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Por Claudia Andrade
Hexacampeão mundial, dono de duas medalhas olímpicas e mais de cem títulos, o paulista Robert Scheidt chega a sua terceira Olimpíada, como sempre, em busca da vitória. Conhecido pela determinação, ele tenta, no entanto, tirar um pouco da pressão de seus ombros. A do público, a da mídia, e a própria, talvez a maior, dizendo que não vai se cobrar. Mas em seguida reconhece que disposição para buscar o ouro não vai faltar. "Vou entrar em Atenas como se fosse minha primeira Olimpíada", diz.
Scheidt começou a temporada com uma maratona de eventos, o último deles, a Pré-olímpica de Búzios, em que confirmou sua vaga como representante do Brasil nos Jogos. Depois de uma folga rápida nos treinos – sem deixar de lado o condicionamento –, ele dá início na próxima semana à preparação para a temporada européia, que começa com a disputa da Semana de Hyères, na França, de 23 a 30 de abril. É a hora de comparar forças com os adversários que encontrará em Atenas.
Confira a entrevista que um dos velejadores mais bem sucedidos da história na classe Laser concedeu à Gazeta Esportiva.Net, durante o lançamento do livro "Fábrica de Campeões", escrito por José Rubens D'Elia, seu preparador físico desde 99. Entre outros temas, ele fala dos planos pós-Olimpíadas e do fechamento dos bingos, que atingiu seu orçamento pessoal e pode alterar sua programação para esta temporada.
GE.Net - Onde começa a temporada européia?
Robert Scheidt - Começa com a Semana de Hyères e depois tem o Mundial na Turquia (10 a 19 de maio, em Bitez) e eu acho que quem ficar entre os três lá vai ganhar auto-confiança para as Olimpíadas. Para mim também é importante porque vou tentar mais um título, que ficou bem perto no ano passado, mas escapou. (Scheidt vai tentar o heptacampeonato, que lhe foi tirado em 2003 pelo português Gustavo Lima, vencedor com apenas um ponto de vantagem).
GE.Net - A importância do Mundial fica menor em uma temporada olímpica?
RS - Acho que este ano serve para isso mesmo, pra ver quem vai bem lá, quem vai ficar entre os primeiros e chegar mais cheio de si nas Olimpíadas. Vai ser um termômetro.
GE.Net - E essa previsão de ficar entre os três, mais cautelosa, é porque os adversários estão mais fortes?
RS - Uma vitória em uma Semana de Hyères, por exemplo, não é tão importante, mas estar no pódio é minha meta para os torneios de preparação e também para os Jogos Olímpicos. Só que eu não vou ficar cobrando o ouro.
GE.Net - Mas o ouro olímpico é importante pra você pelo bicampeonato (Scheidt foi campeão em Atlanta-96), já que o Brasil só tem um bicampeão, o Adhemar Ferreira da Silva, e também porque vai ser sua despedida da Laser, não é?
RS - É, pode ser uma despedida, mas não vou ficar me cobrando. Esse ano vai cair essa história do bicampeonato, o Brasil vai ter dois ou três bicampeões. Mas tem que esquecer isso e concentrar no que a gente vai conseguir.
GE.Net - De qualquer forma isso serve como incentivo, depois de tanto tempo na Laser.
RS - Só ganhei tudo o que ganhei porque gosto muito de velejar de Laser, senão já teria conquistado tudo o que quis. Como velejar de Laser me dá muito prazer, esqueço o que conquistei lá atrás e penso no agora. Vou entrar em Atenas como se fosse minha primeira Olimpíada.
GE.Net - O Gustavo Lima vai ser mesmo o rival mais perigoso?
RS - Tem ele, o Michael Blackburn (líder do ranking mundial, à frente do brasileiro), o inglês que veio depois do Ben Ainslie (Paul Goodison, terceiro na lista), tem o espanhol que tá bem (Luis Martinez, quarto no Mundial do ano passado)... só aí já citei vários que vão dar trabalho.
GE.Net - Mas você vai ser o veterano, um dos mais experientes e vitoriosos. Todos vão ficar de olho em você.
RS - No começo do campeonato não tem muito isso de ficar de olho. A marcação vai ser só no final. Vai ser o campeonato da consistência.
GE.Net - Você continua preferindo a ventania?
RS - É, eu gosto de velejar com o vento mais forte possível. Tenho preparo físico para isso. Mas não posso ficar esperando ter só regata assim, claro que em 11 regatas vai ter também aquelas com vento fraco e tem que se preparar para tudo.
GE.Net - Já está programado o período de adaptação em Atenas?
RS - Sim, a gente deve ir no dia 31 de julho para lá. Estou tentando passar também uns dez dias em junho. (Scheidt venceu o evento teste realizado na mesma raia dos Jogos Olímpicos, em agosto do ano passado, com duas vitórias em 11 regatas)
GE.Net - Você encontrou o Ben Ainslie quando ele esteve no Brasil (para a disputa do Mundial de Finn, há um mês)?
RS - Não, porque ele estava no Rio e eu fiquei em Búzios.
GE.Net - Mas não ficou nenhum problema entre vocês, depois de Sydney, certo (Nas Olimpíadas de 2000, Scheidt perdeu o ouro para o inglês no final da disputa, quando Ainslie fez uma marcação individual que irritou bastante o brasileiro)?
RS - Não, não. Foi chato quando aconteceu, mas a gente leva as lições disso para frente. Os resultados que ele tem tido na Finn, conseguindo o tricampeonato em tão pouco tempo, mostram que ele é um grande atleta.
GE.Net - Sua aversão à Finn continua?
RS - Quando mudar, eu quero mudar o estilo de velejar. Na Finn eu continuaria velejando sozinho, e ainda tem que mudar o corpo, ganhar 15, 18kg. Com 30 anos já não tenho mais essa disposição.
GE.Net - Você vai integrar a tripulação do barco que o Brasil deverá ter na Volvo Ocean Race (Scheidt foi porta-voz da regata de volta ao mundo na última edição, em 2001)?
RS - Não tem nada previsto, mas eu acho que tô mais pra America's Cup que pra Volvo, pelo meu estilo. Eu participei da última, adorei, mas tenho pouca experiência em regata oceânica.
GE.Net - E este ano sua participação nas Olimpíadas pode servir de chamariz para a America's Cup, não?
RS - Espero que sim. Seria ótimo estar em algum sindicato, quem sabe a Olimpíada não sirva de trampolim? Aí eu poderia me dedicar a isso em 2005. (A próxima edição da mais tradicional regata match race – barco contra barco – do mundo será disputada em Valência, Espanha, em 2007).
GE.Net - O Ainslie já disse que quer voltar (ele chegou a trabalhar com o sindicato OneWorld Challenge, mas desistiu da campanha 02/03 para se dedicar à busca de mais uma medalha olímpica, desta vez na Finn).
RS - Pois é, parece que ele fechou com o Team New Zealand (vice na última edição)...
GE.Net - Fez muita falta pra você perder o patrocínio do Bingo Augusta?
RS - Fez sim. Era meu patrocinador mais antigo, eles entraram na minha carreira quando eu mais precisava, e até hoje era um grande apoio. Era o segundo maior: vinha o Banco do Brasil depois eles. Acho isso muito ruim para o esporte brasileiro e também está causando desemprego.
Não tenho conhecimento pra analisar, mas me parece que não foi uma decisão muito pensada. Tava pra regulamentar os bingos poucos dias depois, aí fecharam. A gente lamenta, porque faz falta para o esporte. A Federação de Vela tem o calendário, competições, aluguel, até viagem pagos com esse recurso e por isso vai sofrer bastante. O bingo não patrocinava só o Robert Scheidt, ajudava também torneios juvenis, de Optimist.
GE.Net - Se eles eram seu segundo maior patrocinador, sua programação para esta temporada foi prejudicada?
RS - Eu ainda estou em um período de indefinição, vou esperar os próximos dois meses pra ver o que fica decidido. Tenho a Petrobras e o Banco do Brasil que me ajudam, mas se não acontecer nada vou ter que me mexer.
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