Felipe Held, especial para a GE.Net
Assim que o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula
1 terminou, Felipe Massa viu seu companheiro
Kimi Raikkonen ficar com o título
do Mundial de Pilotos de 2007. Vítima de sucessivas trapalhadas da Ferrari, o brasileiro terminou o ano na quarta colocação,
mas não escondeu o sonho de se tornar campeão em 2008. “Um
dia pode ser eu (o campeão)”, vislumbrou.
No entanto, o otimismo de Massa pára nas palavras de um
ex-bicampeão da categoria. Para o também finlandês Mika Hakkinen,
dono dos troféus dos anos de 1998 e 1999, as chances de o
brasileiro obter em 2008 o feito do Homem de Gelo são remotíssimas
por um simples motivo: “A Ferrari é feita para o Raikkonen”,
sintetizou, em conversa reservada com a reportagem da Gazeta
Esportiva.Net.
De acordo com Hakkinen, o time de Maranello irá se fechar
em torno de seu compatriota, assim como aconteceu durante
a era do alemão Michael Schumacher. “Naturalmente, a equipe
vai se voltar mais para o Raikkonen do que para o Massa. O
Felipe, além de ser um cara bacana, é um piloto muito talentoso.
Mas o fato é que o Kimi é melhor”, opinou.
Além de minimizar as chances do brasileiro, o finlandês
revelou o que faltou à McLaren para ver um de seus pilotos
faturar o título de campeão da temporada: maturidade. “O Fernando
Alonso, bicampeão, não conseguia imaginar como um novato de
22 anos como o Lewis Hamilton poderia batê-lo. Esse problema
psicológico atrapalhou, só que estamos falando de um piloto
de 26 anos e de outro de 22. Eles são muito jovens e têm pouca
experiência!”, avaliou.
Afastado da Fórmula 1 desde 2001, Hakkinen atualmente atua
como piloto da equipe Mercedes na DTM (Deutsche Tourenwagen
Masters, categoria alemã disputada com carros de turismo)
e também como embaixador do projeto Piloto da Vez, criado
por um dos patrocinadores da McLaren com o objetivo conscientizar
motoristas do perigo de dirigir após consumir bebidas alcoólicas.
Apesar de ainda minimamente se manter ligado à Fórmula 1,
o finlandês afasta qualquer hipótese de retorno à principal
competição do automobilismo mundial. “Convivi por muitos anos
com o ambiente da modalidade. Trata-se de uma vida bastante
puxada e não quero mais isso para mim”, brincou.
Gazeta Esportiva.Net: Antes de a temporada começar,
qual era a sua aposta para o Mundial de Pilotos?
Mika Hakkinen: Na pré-temporada, eu estava certo
de que a Ferrari estava muito bem preparada, mas depois de
algumas corridas a McLaren se tornou a mais forte. Antes do
início do campeonato, eu já tinha visto alguns testes de motor
da McLaren e tinha ficado muito confiante, imaginando que
seria o time a ser batido. Olhando para os resultados do Fernando
e do Lewis, achei que os dois brigariam pelo título entre
eles, embora não soubesse exatamente qual.
GE.Net: Você é finlandês, viveu sua melhor época
da carreira na McLaren e até hoje ainda está envolvido com
a escuderia inglesa. Durante o GP Brasil, para quem você torceu?
Raikkonen, Alonso ou Hamilton?
Hakkinen: Meus sentimentos se misturaram bastante.
Eu queria que o campeão fosse da McLaren e torci de verdade
para a equipe em si, e não me importava se o vencedor fosse
o Fernando ou o Lewis. Só que torci para o Kimi também e estou
muito feliz com a vitória dele
GE.Net: Qual a importância de mais um piloto finlandês
faturar o Mundial de Pilotos?
Hakkinen: Foi um acontecimento fantástico. Na Finlândia
há quase 5,5 milhões de pessoas e temos apenas três campeões
mundiais de Fórmula 1. Para mim, acho que esse título foi
algo incrível e bom para o país em si, pois motivou a nação
inteira de vários modos. Algo assim também incentiva os jovens
que praticam esporte, em especial de automobilismo. Agora
eles têm alguém para alcançar.
| Foto: AFP |
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| Para bicampeão não há dúvida,
Ferrari irá relegar Massa a segundo plano em 2008 depois da conquista de Raikkonen |
GE.Net: E quanto à temporada do Kovalainen, que era
uma forte esperança da Renault, mas acabou terminando a temporada
apenas na sétima colocação e cotado para deixar a F-1?
Hakkinen: O Heikke teve um ano muito difícil e terminou
a temporada na mesma situação. O ano de estréia na Fórmula
1 é muito complicado, ainda mais se você não tiver um carro
que atinja o máximo de seu potencial. Acho que o Heikke precisa
de um pouco mais de prática, mas também precisa pegar leve
e relaxar. Assim ele pode continuar na F-1 e ter melhores
resultados.
GE.Net: A Finlândia já formou três campeões mundiais
de F-1: você, o Raikkonen e o Keke Rosberg. Você aposta em
algum outro nome do seu país para ganhar mais um título?
Hakkinen: Aposto em muitos, mas apenas para o futuro.
Por enquanto, minhas esperanças são o Kimi e o Heikke.
GE.Net: E quanto ao Felipe Massa? Depois do GP do
Brasil, ele disse que ainda sonha em se tornar campeão. Você
acha que isso é possível?
Hakkinen: A Ferrari é feita para o Raikkonen. A vida
do Felipe será muito difícil porque o Kimi vai ganhar confiança
extra depois do título mundial. Tanto que, no momento, ele
acredita que pode fazer tudo, até mesmo andar sobre a água.
O Raikkonen está muito confiante para a próxima temporada
e agora, mais do que nunca, vai andar sempre no limite do
carro. Naturalmente, a equipe vai se voltar mais para o Kimi
do que para o Massa, já que se trata de um campeão mundial.
O Felipe, além de ser um cara bacana, é um piloto muito talentoso.
Mas o fato é que o Kimi é melhor.
GE.Net: E você acredita que o Raikkonen será o principal
rival do Alonso nas próximas temporadas?
Hakkinen: Acho que a situação é a seguinte: o Kimi
está na mesma condição do Lewis, e no futuro eles sempre estarão
disputando. Estou muito confiante com o trabalho duro que
a McLaren vai fazer nessa pausa do inverno (europeu) e creio
que o time irá para 2008 com um carro incrível. E os pilotos,
o Lewis e talvez o Fernando, terão que treinar física e psicologicamente
mais do que qualquer outro piloto da Fórmula 1. Teremos uma
temporada interessante no ano que vem, só nos resta esperar.
GE.Net: Você disse ‘talvez o Alonso’. Você acha que
ele não continua na McLaren em 2008?
Hakkinen: É difícil falar sobre isso, pois essa decisão
não passa por mim. Mas vou dizer algo um pouco forte a respeito
do assunto. Se todos tivessem acompanhado essa temporada bem
de perto, perceberiam que o Fernando é o tipo de pessoa que
manda e os outros obedecem. Definitivamente, ele não abre
muito espaço para receber conselhos.
| Foto: AFP |
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| Hakkinen afirma que Alonso “manda, não
aceita conselhos” e, por isso, é difícil
prever seu futuro |
GE.Net: O que de fato aconteceu para abalar o relacionamento
entre Alonso e Hamilton, que no início do ano parecia ser de
amizade?
Hakkinen: O que aconteceu é muito simples. O Alonso
era o atual bicampeão, cheio de confiança e que tinha a vontade
de ganhar corridas e o terceiro campeonato. O Lewis é um piloto
novo e sem muita experiência, mas que andou mais rápido do que
o Fernando. Naturalmente, o Alonso começou a pensar que a McLaren
estava favorecendo o Hamilton. Claro que isso não acontecia,
mas era o que ele imaginava. Como era duas vezes campeão, o
Alonso não conseguia imaginar como um novato de 22 anos poderia
batê-lo. Psicologicamente, outro fator que ajudou foi Alonso
ser espanhol e o Lewis, inglês. Isso fez com que tudo ficasse
de ponta cabeça. O Fernando passou a se sentir desconfortável
no time e a achar a vida injusta.
GE.Net: E esses problemas minaram as chances de a McLaren
formar o campeão da temporada?
Hakkinen: Acho que muitas coisas ruins aconteceram
na McLaren durante a temporada como o caso de espionagem, que
deixou o clima na equipe bastante ruim. É claro que esse problema
psicológico atrapalhou. Estamos falando de dois pilotos, um
de 26 anos e outro de 22. Eles são muito jovens e têm pouca
experiência! Em casos assim, deve haver um forte trabalho por
trás, com pessoas explicando-lhes que o mundo não vai acabar
hoje, mas que eles ainda terão anos pela frente e por isso têm
que pensar duas vezes em seus atos. Mas isso já é outra situação.
GE.Net: Você correu em Interlagos no tempo em que a
pista era muito ruim e neste ano acompanhou o GP depois do recapeamento.
Na sua opinião, o circuito melhorou ou as ondulações no asfalto
continuam?
Hakkinen: Eu corri pela primeira vez em Interlagos
em 1991 e o asfalto era bem ruim. A cada ano o circuito era
recapeado, todo ano havia reformas... e ainda há problemas,
até 2007. Não dirigi este ano, mas falei com outros pilotos
e eles me disseram que ainda há ondulações. Não sei se está
melhor. Enfim, estamos no Brasil.
GE.Net: Antes de o Alonso assinar com a McLaren para
2007, houve muitos boatos sobre um possível retorno do Mika
Hakkinen à Fórmula 1. Ainda há alguma chance de você voltar
à modalidade?
Hakkinen: Nas últimas três temporadas, venho competindo
na Alemanha na DTM, com carros de turismo. É uma competição
legal e me diverti bastante. Quanto à Fórmula 1, vou fazer 40
anos. Estou muito velho (risos). A Fórmula 1 é uma ótima modalidade,
mas para mim já é passado. Faço apenas parte da história.
GE.Net: Isso quer dizer que você não pretende trabalhar
nem nos bastidores da categoria?
Hakkinen: Atualmente, sou embaixador do Piloto da Vez,
mas não estou diretamente ligado à Fórmula 1. Poderia estar
mais envolvido, mas é decisão minha não estar. Convivi por muitos
anos com o ambiente da modalidade e trata-se de uma vida bastante
puxada. Não quero mais isso para mim. |