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04/05/2006
Montagem sobre fotos Arquivo/Gazeta Press

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Este é o verbo mais conjugado por Bruno Senna, a despeito do parantesco com Ayrton Senna. Sobrinho do tricampeão mundial de Fórmula 1, morto há 12 anos em um acidente durante o GP de Ímola, Bruno revela a admiração pelo tio, mas faz questão de deixar claro que é uma pessoa diferente. “Não tento imitar o Ayrton de forma nenhuma. Minha pilotagem é completamente diferente”, afirmou o jovem de 22 anos.

“Se talento fosse genético, eu estaria tranqüilo”, brinca o atual líder da Fórmula 3 Inglesa, com 100% de aproveitamento. Em comum com Ayrton, Bruno tem o gosto de correr na chuva e a grande vontade de vencer. Por outro lado, o piloto corre contra o tempo, uma vez que iniciou para valer sua carreira automobilística há aproximadamente um ano, quando entrou na Fórmula 3 Inglesa. “O mais difícil hoje em dia é aprender algumas manhas que os pilotos mais experientes já têm”, revela.

Em conversa com a GE.Net, o “novo Senna” reconhece que a importância de seus resultados triplicou por conta de seu sobrenome. Filho de Viviane, Bruno também falou sobre a paixão pelo automobilismo, o desenvolvimento da carreira, o assédio, o avô Milton, Nelsinho Piquet e, claro, Fórmula 1.

GE.Net: Como você está lidando com o assédio dos fãs e da imprensa, principalmente este ano?
Bruno Senna:
Na verdade não estou sentindo tanto esta novidade porque, querendo ou não, estou na Inglaterra, onde a realidade é um pouco diferente do Brasil. O único jeito que eu percebi foi pelo Orkut, pelos e-mails do site, que se multiplicaram em relação ao que eu recebia antes. Estou tendo uma sobrecarga com essa novidade de todo mundo querer entrar em contato e conversar. É até um pouco complicado.

GE.Net: Mas na segunda corrida que você venceu na Fórmula 3 Inglesa este ano houve até fãs correndo atrás de você, não foi?
BS:
Aqui no autódromo sempre tem bastante gente que é fanática pelo automobilismo e, desde o primeiro dia, teve gente que me pedia autógrafo. Acho que este ano foi um pouco diferente porque eu vim de três vitórias na F3 Australiana, e, quando eu cheguei aqui, realmente tinha bastante gente na frente no pódio (o paddock da F3 é aberto), mas foi legal. É um carinho que as pessoas estão dando e é por admiração. Se for algo educado tudo bem, o problema é quando passa dos limites. Mas por enquanto não houve problema nenhum.

GE.Net: Você espera ter uma pequena queda natural de rendimento no decorrer da temporada ou pretende manter o ritmo forte das primeiras corridas?
BS:
Espero melhorar ainda mais o trabalho que eu estou fazendo, mas, como é natural em uma competição, não sou só eu que vou melhorar. Todos vão melhorar também, então o campeonato vai ser acirrado. Acho que o importante é melhorar sempre.

GE.Net: O que ocorreu para os seus resultados melhorarem tanto de 2005 para 2006?
BS:
A partir da segunda metade do ano passado eu já tinha um ritmo bem mais forte, com possibilidade de ganhar corridas. Na última etapa do ano eu não fiz pole e não ganhei a corrida porque os outros pilotos estavam com motor novo e eu não tinha esse equipamento ainda. Isso deu uma diferença. Este ano eu já vim com muito da aprendizagem do ano passado, mais o que eu fiz na Austrália. O carro, toda a parte técnica e a equipe também melhoraram. Eu aprendi mais também. Então todos estes fatores juntos estão contribuindo para os resultados. Só que, óbvio, tem muita coisa para fazer. Esta foi só a primeira etapa, tem ainda mais dez e eu preciso manter o ritmo e aumentar ainda mais o esforço.

GE.Net: Quais são as principais lembranças que você tem do Ayrton?
BS:
Fora as corridas, que eu acompanhava sempre, eu tenho memória dele nas férias, que é quando ele geralmente estava em casa. A gente ia para Angra, se divertia no mar, andava de barco, essas coisas assim... E uma ou duas vezes nós andamos juntos de kart na fazenda.

GE.Net: Você procura se inspirar nele como piloto ou quer desenvolver um estilo próprio de pilotagem?
BS:
Cada piloto tem seu estilo de pilotagem. Quem tenta copiar alguém nunca vai ser bem-sucedido porque cada cérebro entende certas coisas de certa forma. Eu não tento imitar o Ayrton de forma nenhuma. Tive a história para aprender com os erros e os acertos dele. Tudo o que eu posso fazer é aprender com os valores, com a carreira dele, nunca com a pilotagem. A experiência de corrida, alguma malandragem, você aprende, mas a pilotagem em si, não. Minha pilotagem é completamente diferente.

GE.Net: Como você vê seu desempenho corridas de chuva, em que seu tio era excelente?
BS:
Graças a Deus, eu tive bastante oportunidade para andar no molhado aqui e desde o começou eu consegui um bom desempenho. Esse ano, quase todos os dias de teste foi no molhado e eu fui o mais rápido. Acho que esse gene vem de família. (risos).

GE.Net: O nome Senna pode te atrapalhar em algum momento?
BS:
Não. Se eu tivesse uma personalidade diferente, provavelmente isso poderia bater na minha cabeça. Mas no final das contas, o sobrenome me abriu muitas oportunidades, criou chances e é por esse lado que eu levo. É óbvio que existe uma pressão porque todo mundo presta mais atenção em mim. Com certeza, se eu não tivesse esse sobrenome, meus feitos este ano não teriam um terço da importância. O importante é manter a cabeça, os pés no chão e continuar trabalhando. A pior pressão que eu sofro é o perfeccionismo, a minha vontade de obter resultados.

GE.Net: Na sua opinião, o talento é genético?
BS:
Eu gostaria que fosse, porque aí eu estaria tranqüilo (risos). Acho que existem algumas coisas que podem ser genéticas, mas o mais importante é você saber que tem o potencial e trabalhar para se desenvolver.

GE.Net: Você tem um prazo para chegar na Fórmula 1?
BS:
Não existe um prazo, mas um planejamento. O nosso plano original é este ano na Fórmula 3, mais um ou dois anos de GP2 e, de repente, Fórmula 1. Mas tudo isso depende de como eu vou me desenvolver e das oportunidades que forem surgindo. Tem muita coisa que pode sair completamente fora do planejado, mas este é um plano razoável considerando a pouca experiência que eu tenho.

GE.Net: Você aceitaria entrar na Fórmula 1 como piloto de testes?
BS:
Eu não sei, depende das circunstâncias. De repente, se eu puder ser piloto de testes e fazer uma temporada de GP2 ao mesmo tempo, isso poderia ser uma opção. Tudo depende de como as oportunidades se apresentarem.

GE.Net: Você acha possível a imprensa inventar uma rivalidade entre você e o Nelsinho Piquet?
BS:
Acho, mas eu adianto que isso não é possível hoje em dia. Primeiro porque a gente nunca disputou nas mesmas pistas, então é um tanto difícil criarem qualquer rivalidade entre nós. Pessoalmente, a gente se dá muito bem quando nos encontramos, não temos nenhum problema de relacionamento. Se um dia a gente se encontrar na pista e for disputar posição, acho que a rivalidade vai ser igual como com qualquer outro piloto. Não será especial porque ele é o Nelsinho.

GE.Net: Durante o período que você se afastou do automobilismo, chegou a pensar em ter outra profissão?
BS:
Minha intenção era ter outra profissão, mas nunca esquecer o automobilismo. O que eu quis fazer foi ter outra profissão que me possibilitasse ter o automobilismo como hobby. Queria ter o automobilismo de alguma forma na minha vida, independente da profissão que eu fosse seguir. Mas como, graças a Deus, tive a oportunidade de ter o automobilismo como profissão, eu pude unir o útil ao agradável.

GE.Net: Nem quando você sofreu o acidente de kart (quatro meses após voltar a correr – Bruno ficou cerca de 10 anos parado por conta da morte de Ayrton -, o piloto sofreu um acidente de kart e quebrou cinco costelas) pensou em desistir?
BS:
Era complicado ficar muito tempo parado, realmente isso me deixava extremamente estressado. Mas você tem que ser persistente com todos os seus objetivos, às vezes as coisas não são feitas para ser da forma como a gente acha. De repente, a opção certa foi realmente pular o kart, eu poderia não aprender tudo o que eu precisava lá. A Fórmula 3 não é fácil, já passei por muitas dificuldades. Alguém poderia fazer a mesma pergunta para mim: “Você não pensa em desistir quando passa por alguma dificuldade?”. Mas não, eu não penso em desistir. Só vou desistir quando eu tiver certeza de que eu não sou bom. E por enquanto eu não tenho essa certeza.

GE.Net: Mas com os seus últimos resultados você nem pode pensar em uma coisa dessas por enquanto...
BS:
Sim, mas muitas vezes você chega em uma pista e, por alguma situação, acaba perdendo um pouco a confiança ou porque o carro não está bom ou você não está em um dia bom. Aí acaba se perguntando: “Será que eu não estou bom?”. Tem muitas circunstâncias que você pode se questionar, mas o importante é manter a cabeça no lugar.

GE.Net: Qual é maior dificuldade que você está enfrentando neste momento?
BS:
Acho que o mais difícil hoje em dia é aprender algumas manhas que os pilotos mais experientes já têm. Eles sabem mais de pneus, eles conhecem mais de estratégias de corrida. Mas o complicado mesmo é corrida, situação de disputa, estratégia. O único jeito de aprender é correndo, você não consegue tirar isso de outra forma. Este está sendo o meu maior aprendizado. Ainda preciso aprender muita coisa.

GE.Net: A sua mãe está temerosa, mas já aceitou a sua opção. E o seu avô?
BS:
A família inteira tem um pouco de receio, até por causa do histórico, mas acho que ele respeita a minha opinião, a minha vontade, o meu sonho e autoriza.

GE.Net: Além do Ayrton, você se inspira em mais algum piloto ou atleta?
BS:
Todos os pilotos que colocam um esforço extra. Admiro quem faz as coisas por merecer e o profissionalismo. Acho que o Kimi é um piloto que aproveita o talento dele e é profissional. O Schumacher está aí até hoje e não quer sair por baixo. Admiro essa persistência dele, essa gana por vencer. O Alonso também, por ser um piloto muito completo.

GE.Net: Como você vê a atual Fórmula 1?
BS
: Há muitos pilotos promissores. A Fórmula 1 atual está competitiva, é difícil ter um ano em que duas ou três equipes estão nessa situação. Às vezes alguns pilotos surpreendem, mas por enquanto a Renault é superior às outras.

GE.Net: O fato de o Alonso ser o campeão mais jovem da história te incentiva? É a prova de que um piloto jovem pode chegar e vencer gente mais velha, como o Schumacher?
BS:
Com certeza. A experiência tem um papel muito importante, mas não depende só disso, depende de talento, de oportunidade. Tem muitas circunstâncias que podem influenciar nos resultados. No ano passado o Alonso foi campeão porque tinha um carro mais confiável. A McLaren tinha um carro muito bom, mas não era tão confiável quanto a Renault. Se não fosse isso, o Kimi seria campeão.

GE.Net: Qual é a importância do Gehard Berger (ex-piloto e um dos maiores amigos de Senna) na sua carreira?
BS:
Ele é extremamente importante, desde que eu sentei no carro pela primeira vez. O Berger me dá conselhos, boas dicas. Ele tem muita experiência, sempre foi o próprio empresário dele. Eu estou na Fórmula 3 desde o ano passado por opinião dele, que sabe assumir alguns riscos calculados. Está dando muito certo. Devo muito ao Berger. Ele é o meu conselheiro.


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