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08/09/08
Montagem sobre fotos AFP

Por Eduardo Carneiro, especial para a GE.Net
Foto Divulgação
Vítor Flora: deslumbrado com a estrutura do clube

Enquanto o mundo do futebol aguardava o fim da novela Robinho e o destino de outros astros badalados na última segunda-feira, no último dia da janela de transferências do futebol europeu, o Liverpool chamava pouca atenção ao confirmar a contratação do atacante brasileiro Vitor Flora, 18 anos, por duas temporadas e possibilidade de renovação por mais duas.

No currículo, esta jovem promessa carrega apenas uma boa passagem pelo Botafogo de Ribeirão Preto, além de tentativas frustradas de acerto com Grêmio, Santos, Juventus, da Itália, e Cruzeiro. Um vídeo postado no YouTube, porém, foi suficiente para despertar o interesse de um representante do Liverpool na América do Sul, que acabou indicando a sua contratação.

Vitor reconhece que a compilação de seus melhores momentos em uma fita lhe ajudou na concretização da transferência para um dos clubes mais tradicionais da Europa, sonho de qualquer jogador brasileiro, inclusive de muitos já consagrados. Ao contrário do que muitos pensam, no entanto, o jogador se diz preparado para se firmar na Inglaterra, mesmo com apenas 18 anos e sem ter atuado por nenhum time grande de seu país natal.

“O meu futuro está aqui. O futebol inglês é um dos mais difíceis de se conseguir espaço, eu graças a Deus consegui o meu, e agora vou trabalhar forte para aumentar cada vez mais este espaço”, projeta o ex-atacante do Botinha, que deixou o clube interiorano brigado com a diretoria e rodou o mundo até desembarcar na terra dos Beatles. Para ajudar na adaptação, Vitor tem a ajuda de três brasileiros no elenco (Lucas, Diego Cavalieri e Fábio Aurélio) e há meses vem estudando inglês.

Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, Vitor conta mais detalhes de sua incrível trajetória até chegar ao Liverpool. Deslumbrado com o país europeu e a estrutura do novo clube, o jovem revela a experiência de, por enquanto, apenas treinar com grandes estrelas do futebol mundial e aguarda com ansiedade a sua estréia pelo time B dos Reds. Ele ainda comenta sobre a polêmica da contratação por vídeos e o sonho de defender a seleção brasileira. Confira:

GE.Net: Conte como foi a sua trajetória no início de carreira, no Interior de São Paulo:

Vitor Flora: Comecei com cinco, seis anos em uma escolinha no Interior de São Paulo na cidade de Ipuã, próximo a São Joaquim da Barra, onde nasci e onde vive a minha família até hoje. Com sete anos, nos mudamos para São Joaquim da Barra, onde comecei a jogar futebol de salão e, em seguida, no campo. Aos 12 anos, fui para a escolinha do São Paulo, em Ribeirão Preto, viajava duas vezes por semana para treinar e jogava nos finais de semana. Fiz alguns campeonatos lá, cheguei a ser observado pelo São Paulo, e depois, em 2004, segui para o Santos.

GE.Net: No Santos, porém, você acabou não se adaptando...

Vitor:Fiquei lá cerca de três meses e não agüentei a distância de minha família. Era um garoto do Interior, que nunca havia ficado longe dos pais, era muito difícil ir morar numa cidade tão grande e longe como Santos, e então decidi voltar para casa. Voltei a estudar e jogava futebol em São Joaquim mais para descontrair. Foi quando surgiu a oportunidade de disputar um campeonato em parceria do Comercial de Ribeirão Preto com o time onde jogava na minha cidade. Fui disputar este campeonato, fomos campeões, e logo surgiu o convite para ir para o Botafogo.

GE.Net: O Botinha foi o clube no qual você despontou e chegou a ser artilheiro. Por que acabou saindo de lá?

Vitor: Acertei com o Botafogo no final de 2004 e fiquei até outubro do ano passado. Fui artilheiro do Paulista sub-17, com dez gols em 12 jogos, e estava arrebentando, crente que iríamos jogar a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Todos ali diziam que estava 99% certo de que jogaríamos. Daí chegou em outubro, quando não dava para se transferir para nenhum clube que disputaria a Taça, e eles disseram que não iriam mais jogar. Além disso, meu contrato estava inválido, acabei juntando isso tudo e decidi procurar outro caminho.

GE.Net: A decisão de não jogar a Copinha te deixou muito incomodado?

Vitor: Sem dúvida, porque é um torneio que serve como vitrine, sempre será. Lá foram revelados grandes jogadores, como o Cicinho, o Doni, o Diego, goleiro, e antes também, como o Bordon, o Raí. Mas tenho muita gratidão e carinho pelo Botafogo, um time tradicional. Querendo ou não, eu joguei lá por três anos. Eles me prepararam.

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Brasileiro assina contrato no Liverpool e realiza sonho

GE.Net: Entre a saída do Botinha e a ida ao Liverpool, você teve passagens apagadas por alguns grandes clubes...

Vitor: Após sair do Botafogo fui para o Grêmio, treinei lá por duas semanas, de novembro para dezembro de 2007. Então, eles fizeram uma proposta de contrato, mas não acertamos as bases. Depois, entre janeiro e fevereiro deste ano, passei pela Juventus, da Itália, onde fiquei 45 dias. Esperei este tempo pela minha cidadania, só que começaram a enrolar para dar entrada nos documentos e então resolvi voltar. Depois disso, fui para o Cruzeiro, estava prestes a assinar contrato, quando surgiu a proposta do Liverpool. Daí não teve jeito. O Cruzeiro é um grande time, entre os maiores do Brasil, mas pensei na minha carreira, na minha família e no meu futuro. O futebol inglês é o mais almejado por todos os jogadores e um dos mais difíceis de conseguir vaga.

GE.Net: Quais são as suas primeiras impressões do Liverpool?

Vitor: Estou muito feliz aqui. Eu já achava o Liverpool grande e agora, conhecendo mais de perto a estrutura, a organização, o clube se tornou maior ainda. Ao que me parece, o futebol inglês, em geral, é muito organizado, não tem aquele lance de QI (quem indica) ou de empresário escalar jogador. Deve ser por isso que é tão difícil conquistar um espaço aqui. Eu consegui o meu e se Deus quiser vou aumentar ainda mais este espaço, estou trabalhando para isso.

GE.Net: Já tem data para estrear pelo time B? E no time principal, já teve contato com os jogadores?

Vitor: Eu já fiz quatro treinos com o primeiro time, e na sexta-feira participei de um coletivo contra eles. Apesar de a maioria estar com as seleções, foi uma ótima experiência, já que antes havia sido apenas trabalho com bola, ou de posse. Poderia ter estreado no B na terça-feira passada, contra o Middlesbrough, mas estava muito em cima e, como não tinha a confirmação na véspera da partida, o treinador achou melhor não arriscar. Agora estou aguardando.

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Com Rafa Benitez: “É um paizão, mas quando dá dura, sai de baixo!”

GE.Net: Você se considera pronto para lidar com a pressão da fanática torcida do Liverpool, um dos clubes mais tradicionais da Inglaterra?

Vitor: Não tenho medo de pressão não. Acho que nos grandes times do Brasil também tem pressão.Nós jogadores temos de estar preparados para esse tipo de situação e com a cabeça no lugar para enfrentar tudo isso e conseguir se sair bem. Além disso, o bom é que aqui você não vê a torcida xingar jogador. Pelo contrário, se o cara erra um lance, a torcida aplaude. Eu acho que isso ajuda muito, não deixa o jogador ficar para baixo, faz ele acreditar mais ainda em si, acho bacana isso aqui. Não tem pressão negativa, eu diria.

GE.Net: E quanto aos brasileiros do Liverpool, você já os conhece? Crê que eles podem ser importantes para a sua adaptação?

Vitor: Já conheço sim. A gente treina no mesmo CT, então os vejo com freqüência. Recebi um grande apoio tanto do Lucas como do Fábio Aurélio desde que cheguei aqui, do Diegão também, o Cavalieri. Ele chegou um pouco depois, mas também sempre dá uma força, afinal eu sou o caçula (risos).

Ge.Net: E com o técnico do time principal, Rafa Benítez, você já teve contato?

Vitor: Já tive, sim. É um paizão, eu diria, gente boa demais, muito simples. Mas quando dá dura, sai de baixo (risos).

GE.Net: Outros jogadores que saíram jovens do Brasil, como os gêmeos Fábio e Rafael, do Manchester United, e Denílson, do Arsenal, estão ganhando espaço. Você crê que pode seguir o mesmo caminho e ajudar a abrir de vez as portas dos brasileiros no futebol inglês?

Vitor: Se nós fizermos bonito acho que abriremos as portas sim. Aliás, com a vinda desses outros jogadores consagrados, como Anderson, Lucas, Gilberto SiIva, que não está mais aqui, e o Fabio Aurélio, já se abriram muitas portas para os brasileiros. Agora é continuar mostrando para os ingleses que brasileiro não gosta só de bagunça e festa, como eles pensam, mas também de trabalho e honestidade.

GE.Net: Você tem empresário, ou apenas seu pai, José Arnaldo Flora, cuida de sua carreira?

Vitor: Até eu chegar no Liverpool, meu empresário foi meu pai, mas agora quem me representa é a Global Sport, um grupo espanhol que já trabalhou com jogadores como o Denílson, na época do Betis-ESP, entre outros. Tem também o César Augusto (produtor musical), que me indicou para o Cruzeiro e estava conosco quando veio a proposta do Liverpool.

GE.Net: O seu pai revelou que sempre acreditou em sua carreira, sem desistir, apesar dos percalços que tiveram no caminho. Qual a importância dele para você?

Vitor: Meu pai me levava sempre para os jogos, desde pequeno, e me acompanhava sempre, dando muito apoio. Desde sempre tive a família como meu espelho. Sempre me inspirei no meu pai e na minha mãe, não existem pessoas iguais a eles, me apoiaram em tudo o que eu fui fazer, tanto na escola, quanto em outras atividades e até no lazer, que hoje acabou virando a minha profissão, que é o futebol.

GE.Net: Está pronto para viver ainda mais longe deles, agora em Liverpool?

Vitor: Já estou sim. Agora já tenho 18 anos e tenho uma cabeça mais madura, mais profissional. Além do que, já passei por algumas experiências longe de casa, como na Itália, em Porto Alegre e em Belo Horizonte. Aqui é o meu futuro e sei que eles estão rezando e torcendo muito pelo meu sucesso. Vou lutar para ser um vitorioso e dar este presente para eles por tudo o que fazem e fizeram por mim até hoje. Eles merecem.

GE.Net: Apesar de alguns preferirem esconder, seu pai confirmou que foram os vídeos que te colocaram lá no Liverpool. Aquele principal, que está no YouTube, já está até dando polêmica, com um monte de comentários criticando ou elogiando a sua contratação... 

Vitor: Foram os vídeos que levaram o representante do Liverpool a se interessar pelo meu futebol e ir ver treinos e partidas. Então estes vídeos foram só o começo. O representante se interessou e depois avaliou a minha performance, assistindo aos jogos, vendo meu desempenho nos treinamentos e analisando meu comportamento dentro e fora de campo. Como representante de um grande clube, ele analisou antes de indicar e chegou à conclusão de que eu poderia ir para o Liverpool. Por isso, a polêmica dos vídeos não me preocupa, quem está comentando fala sem conhecimento de causa e acha que foi apenas aquele vídeo. Neste do YouTube são meus melhores lances do Paulista do ano passado. O pessoal não sabe que o sub-17 não tem divisão. Acham que o Botafogo não joga com o Corinthians, o São Paulo, o Palmeiras. É um torneio muito difícil, como no profissional.

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Vítor e o goleiro Diego Cavalieri: nova parceria

GE.Net: Agora é o Robinho o novo brasileiro na Inglaterra. Você tem consciência de que joga em um time maior que o dele, um jogador consagrado?

Vitor: Tenho uma admiração imensa por ele. Além de um grande jogador, é uma ótima pessoa, humilde, na minha passagem pelo Santos ouvia todo mundo falar muito bem dele e do Diego. Pô, mas considero que o Manchester City também é grande aqui na Inglaterra. Estão montando um bom elenco e vão dar trabalho neste Campeonato Inglês, ainda mais com a dupla de ataque brasileira Jô e Robinho, que com certeza jogarão bem juntos. 

GE.Net: E a dificuldade da língua? Já está estudando inglês?

Vitor: Estou estudando já, todos os dias. O clube contrata um professor. E quando estava no Brasil, eles pagaram aulas de inglês para eu não chegar muito cru aqui. Mas nada melhor do que encontrar brasileiro e falar português (risos). Às vezes cansa falar só inglês, começa a embaralhar inglês, português, tudo na cabeça.

GE.Net: Você passou por seleções de base do Brasil? Sonha em defender a principal?

Vitor: Não, não. Não tive a oportunidade de jogar, mas ainda sonho em vestir a amarelinha, como todo jogador brasileiro. Ouvir o hino com aquela torcida maravilhosa, em um estádio lotado, e com a camisa do Brasil em campo, deve ser o máximo!

GE.Net: Você conseguiu ir para a Europa sem ter uma passagem de destaque por um grande time do Brasil. Espera se firmar e construir a sua carreira no Velho Continente, ou tem planos de voltar para cá? E se isso acontecer, tem preferência de atuar por alguma equipe?

Vitor: Olha, não sei. Acho que todo o jogador que sai do país espera um dia voltar, mas ainda não pensei nisso. Vou deixar as coisas acontecerem, prefiro assim. Não tenho preferência por nenhum clube, não sei ainda o que vai acontecer. É aguardar os próximos capítulos (risos).


Leia Mais:

Ajudado pelo YouTube, Liverpool aposta em brasileiro Vitor Flora (02/09/08)
Vídeo no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=tNRFBXIxfO8

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