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23/10/2007
Montagem sobre foto Túlio Vidal/Gazeta Press

Felipe Held, especial para a GE.Net

Assim que o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 terminou, Felipe Massa viu seu companheiro Kimi Raikkonen ficar com o título do Mundial de Pilotos de 2007. Vítima de sucessivas trapalhadas da Ferrari, o brasileiro terminou o ano na quarta colocação, mas não escondeu o sonho de se tornar campeão em 2008. “Um dia pode ser eu (o campeão)”, vislumbrou.

No entanto, o otimismo de Massa pára nas palavras de um ex-bicampeão da categoria. Para o também finlandês Mika Hakkinen, dono dos troféus dos anos de 1998 e 1999, as chances de o brasileiro obter em 2008 o feito do Homem de Gelo são remotíssimas por um simples motivo: “A Ferrari é feita para o Raikkonen”, sintetizou, em conversa reservada com a reportagem da Gazeta Esportiva.Net.

De acordo com Hakkinen, o time de Maranello irá se fechar em torno de seu compatriota, assim como aconteceu durante a era do alemão Michael Schumacher. “Naturalmente, a equipe vai se voltar mais para o Raikkonen do que para o Massa. O Felipe, além de ser um cara bacana, é um piloto muito talentoso. Mas o fato é que o Kimi é melhor”, opinou.

Além de minimizar as chances do brasileiro, o finlandês revelou o que faltou à McLaren para ver um de seus pilotos faturar o título de campeão da temporada: maturidade. “O Fernando Alonso, bicampeão, não conseguia imaginar como um novato de 22 anos como o Lewis Hamilton poderia batê-lo. Esse problema psicológico atrapalhou, só que estamos falando de um piloto de 26 anos e de outro de 22. Eles são muito jovens e têm pouca experiência!”, avaliou.

Afastado da Fórmula 1 desde 2001, Hakkinen atualmente atua como piloto da equipe Mercedes na DTM (Deutsche Tourenwagen Masters, categoria alemã disputada com carros de turismo) e também como embaixador do projeto Piloto da Vez, criado por um dos patrocinadores da McLaren com o objetivo conscientizar motoristas do perigo de dirigir após consumir bebidas alcoólicas.

Apesar de ainda minimamente se manter ligado à Fórmula 1, o finlandês afasta qualquer hipótese de retorno à principal competição do automobilismo mundial. “Convivi por muitos anos com o ambiente da modalidade. Trata-se de uma vida bastante puxada e não quero mais isso para mim”, brincou.

Gazeta Esportiva.Net: Antes de a temporada começar, qual era a sua aposta para o Mundial de Pilotos?
Mika Hakkinen:
Na pré-temporada, eu estava certo de que a Ferrari estava muito bem preparada, mas depois de algumas corridas a McLaren se tornou a mais forte. Antes do início do campeonato, eu já tinha visto alguns testes de motor da McLaren e tinha ficado muito confiante, imaginando que seria o time a ser batido. Olhando para os resultados do Fernando e do Lewis, achei que os dois brigariam pelo título entre eles, embora não soubesse exatamente qual.

GE.Net: Você é finlandês, viveu sua melhor época da carreira na McLaren e até hoje ainda está envolvido com a escuderia inglesa. Durante o GP Brasil, para quem você torceu? Raikkonen, Alonso ou Hamilton?
Hakkinen:
Meus sentimentos se misturaram bastante. Eu queria que o campeão fosse da McLaren e torci de verdade para a equipe em si, e não me importava se o vencedor fosse o Fernando ou o Lewis. Só que torci para o Kimi também e estou muito feliz com a vitória dele

GE.Net: Qual a importância de mais um piloto finlandês faturar o Mundial de Pilotos?
Hakkinen:
Foi um acontecimento fantástico. Na Finlândia há quase 5,5 milhões de pessoas e temos apenas três campeões mundiais de Fórmula 1. Para mim, acho que esse título foi algo incrível e bom para o país em si, pois motivou a nação inteira de vários modos. Algo assim também incentiva os jovens que praticam esporte, em especial de automobilismo. Agora eles têm alguém para alcançar.

Foto: AFP
Foto: AFP
Para bicampeão não há dúvida, Ferrari irá relegar Massa a segundo plano em 2008 depois da conquista de Raikkonen

GE.Net: E quanto à temporada do Kovalainen, que era uma forte esperança da Renault, mas acabou terminando a temporada apenas na sétima colocação e cotado para deixar a F-1?
Hakkinen:
O Heikke teve um ano muito difícil e terminou a temporada na mesma situação. O ano de estréia na Fórmula 1 é muito complicado, ainda mais se você não tiver um carro que atinja o máximo de seu potencial. Acho que o Heikke precisa de um pouco mais de prática, mas também precisa pegar leve e relaxar. Assim ele pode continuar na F-1 e ter melhores resultados.

GE.Net: A Finlândia já formou três campeões mundiais de F-1: você, o Raikkonen e o Keke Rosberg. Você aposta em algum outro nome do seu país para ganhar mais um título?
Hakkinen:
Aposto em muitos, mas apenas para o futuro. Por enquanto, minhas esperanças são o Kimi e o Heikke.

GE.Net: E quanto ao Felipe Massa? Depois do GP do Brasil, ele disse que ainda sonha em se tornar campeão. Você acha que isso é possível?
Hakkinen:
A Ferrari é feita para o Raikkonen. A vida do Felipe será muito difícil porque o Kimi vai ganhar confiança extra depois do título mundial. Tanto que, no momento, ele acredita que pode fazer tudo, até mesmo andar sobre a água. O Raikkonen está muito confiante para a próxima temporada e agora, mais do que nunca, vai andar sempre no limite do carro. Naturalmente, a equipe vai se voltar mais para o Kimi do que para o Massa, já que se trata de um campeão mundial. O Felipe, além de ser um cara bacana, é um piloto muito talentoso. Mas o fato é que o Kimi é melhor.

GE.Net: E você acredita que o Raikkonen será o principal rival do Alonso nas próximas temporadas?
Hakkinen:
Acho que a situação é a seguinte: o Kimi está na mesma condição do Lewis, e no futuro eles sempre estarão disputando. Estou muito confiante com o trabalho duro que a McLaren vai fazer nessa pausa do inverno (europeu) e creio que o time irá para 2008 com um carro incrível. E os pilotos, o Lewis e talvez o Fernando, terão que treinar física e psicologicamente mais do que qualquer outro piloto da Fórmula 1. Teremos uma temporada interessante no ano que vem, só nos resta esperar.

GE.Net: Você disse ‘talvez o Alonso’. Você acha que ele não continua na McLaren em 2008?
Hakkinen:
É difícil falar sobre isso, pois essa decisão não passa por mim. Mas vou dizer algo um pouco forte a respeito do assunto. Se todos tivessem acompanhado essa temporada bem de perto, perceberiam que o Fernando é o tipo de pessoa que manda e os outros obedecem. Definitivamente, ele não abre muito espaço para receber conselhos.
Foto: AFP
Foto: AFP
Hakkinen afirma que Alonso “manda, não aceita conselhos” e, por isso, é difícil prever seu futuro
GE.Net: O que de fato aconteceu para abalar o relacionamento entre Alonso e Hamilton, que no início do ano parecia ser de amizade?
Hakkinen:
O que aconteceu é muito simples. O Alonso era o atual bicampeão, cheio de confiança e que tinha a vontade de ganhar corridas e o terceiro campeonato. O Lewis é um piloto novo e sem muita experiência, mas que andou mais rápido do que o Fernando. Naturalmente, o Alonso começou a pensar que a McLaren estava favorecendo o Hamilton. Claro que isso não acontecia, mas era o que ele imaginava. Como era duas vezes campeão, o Alonso não conseguia imaginar como um novato de 22 anos poderia batê-lo. Psicologicamente, outro fator que ajudou foi Alonso ser espanhol e o Lewis, inglês. Isso fez com que tudo ficasse de ponta cabeça. O Fernando passou a se sentir desconfortável no time e a achar a vida injusta.

GE.Net: E esses problemas minaram as chances de a McLaren formar o campeão da temporada?
Hakkinen:
Acho que muitas coisas ruins aconteceram na McLaren durante a temporada como o caso de espionagem, que deixou o clima na equipe bastante ruim. É claro que esse problema psicológico atrapalhou. Estamos falando de dois pilotos, um de 26 anos e outro de 22. Eles são muito jovens e têm pouca experiência! Em casos assim, deve haver um forte trabalho por trás, com pessoas explicando-lhes que o mundo não vai acabar hoje, mas que eles ainda terão anos pela frente e por isso têm que pensar duas vezes em seus atos. Mas isso já é outra situação.

GE.Net: Você correu em Interlagos no tempo em que a pista era muito ruim e neste ano acompanhou o GP depois do recapeamento. Na sua opinião, o circuito melhorou ou as ondulações no asfalto continuam?
Hakkinen:
Eu corri pela primeira vez em Interlagos em 1991 e o asfalto era bem ruim. A cada ano o circuito era recapeado, todo ano havia reformas... e ainda há problemas, até 2007. Não dirigi este ano, mas falei com outros pilotos e eles me disseram que ainda há ondulações. Não sei se está melhor. Enfim, estamos no Brasil.

GE.Net: Antes de o Alonso assinar com a McLaren para 2007, houve muitos boatos sobre um possível retorno do Mika Hakkinen à Fórmula 1. Ainda há alguma chance de você voltar à modalidade?
Hakkinen:
Nas últimas três temporadas, venho competindo na Alemanha na DTM, com carros de turismo. É uma competição legal e me diverti bastante. Quanto à Fórmula 1, vou fazer 40 anos. Estou muito velho (risos). A Fórmula 1 é uma ótima modalidade, mas para mim já é passado. Faço apenas parte da história.

GE.Net: Isso quer dizer que você não pretende trabalhar nem nos bastidores da categoria?
Hakkinen:
Atualmente, sou embaixador do Piloto da Vez, mas não estou diretamente ligado à Fórmula 1. Poderia estar mais envolvido, mas é decisão minha não estar. Convivi por muitos anos com o ambiente da modalidade e trata-se de uma vida bastante puxada. Não quero mais isso para mim.


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