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Por Carolina Canossa, especial para
a GE.Net
Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Este é o verbo mais
conjugado por Bruno Senna, a despeito do parantesco com Ayrton
Senna. Sobrinho do tricampeão mundial de Fórmula
1, morto há 12 anos em um acidente durante o GP de
Ímola, Bruno revela a admiração pelo
tio, mas faz questão de deixar claro que é uma
pessoa diferente. “Não tento imitar o Ayrton
de forma nenhuma. Minha pilotagem é completamente diferente”,
afirmou o jovem de 22 anos.
“Se talento fosse genético, eu estaria tranqüilo”,
brinca o atual líder da Fórmula 3 Inglesa, com
100% de aproveitamento. Em comum com Ayrton, Bruno tem o gosto
de correr na chuva e a grande vontade de vencer. Por outro
lado, o piloto corre contra o tempo, uma vez que iniciou para
valer sua carreira automobilística há aproximadamente
um ano, quando entrou na Fórmula 3 Inglesa. “O
mais difícil hoje em dia é aprender algumas
manhas que os pilotos mais experientes já têm”,
revela.
Em conversa com a GE.Net, o “novo Senna” reconhece
que a importância de seus resultados triplicou por conta
de seu sobrenome. Filho de Viviane, Bruno também falou
sobre a paixão pelo automobilismo, o desenvolvimento
da carreira, o assédio, o avô Milton, Nelsinho
Piquet e, claro, Fórmula 1.
GE.Net: Como você está lidando com o
assédio dos fãs e da imprensa, principalmente
este ano?
Bruno Senna: Na verdade não estou sentindo
tanto esta novidade porque, querendo ou não, estou
na Inglaterra, onde a realidade é um pouco diferente
do Brasil. O único jeito que eu percebi foi pelo Orkut,
pelos e-mails do site, que se multiplicaram em relação
ao que eu recebia antes. Estou tendo uma sobrecarga com essa
novidade de todo mundo querer entrar em contato e conversar.
É até um pouco complicado.
GE.Net: Mas na segunda corrida que você venceu
na Fórmula 3 Inglesa este ano houve até fãs
correndo atrás de você, não foi?
BS: Aqui no autódromo sempre tem bastante
gente que é fanática pelo automobilismo e, desde
o primeiro dia, teve gente que me pedia autógrafo.
Acho que este ano foi um pouco diferente porque eu vim de
três vitórias na F3 Australiana, e, quando eu
cheguei aqui, realmente tinha bastante gente na frente no
pódio (o paddock da F3 é aberto), mas foi legal.
É um carinho que as pessoas estão dando e é
por admiração. Se for algo educado tudo bem,
o problema é quando passa dos limites. Mas por enquanto
não houve problema nenhum.
GE.Net: Você espera ter uma pequena queda natural
de rendimento no decorrer da temporada ou pretende manter
o ritmo forte das primeiras corridas?
BS: Espero melhorar ainda mais o trabalho que eu
estou fazendo, mas, como é natural em uma competição,
não sou só eu que vou melhorar. Todos vão
melhorar também, então o campeonato vai ser
acirrado. Acho que o importante é melhorar sempre.
GE.Net: O que ocorreu para os seus resultados melhorarem
tanto de 2005 para 2006?
BS: A partir da segunda metade do ano passado eu
já tinha um ritmo bem mais forte, com possibilidade
de ganhar corridas. Na última etapa do ano eu não
fiz pole e não ganhei a corrida porque os outros pilotos
estavam com motor novo e eu não tinha esse equipamento
ainda. Isso deu uma diferença. Este ano eu já
vim com muito da aprendizagem do ano passado, mais o que eu
fiz na Austrália. O carro, toda a parte técnica
e a equipe também melhoraram. Eu aprendi mais também.
Então todos estes fatores juntos estão contribuindo
para os resultados. Só que, óbvio, tem muita
coisa para fazer. Esta foi só a primeira etapa, tem
ainda mais dez e eu preciso manter o ritmo e aumentar ainda
mais o esforço.
GE.Net: Quais são as principais lembranças
que você tem do Ayrton?
BS: Fora as corridas, que eu acompanhava sempre,
eu tenho memória dele nas férias, que é
quando ele geralmente estava em casa. A gente ia para Angra,
se divertia no mar, andava de barco, essas coisas assim...
E uma ou duas vezes nós andamos juntos de kart na fazenda.
GE.Net: Você procura se inspirar nele como
piloto ou quer desenvolver um estilo próprio de pilotagem?
BS: Cada piloto tem seu estilo de pilotagem. Quem
tenta copiar alguém nunca vai ser bem-sucedido porque
cada cérebro entende certas coisas de certa forma.
Eu não tento imitar o Ayrton de forma nenhuma. Tive
a história para aprender com os erros e os acertos
dele. Tudo o que eu posso fazer é aprender com os valores,
com a carreira dele, nunca com a pilotagem. A experiência
de corrida, alguma malandragem, você aprende, mas a
pilotagem em si, não. Minha pilotagem é completamente
diferente.
GE.Net: Como você vê seu desempenho corridas
de chuva, em que seu tio era excelente?
BS: Graças a Deus, eu tive bastante oportunidade
para andar no molhado aqui e desde o começou eu consegui
um bom desempenho. Esse ano, quase todos os dias de teste
foi no molhado e eu fui o mais rápido. Acho que esse
gene vem de família. (risos).
GE.Net: O nome Senna pode te atrapalhar em algum
momento?
BS: Não. Se eu tivesse uma personalidade diferente,
provavelmente isso poderia bater na minha cabeça. Mas
no final das contas, o sobrenome me abriu muitas oportunidades,
criou chances e é por esse lado que eu levo. É
óbvio que existe uma pressão porque todo mundo
presta mais atenção em mim. Com certeza, se
eu não tivesse esse sobrenome, meus feitos este ano
não teriam um terço da importância. O
importante é manter a cabeça, os pés
no chão e continuar trabalhando. A pior pressão
que eu sofro é o perfeccionismo, a minha vontade de
obter resultados.
GE.Net: Na sua opinião, o talento é
genético?
BS: Eu gostaria que fosse, porque aí eu estaria
tranqüilo (risos). Acho que existem algumas coisas que
podem ser genéticas, mas o mais importante é
você saber que tem o potencial e trabalhar para se desenvolver.
GE.Net: Você tem um prazo para chegar na Fórmula
1?
BS: Não existe um prazo, mas um planejamento.
O nosso plano original é este ano na Fórmula
3, mais um ou dois anos de GP2 e, de repente, Fórmula
1. Mas tudo isso depende de como eu vou me desenvolver e das
oportunidades que forem surgindo. Tem muita coisa que pode
sair completamente fora do planejado, mas este é um
plano razoável considerando a pouca experiência
que eu tenho.
GE.Net: Você aceitaria entrar na Fórmula
1 como piloto de testes?
BS: Eu não sei, depende das circunstâncias.
De repente, se eu puder ser piloto de testes e fazer uma temporada
de GP2 ao mesmo tempo, isso poderia ser uma opção.
Tudo depende de como as oportunidades se apresentarem.
GE.Net: Você acha possível a imprensa
inventar uma rivalidade entre você e o Nelsinho Piquet?
BS: Acho, mas eu adianto que isso não é
possível hoje em dia. Primeiro porque a gente nunca
disputou nas mesmas pistas, então é um tanto
difícil criarem qualquer rivalidade entre nós.
Pessoalmente, a gente se dá muito bem quando nos encontramos,
não temos nenhum problema de relacionamento. Se um
dia a gente se encontrar na pista e for disputar posição,
acho que a rivalidade vai ser igual como com qualquer outro
piloto. Não será especial porque ele é
o Nelsinho.
GE.Net: Durante o período que você se
afastou do automobilismo, chegou a pensar em ter outra profissão?
BS: Minha intenção era ter outra profissão,
mas nunca esquecer o automobilismo. O que eu quis fazer foi
ter outra profissão que me possibilitasse ter o automobilismo
como hobby. Queria ter o automobilismo de alguma forma na
minha vida, independente da profissão que eu fosse
seguir. Mas como, graças a Deus, tive a oportunidade
de ter o automobilismo como profissão, eu pude unir
o útil ao agradável.
GE.Net: Nem quando você sofreu o acidente de
kart (quatro meses após voltar a correr – Bruno
ficou cerca de 10 anos parado por conta da morte de Ayrton
-, o piloto sofreu um acidente de kart e quebrou cinco costelas)
pensou em desistir?
BS: Era complicado ficar muito tempo parado, realmente
isso me deixava extremamente estressado. Mas você tem
que ser persistente com todos os seus objetivos, às
vezes as coisas não são feitas para ser da forma
como a gente acha. De repente, a opção certa
foi realmente pular o kart, eu poderia não aprender
tudo o que eu precisava lá. A Fórmula 3 não
é fácil, já passei por muitas dificuldades.
Alguém poderia fazer a mesma pergunta para mim: “Você
não pensa em desistir quando passa por alguma dificuldade?”.
Mas não, eu não penso em desistir. Só
vou desistir quando eu tiver certeza de que eu não
sou bom. E por enquanto eu não tenho essa certeza.
GE.Net: Mas com os seus últimos resultados
você nem pode pensar em uma coisa dessas por enquanto...
BS: Sim, mas muitas vezes você chega em uma
pista e, por alguma situação, acaba perdendo
um pouco a confiança ou porque o carro não está
bom ou você não está em um dia bom. Aí
acaba se perguntando: “Será que eu não
estou bom?”. Tem muitas circunstâncias que você
pode se questionar, mas o importante é manter a cabeça
no lugar.
GE.Net: Qual é maior dificuldade que você
está enfrentando neste momento?
BS: Acho que o mais difícil hoje em dia é
aprender algumas manhas que os pilotos mais experientes já
têm. Eles sabem mais de pneus, eles conhecem mais de
estratégias de corrida. Mas o complicado mesmo é
corrida, situação de disputa, estratégia.
O único jeito de aprender é correndo, você
não consegue tirar isso de outra forma. Este está
sendo o meu maior aprendizado. Ainda preciso aprender muita
coisa.
GE.Net: A sua mãe está temerosa, mas
já aceitou a sua opção. E o seu avô?
BS: A família inteira tem um pouco de receio,
até por causa do histórico, mas acho que ele
respeita a minha opinião, a minha vontade, o meu sonho
e autoriza.
GE.Net: Além do Ayrton, você se inspira
em mais algum piloto ou atleta?
BS: Todos os pilotos que colocam um esforço
extra. Admiro quem faz as coisas por merecer e o profissionalismo.
Acho que o Kimi é um piloto que aproveita o talento
dele e é profissional. O Schumacher está aí
até hoje e não quer sair por baixo. Admiro essa
persistência dele, essa gana por vencer. O Alonso também,
por ser um piloto muito completo.
GE.Net: Como você vê a atual Fórmula
1?
BS: Há muitos pilotos promissores. A Fórmula
1 atual está competitiva, é difícil ter
um ano em que duas ou três equipes estão nessa
situação. Às vezes alguns pilotos surpreendem,
mas por enquanto a Renault é superior às outras.
GE.Net: O fato de o Alonso ser o campeão mais
jovem da história te incentiva? É a prova de
que um piloto jovem pode chegar e vencer gente mais velha,
como o Schumacher?
BS: Com certeza. A experiência tem um papel
muito importante, mas não depende só disso,
depende de talento, de oportunidade. Tem muitas circunstâncias
que podem influenciar nos resultados. No ano passado o Alonso
foi campeão porque tinha um carro mais confiável.
A McLaren tinha um carro muito bom, mas não era tão
confiável quanto a Renault. Se não fosse isso,
o Kimi seria campeão.
GE.Net: Qual é a importância do Gehard
Berger (ex-piloto e um dos maiores amigos de Senna) na sua
carreira?
BS: Ele é extremamente importante, desde que
eu sentei no carro pela primeira vez. O Berger me dá
conselhos, boas dicas. Ele tem muita experiência, sempre
foi o próprio empresário dele. Eu estou na Fórmula
3 desde o ano passado por opinião dele, que sabe assumir
alguns riscos calculados. Está dando muito certo. Devo
muito ao Berger. Ele é o meu conselheiro.
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