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24/07/2007
Montagem sobre foto Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Por Marta Teixeira, enviada especial

Rio de Janeiro (RJ) - Vice-campeã olímpica, melhor jogadora do mundo pela eleição da Federação Internacional de Futebol (Fifa) em 2006, a alagoana Marta abriu mão de férias para vestir a camisa brasileira nos Jogos Pan-americanos do Rio. Nesta quinta-feira, a seleção terá a chance de conquistar o inédito bicampeonato, enfrentando o mesmo oponente da final olímpica, Estados Unidos. A final será às 12 horas, no estádio do Maracanã. Em Santo Domingo-2003, as brasileiras venceram o Canadá na decisão. Placar de 2 a 1.

Jogadora do Umea, na Suécia, onde atua há 4 anos, Marta só foi liberada às vésperas da competição, não treinou com o grupo nem conseguiu disputar o jogo de estréia da equipe, no dia 12. Na base do sacrifício, ela fez uma adaptação relâmpago ao time e ao clima, superou as dificuldades e é a artilheira do torneio com 10 gols.

Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, ela fala sobre a importância de disputar o torneio no Brasil, a esperança que os Jogos contribuam para mudar a realidade da modalidade e a luta constante por espaço e reconhecimento.

Gazeta Esportiva.Net - Você chegou em cima da estréia no Pan, como foi se adaptar no grupo?
Marta -
Adaptação das melhores possíveis. Cheguei depois de muito tempo longe da seleção por estar sempre em atividade com a minha equipe na Suécia e pela grande dificuldade para ser liberada, mas graças a Deus, no último minuto consegui e estou muito feliz por estar aqui. Fui super bem recebida pelas meninas, que me deixaram à vontade. O grupo está unido, bem descontraído e as coisas estão indo bem.

GE.Net – Como estava o clima quando você saiu da Suécia?
Marta –
Não estava quente como está aqui, mas já era verão. Se fosse aqui no Brasil, a gente classificaria como um dia nublado.

GE.Net – Foi complicado encarar os jogos à tarde, sob sol forte, correndo 90 minutos tendo tão pouco tempo para se adaptar?
Marta –
Procuramos descansar bem entre um intervalo e outro, porque sabemos que não é fácil jogar no sol, com a temperatura muito alta. Para mim, que estou na Suécia há quatro anos, é um pouco mais difícil voltar e me adaptar assim tão rápido. Mas quando entro em campo, tento esquecer isso. Acho que é um pouco mais psicológico. Tento fazer o máximo, mostrar meu 100%. Isso atrapalhou um pouquinho, mas não foi o suficiente para me derrubar, não.

GE.Net – Você não teve tempo de descanso, veio direto da Suécia para o Rio, mas precisa render o máximo...
Marta –
Temos que fazer alguns sacrifícios na vida e este é um dos que estou fazendo. Abri mão das minhas férias, que são exatamente no período do Pan. As meninas da minha equipe estão de férias. Vão ficar quase três semanas descansando, mas eu preferi vir para cá, ajudar o Brasil. Jogar um Pan-americano aqui no Rio era minha chance. Graças a Deus estou aqui para ajudar e não estou preocupada em atrapalhar minhas férias.

GE.Net – Vice-campeã olímpica, qual o peso de um Pan para você?
Marta –
O Pan-americano não deixa de ser uma competição de alto nível. Para nós que temos tantas dificuldades em manter uma equipe feminina por não existir Liga, pela dificuldade de jogar futebol no Brasil, é uma chance para abrir caminhos para todas as meninas que pensam em ser atleta profissional, que pensam em sair para jogar em um grande clube. O Pan é mais uma chance para que a gente possa batalhar por isso e está sendo em boa hora. O futebol feminino nunca foi tão comentado no Brasil como está sendo agora e temos que agarrar com unhas e dentes e não deixar passar esta oportunidade.

GE.Net – O vice-campeonato olímpico não foi capaz de mudar muito a realidade aqui. Você acha que o Pan pode fazer isso por ser em casa?
Marta –
Pode ajudar um pouco, pode ser um primeiro passo na caminhada que a gente tem. Não é fácil, porque o Brasil é o país do futebol mas, entre aspas, do masculino. O feminino não tem muito espaço e é isso que estamos está buscando. Estamos tentando conquistar títulos, abrir nosso espaço e, aí então, reivindicar para ver se muda alguma coisa.

GE.Net – Seria possível fazer um paralelo da realidade do futebol feminino nas Américas com o Europeu na mesma proporção que existe no masculino?
Marta –
É uma coisa meio complicada. Ainda não chegou a este nível. A gente batalha para que pelo menos chegue a 20% em relação ao masculino, em relação à Europa no geral. Mas como nós, brasileiras, temos este ditado: ‘a esperança é a última que morre’, a minha ainda está acesa.

GE.Net – Pensa em voltar a jogar no Brasil um dia?
Marta –
É um sonho que eu tenho. Estou na Suécia, que é um país que me adora, que me recebeu de braços abertos, mas é aquela coisa: tenho o sonho de jogar aqui no Brasil em uma liga profissional. Se existisse uma Liga, uma estrutura como há lá fora, voltaria correndo.

GE.Net – A falta desta Liga é o grande problema do futebol feminino no país?
Marta –
A estrutura, o apoio dos clubes - porque se os clubes não têm o interesse, fica difícil -, juntamente com Governo e empresas privadas. Temos apoio somente da CBF, que já mantém a seleção e caso contrário não teria nada, nem se falaria em futebol feminino. Se todo mundo se unisse e pensasse qual a melhor opção, de repente aconteceria alguma coisa para mudar isso.

GE.Net – Ainda existe muito machismo para lidar com este tema?
Marta –
Tem um pouquinho de machismo, mas também é falta de confiança na gente. E é isto que a gente vem buscando, mostrando a nossa capacidade, o nosso potencial para mudar, futuramente, o pensamento destas pessoas que têm como fazer alguma coisa por nós.

GE.Net – É triste ver o Brasil, o país do futebol, com as mulheres passando por isso?
Marta –
É um pouco chato, não é? Porque lá fora, quando saímos, mesmo sendo futebol feminino, somos bem recebidas. Não estou dizendo que aqui não somos, mas pelo pouco apoio que temos, pela pouca estrutura, já fazemos muito. Falta um pouco de: alô, se toca, vamos lá ajudar este pessoal.

GE.Net – Como tem sido o Pan para você?
Marta –
Até agora está uma competição muito emocionante. Nunca vi estádio de futebol feminino com tanta gente como na estréia e isto me emocionou bastante. A gente espera que vá cada vez mais público e nosso objetivo final é terminar com este ouro.

GE.Net – Sua família veio te assistir?
Marta –
Não, minha mãe está um pouco doente, não está muito bem de saúde, e eu não tive tempo de passar em casa para pegar ela, que não viaja de avião sozinha. A primeira vez que viajou foi comigo...

GE.Net – Depois da decisão você passa lá para uma visita?
Marta –
Infelizmente não vou ter como, só no final do ano, porque tenho que voltar correndo para a Suécia.

GE.Net – Qual a diferença do clima olímpico para o pan-americano?
Marta –
É mais ou menos a mesma coisa. Aqui é só América do Sul e do Norte, Olimpíadas é o mundo todo. É mais gente, mais badalação, mais agitação, mas não deixa de ser uma simulação das Olimpíadas.

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