| Por
Paulo Amaral
Fotos Fernando Pilatos / Gazeta Press |
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| Ari Clemente em dois momentos: acima, rindo em 2008; abaixo, com a bola nos pés, em partida do Timão contra o Comercial, no Paulistão de 1958 |
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Jeito simples, fala mansa e muita tranqüilidade.
Essas são características atuais de um
ex-lateral-esquerdo que carrega consigo há 50
anos o estigma de ser o homem que quase deixou Pelé fora da Copa do Mundo da Suécia, a primeira
vencida pelo futebol brasileiro e a primeira do então “menino-prodígio”,
Edson Arantes do Nascimento.
No ano do cinqüentenário da primeira conquista
canarinho, Ari Clemente recebeu a reportagem da Gazeta
Esportiva.Net em sua residência, na
zona norte da capital paulista. Cercado pela esposa,
Elenita, com quem divide alegrias e tristezas há 44
anos, pelos três filhos e pelos seis netos -
o mais novo deles já devidamente fardado com
a camisa do Timão -, o ex-lateral-esquerdo do
Corinthians reativou a memória para falar da
fatídica jogada em que se envolveu com o “Rei”.
O incidente ocorreu no dia 21 de maio de 1958, uma
quarta-feira chuvosa e fria, no estádio do Pacaembu.
Dias antes de viajar para a Europa, a seleção
brasileira encarou um amistoso contra o Corinthians.
Venceu por 5 a 0, mas, por pouco, não perdeu
aquele que viria a se transformar no grande nome da
conquista na Suécia.
“Tem muita gente que ouviu dizer, mas não
viu o lance. Não foi maldade. Até hoje
estou com minha consciência tranqüila. Conversei
com o Pelé e ele sabe que não foi por
mal, tanto que, no lance, eu saí jogando e a
bola só parou quando voltou ao ataque do Santos”,
lembrou Ari. “O campo estava deslizando. O Pepe
bateu a falta com força e o Pelé quis
pegar de primeira. Fui cobrir e coloquei a perna, aí o
Pelé chutou a trava da minha chuteira. Eu nem
vi”, completou, com riqueza de detalhes.
Clemente não carregou para fora dos campos
qualquer tipo de ligação com Pelé,
mas garante que não foi o lance do amistoso
que impediu uma aproximação maior com
o Atleta do Século. “O Pelé é um
grande empresário e, às vezes, não
tem tempo nem para a imprensa”, argumentou, admitindo, na seqüência, que
respirou aliviado ao ver que o garoto foi confirmado
na delegação brasileira que foi à Suécia,
mesmo contundido.
“A seleção que saiu daqui para
ser titular foi mudada inteirinha, principalmente o
ataque. Levaram 24 jogadores para a Copa, incluindo
o Pelé, machucado. Sei que ele não participou
dos primeiros jogos, mas, graças a Deus conseguiram
levá-lo e deu tudo certo.”
O ex-jogador assegurou também que não
sofreu qualquer prejuízo por conta da jogada
e que só guarda boas recordações
dos tempos em que habitava o mundo da bola. “O
futebol me abriu as portas e me deu tudo o que tenho.
Não é muito, mas dá para viver
com minha família, que é o mais importante
para mim”.
Nesta entrevista exclusiva, o ex-lateral-esquerdo
conta mais detalhes de sua curta carreira (durou apenas
13 anos), joga por terra a lenda sobre uma possível “praga” de
Pelé para que o Corinthians não ganhasse
títulos enquanto ele estivesse na ativa, fala
sobre o comportamento do “Rei” em campo,
do momento atual do Timão e, claro, de sua atual
paixão: a família.
Gazeta Esportiva.Net – Quais as lembranças
que o senhor guarda da Copa do Mundo de 1958?
Ari Clemente - Só guardo alegrias.
Eu estava em início de carreira. A gente vibrou
demais, pois já tinha perdido a Copa de 50 (para
o Uruguai, no Maracanã). O pessoal fala da seleção
que jogou a Copa de 1982, mas a de 58 foi uma maravilha.
GE.Net – Dá para guardar alegrias
mesmo sendo rotulado como o homem que quase tirou o
menino Pelé da Copa?
Ari Clemente - Tem
muita gente que ouviu dizer, mas não viu o lance. Não
foi maldade. Até hoje estou com minha consciência
tranqüila. Conversei com o Pelé e ele sabe
que não foi por mal, tanto que, no lance, eu
saí jogando e a bola só parou quando
voltou ao ataque do Santos.
GE.Net – Mas como foi o lance? O que
aconteceu realmente?
Ari Clemente - O
campo estava deslizando por causa da chuva. O Pepe
bateu a falta com força
e o Pelé quis atravessar para bater de primeira.
Fui cobrir o meio e coloquei a perna, aí o Pelé chutou
a trava da minha chuteira. Eu nem vi o que tinha acontecido.
GE.Net – Ser
lembrado durante 50 anos por causa dessa jogada específica é algo
que o magoa?
Ari Clemente – Não,
pois isso sempre ficou mais por conta da imprensa.
Eu resolvi o assunto com o Pelé e cada um continuou
com sua carreira. De vez em quando, alguém mais
jovem lembra e fala que “o Ari quebrou o Pelé”,
mas nunca tive qualquer problema por conta disso não.
GE.Net – Mas chegou a temer pela não
participação do Pelé na Copa?
Acompanhou mais atentamente a seleção
por causa disso?
Ari Clemente - A
seleção
que saiu daqui para ser titular foi mudada inteirinha,
principalmente o ataque. Levaram 24 jogadores, incluindo
o Pelé, machucado. Sei que ele não participou
dos primeiros jogos, mas, graças a Deus conseguiram
levá-lo e deu tudo certo.
GE.Net – Como é seu relacionamento
atual com o “Rei”?
Ari Clemente - O
Pelé é empresário,
não tem tempo nem para a imprensa direito. Tive
oportunidade de falar com ele na época em
que jogava, depois não mais, até porque
nunca gostei muito de ir para Santos.
GE.Net – Reza a lenda que, depois
de ser atingido, o Pelé teria falado para
o senhor que o Corinthians jamais ganharia um título
enquanto ele jogasse pelo Santos, algo que realmente
se concretizou. O que há de verdade nisso?
Ari
Clemente – Só o
tabu, pois eu nunca ganhei do Pelé enquanto
joguei. Essa história não passa de lenda
mesmo. O Pelé nunca falou isso para mim ou para
ninguém. Havia respeito entre os jogadores.
GE.Net – Mas ele era do tipo provocador
dentro de campo, não era? Dava cutucões,
pancadinhas sem bola...
Ari Clemente - Ele
não era
bobo, claro, mas nunca tivemos problemas. Ele era caçado
e não era bobo. Se alguém ia pra quebrar,
ele ficava esperto, mas o Pelé procurava jogar
futebol. Apenas isso.
GE.Net – E a história de que
ele quase foi contratado para ser seu companheiro
de Corinthians? O que o senhor lembra sobre esse
assunto?
Ari Clemente – Isso,
se aconteceu, ficou mais entre os dirigentes, nos
bastidores. Mas é claro
que eu queria que o Pelé tivesse jogado conosco.
Com ele ao lado, o bicho estaria sempre garantido (risos).
GE.Net – Pelé à parte,
o senhor também teve uma experiência
na seleção, em um amistoso contra o
Paraguai. Por que não teve seqüência?
Ari Clemente - Joguei
apenas uma partida, em 1961, na comemoração do terceiro
aniversário da Copa de 1958. Era um combinado
Palmeiras e Flamengo. Eu era do Corinthians, mas fui
convocado, pois o Geraldo Scotto, do Palmeiras, se
machucou. Tinha muita gente boa na época e,
como estourei a virilha, acabei não voltando
mais.
GE.Net – Depois de sair do Corinthians,
como foi o andamento de sua carreira?
Ari Clemente – Fui jogar no Bangu
e conquistamos o Carioca de 1966, em um Maracanã lotado.
Encerrei minha carreira no Saad, de São Caetano,
cinco anos mais tarde.
GE.Net – E o que fez depois de pendurar
as chuteiras: desistiu do futebol?
Ari
Clemente – Trago algumas
amizades, como o Aladim, que sempre me visita quando
está em São Paulo, mas sou uma pessoa
mais caseira e não gosto de ir ao campo ou ao
Parque São Jorge. Virei bancário. Trabalhei
22 anos no banco Safra, primeiro como recepcionista
e depois como segurança do senhor Ezequiel Nasser.
Agora estou aposentado, curtindo minha família,
cuidando da minha esposa, que sempre segurou as pontas.
Tenho que dar esse presente para ela até o fim
da minha vida e vou dar.
GE.Net – Para finalizar: como o senhor
analisa o atual time do Corinthians? Dá para
ganhar a Copa do Brasil?
Ari Clemente – Sem
dúvida.
Com esse time nós estamos vibrando. Esse é o
Corinthians de antigamente. Está maravilhoso.
Pode até perder às vezes, mas perde correndo,
lutando. Estou adorando mesmo e acredito que, quarta-feira,
vamos conquistar mais um título. |