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01/10/2007
Montagem sobre fotos Gazeta Press
Do correspondente Helder Júnior, em Santos (SP)

Fotos Djalma Vassão / Gazeta Press
Antônio Carlos encerrará a carreira ainda este ano, caso o Santos não ganhe vaga para a Libertadores
Antônio Carlos encerrará a carreira ainda este ano, caso o Santos não ganhe vaga para a Libertadores
As confusões em que se envolveu durante a carreira mudaram o zagueiro Antônio Carlos. Aos 38 anos, calvo, com o rosto enrugado e a barba branca por fazer, ele finalmente se convenceu de que é melhor ser cuidadoso com as palavras para fugir de polêmicas. Mas, como prova nesta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, não conseguiu. Ainda é um jogador à moda antiga, sem medo de falar o que pensa.

Ele não se incomoda, por exemplo, em condenar veementemente o meia Kerlon ao comentar o lance em que o lateral-direito Coelho, do Atlético-MG, parou com falta o “drible da foca” do cruzeirense. “O que o Kerlon faz não leva a nada”, repreende. E engana-se quem pensa que a declaração é característica da truculência sempre atribuída a Antônio Carlos. O zagueiro, que já foi até atacante, considera-se um dos três mais técnicos da sua posição nos últimos vinte anos. “Falo isso com a boca cheia.”

Verdade ou não, o currículo de Antônio Carlos é impressionante. O atleta é o único a ganhar títulos estaduais por todos os quatro grandes clubes de São Paulo. Além de seis Campeonatos Paulistas, venceu quatro Brasileiros, uma Copa Libertadores da América e um Mundial. Também não passou em branco na Itália e na Turquia, com conquistas nacionais por Roma, em 2001, e Besiktas, 2003. Sua única frustração é não ter participado de uma Copa do Mundo.

Por esta razão, Antônio Carlos guarda ressentimento de Mário Jorge Lobo Zagallo e Luiz Felipe Scolari, que não o convocaram para os Mundiais de 1998 e 2002. “Nunca me ligaram para explicar. Diziam à imprensa que não havia chegado a minha hora, que a base do time estava formada, mas que a oportunidade chegaria. Fiquei esperando e ela nunca veio. Fico triste quando falo de seleção brasileira, mas vou fazer o quê? Tinha que ser assim”, lamenta.

O zagueiro, que chegou a integrar as listas de Felipão, não aceitou participar da Copa América de 2001, na Colômbia, e nunca mais foi lembrado pelo treinador. Ele revela o que motivou a decisão seis anos depois: seu pai estava com câncer. “Se ele não me convocou por isso aí, é porque... Nem vou falar o nome que eu pensei”, luta para ser político Antônio Carlos.

Bem diferente é a relação do jogador com Wanderley Luxemburgo, a quem chama de “procurador”. O técnico defendeu que o Santos contratasse Antônio Carlos no início do ano, mesmo com o zagueiro marcado pela idade avançada e pelo controverso episódio de racismo com o ex-gremista Jeovânio. Hoje, Luxemburgo não se cansa de dizer que sua comissão técnica está aberta a Antônio Carlos, recuperado de uma cirurgia no joelho esquerdo, mas com aposentaria marcada para, no máximo, seis meses. “Espero, agora, ficar conhecido como o treinador Antônio Carlos Zago.”

Gazeta Esportiva.Net: Como foi seu início de carreira até chegar aos profissionais do São Paulo, em 1990?
Antônio Carlos:
Não tive uma decisão de ser jogador de futebol. Desde moleque, acompanhava os meus tios na várzea em Presidente Prudente. Aonde eles iam, eu estava atrás. Meu pai não era muito de jogar bola. Ele teve um problema quando era novinho e parou com o futebol. Depois, nós nos mudamos para Dourados, Mato Grosso do Sul. Eu trabalhava em um depósito de verduras naquela época. Desde 13 anos, ajudava em casa e alimentava esse sonho de ser atleta de futebol. E aí foi: jogando na várzea um dia, um cara do Ubiratan, time da primeira divisão do estado, gostou de mim e me chamou para fazer um teste no juvenil. Com três, quatro meses de clube, já fui para os juniores. E, com 17 anos, estava entre os profissionais. Meu primeiro sonho estava concretizado.

GE.Net: Já era zagueiro naquele tempo?
AC:
Não. Jogava de meia, de volante e até de atacante.

GE.Net: Como foi a transição para a defesa?
AC:
O Gimenez [Antônio Maria Pupo Gimenez, técnico do São Paulo em 1989 e 1990] era muito amigo do treinador do time de Dourados e me trouxe para o São Paulo. Vim como um meia, na época do Cilinho. Mas houve um acidente com dois jogadores do São Paulo: o Mazinho, que ficou até paralítico, e o Anílton, que voltou a jogar futebol depois. Nessa época, a equipe de aspirantes jogava com um líbero, que era o Mazinho. Fui deslocado para fazer essa função por uma, duas partidas, e fui ficando. O Telê veio para o São Paulo no início de 1990 e me efetivou como titular da posição.

GE.Net: Nunca quis voltar para frente?
AC:
Acabou dando certo, não é? Não adianta trocar o certo pelo duvidoso. Já havia começado a jogar como zagueiro na equipe de profissionais do São Paulo com aquele que era o melhor treinador do futebol brasileiro na época, o Telê. Então, não tinha motivo para jogar em outras posições. Até cheguei a ser volante no São Paulo, no Palmeiras e no próprio Corinthians. Quando faltava alguém, os treinadores me improvisavam. Mas a minha posição mesmo é a de zagueiro. Foi assim que conquistei tudo na minha carreira.

Fotos Acervo Gazeta Press
Com Telê Santana no São Paulo: efetivado na zaga
Com Telê Santana no São Paulo: efetivado na zaga
 
Chapéu animal: Antônio Carlos foi ao Albacete apenas para voltar ao vitorioso Palmeiras/Parmalat. Tricolor "entraria nessa de novo com o Cafu".
Chapéu animal: Antônio Carlos foi ao Albacete apenas para voltar ao vitorioso Palmeiras/Parmalat. Tricolor "entraria nessa de novo com o Cafu".

GE.Net: Depois de dois anos vitoriosos no São Paulo, você se transferiu para o Albacete, da Espanha.
AC:
Foi a minha primeira experiência no futebol europeu. Mas já sabia que voltaria ao Brasil, para o Palmeiras. Era uma ponte que a Parmalat fez porque o São Paulo não me vendia para um rival. Então, deram dinheiro para um clube da Espanha e acabei indo para lá, ficando seis meses e voltando para o Palmeiras.

GE.Net: O São Paulo não desconfiava disso?
AC:
Não. Ninguém sabia. Só o Palmeiras e eu. Depois, o São Paulo entrou nessa de novo com o Cafu. Aconteceu a mesma coisa. Ele foi para o Zaragoza, voltou para o Juventude e, depois, para o Palmeiras. No meu caso, gostei por ser a primeira experiência na Europa, que é o sonho de todo jogador. Hoje, está bem mais fácil de realizá-lo. Foi bom para mim, para minha esposa e para minha filha mais velha. Mas o importante mesmo é o resto da história, no Palmeiras e na Roma.

GE.Net: Como foi chegar ao Palmeiras com um passado ligado ao São Paulo? Já sofreu por esse motivo em algum dos grandes paulistas que defendeu?
AC:
No começo, você sofre um pouco. Principalmente naquela época, porque era uma coisa inédita: ir para a Europa já sabendo que voltaria ao Brasil. Então, fiquei um pouco afastado do São Paulo no início, mas, depois, tudo voltou ao normal. A própria torcida, quando me encontrava na rua, já brincava: “Pô, você tinha que voltar para o São Paulo, não para o Palmeiras”. Sempre fui muito respeitado. Graças a Deus, nunca tive problemas mais sérios.

GE.Net: Dos quatro times paulistas que defendeu, quais são aqueles que te marcarão mais e menos quando encerrar a carreira?
AC:
No Corinthians, não tive uma boa passagem porque a equipe, naquela oportunidade, atravessava um momento como o de agora, com briga de diretoria. O Banco Excel saiu e deixou os jogadores na mão. Fomos campeões paulistas e, depois, no Brasileiro, o time ficou abandonado e quase caiu para a Segunda Divisão. Mas é difícil escolher entre Santos, Palmeiras e São Paulo. No Santos, minhas duas passagens foram marcadas por contusões. Até brinco com os diretores, dizendo: ‘Meu pai era santista e isso é praga dele. Só pode. O filho da mãe morreu e estou pagando o pato hoje pelas contusões” [risos]. Mas tive uma ótima primeira passagem aqui, senão não teria voltado agora. O clube que me marca mais mesmo é a Roma, porque foram cinco anos e meio na Itália, onde consegui o terceiro título da história do time. São conquistas inéditas, depois de 18 anos de jejum.

GE.Net: Você concorda que é muito menos reconhecido no Brasil do que na Itália?
AC:
Não sei se isso é porque joguei os dois últimos anos no Juventude, ou por causa daquele problema de racismo com o Jeovânio [em 5 de março de 2006, Antônio Carlos desferiu uma cotovelada no então volante do Grêmio, foi expulso e deixou o gramado do estádio Alfredo Jaconi esfregando os braços, em referência à cor de pele do adversário]. As pessoas me criticam muito em cima daquilo. Nunca fui um jogador violento. Nunca. Se você pegar os zagueiros dos últimos vinte anos, estou entre os três, quatro melhores tecnicamente. Falo isso de boca cheia, com 38 anos de idade. A minha idade também contribui para as críticas. No Brasil, você passa dos 35 anos e todo mundo pensa que está acabado para o futebol. Não é assim. É possível se superar. Sempre me cuidei fora de campo, e isso ajuda para eu jogar até 38, 39 anos. Mas, ainda assim, as pessoas me criticam. Isso não acontece na Itália. Sempre que for para lá, serei respeitado e reconhecido. Há dois, três meses, a Roma completou 80 anos e me mandaram passagem, com hospedagem em hotel cinco estrelas. Levei família, fiquei uma semana, e eles pagaram tudo. Isso pela história que construí no futebol europeu.

GE.Net: O episódio com o Jeovânio ainda te incomoda? O que aprendeu com aquilo?
AC:
Marcou negativamente a minha carreira. As pessoas pegam aquele episódio para criticar o que eu faço dentro de campo. Fui muito criticado por isso quando cheguei ao Santos. Cometi um erro e já paguei por ele. Faz parte do passado. Nem gosto mais de falar sobre isso. Serve de exemplo para que não aconteça com outras pessoas.

GE.Net: Você ficou quatro meses suspenso em razão daquela ofensa. Não acha que os tribunais do futebol estão muito austeros atualmente?
AC:
Os caras estão querendo mudar muito o futebol. Futebol não é assim. Futebol é contato físico dentro de campo. Verbalmente, você agride o adversário, xinga. Sempre acontece uma discussão aqui e outra ali. Agora, pretendem que o futebol se torne uma coisa menos jogada e mais lenta. Não sei ao certo o que estão tentando fazer. Essas últimas penalizações de alguns jogadores foram duras demais. O caso do Coelho, por exemplo. Ele fez uma falta no Kerlon, que pode até ter sido premeditada. Talvez ele tenha ido para dar uma botinada mesmo. É muito legal essa história de drible da foca, mas aquilo ali não leva a lugar nenhum. Futebol foi feito para se jogar com os pés, não com a cabeça. Se for assim, um malabarista de circo vai colocar a bola na testa, sair correndo pelo campo e se tornar o craque do time. Estão falando que o Kerlon é um ótimo jogador, que faz algo diferente. Para mim, não é nada que faça parte do futebol, que vá melhorá-lo. Isso aí não leva a nada.

GE.Net: O que você faria no lugar do Coelho?
AC:
Não sei. Pode ser que eu não faria o que o Coelho fez, mas uma trombada nele, com certeza, eu daria. Depende muito do que está acontecendo no jogo. Se o Cruzeiro estivesse perdendo, duvido que o Kerlon colocaria a bola na cabeça daquele jeito.

Fotos Acervo Gazeta Press
Depois de vestir a camisa e pintar o cabelo, Zago marcou sua carreira na Roma, clube que pediu aval do ídolo antes de contratar Cicinho
Depois de vestir a camisa e pintar o cabelo, Zago marcou sua carreira na Roma, clube que pediu aval do ídolo antes de contratar Cicinho

GE.Net: Na Itália, você também enfrentou os tribunais quando brigou com o Simeone, em um clássico contra a Lazio.
AC:
Ele já tinha me cuspido e a televisão não pegou. Mas, quando eu estava batendo boca com ele depois, viram que devolvi a cuspida. Fui levado a julgamento e peguei quatro jogos de suspensão. São coisas que acontecem. Às vezes, paguei por determinados lances, como nessa cuspida e naquela briga com o Jeovânio. Mas sempre fui uma pessoa que fala tudo na cara. No futebol, você paga por isso. É preciso ser político. E estou aprendendo a ser.

GE.Net: Seu comportamento mudou?
AC:
Dentro de campo, não. Mas sou mais tranqüilo no que falo. O futebol ficou desse jeito e não vai mudar nunca. Então, você precisa se adequar a ele. Já tive discussões e falei mal de algumas pessoas que não deveria. Eu me controlo hoje. Aprendi que tudo tem hora e lugar. O futebol, às vezes, não é em frente às câmeras. Infelizmente.

GE.Net: Após a briga com o Simeone, você se envolveu em uma confusão com os torcedores da Lazio.
AC:
Eles levaram para fora de campo. E os torcedores da Lazio são racistas mesmo, não apenas em termos de pele, mas até de país. Eu estava em uma primeira comunhão de uma amiga da minha filha. Ia embora tranqüilo, com ela e minha esposa, quando apareceram quatro, cinco torcedores da Lazio me xingando. Depois de muito não sei o quê, um deles falou: “Se você não tomar cuidado, vou bater na sua mulher e na sua filha”. Fiquei quieto até ali. Nunca fui de briga, mas você agüenta até certo ponto. Quando entrava no carro, resolvi sair. Um torcedor veio até mim. Eu estava com a porta na mão e “tum”, dei uma portada nele. Subiu um cara em cima do teto do meu carro e me deu um chutão bem aqui [aponta para a cintura], cara. Já pensei comigo: “Agora, estou fudido”. A sorte foi que uma pessoa começou a gritar pela polícia e os torcedores saíram correndo.

GE.Net: Pensou em deixar a Roma depois disso?
AC:
A imprensa colocou assim, mas nunca falei isso. Até porque eu precisava demonstrar para o torcedor da Roma que estava afim de conquistar o título. Era o ano do scudetto. Ainda fiquei lá por mais uma, duas temporadas. São coisas que acontecem fora de campo. Não fazem parte do futebol.

GE.Net: A Itália julgou um escândalo de manipulação de resultados no futebol no ano passado. Você chegou a presenciar alguma coisa semelhante enquanto esteve na Roma?
AC: Lógico que, em alguns jogos, principalmente nas duas últimas rodadas, quando uma equipe já estava classificada, ela tirava um pouco o pé do acelerador. Até porque é final de temporada, começa o calor e os elencos já não são os mesmos de antes. Isso acontece sempre. Presenciei o quê? Só isso. Uma coisa limpa, descarada, nunca.

GE.Net: Como foram suas passagens por Japão e Turquia?
AC: Duas experiências diferentes. No Japão, éramos 36 brasileiros no time. Na minha carreira, só não conquistei títulos pelo Kashiwa Reysol. Mas foi uma boa passagem, financeiramente. Quando fui para lá, era a época do boom do Japão. Depois, morei em uma cidade maravilhosa na Turquia, que é Istambul. Falo para todos que, quando tiverem férias, devem passar pelo menos uma semana lá. Vários jogadores já me consultaram antes de ir para a Turquia. Eu sempre falei muito bem do país para todos, porque o campeonato é ótimo, com estádios cheios, torcidas fanáticas por futebol. Conversei com o Deivid [ex-atacante de Santos e Corinthians, que está no Fenerbahce] no final do ano, e ele me disse que está muito contente também. Sempre que vou à Itália, passo pela Turquia. Lá, sou muito respeitado e fiz o meu nome.

GE.Net: O que mudou em você depois dessas experiências no Japão e na Europa?
AC: A idade [risos]. Mas você aprende muita coisa lá fora, sim. Ouço as pessoas falarem que o Brasil é o país do futebol. Pode até ser, revelando jogadores. Mas não é em termos de organização, torcida e jogo. O jogo aqui é bem mais lento do que na Europa. Nesses dias, até comentei sobre isso com alguém na fisioterapia. Estávamos vendo uma partida do Brasil na televisão e uma da Europa na outra. Parecia que o Campeonato Brasileiro estava em câmera lenta.

GE.Net: É mais fácil, então, jogar no Brasil? Acredita que conseguiria prolongar sua carreira até 38 anos na Europa?
AC: Bem mais fácil. Até porque o brasileiro, quando vai para a Europa, precisa melhorar taticamente. Os treinadores cobram muito isso lá. Você deve ser mais inteligente dentro de campo. Mas eu também poderia prolongar minha carreira na Europa. O Maldini está jogando com 40 anos. O Costacurta jogou até pouco tempo. O Cafu tem 38 e também não parou.

Fotos Acervo Gazeta Press
Apesar de ter trabalhado em um depósito verduras, Antônio Carlos ganhou fama de 'carniceiro'
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Em Batistuta era preciso chegar duro, mas com a bola nos pés ele fala de boca cheia: "Estou entre os três mais técnicos dos últimos 20 anos"
Em Batistuta era preciso chegar duro, mas com a bola nos pés ele fala de boca cheia: "Estou entre os três mais técnicos dos últimos 20 anos"
GE.Net: Hoje, às vésperas de encerrar a carreira, você ainda sente frustração por sua história na seleção brasileira?
AC: Sinto, sim. Tenho 70 e poucas convocações para a seleção brasileira, mas não disputei uma Copa do Mundo. Guardo... Não guardo mágoa, mas fico triste por isso. Para a Copa de 1994, eu estava praticamente convocado. O que me tirou foi um murro do Válber em um jogo contra o São Paulo. Uma semana antes, o Américo Faria [supervisor da seleção brasileira] havia me ligado, falando que eu seria convocado. Depois, chamaram o Ronaldão e até o Aldair. De 1994 a 1998, não fui convocado pelo Zagallo não sei por quê. Nunca tive nenhum problema com ele, que não me deu uma oportunidade sequer. Não tenho mágoa nenhuma, mas também não gosto muito dele. Foram quatro anos em que mantive uma regularidade boa, no Palmeiras e até no Japão. E ele convocava o Ronaldão, que também estava no Japão, e não me chamava. Estava bem lá. Fui para a Roma, jogando com o Aldair e com o Cafu, que estavam na seleção brasileira, e eu não tinha chances.

GE.Net: Como se sentia, com seus companheiros de clube indo para a seleção e você não?
AC: Ah, muito mal. Não é porque eram amigos, mas eles falavam assim: “Pô, não sei como você não é convocado e fulano é. Não dá para entender”. Está entendendo como era? Eles diziam isso sempre que voltavam de todas as convocações. Quando o André Cruz se machucou, o Aldair ligou para mim e falou: “Olha, acho que eles vão cortar o André e convocar você”. Já pensei: “Puta que o pariu, agora vai”. E também não foi. O André ficou no grupo, mesmo machucado. Depois disso, fui convocado pelo Wanderley [Luxemburgo] para praticamente todos os jogos. Era o capitão do time, inclusive. Aí, aconteceu aquele problema com ele [o técnico foi investigado no escândalo da CPI do Futebol e a CBF o demitiu], que saiu da direção. Tive uma chance com o Luiz Felipe Scolari e... Não falo que ele se comportou mal, mas também não sei o que aconteceu. Depois de um jogo contra o Uruguai, ele falou que todos que estavam lá seriam convocados novamente. E só chamou quatro, cinco. Os outros ficaram fora.

GE.Net: Na época, noticiaram que ele não te chamou para a Copa do Mundo de 2002 por você se recusar a jogar a Copa América.
AC:
Ele chamou os jogadores em um quarto da concentração e perguntou: “Quem quer participar da Copa América?”. Todo mundo falou o que achava. Quando chegou a minha vez, eu disse: “Olha, não quero jogar porque meu pai está com câncer e eu gostaria de ficar mais perto dele nesse momento”. Tanto é que ele veio a falecer três meses depois. Então, se ele não me convocou por isso aí, é porque... Nem vou falar o nome que eu pensei.

GE.Net: Como foi se dedicar profissionalmente com seu pai doente?
AC:
Praticamente esqueci o lado profissional. Olhei mais o lado do meu pai. Sou filho único. Tive algumas forças para tentar jogar porque ele ficava me enchendo o saco: “Pô, tem que jogar, não sei o quê”. Meu pai sempre foi assim, parceiro. Ele ia para todo lugar comigo. Era meu irmão, com quem eu discutia. Minha relação com ele era mais de amigo, sabe? De passar a mão na bunda, fazer de tudo. Depois que ele faleceu, fiquei quase seis meses sem jogar.

GE.Net:Pesou o fato de seu pai ser santista para você acertar com o Santos?
AC: Lembrei bastante dele quando cheguei aqui. Era um clube que ele sempre encheu o saco para eu jogar. Mas, nos últimos anos, ele também nem era mais santista. Já tinha torcido para São Paulo, Palmeiras, Corinthians; para todo mundo [risos]. Claro que fiquei muito contente por vir para o Santos por ser um sonho do meu pai. Também tinha um treinador que eu gostava muito no time, o Wanderley. Mas, em 2004, sofri duas lesões, coisa que nunca tinha acontecido comigo. Agora, tudo começou bem, campeão e tal, e contusão de novo. Vamos ver o que acontece. O importante é que eu criei um vínculo com o clube muito bom. É isso que fica.

GE.Net: E nos outros clubes, como era sua relação com os treinadores? Já viu time derrubar técnico?
AC: Sempre ganhei onde trabalhei. Até no Corinthians. O Nelsinho foi campeão e saiu porque venderam o André Luiz para fora. Depois, veio o Joel Santana. Mas o time não estava bem. Nem o Rinus Michels [técnico holandês, eleito recentemente pelo The Times como o melhor da história] daria jeito. Nos outros clubes, também sempre trabalhei com poucos treinadores. Então, nunca tive esse problema de relacionamento.

GE.Net: O que você aproveitou de cada um desses treinadores para o seu projeto de ser técnico?
AC:
Aprendi mais com o Telê, o Capello e o Wanderley, que são diferenciados. Vou me espelhar neles. Mas uma coisa é aprender como jogador. Já me perguntaram se eu queria virar auxiliar do Wanderley, e eu respondi que, hoje, ele já tem dois ótimos auxiliares [Serginho Chulapa e Nei Pandolfo]. Mas, um dia, lógico que eu gostaria de trabalhar com ele. É uma experiência diferente estar na comissão técnica, mesmo tendo uma bagagem anterior como jogador.

Fotos Acervo Gazeta Press
Mesmo em sua pior passagem em times paulistas, o zagueiro teve motivos para sorrir ao lado de Rincón no Corinthians
Mesmo em sua pior passagem em times paulistas, o zagueiro teve motivos para sorrir ao lado de Rincón no Corinthians

GE.Net: Você sente que o início da carreira como técnico está muito próximo?
AC:
Sei lá. Vamos ver o que vai acontecer com o Santos primeiro. O objetivo é conseguir uma classificação para a Libertadores. Depois, vou me recuperar da contusão dia a dia.

GE.Net: Alguém da diretoria do Santos já falou com você sobre a possibilidade de renovação de contrato para o ano que vem?
AC:
Tem que falar com o meu procurador, que é o Wanderley [risos]. Ele que acaba acertando os meus contratos aqui. Estou brincando. Comigo não tem esse problema. Quando fechei contrato no início do ano, disse que queria ganhar tanto porque achava que estava dentro disso e daquilo. Responderam que o Santos podia pagar tanto. Então, beleza, acertamos em uma hora mais ou menos, ao telefone. Não tenho nenhuma preocupação com isso.

GE.Net: Mas não há uma expectativa por ser talvez seu último ano como jogador?
AC:
Para renovar o contrato, o Santos precisa se classificar para a Libertadores. Não adianta renovar o meu contrato para jogar o Campeonato Paulista.

GE.Net: Então, você está decidido a parar até o meio do ano que vem?
AC: Estou apenas alongando os seis meses que fiquei parado por causa da contusão. Graças a Deus, a minha recuperação está sendo boa.

GE.Net: Os clubes europeus tem a tradição de transformar seus principais jogadores em dirigentes ou olheiros, como aconteceu com o Leonardo no Milan. Você não pensa nisso com a Roma?
AC:
Já fui consultado pela Roma várias vezes sobre jogadores brasileiros. Até no caso do Cicinho, que foi para lá agora, conversaram comigo antes. Tenho ótimo relacionamento e estou sempre em contato com os dirigentes do clube. Mas o meu sonho, agora, é ser treinador. Não sei se outra atividade me dará o mesmo ânimo.

GE.Net: E o seu filho [Giancarlo, de 7 anos, presença constante nos treinamentos do Santos], será jogador?
AC:
O sonho de qualquer pai é esse. O meu ficava orgulhoso sempre que eu entrava em campo pelos clubes por que passei. Para mim, será um orgulho maior ainda. Não forço nada, mas seria legal. É preciso ter paciência. Há moleques que, nos juniores e no juvenil, jogam para caramba, mas não fazem nada no profissional. O importante é deixar o menino crescer. Vontade de jogar, ele tem. Está sempre comigo nos jogos, peladas e festinhas. Essa convivência com os jogadores é sadia. Fará com que ele cresça com a cabeça no lugar.

GE.Net: Pelo menos, santista, ele já é.
AC: É difícil fazer um garoto com essa idade trocar de time. Mas vamos ver. Talvez, futuramente, apareça mais um jogador do Santos na família.

Trombadas de Antônio Carlos
“O Santos tem um jogador que só sabe bater. Ele está jogando porque é amigo do treinador” – do atacante Leandro, do São Paulo, após empate por 1 a 1 com o Santos em 11 de março. Antônio Carlos respondeu que “Leandro mente desde o início da carreira”, referindo-se ao suposto caso de falsidade ideológica que o rival se envolveu nas categorias de base do Peixe.
“Eu me senti mal, humilhado, principalmente quando cheguei em casa e vi minha família chorando. O que me deixa triste é que não veio de nenhum juvenil, mas de um jogador que foi campeão onde passou. Essa pessoa é muito pequena. Tem a mentalidade de uma criança” – do ex-volante do Grêmio Jeovânio, à época em que acusou Antônio Carlos de racismo. O zagueiro, então no Juventude, apresentou mais de uma justificativa para o gesto de esfregar o braço com os dedos antes de confessar a ofensa e pedir desculpas.
“Ele foi vítima de uma agressão dos idiotas de sempre, que destroem o futebol. Sinto pelo que aconteceu” – do volante argentino Diego Simeone. Mesmo após trocar cusparadas com Antônio Carlos em clássico contra a Roma, disputado em 2001, ele repudiou a agressão dos torcedores da Lazio ao brasileiro.
“Não gosto dele. É o responsável pela maioria dos gols que a seleção e seu clube sofrem. Além disso, tem dificuldade com as bolas levantadas na área” – do ex-técnico da seleção brasileira Mário Jorge Lobo Zagallo, sobre a lista de convocados de seu sucessor Wanderley Luxemburgo. Foi a única ressalva do Velho Lobo na época.
“Por que o zagueiro Antônio Carlos, do Corinthians, não faz parte do grupo? Se ele estivesse em campo, talvez não tivéssemos tomado oito gols em três partidas na excursão à Europa” – do técnico Emerson Leão, à revista Época de 18 de junho de 1997. Futuro comandante da seleção brasileira, ele reprovava a opinião de Zagallo sobre Antônio Carlos.
“O Antônio Carlos sofreu uma lesão grave, de cruzado. Ele já está com 38 anos. Quem sabe não vira meu assistente agora?” – de Wanderley Luxemburgo, “procurador” do zagueiro, logo após o amigo romper os ligamentos do joelho esquerdo no empate por 2 a 2 com o Caracas, no início de maio.

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