu
não fosse para a seleção, eu não iria. Veja bem: claro
que todo objetivo é chegar à seleção e eu já estive
lá, em um momento polêmico. Em 1990, com o Romário,
eu não era da comissão técnica, mas acabei sendo. O
próprio Luiz Henrique (de Menezes), que hoje é gerente
aqui pode falar sobre isso porque ele era preparador-físico
naquela época, com o Lazaroni. Acabei atendendo vários
atletas dentro do hotel da seleção. Não tinha fisioterapeuta
naquela época. Nas Copas de 1994 e 98, o Lídio (Toledo,
médico) levou o Claudionor. Voltei em 1999, mas em função
de eu estar preso à Inter e ela não ter me liberado
mais, a seleção optou pelo Rosan, que é um profissional
inquestionável. Não vou questionar a competência dentro
do espectro de trabalho dele. Se um dia eu puder participar
junto do trabalho, vou ficar feliz. Se não puder, vou
esperar.
GE.Net: Você tem no currículo trabalhos com
astros do esporte do nível de Ronaldo, Romário e Gustavo
Kuerten. Você acha que sua contratação também teve um
aspecto de marketing por parte do Santos?
Filé: Claro, por que não? Por que o Santos
não faria isso? Ele tem que criar um portfólio para
falar os profissionais que estão trabalhando aqui, quando
for buscar um atleta de renome que não está conseguindo
se recuperar na Europa. Vão perguntar ao Santos quem
é o fisioterapeuta e quem ele recuperou. É obvio que
o marketing do nome fortalece o clube, e eu me fortaleço
com o trabalho no Santos. Meu currículo vai ter o nome
do Santos. Quando eu estava na Europa, por exemplo,
só três clubes eram conhecidos lá: Santos, Botafogo
e Flamengo. Quando eu falei que trabalhei no Flamengo,
eles falavam lá “meu Deus do céu!”. Eu tinha que levar
várias camisas do Flamengo para lá. O nome do Santos
também é muito forte. Um profissional que trabalha no
Santos é olhado de outra maneira lá fora.
GE.Net: Você está trabalhando agora com um
jogador que foi muito elogiado pelo vigor físico apresentado
na Copa do Mundo: o Zé Roberto, que tem 32 anos. Você
acha que ele conseguirá manter esse ritmo?
Filé: O Zé eu conheço há muito tempo. Em 1999,
ele estava naquela Copa América: era um ‘joooveeem’
rapaz. O Zé Roberto é assim porque trabalha. É 99% de
transpiração e 1% de inspiração. Quando ele faz o treino
direito, sabe que vai ter uma resposta. O Zé é concentrado,
emocionalmente estável, altamente disciplinado e totalmente
família. Ele sabe o que quer e treina para manter o
aspecto. Ele é um fenômeno porque tem tudo isso. Ninguém
consegue ser um fenômeno por muito tempo se não tiver
disciplina, determinação, objetivo... E o Zé tem todas
essas qualidades.
GE.Net: Cada vez mais o mundo da bola vê atletas
encerrar a carreira com mais de 40 anos. É um resultado
da evolução física e médica?
Filé: O futebol quebrou alguns paradigmas muito
interessantes. Há umas décadas atrás, ninguém diria
que um atleta chegaria aos 40 anos para terminar a carreira,
mas começou então a ter jogador com 36, 37 anos. Aí
essa questão foi sendo quebrada. O futebol vai quebrar
mais um paradigma daqui a alguns anos. Se essa coisa
da prevenção vier forte e o atleta também pensar nisso,
você vai ver gente terminando a carreira muito bem.
Você vai perguntar por que determinado atleta está parando
se está melhor que o garotão? Mas isso acontece porque
ele já tem um lastro, aquela capacidade genética própria,
e depois desenvolveu uma segunda capacidade no decorrer
da carreira por ter trabalhado. O único lugar onde o
sucesso vem antes do trabalho é no dicionário. |