Jaime
Câmara: um futuro Kanaan? |
|
Contando com o apoio de
Tony Kanaan, o goiano Jaime Câmara
fez bonito em sua temporada de estréia
na Infiniti Pro-Series, categoria de acesso
à IRL: logo na primeira corrida disputada
ficou com a segunda colocação.
Depois, venceu na preliminar das 500 Milhas
de Indianápolis e em Nashville, terminando
a temporada na quinta colocação.
"Acredito no talento dele, por isso
tento passar toda a minha experiência
para que ele consiga guiar nas melhores
equipes", afirma Kanaan, que por enquanto
não contará com a concorrência
do amigo nas pistas. "Quero correr
na IRL, mas vou ficar mais um ano na Infiniti
para poder chegar com bagagem", revela
Câmara.
O goiano pretende conquistar seu "acesso"
em grande estilo. "Em 2006, o objetivo
é ser campeão, pois agora
já conheço melhor os circuitos
e a equipe", diz. Quando chegar na
categoria principal, no entanto, ele não
vai ter moleza. É o que garante o
próprio Kanaan. "Eu já
avisei para ele: não pode guiar mais
rápido que o chefe", brinca
o piloto da Andretti.
|
|
|
Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net
Um dos maiores destaques do automobilismo nacional nos últimos
anos, o baiano Tony Kanaan, campeão da temporada 2004
da IRL - categoria mais importante de monopostos dos Estados
Unidos - animou a torcida brasileira ao fazer um teste pela
BAR em setembro. Em princípio, nada impediria a escuderia
inglesa, que conta com Rubens Barrichello e Gil de Ferran
em seu quadro de funcionário, de abrigar nos próximos
anos dois brasileiros como pilotos.
Mas isso não deve acontecer, pelo menos em médio
prazo. É o que garante o próprio Kanaan, em
entrevista exclusiva à GE.Net. Em outra equipe,
afirma, as chances também são muito pequenas.
"Estou muito feliz com minha vida nos Estados Unidos",
comenta o piloto, reafirmando que o teste na Fórmula
1 foi apenas um presente da Honda. "Tenho contrato até
2008 com a Andretti-Green, que foi a equipe que me deu o maior
campeonato que eu já ganhei", emenda.
Por outro lado, o piloto revela que gostou bastante do carro
da categoria automobilística mais famosa do mundo.
"Foi uma experiência única", afirma
o baiano que realizou um sonho de infância com a BAR.
Inspirado pelo pai, Kanaan ganhou seu primeiro kart aos oito
anos. Logo começou a se destacar, sendo pentacampeão
paulista e campeão brasileiro. Após passagens
pela Fórmula Ford e Fórmula Chevrolet, o brasileiro
foi para a Europa em 1994, onde foi campeão da Fórmula
Alfa Italiana e quarto colocado no Campeonato Italiano de
Fórmula 3. Com 21 anos, recebeu um convite para correr
na Indy Lights e iniciou sua jornada pelos Estados Unidos,
que teve como ponto alto o título da IRL do ano passado.
Troféu que Tony pretende conquistar novamente em 2006.
Gazeta Esportiva.Net: Por que você optou em
fazer sua carreira nos Estados Unidos e não na Europa?
Tony Kanaan: Quando eu estava disputando campeonatos
na Europa, percebi que era muito difícil eu chegar
à Fórmula 1. Foi aí que, no final da
temporada de 1995, eu recebi uma proposta muito boa para correr
na Indy Lights em uma das equipes de ponta, a Tasman Motorsport.
Aceitei e ganhei o campeonato de 1997. Depois, fui convidado
para correr na IRL e comecei a fazer minha vida nos Estados
Unidos. Hoje eu estou muito bem por lá e acho muito
difícil eu ir para qualquer outro lugar.
GE.Net: O que você achou dos testes que fez
na BAR em setembro?
Kanaan: O teste na BAR foi realmente um prêmio
que a Honda me deu por ter ganho o campeonato de 2004. Não
era nada para eu ganhar um emprego na Fórmula 1. Eles
só reconheceram o meu valor por eu ter ganho a temporada.
Eu gostei, o carro de Fórmula 1 era muito diferente
de tudo que eu já tinha guiado. Ele acelera rápido,
freia muito rápido... Foi uma experiência única.
Já estou mais acostumado com o carro da IRL, mas não
dá para falar qual dos carros eu prefiro.
GE.Net: Qual é a possibilidade de você
ir para a Fórmula 1 nos próximos anos?
Kanaan: Nenhuma. Eu deixo para o Rubinho defender
a bandeira do Brasil na Fórmula 1, função
que, tenho certeza, ele vai fazer muito bem. Sempre tive o
sonho de correr lá, mas a gente tem que ser realista:
tenho um contrato com a Andretti Green até 2008, que
foi a equipe que me deu o campeonato mais importante que já
ganhei até hoje. Se depois disso, eu não estiver
velho e a Fórmula 1 me quiser, quem sabe....
GE.Net: Não é uma desvantagem a IRL
ter menos apelação com o público brasileiro
que a Fórmula 1?
Kanaan: A Fórmula 1 é muito mais antiga,
além de ter vários campeões brasileiros,
mas a IRL está crescendo. O fato de eu competir nos
Estados Unidos não me prejudica, pois não corro
para ser famoso e sim para ganhar corrida, ser campeão
e representar a minha equipe. É claro que gostaria
muito de contar com mais apoio da torcida do Brasil, onde
já sou reconhecido, e a melhor forma de conquistar
isso é ganhando campeonato. E aí quem sabe a
IRL não fique tão famosa aqui quanto a Fórmula
1...
GE.Net: O Dan Wheldon se envolveu em muitos boatos
para acertar com a Fórmula 1. Você acha que ele
se daria bem lá?
Kanaan: Se for isso que o Dan quer, eu acho que ele
tem mais é que tentar. Ele é jovem, tem o potencial
para ir bem na Fórmula 1. Desejo a maior sorte do mundo
para ele. Na Fórmula 1, você tem que ter muitos
contatos e principalmente um bom carro. Isso faz com que,
às vezes, eu fique decepcionado, porque a importância
do carro é muito grande. Acho que, entre os brasileiros,
ninguém mais que o Rubinho pode sentir isso na pele.
GE.Net: Como você avalia sua temporada 2005
na IRL?
Kanaan: Depois da temporada de 2004, quando fui campeão,
é difícil ter um ano melhor. Mas 2005 foi bom
porque consegui terminar o campeonato em segundo lugar. Houve
altos e baixos, que com certeza não me favoreceram
na disputa do título, mas corrida é assim mesmo.
O importante é sempre ter um carro competitivo para
estar sempre disputando o título.
GE.Net: Quais foram os pontos baixos e altos?
Kanaan: O ponto baixo foi que eu tive três
quebras (GP de Kentuck, GP de Nashville e GP de Richmond)
que realmente me custaram muitos pontos. De resto, eu terminei
todas as outras corridas. Por outro lado, o melhor momento
do ano foi a pole das 500 Milhas de Indianápolis. Para
mim, este momento foi muito especial.
GE.Net: Faltou confiabilidade no seu carro este ano?
Kanaan: Não. São quebras que acontecem
normalmente, mas dessa vez aconteceram muito mais para a gente
que para o Dan. Além disso, ele vence mais provas.
Porém, não tenho nem o que falar: um cara que
ganha seis corridas no ano merece o título.
GE.Net: Você perdeu algumas corridas no sprint
final das provas. Considera que esta foi uma falha este ano?
Kanaan: Não, esse tipo de coisas acontece.
A IRL é muito competitiva. É difícil
você ganhar todas as corridas, mas você está
sempre perto, pois as chegadas são muito disputadas.
Em termos de performance, o que faltou foi o carro ter quebrado
um pouco menos. O resto não me prejudicou. Não
dá para prever o que vai acontecer na IRL.
GE.Net: Como você vê a entrada da Danica
Patrick na categoria?
Kanaan: Com certeza ela somou como piloto e, como
publicidade, também ajudou bastante. Eu acho que a
Danica está melhorando cada vez mais. Ela é
rápida e, em minha opinião, tem chances de ganhar
corridas. Apesar de ainda ser inexperiente, é uma piloto
muito boa. Não tenho nenhuma discriminação
contra mulheres no automobilismo. Para mim, quando o competidor
está de capacete não faz diferença se
é homem ou mulher, mesmo porque não dá
nem para ver. O importante é o rendimento.
GE.Net: E as brigas dela com outros pilotos, como
o Jaques Lazier?
Kanaan: Isso acontece, qualquer pessoa quando está
com cabeça quente em uma disputa, às vezes acaba
falando besteira. Acho que algumas atitudes dela e de algumas
pessoas perante a ela não foram corretas, mas são
coisas que acontecem.
GE.Net: Você chegou a ficar de cabeça
quente durante o ano?
Kanaan: Eu esquento a cabeça, mas quando estou
assim não sou de sair falando. Prefiro me acalmar e
depois conversar diretamente com a pessoa com quem eu tive
problema. Não esquentei a cabeça, mas tive que
me preocupar em ganhar do Dan, porque ele estava muito bem.
Ele ganhou as quatro primeiras da temporada e quando eu tentei
tirar a diferença já era tarde demais.
GE.Net: O que você achou da introdução
de circuitos mistos no calendário da categoria?
Kanaan: Eu amei, pois cresci correndo em circuitos
mistos. Fui o piloto que tive os melhores resultados neste
tipo de pista: das três corridas disputadas eu tive
dois segundos lugares e um primeiro. O pessoal até
brincou que eu ganhei a medalha de ouro dos mistos. Espero
que introduzam mais, pois os circuitos mistos me beneficiaram
bastante. É lógico que a IRL tem que ter oval,
pois foi onde tudo começou, mas eu não iria
achar ruim se fosse 50% misto e 50% oval. No começo,
a essência da IRL eram circuitos ovais e pilotos americanos
e hoje isso já não acontece mais. E, como em
todo o lugar do mundo, os pilotos brasileiros já estão
querendo dominar.
GE.Net: Como você avalia o Helio Castro Neves
e o Vitor Meira, os outros dois brasileiros na IRL?
Kanaan: São dois pilotos muito fortes. Acho
que o Brasil tem sempre chance de ganhar um título
com um de seus três pilotos da IRL. Pode ter certeza
que o Brasil está muito bem representado.
GE.Net: Quais são os seus planos para a temporada
2006?
Kanaan: Tenho contrato com a Andretti Green até
2008 e vamos tentar agora buscar o segundo título.
Tem muita gente que pode ser campeão no ano que vem.
O Dario Franchitti, que é meu companheiro de equipe,
é um dos favoritos. Os dois pilotos da Penske, o Helio
Castro Neves e o Sam Hornish Jr., também vão
dar trabalho, pois apesar de não terem ido muito bem
este ano, eles vão passar a correr com o motor Honda
em 2006, que é o mesmo que nós usamos. Com certeza,
2006 vai ser um ano mais difícil, mas nós temos
um carro bom. Minha expectativa é ganhar o campeonato.
|