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19/08/2003
Popó: não preciso provar mais nada
Popó: Um nocaute nas dificuldades
Patrocínio. O que é isto?
Popó no Pan: Uma prata que vale 100 dólares

 

Ano: 1990. Um garoto baiano, Acelino de Freitas, assiste na televisão às lutas de boxe transmitidas semanalmente na TV Bandeirantes. A cada novo lutador que sobe nos ringues, exclama: "esse eu ganho, esse eu sou melhor, esse eu derrubo". O que na época parecia ser apenas uma bravata de garoto que descobria o boxe, se tornou uma profecia nove anos mais tarde, em 1999, quando, crescido e ostentando o apelido de Popó, nocauteou o russo Anatoly Alexandrov.

No dia 7 de agosto de 1999, o garoto vindo da Bahia se tornou campeão mundial pela Organização Mundial de Boxe (OMB), uma das quatro principais entidades que regem o esporte no mundo. Depois de Éder Jofre e Miguel de Oliveira, Popó se torna detentor do cinturão de um esporte pouco estimulado no Brasil.

Desde então, a vida de Popó mudou. De um momento para outro, o rapaz que era apenas uma promessa se tornou realidade. Não que o seu sucesso fosse uma surpresa. Alguns anos antes, quando ganhou o Torneio Boxcino, o próprio Éder Jofre afirmou, em entrevista, que aquele garoto seria campeão mundial de boxe.

"É lógico que aquilo me estimulou. Vindo de quem veio, era uma prova de confiança. Eu sempre acreditei no meu potencial. Era bom saber que outros também acreditavam", conta. De lá para cá, foram dez defesas de título bem sucedidas.

Ostentando um cartel de 34 lutas, 34 vitórias, sendo que 31 delas por nocaute, Popó já calou muitos de seus críticos e já provou o seu talento. A superação definitiva veio na luta contra o cubano Joel Casamayor, no dia 12 de janeiro de 2002.

O cubano, também invicto à época, era detentor do cinturão da Associação Mundial de Boxe (AMB). O combate, disputado em Las Vegas, a capital do boxe no mundo, terminou com uma apertada vitória do brasileiro por pontos. Resultado que lançou, definitivamente, Acelino Freitas, como é conhecido nos Estados Unidos, como um pugilista a ser olhado com respeito.

Na madrugada de sábado para domingo, no dia 10 de agosto, Popó subiu aos ringues para seu último combate. Derrotou, em uma das lutas mais disputadas da sua carreira, o argentino Jorge Luis "La Hiena" Barrios, por nocaute, no décimo segundo assalto.

Gazeta Esportiva.net: A luta contra o Barrios foi a mais difícil da sua carreira?
Popó:
Em termos de técnica, foi a mais difícil. Psicologicamente não, a luta contra o Casamayor foi muito mais difícil. Essa foi uma luta que mexeu muito mais com o meu psicológico. Quando você está com o psicológico em baixa, o seu rendimento tecnico e físico também fica muito abaixo do esperado.

GE: O que influía para esse caráter mais psicológico da luta com Casamayor? As provocações do adversário?
P:
Não, não era provocação. Era pelo tamanho da luta. Era uma unificação, contra o campeão olímpico. Quando eu entro no ringue, eu não tenho a preocupação de ganhar, perder, nocautear. Quero apenas fazer o meu trabalho, todo o meu preparo é para isso. Por isso é que as coisas dão certo. Contra o Casamayor, não. Lá, eu entrei com esse pensamento de ganhar 'não, eu tenho que vencer, tenho que ganhar', e isso atrapalhou. E isso foi o que atrapalhou. Quando se entra assim, muito confiante, não é muito bom. Tem que entrar tranquilo e deixar as coisas acontecerem.

GE: Em relação ao combate com o Barrios, o fato de ele ser argentino, de todas as provocações, isso te atrapalhou, ou te motivou?
P:
Isso é bobagem, é coisa dele, índole dele, cabeça dele, essa provocação. É um sujeito muito agitado. Sair pela primeira vez do país dele, lutar nos Estados Unidos, para disputar um título mundial, e falar e fazer todas as coisas que ele fez, ele não é um cara normal. Ainda mais com a possibilidade que nós demos para ele, passamos na frente do Casamayor. Mas eu encaro isso como mais um degrau que eu tenho que superar. Eu já percebi que ninguém mexe comigo, nem dentro e nem fora dos ringues. Exatamente por todos os problemas que eu passei, a morte do meu pai, o meu divórcio. E eu tive mudanças técnicas importantes para a luta.

GE: Quais, por exemplo?
P:
Era visível que naquela luta eu era um outro Popó: mais calmo, pensativo, usando mais o jab, que é um golpe de preparação. A queda dele no décimo primeiro assalto veio exatamente de um golpe de preparação. Desde o começo da luta, se for acompanhada a fita, vocês vão ver que eu sempre estive usando essa tática. Até mesmo na minha queda, eu estava preparando um golpe e a mão dele veio mais rápido. Mas graças a Deus deu tudo certo e foi tudo planejado. Lógico, só não foi planejada a minha queda. Mas todo o resto eu treinei bastante lá nos Estados Unidos.

GE: O estilo de luta pouco ortodoxo de Barrios, com pouca técnica, de partir para cima, te atrapalhou, colaborou para essa dificuldade?
P:
Eu deixei o Barrios lutar. Eu observo uma coisa em mim, que é um grande defeito, como lutador. Ninguém é perfeito, afinal. Eu deixo a minha guarda muito aberta quando eu bato, fico muito vulnerável com o contragolpe. Então, eu parei com isso. Eu pensei: 'o título é meu, não preciso me arriscar tanto'. Eu tenho esse defeito de sempre querer atacar e me expôr aos contragolpes. Então, essa foi uma luta bem pensada.

GE: Voltando um pouco na sua carreira. Uma de suas lutas mais marcantes foi quando você enfrentou o russo Anatoly Alexandrov. Lá, você conquistou o título, ao vencer por nocaute. Mas, ao mesmo tempo, o seu adversário foi levado para o hospital, onde ficou semanas internado. Como é que isso mexeu com a sua cabeça?
P:
No momento da comemoração, eu não tinha mesmo pensado na integridade física dele. Eu queria comemorar a vitória. Muita coisa mudou na minha vida. Eu tinha comprado uma casa para mim dois meses antes da luta, que eu ainda não tinha pago, só quitei depois de vencer a luta. Aquilo era, para mim, o máximo do máximo. Não conseguia pensar em mais nada naquela época. Quando eu cheguei, fui recebido em carro de bombeiro, todas aquelas coisas. Para mim, isso era novo, marcante.

GE: Ter recebido, antes da conquista do título mundial, palavras de incentivo do Éder Jofre, te motivou?
P:
Eu sempre acreditei que eu tinha um potencial. Desde os tempos que eu via lutas na televisão, eu dizia que eu podia ganhar. Naquela época era coisa de moleque, mas eu sabia que eu tinha um dom. Lógico que eu fiquei muito estimulado com as palavras do Éder Jofre, mas eu já acreditava em mim. Até foi engraçado. Desta vez, quando eu estava nos Estados Unidos, minha mãe vias as lutas de boxe na televisão, porque lá combates são transmitidos toda a semana, e ela dizia: 'Você ganha desse aí, você é melhor do que esse'. Essa crença em mim sempre me estimulou.

GE: Essa luta com Barrios está sendo considerada, por muitos, como a luta do ano.
P:
Sim, foi um grande combate. Acho ótimo que se tenha essa valorização. O Barrios, que foi um cara muito valente, sempre partiu para cima, mesmo com aquele grande sangramento no olho, que ele não via nada. Ele valorizou muito a minha vitória.

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