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Ano: 1990. Um garoto baiano, Acelino
de Freitas, assiste na televisão às lutas de boxe
transmitidas semanalmente na TV Bandeirantes. A cada novo lutador
que sobe nos ringues, exclama: "esse eu ganho, esse eu
sou melhor, esse eu derrubo". O que na época parecia
ser apenas uma bravata de garoto que descobria o boxe, se tornou
uma profecia nove anos mais tarde, em 1999, quando, crescido
e ostentando o apelido de Popó, nocauteou o russo Anatoly
Alexandrov.
No dia 7 de agosto de 1999, o garoto vindo da Bahia se tornou
campeão mundial pela Organização Mundial
de Boxe (OMB), uma das quatro principais entidades que regem
o esporte no mundo. Depois de Éder Jofre e Miguel de
Oliveira, Popó se torna detentor do cinturão
de um esporte pouco estimulado no Brasil.
Desde então, a vida de Popó mudou. De um momento
para outro, o rapaz que era apenas uma promessa se tornou
realidade. Não que o seu sucesso fosse uma surpresa.
Alguns anos antes, quando ganhou o Torneio Boxcino, o próprio
Éder Jofre afirmou, em entrevista, que aquele garoto
seria campeão mundial de boxe.
"É lógico que aquilo me estimulou. Vindo
de quem veio, era uma prova de confiança. Eu sempre
acreditei no meu potencial. Era bom saber que outros também
acreditavam", conta. De lá para cá, foram
dez defesas de título bem sucedidas.
Ostentando um cartel de 34 lutas, 34 vitórias, sendo
que 31 delas por nocaute, Popó já calou muitos
de seus críticos e já provou o seu talento.
A superação definitiva veio na luta contra o
cubano Joel Casamayor, no dia 12 de janeiro de 2002.
O cubano, também invicto à época, era
detentor do cinturão da Associação Mundial
de Boxe (AMB). O combate, disputado em Las Vegas, a capital
do boxe no mundo, terminou com uma apertada vitória
do brasileiro por pontos. Resultado que lançou, definitivamente,
Acelino Freitas, como é conhecido nos Estados Unidos,
como um pugilista a ser olhado com respeito.
Na madrugada de sábado para domingo, no dia 10 de
agosto, Popó subiu aos ringues para seu último
combate. Derrotou, em uma das lutas mais disputadas da sua
carreira, o argentino Jorge Luis "La Hiena" Barrios,
por nocaute, no décimo segundo assalto.
Gazeta Esportiva.net: A luta contra o Barrios foi a mais
difícil da sua carreira?
Popó: Em termos de técnica, foi a mais difícil.
Psicologicamente não, a luta contra o Casamayor foi
muito mais difícil. Essa foi uma luta que mexeu muito
mais com o meu psicológico. Quando você está
com o psicológico em baixa, o seu rendimento tecnico
e físico também fica muito abaixo do esperado.
GE: O que influía para esse caráter mais
psicológico da luta com Casamayor? As provocações
do adversário?
P: Não, não era provocação.
Era pelo tamanho da luta. Era uma unificação,
contra o campeão olímpico. Quando eu entro no
ringue, eu não tenho a preocupação de
ganhar, perder, nocautear. Quero apenas fazer o meu trabalho,
todo o meu preparo é para isso. Por isso é que
as coisas dão certo. Contra o Casamayor, não.
Lá, eu entrei com esse pensamento de ganhar 'não,
eu tenho que vencer, tenho que ganhar', e isso atrapalhou.
E isso foi o que atrapalhou. Quando se entra assim, muito
confiante, não é muito bom. Tem que entrar tranquilo
e deixar as coisas acontecerem.
GE: Em relação ao combate com o Barrios,
o fato de ele ser argentino, de todas as provocações,
isso te atrapalhou, ou te motivou?
P: Isso é bobagem, é coisa dele, índole
dele, cabeça dele, essa provocação. É
um sujeito muito agitado. Sair pela primeira vez do país
dele, lutar nos Estados Unidos, para disputar um título
mundial, e falar e fazer todas as coisas que ele fez, ele
não é um cara normal. Ainda mais com a possibilidade
que nós demos para ele, passamos na frente do Casamayor.
Mas eu encaro isso como mais um degrau que eu tenho que superar.
Eu já percebi que ninguém mexe comigo, nem dentro
e nem fora dos ringues. Exatamente por todos os problemas
que eu passei, a morte do meu pai, o meu divórcio.
E eu tive mudanças técnicas importantes para
a luta.
GE: Quais, por exemplo?
P: Era visível que naquela luta eu era um outro
Popó: mais calmo, pensativo, usando mais o jab, que
é um golpe de preparação. A queda dele
no décimo primeiro assalto veio exatamente de um golpe
de preparação. Desde o começo da luta,
se for acompanhada a fita, vocês vão ver que
eu sempre estive usando essa tática. Até mesmo
na minha queda, eu estava preparando um golpe e a mão
dele veio mais rápido. Mas graças a Deus deu
tudo certo e foi tudo planejado. Lógico, só
não foi planejada a minha queda. Mas todo o resto eu
treinei bastante lá nos Estados Unidos.
GE: O estilo de luta pouco ortodoxo de Barrios, com pouca
técnica, de partir para cima, te atrapalhou, colaborou
para essa dificuldade?
P: Eu deixei o Barrios lutar. Eu observo uma coisa em
mim, que é um grande defeito, como lutador. Ninguém
é perfeito, afinal. Eu deixo a minha guarda muito aberta
quando eu bato, fico muito vulnerável com o contragolpe.
Então, eu parei com isso. Eu pensei: 'o título
é meu, não preciso me arriscar tanto'. Eu tenho
esse defeito de sempre querer atacar e me expôr aos
contragolpes. Então, essa foi uma luta bem pensada.
GE: Voltando um pouco na sua carreira. Uma de suas lutas
mais marcantes foi quando você enfrentou o russo Anatoly
Alexandrov. Lá, você conquistou o título,
ao vencer por nocaute. Mas, ao mesmo tempo, o seu adversário
foi levado para o hospital, onde ficou semanas internado.
Como é que isso mexeu com a sua cabeça?
P: No momento da comemoração, eu não
tinha mesmo pensado na integridade física dele. Eu
queria comemorar a vitória. Muita coisa mudou na minha
vida. Eu tinha comprado uma casa para mim dois meses antes
da luta, que eu ainda não tinha pago, só quitei
depois de vencer a luta. Aquilo era, para mim, o máximo
do máximo. Não conseguia pensar em mais nada
naquela época. Quando eu cheguei, fui recebido em carro
de bombeiro, todas aquelas coisas. Para mim, isso era novo,
marcante.
GE: Ter recebido, antes da conquista do título
mundial, palavras de incentivo do Éder Jofre, te motivou?
P: Eu sempre acreditei que eu tinha um potencial. Desde
os tempos que eu via lutas na televisão, eu dizia que
eu podia ganhar. Naquela época era coisa de moleque,
mas eu sabia que eu tinha um dom. Lógico que eu fiquei
muito estimulado com as palavras do Éder Jofre, mas
eu já acreditava em mim. Até foi engraçado.
Desta vez, quando eu estava nos Estados Unidos, minha mãe
vias as lutas de boxe na televisão, porque lá
combates são transmitidos toda a semana, e ela dizia:
'Você ganha desse aí, você é melhor
do que esse'. Essa crença em mim sempre me estimulou.
GE: Essa luta com Barrios está sendo considerada,
por muitos, como a luta do ano.
P: Sim, foi um grande combate. Acho ótimo que se
tenha essa valorização. O Barrios, que foi um
cara muito valente, sempre partiu para cima, mesmo com aquele
grande sangramento no olho, que ele não via nada. Ele
valorizou muito a minha vitória.
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