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13/02/2007
Montagem sobre fotos Gazeta Press

Do correspondente Helder Júnior

Pedrinho pode não possuir o mesmo talento de Zé Roberto, mas é inegável que ele é um jogador diferente dos demais. Ao invés de sonhar com o futebol europeu, como a maioria dos seus companheiros, o meia sempre admirou o mercado japonês. Também não faz o perfil do carioca que foge de São Paulo, onde construiu carreira com passagens por Palmeiras e Santos. É ainda um atleta que planeja se aposentar (no Santos, de preferência) tão logo constate queda de rendimento técnico e físico.
Foto Djalma Vassão/Gazeta Press

Antes com a camisa 18, agora o meia
assume a dez de Pelé: cobrança exagerada

Em tempos em que os santistas procuram outro meia diferenciado para suprir a ausência de Zé Roberto, o herdeiro da camisa dez de Pelé pretende convencê-los de que pode ser esse jogador. Quando fala sobre o uniforme que foi do Rei do Futebol, aliás, é o único momento em que Pedrinho se rende às opiniões unânimes de alguns dos seus colegas. “Realmente, tem um astral diferente. Nos vestiários, você vê as fotos do Pelé, do Pepe, e fica um pouco deslumbrado e feliz por participar de uma grande equipe como o Santos”, exaltou, ciente das conseqüências de jogar em um clube tradicional. “A cobrança é exagerada por isso. As pessoas tiveram um passado muito bonito, com Pelé, Robinho e, mais recentemente, com o Zé Roberto, e acham que quem entrar deve fazer a mesma coisa.”

Pedrinho está irritado com as críticas. Desde que se recuperou do crônico problema de contusões, ele nunca havia sido tão questionado quanto após Zé Roberto deixar o Santos. Provando ser divergente, o meia torce para a contratação de outro jogador de impacto para sua posição. Aponta até o corintiano Roger, com quem jogou futsal na infância, como um bom nome para o Peixe. Mas pretende transferir ao amigo apenas as cobranças, não uma vaga entre os titulares.

Experiência e identificação com o clube não faltarão para Pedrinho se firmar como dono da camisa dez do Santos. O jogador completou 30 anos nesta sexta-feira, cercado de novos amigos feitos no Cepraf e no CT Rei Pelé. O maior deles talvez seja o fisioterapeuta Nilton Petrone, responsável por sua reabilitação e com quem estava momentos antes de conceder esta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net. Também foi Filé quem encerrou o bate-papo. Primeiro, telefonou para Pedrinho, depois o chamou com um berro do lado externo da sala.

Gazeta Esportiva.Net: Recentemente, você fez um desabafo contra as cobranças que recebeu como substituto do Zé Roberto. Qual é sua avaliação sobre seus primeiros jogos como titular?
Pedrinho: O resultado influencia muito na avaliação. Participei bem do jogo contra o São Paulo [2 a 0 para o Tricolor], mas a equipe não teve um bom desempenho. Está todo mundo no mesmo barco. Venho me destacando, isso é até comentado pela imprensa toda. Não é justo dizer que tive uma queda de rendimento. Tenho uma autocrítica bem afiada e sei muito bem o momento em que eu caio de produção ou não. Já ouvi dizerem que eu não tinha jogado nenhuma partida boa no Santos. Pô, fui bem em várias. Um jornalista, por perseguição ou não, cria uma situação, e todo mundo endossa. Eu discordo.

GE.Net: O Luxemburgo comentou que o Santos precisa aprender a jogar de outra maneira sem o Zé Roberto. O que muda com você em campo? E com o Tabata?
Pedrinho: Quando começou a jogar, o Zé já tinha característica de marcação. Por muito tempo, ele foi lateral e volante, enquanto eu sempre atuei na meia. Nunca me deslocaram. De repente, o Zé tinha uma força ofensiva muito grande pela sua técnica, mas também ótima noção de marcação. O que pode mudar é isso. Até recomponho bem no sentido de marcar, mas não tenho essa característica. Em relação ao Tabata, muda porque ele joga com a perna direita. Eu parto para cima, enquanto o Tabata é um jogador de mais toque de bola. A gente pode fazer a mesma função se o time jogar só com um dos meias adiantado. Se forem dois, pode ser ele de um lado, eu do outro.

GE.Net: E os novos reforços para o meio-campo?
Pedrinho: O Adoniran é marcador. Ele tem uma força física muito grande. Já o Vítor Júnior possui mais qualidade técnica, por ser um meia ofensivo. São dois jogadores que vieram para ajudar. Se for opção do Wanderley escalá-los, será uma boa escolha também.

GE.Net: O fato de a diretoria não ter contratado nenhum jogador de impacto para o lugar do Zé Roberto te conforta?
Pedrinho: Era até melhor que contratasse. Pelo menos, diminuiria essa coisa de dizer que não tem ninguém para substituir o Zé. É muito difícil encontrar alguém no nível dele, principalmente no mercado brasileiro. Mas, se trouxessem um cara renomado, de repente quem jogaria seria quem não tinha tanto nome.

GE.Net: Dizem que o Roger, do Corinthians, poderia ser esse jogador. Você aprova?
Pedrinho: Conheço o Roger desde os seis anos de idade. Jogávamos futsal juntos. É um grande atleta. Todo mundo tem uma impressão muito negativa dele, mas pelo que eu conheço é um cara superlegal, gente boa, que tem uma qualidade indiscutível. Se ele estiver disposto a ajudar o Santos, lógico que é bem-vindo. Mas não conversei com ele sobre isso.

GE.Net: Com o Rogério, que está fazendo tratamento no Cepraf e deve ser contratado, você conversou?
Pedrinho: Joguei com ele no Fluminense. A gente conversa, sim. Sei que ele está se sentindo bem melhor fisicamente. Mas falamos mais sobre a estrutura do Santos, a do Fluminense.

GE.Net: Se vier, ele provavelmente assinará um contrato por produtividade, como aconteceu com você. É justo?
Pedrinho: Eu me sinto até mais confortável assim. No Palmeiras, em uma época em que estava machucado, pedi para não receber. Graças a Deus, não passei por problemas desse tipo no Santos. Se tiver algum, não recebo e, aí, pelo menos, não existirão cobranças dizendo que estou machucado e recebendo salário.

GE.Net: Você ainda tem paciência para falar sobre o seu problema de lesões? É sempre o mesmo assunto. Acha que, um dia, todo esse questionamento vai acabar?
Pedrinho: Pelo meu histórico, é normal que as pessoas tenham curiosidade e perguntem. Se eu não tivesse sofrido nenhum problema no começo da carreira, meu nível poderia estar bem próximo do que o Zé apresenta, porque passei por todas as seleções de base do Brasil e fui lembrado na primeira convocação feita pelo Wanderley. Fiquei preso por causa desse passado, por ser diferente, e as pessoas questionam mesmo. Mas já melhorou bastante. Hoje, os comentários são feitos em outro sentido, pois me recuperei.

GE.Net: O que foi fundamental para essa recuperação, a estrutura encontrada no Santos ou o apoio psicológico que recebeu?
Pedrinho: As duas coisas. Minha proximidade com Deus foi maior. Ele me colocou em um clube com uma estrutura excelente e com profissionais muito capacitados, como é o caso do Filé, um cara que descobriu que eu tinha um desvio no quadril, que ocasionava lesões.

GE.Net: O Filé te disse que você ganhou dois anos a mais fisicamente por ficar cerca de dois anos parado, recuperando-se das lesões. Você já planeja a aposentadoria? Em qual time pretende encerrar a carreira? Poderia ser no Vasco [clube que o revelou, onde conquistou dois Campeonatos Brasileiros, um Carioca, uma Copa Libertadores da América, uma Mercosul e um Torneio-Rio-São Paulo]?
Pedrinho: Eu já devia ter parado faz tempo. Às vezes, fico com vontade de parar logo, mas vejo que tenho condições de jogar mais um pouco. Esse ano foi fundamental para mudar de opinião. Mas não gostaria de voltar para o Vasco por voltar. Ah, estou com 35 anos e volto para o Vasco para jogar mal? Gostei muito do Santos, da cidade. Quero fazer um belo Campeonato Brasileiro para, quem sabe, terminar minha carreira aqui. Se isso não acontecer, se chegar no final do ano e não ocorrer a renovação do meu contrato, de repente o Vasco seria uma oportunidade boa.

GE.Net: Como está aquele seu litígio com o Vasco?
Pedrinho: Eu ganho, ganho, ganho. Eles vão recorrendo e eu vou ganhando. O dinheiro, agora, entra em uma conta que eles abriram e tantos por cento são direcionados para pagar essas dívidas que o Vasco tem. Quando chegar no valor estipulado pela Justiça, eu retiro.

GE.Net: Como é para um carioca fazer carreira no futebol paulista? A maioria prefere jogar no Rio de Janeiro?
Pedrinho: Gostei muito de Santos. É mais parecido com o Rio, mas não tem violência como lá. Em São Paulo, também me adaptei bem, mas o trânsito era desgastante. Aqui é mais tranqüilo. Em relação à falta da praia em São Paulo, a gente se acostuma com outras coisas.

GE.Net: As lesões também impediram que sua carreira fosse construída no futebol europeu, o sonho de todo jogador, não é?
Pedrinho: Nunca foi minha vontade. Desde que comecei, meu desejo era jogar no Japão. Sempre gostei muito de lá. Já tinha ido duas vezes antes de assistir à final do Mundial, entre Vasco e Real Madrid [ele não jogou porque estava contundido na ocasião]. Então, meu objetivo sempre foi o Japão. Nunca tive Espanha na cabeça, nada disso. Gosto muito da culinária japonesa. Se pintasse alguma coisa nesse sentido hoje, eu até pensaria.

GE.Net: E a passagem pela Arábia Saudita, quando o Al Ittihad não conseguiu te inscrever no Mundial de Clubes de 2005?
Pedrinho: Podia ser muito boa, mas foi estranha por culpa deles. Eles me contrataram para jogar o Mundial. Fiz todo o treinamento, amistosos, me inscreveram na Fifa, mas esqueceram de me inscrever na Federação Saudita. Foi uma frustração até para eles, que fizeram um investimento grande para aquela competição. Eles têm um pouco de amadorismo nesse ponto.

GE.Net: Você completou 30 anos nesta sexta-feira. Se pudesse escolher, qual seria o presente de aniversário?
Pedrinho: Para hoje? Quero no final do ano: o título brasileiro. Pelo o que o Santos construiu de estrutura, quando há um investimento alto, planejamento, contratação de pessoas competentes e honestas, às vezes você quer um resultado rápido. O título paulista foi expressivo, por ser um bicampeonato, mas o Brasileiro será um presente melhor.

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