
Por Marta Teixeira, enviada especial
Rio de Janeiro (RJ) - Vice-campeã olímpica,
melhor jogadora do mundo pela eleição da Federação Internacional
de Futebol (Fifa) em 2006, a alagoana Marta abriu mão
de férias para vestir a camisa brasileira nos Jogos
Pan-americanos do Rio. Nesta quinta-feira, a seleção
terá a chance de conquistar o inédito bicampeonato,
enfrentando o mesmo oponente da final olímpica, Estados
Unidos. A final será às 12 horas, no estádio do Maracanã.
Em Santo Domingo-2003, as brasileiras venceram o Canadá
na decisão. Placar de 2 a 1.
Jogadora do Umea, na Suécia, onde atua há 4 anos,
Marta só foi liberada às vésperas da competição, não
treinou com o grupo nem conseguiu disputar o jogo de
estréia da equipe, no dia 12. Na base do sacrifício,
ela fez uma adaptação relâmpago ao time e ao clima,
superou as dificuldades e é a artilheira do torneio
com 10 gols.
Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, ela fala
sobre a importância de disputar o torneio no Brasil,
a esperança que os Jogos contribuam para mudar a realidade
da modalidade e a luta constante por espaço e reconhecimento.
Gazeta Esportiva.Net - Você chegou em cima
da estréia no Pan, como foi se adaptar no grupo?
Marta - Adaptação das melhores possíveis. Cheguei
depois de muito tempo longe da seleção por estar sempre
em atividade com a minha equipe na Suécia e pela grande
dificuldade para ser liberada, mas graças a Deus, no
último minuto consegui e estou muito feliz por estar
aqui. Fui super bem recebida pelas meninas, que me deixaram
à vontade. O grupo está unido, bem descontraído e as
coisas estão indo bem.
GE.Net – Como estava o clima quando você saiu
da Suécia?
Marta – Não estava quente como está aqui, mas
já era verão. Se fosse aqui no Brasil, a gente classificaria
como um dia nublado.
GE.Net – Foi complicado encarar os jogos à
tarde, sob sol forte, correndo 90 minutos tendo tão
pouco tempo para se adaptar?
Marta – Procuramos descansar bem entre um intervalo
e outro, porque sabemos que não é fácil jogar no sol,
com a temperatura muito alta. Para mim, que estou na
Suécia há quatro anos, é um pouco mais difícil voltar
e me adaptar assim tão rápido. Mas quando entro em campo,
tento esquecer isso. Acho que é um pouco mais psicológico.
Tento fazer o máximo, mostrar meu 100%. Isso atrapalhou
um pouquinho, mas não foi o suficiente para me derrubar,
não.
GE.Net – Você não teve tempo de descanso,
veio direto da Suécia para o Rio, mas precisa render
o máximo...
Marta – Temos que fazer alguns sacrifícios
na vida e este é um dos que estou fazendo. Abri mão
das minhas férias, que são exatamente no período do
Pan. As meninas da minha equipe estão de férias. Vão
ficar quase três semanas descansando, mas eu preferi
vir para cá, ajudar o Brasil. Jogar um Pan-americano
aqui no Rio era minha chance. Graças a Deus estou aqui
para ajudar e não estou preocupada em atrapalhar minhas
férias.
GE.Net – Vice-campeã olímpica, qual o peso
de um Pan para você?
Marta – O Pan-americano não deixa de ser uma
competição de alto nível. Para nós que temos tantas
dificuldades em manter uma equipe feminina por não existir
Liga, pela dificuldade de jogar futebol no Brasil, é
uma chance para abrir caminhos para todas as meninas
que pensam em ser atleta profissional, que pensam em
sair para jogar em um grande clube. O Pan é mais uma
chance para que a gente possa batalhar por isso e está
sendo em boa hora. O futebol feminino nunca foi tão
comentado no Brasil como está sendo agora e temos que
agarrar com unhas e dentes e não deixar passar esta
oportunidade.
GE.Net – O vice-campeonato olímpico não foi
capaz de mudar muito a realidade aqui. Você acha que
o Pan pode fazer isso por ser em casa?
Marta – Pode ajudar um pouco, pode ser um primeiro
passo na caminhada que a gente tem. Não é fácil, porque
o Brasil é o país do futebol mas, entre aspas, do masculino.
O feminino não tem muito espaço e é isso que estamos
está buscando. Estamos tentando conquistar títulos,
abrir nosso espaço e, aí então, reivindicar para ver
se muda alguma coisa.
GE.Net – Seria possível fazer um paralelo
da realidade do futebol feminino nas Américas com o
Europeu na mesma proporção que existe no masculino?
Marta – É uma coisa meio complicada. Ainda
não chegou a este nível. A gente batalha para que pelo
menos chegue a 20% em relação ao masculino, em relação
à Europa no geral. Mas como nós, brasileiras, temos
este ditado: ‘a esperança é a última que morre’, a minha
ainda está acesa.
GE.Net – Pensa em voltar a jogar no Brasil
um dia?
Marta – É um sonho que eu tenho. Estou na Suécia,
que é um país que me adora, que me recebeu de braços
abertos, mas é aquela coisa: tenho o sonho de jogar
aqui no Brasil em uma liga profissional. Se existisse
uma Liga, uma estrutura como há lá fora, voltaria correndo.
GE.Net – A falta desta Liga é o grande problema
do futebol feminino no país?
Marta – A estrutura, o apoio dos clubes - porque
se os clubes não têm o interesse, fica difícil -, juntamente
com Governo e empresas privadas. Temos apoio somente
da CBF, que já mantém a seleção e caso contrário não
teria nada, nem se falaria em futebol feminino. Se todo
mundo se unisse e pensasse qual a melhor opção, de repente
aconteceria alguma coisa para mudar isso.
GE.Net – Ainda existe muito machismo para
lidar com este tema?
Marta – Tem um pouquinho de machismo, mas também
é falta de confiança na gente. E é isto que a gente
vem buscando, mostrando a nossa capacidade, o nosso
potencial para mudar, futuramente, o pensamento destas
pessoas que têm como fazer alguma coisa por nós.
GE.Net – É triste ver o Brasil, o país do
futebol, com as mulheres passando por isso?
Marta – É um pouco chato, não é? Porque lá
fora, quando saímos, mesmo sendo futebol feminino, somos
bem recebidas. Não estou dizendo que aqui não somos,
mas pelo pouco apoio que temos, pela pouca estrutura,
já fazemos muito. Falta um pouco de: alô, se toca, vamos
lá ajudar este pessoal.
GE.Net – Como tem sido o Pan para você?
Marta – Até agora está uma competição muito
emocionante. Nunca vi estádio de futebol feminino com
tanta gente como na estréia e isto me emocionou bastante.
A gente espera que vá cada vez mais público e nosso
objetivo final é terminar com este ouro.
GE.Net – Sua família veio te assistir?
Marta – Não, minha mãe está um pouco doente,
não está muito bem de saúde, e eu não tive tempo de
passar em casa para pegar ela, que não viaja de avião
sozinha. A primeira vez que viajou foi comigo...
GE.Net – Depois da decisão você passa lá para
uma visita?
Marta – Infelizmente não vou ter como, só no
final do ano, porque tenho que voltar correndo para
a Suécia.
GE.Net – Qual a diferença do clima olímpico
para o pan-americano?
Marta – É mais ou menos a mesma coisa. Aqui
é só América do Sul e do Norte, Olimpíadas é o mundo
todo. É mais gente, mais badalação, mais agitação, mas
não deixa de ser uma simulação das Olimpíadas. |