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Há 30 anos, o nadador Silvio Fiolo conseguiu o último grande resultado do Brasil no nado peito ao ficar em quinto lugar na Olimpíada de Munique/1972. Depois disso, o País enfrentou um período de escassez neste tipo de prova e não teve mais representantes à altura.

Ao mesmo tempo, o Brasil assistiu ao surgimento de Ricardo Prado, prata nos 200m medley em Los Angeles/1984, e aos triunfos de Gustavo Borges (quatro medalhas olímpicas) e Fernando Scherer (duas medalhas olímpicas), ambos no nado livre.

Divulgação/CBDA
Fischer (de branco) com o bronze em Moscou

Com isso, o nado peito ficou desprestigiado e tornou-se o grande problema brasileiro na prova do revezamento medley. Entretanto, a história está mudando com o catarinense Eduardo Fischer, que despontou no último domingo ao conquistar a medalha de bronze nos 50m peito no Mundial de Piscina Curta, realizado em Moscou.

Rei nesta especialidade há três anos no Brasil, Fischer já foi à Olimpíada de Sydney/2000 e, agora, sonha com vôos mais altos, como uma medalha olímpica ou no Mundial realizado em piscina olímpica.

Nesta terça-feira, o nadador desembarcou em São Paulo e deu entrevista no Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos. Confira abaixo os melhores trechos:

GE.Net: Como você avalia a sua performance em Moscou?
Fischer: Foi um campeonato muito forte e não esperava ganhar medalha. O bronze me surpreendeu, mas poderia ter sido melhor. Fico bastante feliz com o meu desempenho.

GE.Net: Como foi a final dos 50m peito?
Fischer: Eu esperava um tempo melhor na final. Fiz 27s26, mas poderia ter nadado em 27s00. Errei a virada e estava em sexto ou sétimo lugar na hora da virada. Isso mostrou minha força nos últimos 25m, já que levei o bronze. Se tivesse acertado a virada, eu até teria ficado com a medalha de prata, mas não tenho o que reclamar.

GE.Net: Quais foram as maiores dificuldades que encontrou na Rússia?
Fischer: O problema foi a alimentação, mas consegui nadar muito bem e o importante foi ter trazido esta medalha. A comida era muito gordurosa e tinha muito óleo. Era o frango nadador, que no final a gente brincava que fazia parte da seleção também. Era o 26º nadador da seleção (risos).

GE.Net: Você colocou o seu nome ao lado do Silvio Fiolo, que havia brilhado no nado peito há mais de 30 anos. Você esperava um dia chegar neste estágio?
Fischer: Eu já fiquei espantado de conseguir uma vaga na Olimpíada em 2000. Achei que fosse até o auge da minha carreira, mas a gente venho evoluindo. Isso me espanta muito e me deixa muito feliz, até me tornar, talvez, uma figura histórica para a natação. Nadador de peito ganhar uma medalha é muito difícil e espero que esse resultado venha a ajudar bastante.

Divulgação/CBDA
Medalha olímpica, novo alvo de Fischer

GE.Net: Porque o nado peito demorou tanto tempo para voltar a ter atletas de ponta no Brasil?
Fischer: O nado peito sempre foi o mais deixado de lado. A gente nunca teve grandes atletas e pessoas interessadas em treinar. Tivemos só o Fiolo, e sem ídolos, sem em quem se espelhar, você desestimula a criançada nova a treinar este estilo. Então a criança vai seguir o Gustavo e treinar o nado livre. Mas agora que a nova geração está vendo o peito se destacar, vai também pensar em nadar e vai ajudar o Brasil a crescer.

GE.Net: Qual a importância que esta medalha pode ter no desenvolvimento do nado peito no País?
Fischer: Isso é mais importante ainda, pois a gente só conquistava medalhas no nado livre. Então, agora, um atleta novo conquistar uma medalha no nado que não era o forte do Brasil, isso vai representar bastante. Creio que minha passagem, não trará benefícios só para mim, mas tem de trazer para a população, para o povo. A gente precisa largar esta idéia de que só existe futebol neste país.

GE.Net: Sonha em ser o substituto de Fernando Scherer ou Gustavo Borges?
Fischer: Tive uma ascensão boa. Não quero substituir ninguém, mesmo porque os feitos que o Scherer e o Gustavo têm são inesgotáveis. Eu estou aqui para somar e se entrar na piscina como mais um ídolo, mais uma revelação, isso vai ser muito importante e ajudar a natação do Brasil.

GE.Net: Você se espelhou muito neles para chegar ao nível que atingiu?
Fischer:Todos estes atletas, o Scherer, o Gustavo, o Rogério Romero, que faziam o Mundial na época que eu era mais novo serviram de exemplo. De repente, você começa a competir contra eles e com eles em torneios no Brasil. Tudo isso ajuda a gente a ver como um campeão faz para chegar lá e podemos seguir os passos do campeão.

GE.Net: O fato de o Scherer ser catarinense ajudou para que ganhasse um estímulo maior?
Fischer: Sem dúvida. Saber que um catarinense conseguiu é muito importante. Assim como o Guga. Sou um admirador muito grande do Guga. Ele competia os Jogos Abertos por Florianópolis no começo da carreira e eu sempre assistia aos jogos dele. Pô e ver que aquele manezinho da Ilha, fraquinho, se tornar o melhor jogador de tênis do mundo, isso serve de exemplo para qualquer esportista.

GE.Net: E agora, após a medalha, quais são seus planos para este ano?
Fischer: Quero ver se consigo o índice do Pan e da Olimpíada neste ano. Aproveitar que estou bem e já garantir minha vaga na Olimpíada. No final do ano vai dar para tentar bater o índice olímpico (que é de 1min01s88), pois sem fazer um treinamento específico eu já consegui 1min02s43, no Sul-americano realizado em Belém.

GE.Net: Você saiu do Vasco em dezembro do ano passado e foi para o Joinville. Como ficou sua situação lá no Vasco?
Fischer: Saí sem receber infelizmente. Isso me atrapalhou bastante. A gente passou um tempo difícil, porque não tinha renda, não tinha apoio de nenhum lugar, mas isso prova que a determinação de fazer o esporte por amor, não por dinheiro ou reconhecimento, é muito maior que qualquer coisa. E o resultado é esta medalha de bronze.

GE.Net: Quanto o seu retorno e do Fernando Scherer (que nada no 12 de Agosto) podem melhorar a natação de Santa Catarina?
Fischer: Esta medalha vai ajudar bastante no nosso estado. Estava meio parado o negócio lá, mas o presidente da Federação mudou, entrou o Marcelo Amin, e está entrando o apoio do Estado. Isso vai ajudar bastante, a gente tá com uma renovação boa no clube e acho que isso vai ajudar. O Fernando deve voltar para ficar e com o apoio do Estado vai crescer bastante. Vou ter uma tranqüilidade maior para treinar e focar nas competições. Isso é bem legal. Nós temos bastante material humano e só faltava um empurrãozinho.

GE.Net: O que falta para o Brasil ser uma potência? O que acha desta história que o atleta tem de sair para desenvolver a natação em outros locais, como EUA e Austrália?
Fischer: Este negócio de que nadador tem que sair do Brasil para dar resultado é um absurdo. O que nós precisamos é de atualização tecnológica. A gente não tem nada a perder em termos de atleta, mas só perde em tecnologia e estudo. Assim que tiver um incentivo legal do governo e das empresas, a gente vai ter condição de fazer pesquisas. Se você tivesse um pessoal maior, mais médicos, mais fisioterapeutas, mais biomecânicos, o pessoal se especializando na natação, o esporte irá melhorar cada vez mais.

GE.Net: Mudando de assunto, Fischer como foi o início de sua carreira?
Fischer: Eu comecei a treinar desde os 10 anos com o mesmo técnico de agora, o Ricardo Carvalho. Está dando resultado e em time que se ganha, não se mexe. Há dois anos, eu estou com um personal trainner, que faz o trabalho de preparação físico fora d’agua, que me deu um ganho muscular de massa muito grande para conseguir o resultado que obtivemos agora. É um trabalho muito bom e a equipe está trabalhando muito bem.

GE.Net: Quem te motivou a ir para a natação?
Fischer: Meu irmão nadava. Ele era campeão estadual. Resolvi me espelhar nele e achava legal o esporte e ver ele ganhando medalhas. Até os 15 anos, eu nadava o borboleta. Depois eu resolvi nadar o peito e acho que funcionou.

GE.Net:
Porque esta mudança de especialidade, Fischer?
Fischer: Até os 14 anos, eu acho que o atleta tem que nadar tudo. Você impor um estilo para uma criança de 12, 13 anos não é legal. No meu caso, foi assim. Nadava borboleta, mudei para o peito e gostei.

GE.Net: Além de você, o Brasil ainda tem o Marcelo Tomazini (que disputou os 100m e 200m peito em Moscou) no nado peito. Como é esta disputa entre vocês?
Fischer: Isso ajuda bastante. Eu troco idéia com ele. Ele tem uma resistência maior, nada prova de 200m peito e isso tenho muito a aprender. E ele tem muito a aprender comigo no nado mais explosivo nas provas mais rápidas. Você ter um outro atleta para treinar peito junto é muito bom. Fico super satisfeito que o Tomazini está dando resultado. Não quero ser o único nadador e isso vai fazer com que eu treine mais. É uma disputa saudável.

GE.Net: O que podemos esperar do Eduardo Fischer de agora em diante?
Fischer: Melhores resultados vão aparecer. Cada vez que cair na piscina, eu vou tentar melhorar meu tempo. A gente vai se esforçar ao máximo e se dedicar cada vez mais ao esporte e trazer mais medalhas ao Brasil.

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