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17/12/2007
Montagem sobre fotos de Fernando Pilatos / Gazeta Press

Por Felipe Held, especial para GE.Net

Foto Fernando Pilatos / Gazeta Press

Nome: Cristiane Rozeira de Souza Silva
Idade: 22 anos
Posição: Atacante
Clubes: Juventus-SP, São Bernardo, Turbine Potsdam/ALE, Wolfsburg/ALE e São José

Principais conquistas: Quarto lugar nos Mundiais sub-19 em Canadá-2002 e Tailândia-2004, medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas-2004 e na Copa do Mundo da China-2006 e ouro nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro-2007 e Campeonato Alemão-2005/06.

Pela primeira vez na história, o Brasil terá duas jogadoras concorrendo ao prêmio de melhor do mundo na premiação da Fifa, marcada para acontecer nesta segunda-feira na cidade suíça de Zurique. Além da centroavante alemã Birgit Prinz, estão na final as atacantes Marta, vencedora em 2006, e a grande revelação da temporada 2007: Cristiane.

Destaque da seleção brasileira feminina na conquista da medalha de ouro dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro e do vice da Copa do Mundo da China, Cristiane é o reflexo da modalidade em solo pátrio: talentosa e promissora, mas esquecida pelas entidades.

Prova disso é que, mesmo depois de ser eleita a terceira melhor jogadora da competição mundial, a atleta sequer disputou a Copa do Brasil, primeiro torneio oficial promovido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Depois de deixar o Wolfsburg, da Alemanha, e acertar com o São José, a badalada atleta de 22 anos não pôde atuar diante da torcida brasileira, apesar de o perfil feito no site oficial da Fifa indicar que a atacante retornou ao país apenas para disputar a competição.

Antes de embarcar para a Suíça, Cristiane conversou com a reportagem da Gazeta Esportiva.Net e revelou que, embora desejada por várias equipes da Europa, não descarta a possibilidade de atuar no Brasil mesmo se for eleita a melhor jogadora do mundo. “Aqui no país, as coisas estão começando a engatinhar, e no exterior já há uma estrutura pronta. Mas para mim não teria problema algum, e vou fazer tudo o que puder para ajudar as meninas que estão aqui. Com certeza, eu jogaria no Brasil”, assegurou.

No entanto, a camisa 11 da seleção verde e amarela não esconde a mágoa por não ter conseguido disputar a Copa do Brasil, já que apenas as três melhores equipes do Campeonato Paulista (Santos, Botucatu e Jaguariúna) conseguiram a vaga do Estado. “Fiquei bem chateada, pois esperava poder disputar o campeonato. Muitas equipes tiveram que correr para outros lugares. Infelizmente não joguei, mas quem sabe o ano que vem? Ainda não sei o que pode acontecer”, apontou.

‘Azarona’ na premiação da Fifa, Cristiane não conseguiu esconder a ansiedade de ser agraciada com o título de melhor do mundo: “Posso chegar lá, as pessoas verem que o ano foi muito bom para mim e, de repente, eu saia com o título”, sonha .

Na conversa com a reportagem da GE.Net, Cristiane falou também de seu início no futebol, dos problemas de adaptação ao futebol alemão, do bom relacionamento da seleção feminina brasileira e dos planos para 2008. Confira:

Gazeta Esportiva.Net: Você esperava estar na disputa para a eleição de melhor do mundo da Fifa?
Cristiane:
Não imaginava que seria indicada e muito menos que ficaria entre as três finalistas. Para mim, isso foi uma felicidade muito grande, uma demonstração de que os trabalhos no Pan e no Mundial foram bem feitos. E se eu ganhar, será um orgulho ainda maior.

GE.Net: Você apontaria alguma favorita para levar o prêmio?
Cristiane:
Não sei muito o que dizer sobre isso. Eu fui uma surpresa e elas (Marta e Prinz) já tinham o nome praticamente escrito na final. Agora tudo pode acontecer. Posso chegar lá, as pessoas verem que o ano foi muito bom para mim e, de repente, eu saia com o título. Mas são outras duas jogadoras muito boas e a votação deverá ser bastante equilibrada.

GE.Net: Como foi o seu início no futebol?
Cristiane:
Eu comecei jogando com sete anos de idade, bem novinha. Com 12, já entrei em uma escolinha e, com 14, fui para o Juventus-SP, minha primeira equipe profissional. Com 15, já estava sendo chamada para a seleção brasileira sub-19 e, com 16, me transferi para o São Bernardo, onde fui promovida para adulta. Com 19 anos, já estava jogando fora. Tudo aconteceu muito rápido comigo.

GE.Net: E com 22 já estava de volta ao Brasil. Aliás, como foi a sua estadia em São José dos Campos, onde você nem jogou?
Cristiane:
Fiquei um período curto em São José. Meu contrato já terminou e a gente não pôde competir na Copa do Brasil, mas mesmo assim sempre procurei dar continuidade aos treinamentos, sempre fazendo preparação física, e não tive problemas maiores.

GE.Net: Você acompanhou a Copa do Brasil feminina? O que achou?
Cristiane:
Acompanhei algumas coisas, mas mais pela internet, porque era muito difícil de a partida ser transmitida. Só que foi pouco. Muitas equipes ficaram de fora, como o São José, e algumas de São Paulo tiveram que se filiar a outros Estados para entrar no campeonato (caso do Saad, que teve de fazer parceria com Mato Grosso do Sul, e foi campeão do torneio). A Copa foi um pontapé inicial, mas poderia ser mais longa. Tomara que mantenham a competição para o ano que vem, pois não adianta nada que tudo isso tenha sido feito só por causa do Mundial. Agora é preciso continuidade e divulgação, não pode parar.

GE.Net: É frustrante ter ficado fora da competição que você tanto brigou para conseguir?
Cristiane:
Fiquei bem chateada, pois esperava poder disputar o campeonato. Mas como organizaram a Copa logo depois do Mundial, acabei ficando de fora. Infelizmente não joguei, mas quem sabe o ano que vem? Ainda não sei o que pode acontecer.

GE.Net: Você acha que a CBF poderia ter feito um esforço maior para fazer com que você jogasse a Copa do Brasil? Você poderia ser um bom atrativo para público, publicidade...
Cristiane:
Não tenho muito o que falar sobre isso, pois não sei se eles (membros da CBF) pensaram muito nessa ocasião. Eu não teria problema algum em usar a minha imagem para divulgar a competição, mas seria complicado tirar da Copa outras equipes como o Botucatu, que têm bastantes jogadoras de seleção. Fizeram um critério para selecionar as três melhores equipes do Paulista e as outras não competiram.

GE.Net: Mas suponha que o Ronaldinho estivesse no Brasil para disputar o Campeonato Brasileiro: a CBF não faria um esforço maior?
Cristiane:
Aí é diferente, não tem nem comparação. Se alguma equipe no Brasil tivesse o Ronaldinho e precisasse jogar o Nacional, não pensariam muito se precisassem tirar um clube com cinco jogadores de seleção para colocar o dele. Só que não recebemos muitas explicações.

GE.Net: A situação do futebol feminino poderia ser melhor se a modalidade fosse mais bem estruturada?
Cristiane:
Tem que ter estrutura por aqui. As competições vão ser muito boas para as meninas do Brasil. Eu posso ir para fora, mas e elas, como ficam? Se aqui tivesse um apoio maior, quantas meninas não se destacariam lá fora? Basta ver que, mesmo com o pouco que temos, tem quem consegue aparecer...

GE.Net: Você chegou a atuar em dois clubes do Alemanha. Qual a razão de você ter voltado?
Cristiane:
Lá fora tive alguns problemas. Minha adaptação ao futebol e ao frio demorou cinco meses, mas depois não tive problemas. Infelizmente o contrato com o Wolfsburg venceu em julho e eles não renovaram, então voltei ao Brasil. No Turbine, minha primeira equipe, tive algumas dificuldades com algumas jogadoras e também de adaptação. Fiquei lá durante um ano e meio e praticamente não joguei. Não tinha muita oportunidade e, quando entrava, o treinador me tirava já no segundo tempo. Não fui tão feliz como fui no Wolfsburg, e deste clube sim guardo boas recordações. Se pudesse, voltaria sem problema algum.

GE.Net: O que você encontrou de diferente no futebol alemão em relação ao brasileiro?
Cristiane:
O futebol lá é muito mecânico, com muito toque de bola e força. Aqui é um pouco diferente quanto a isso: há mais possibilidades de realizar um drible. Na Europa, eles não gostam de muitos enfeites e pedem um futebol de dois toques e mais contato. Encontrei bastante dificuldades por causa disso e não entrava em algumas partidas.

GE.Net: Depois de ser eleita a terceira melhor do Mundial, você recebeu propostas para deixar o país?
Cristiane:
Tenho algumas propostas de clubes estrangeiros, mas ainda estou estudando. Só que no exterior tem uma data determinada para se inscrever, e o prazo se encerrou em julho, no fim do meu contrato com o Wolfsburg. Não pude acertar com ninguém e tive que esperar até janeiro. Mas não teria problema algum em ficar no Brasil.

GE.Net: E as propostas que você tem do exterior, são muito superiores às do Brasil?
Cristiane:
São melhores e bem diferentes, porque lá tem toda a estrutura, o apoio, o incentivo... Não tem muito o que comparar. Tenho propostas de dois times da Suécia e também de clubes de Espanha e Alemanha. Tenho várias ofertas para ficar no país e é até mais fácil, porque já conheço algumas meninas com quem joguei na seleção.

GE.Net: Um dos clubes que já manifestou interesse em seu futebol foi o Umea, onde joga a Marta. Como seria formar uma dupla de ataque com ela fora da seleção?
Cristiane:
Não tenho problema algum com ela e nos entendemos muito bem. Jogamos juntas desde os 15 anos e seria uma honra atuar com ela não só na seleção, mas também no clube. O Umea é uma equipe muito boa, que está nas quartas-de-final do Campeonato Europeu, é o atual campeão sueco... para mim seria muito bom ir para lá.

GE.Net: Se você porventura for eleita melhor do mundo, ficará ainda mais valorizada e poderia obter um ótimo contrato no exterior. Isso eliminaria as suas chances de continuar no Brasil?
Cristiane:
Aqui no país as coisas estão começando a engatinhar, e no exterior já há uma estrutura pronta. Mas para mim não teria problema algum, e vou fazer tudo o que puder para ajudar as meninas que estão aqui. Com certeza, eu jogaria no Brasil.

GE.Net: Antes do Pan, pouquíssimas pessoas conheciam a Cristiane, como está o assédio do público agora?
Cristiane:
As pessoas não me conheciam muito. Durante as Olimpíadas comecei a ganhar afeição das pessoas, mas hoje é ainda maior. Muita gente me conhece e eu até tenho um fã-clube. Estou muito contente que as pessoas estejam vendo o meu trabalho. Tenho que continuar assim para ter esse carinho que é muito importante para qualquer um. Agora tenho que ter tranqüilidade e insistir no meu trabalho e na minha dedicação. O mais difícil é manter, e não posso deixar as coisas caírem. Para chegar no topo é difícil e despencar é mais fácil.

GE.Net: Mesmo com Copa do Brasil e incentivo, a CBF ainda não pagou o prêmio prometido pela prata do Mundial. Como andam as conversações sobre o calote?
Cristiane:
Muito complicado falar alguma coisa sobre isso, pois a gente sempre acaba sendo prejudicada. Melhor deixar para as entidades, que são grandes, pois sempre acabamos sendo lesadas depois. Só que você já nota a diferença de tratamento lá fora, pois só de uma equipe entrar no Mundial já tem uma premiação – que é maior ainda se ganhar o título. Mas não sei o que eles acham ou pensam. Isso vem deles. A gente não tem nem o que fazer.

GE.Net: Apesar dos problemas de ‘bastidores’, você avalia positivamente o ano de 2007?
Cristiane:
Para mim o ano foi bem feliz, mais emocionante do que 2004. Este foi ano de Pan, daquela final com 70 mil pessoas no Maracanã. Não sei se vamos conseguir isso de novo. Também me destaquei na Copa do Mundo, fui a terceira melhor da competição... Dedico tudo isso a outras meninas que já passaram para a seleção. Peguei um pouco de experiência com atletas como a Pretinha e a Kátia Cilene no primeiro Mundial (em 2003), para mim as coisas foram diferentes. Elas tiveram um caminho mais trabalhoso.


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