Emanuel Colombari, especial para a
GE.Net
Popó Bueno tinha tudo para ser um piloto que não precisa provar
nada a ninguém. Campeão carioca de kart aos 11 anos, prometia
ser mais um bom nome a representar o Brasil no automobilismo
internacional, mas a carreira teve que ser abreviada por um
motivo até certo ponto incomum entre os outros pilotos: notas
ruins na escola.
De volta ao mundo automobilístico em 97, Popó disputou a
extinta Fórmula Rio e a Fórmula Chevrolet, onde conquistou
o título na temporada de 2000. As portas do mundo das corridas
estavam novamente abertas para Popó, que garantiu o acesso
à Fórmula Renault européia em 2001. No ano seguinte, contudo,
o carioca sofreu um grave acidente em Monza e cogitou dar
novamente adeus prematuro ao capacete.
Não conseguiu, mas não deixaria de enfrentar dificuldade.
Em 2003, apareceu a oportunidade de correr na Stock Car, onde
Paulo Eduardo Ferro Costa Galvão Bueno teria que driblar mais
percalços do que nunca: a começar pelo sobrenome, que não
esconde a origem nobre do piloto, filho do locutor esportivo
Galvão Bueno. No primeiro momento, sua chegada foi recebida
com desconfiança, especialmente pela atenção que a Rede Globo
dava à categoria e pelo ‘apreço’ que a torcida costuma demonstrar
por seu pai em determinadas ocasiões.
Para ‘piorar’, Popó ainda contaria com a presença do irmão
Cacá Bueno, que lutaria pelo título nas temporadas de 2004
e 2005, sagrando-se campeão em 2006. Ruim para ele, que foi
21º na temporada de estréia? Não. Popó ainda foi 15º na classificação
de 2004 e 14º em 2006, mas acredita que chegou a hora de provar
que não está na Stock apenas por ser da família. Está na hora
de Popó mostrar que também tem talento.
Louco por futebol, este flamenguista de 28 anos garante
que a temporada de 2007 pode ser a sua grande chance de mostrar
serviço. Em entrevista à Gazeta Esportiva.Net, o piloto da
equipe Hot Car comemora a evolução da categoria nos últimos
anos, mas acredita que nem mesmo o regulamento neste ano atrapalhará
os planos de equipe de se classificar para os playoffs decisivos
do título.
Gazeta Esportiva.Net - É complicado ser irmão do Cacá?
Popó Bueno - É engraçado que me fazem essa pergunta:
se é complicado ser o filho do Galvão, se é complicado ser
irmão do Cacá... Eu respondo sempre que eu tenho muito orgulho
de ser filho do Galvão, por tudo que ele representa, pelo
profissional que ele é e por tudo que ele conseguiu. Tenho
muito orgulho de ser irmão do Cacá também, por tudo que ele
vem conseguindo no automobilismo. Ele sempre foi um piloto
dedicado aos carros de turismo, sempre correu nesse tipo de
carro e tem muita experiência por ter corrido fora do Brasil...
Tenho muito orgulho de tê-lo como irmão. Pra mim não atrapalha
em nada: a cobrança é normal, vai existir sempre.
GE.Net - Quais são as expectativas para essa temporada?
Chegar ao playoff é uma delas?
Popó - O campeonato está mais competitivo do que
em 2006, quando a gente não entrou no playoff por muito pouco
– na última corrida em Brasília faltaram dois pontos. Foram
alguns problemas que aconteceram, então a gente aprendeu com
esses erros e não vai cometê-los este ano. É lógico que eu
quero ser campeão da Stock Car, como todos os 50 carros que
aqui estão, mas a minha meta é estar no playoff. No final
do ano, naquelas últimas quatro corridas, o destaque vai estar
nos dez primeiros, então a gente tem que estar ali de qualquer
jeito.
GE.Net - Como tem sido a adaptação aos novos pneus
e à entrada do nitro na categoria?
Popó - O primeiro contato que eu tive aos novos pneus
foi no treino coletivo de terça-feira. Posso dizer que são
diferentes. Se você for comparar em termos de competitividade,
de performance, o pneu é pior – nós perdemos cerca de três
segundos (por volta) em nosso tempo. Acho que não vai fazer
tanta diferença para o público se o carro for três segundos
mais lento ou mais rápido. As disputas serão as mesmas. O
nitro deve ser colocado em prática em corrida, então poderei
dizer ao certo como será a resposta. Mas eu acho que qualquer
coisa que seja benéfica para a categoria e para deixar as
disputas mais acirradas será melhor para todos os pilotos.
GE.Net - O que aconteceu que deixou o pneu tão mais
lento?
Popó - O pneu que a gente usava era italiano e participava
de competições lá fora. Em performance, era melhor do que
esse, que é nacional e mais barato. O custo é das equipes
e isso não chega a atingir diretamente o piloto, mas o mais
importante é que ele é igual para todo mundo. Você tem que
começar o acerto do zero, porque você muda o composto do pneu
e o carro exige um acerto completamente diferente. Não tem
nada a ver com o que tínhamos no ano passado. Essa primeira
corrida vai depender muito da competência das equipes na questão
da adaptação: é um pneu que é muito diferente, e quem conseguir
se adaptar... Tenho certeza que, na próxima corrida em São
Paulo (no encerramento da temporada), já estaremos virando
mais rápido do que agora. É uma evolução.
Ge.Net - A gente tem acompanhado a entrada de muitos
patrocinadores e de outras marcas na categoria. Como os pilotos
têm recebido o crescimento da Stock?
Popó - É natural, né? A Stock vem crescendo desde
a entrada da televisão, em um crescimento muito grande. Atrai
mais a atenção do público, atrai a atenção da mídia e, conseqüentemente,
vai atrair a atenção dos patrocinadores. O custo também vem
crescendo. São feitas melhorias tecnológicas nos carros, então
está cada vez mais caro para se correr na Stock Car. Mas é
um crescimento natural: entrando mais patrocínio, fica mais
fácil para se arrumar verba.
Ge.Net - O grid terá no máximo 38 carros, sendo
que há quase 50 pilotos inscritos. Existe a preocupação de
ficar de fora da prova? A classificação vai se tornar mais
‘pesada’ por conta disso?
Popó - Acho que dá medo para os outros. Eu tenho
a classificação garantida por uma regra do campeonato, que
assegura os 25 primeiros da temporada passada entre os 38.
Segundo os números que eu vi, serão 23 pilotos que vão disputar
11 vagas (na verdade, 24 para 13). Para esses pilotos, existe
um peso maior na classificação. Ficar de fora de uma corrida
é uma coisa que não dá nem pra pensar: chegar no seu patrocinador
e explicar que ele pagou, mas não vai correr e a marca não
vai aparecer na TV...
GE.Net - Você acredita que as equipes que não conseguirem
se classificar tendem a deixar a categoria ou vão conseguir
se manter?
Popó - Não sei se é uma desistência, mas tende a
haver uma seleção natural. Se o grid for definido em 38 (pilotos),
tenho certeza que, daqui um ou dois anos, vai ficar a nata,
apenas os melhores. Na regra ficarão apenas as 16 melhores
equipes no ano que vem, e as que ficarem para trás vão ter
que sair da categoria. Precisa ser feito isso. Nós estamos
atraindo mais gente, mais dinheiro, mais equipes e mais pilotos
com grana para participar, mas aqui é uma categoria profissional
e feita para pilotos profissionais. Existem outras categorias
para pilotos amadores, que querem se divertir e que querem
isso como hobby.
GE.Net - Como tem sido a competição dos últimos
anos, do pessoal mais novo que tem entrado, como o Giuliano
Losacco e o Cacá, com pessoal mais experiente, como o Ingo
Hoffmann?
Popó - O Ingo é um ícone, um ídolo de todos os pilotos.
Todo mundo se espelha nele, porque ele tem mais de 50 anos
e consegue ser tão rápido quando a molecada que está entrando.
Eu estou com 28 anos, tem ainda um pessoal com 20 ou 21 anos,
mas o Ingo foi o primeiro no treino (livre) da terça-feira
e ganhou corrida no playoff do final do ano passado. Isso
prova que ele ainda é muito rápido e que não vai parar tão
cedo. Quando colocamos o capacete e o carro está na pista,
é claro que o nome do Ingo Hoffmann tem peso. Mas se você
for mais rápido que o cara, você vai tentar passar, seja quem
for. Pra mim, pode ser o Cacá ou qualquer um, que eu vou tentar
ultrapassar.
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