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28/07/2004

Montagem  sobre foto  Acervo/Gazeta Press

Alexandra Araújo: outra nacionalidade em nome do esporte

Por Paula Almeida, especial para a GE.Net

Já são mais de 150 partidas pela seleção italiana de pólo-aquático. Duas medalhas de ouro em Campeonatos Mundiais. Dois títulos europeus. E Alexandra Araújo Santis é apenas uma atleta brasileira. Mais uma que recorreu à naturalização para fazer aquilo que mais gosta: competir e vencer.

Alexandra, que chegou a jogar pelo Brasil entre os anos de 1988 e 1994 (quando atuou pelos clubes paulistanos Paineiras e Academia Formula), não será a única brasileira do pólo a disputar as Olimpíadas por uma seleção que não é a sua. Pietro Fiolo (Austrália), Kiko Perrone (Espanha) e Tony Azevedo (Estados Unidos) seguem o mesmo exemplo.

A atitude de naturalizar-se em nome de uma competição esportiva tem sido alvo de discussões há quase uma década e, para os brasileiros, entrou na ordem do dia depois que o jogador Deco obteve cidadania portuguesa para disputar os principais torneios do futebol mundial, entre eles a última Eurocopa. Para Alexandra, tudo vale a pena em nome do esporte. "Acho que o atleta deve recorrer a todas as chances".

Aos 32 anos, a atleta admite que a prática do pólo-aquático no Brasil tem crescido, mas não a ponto de comparar-se a outros países como a própria Itália. "A falta de incentivo por parte da federação e de patrocinadores externos diminuem bastante a popularização do esporte".

Nesta entrevista exclusiva, Alexandra fala sobre sua vida na Itália, as chances de conquistar uma medalha nas Olimpíadas, o medo de atentados em Atenas e uma possível volta ao Brasil. "Seria um retorno difícil".

Foto Acervo/ Gazeta Press
Foto Acervo/ Gazeta Press

Por que você saiu do Brasil e resolveu morar na Itália?
Saí do Brasil para fazer uma experiência nova, falar outra língua e, lógico, jogar pólo-aquático em um país onde este esporte é levado um pouco mais a sério. Entrei na seleção italiana em 1996 e desde então resolvi ficar por aqui para fazer o que gosto. Aqui o campeonato dura mais ou menos uns sete meses, jogando quase todos os sábados.

Como foi sua adaptação à Itália?
Bom, moro em Pallermo desde 1994 (há cinco anos mora com o namorado Filippo). No começo, minha adaptação foi difícil, porque Pallermo é uma cidade muito pequena e eu estava habituada a São Paulo. Ficar longe da minha família e dos meus amigos também foi uma barra, mas com o tempo consegui me adaptar bem. Não tive tantas dificuldades assim.

E quais são as vantagens em morar em Pallermo?
Aqui eu faço o que gosto. E tem o Filippo também...

Você se naturalizou apenas por causa do esporte?
Os meus bisavós eram italianos e eu tenho direito aos dois passaportes. Mudei a cidadania só no esporte, pois para jogar com a seleção italiana eu era obrigada a mudar.

Acha certo um atleta se naturalizar apenas para participar de uma competição?
Depende. Se esta competição esportiva é o sonho da sua vida, e o time deste atleta não está em condições de se classificar para esta competição, sim, acho que o atleta deve recorrer a todas as chances.

Como vê o pólo-aquático no Brasil?
O esporte no Brasil cresceu bastante nos últimos tempos, conseguindo bons resultados tanto no masculino quanto no feminino. Material humano nós temos, e muito. Temos vários jogadores de bom nível no Brasil, considerando que temos poucos times.

Por que o Brasil é tão inferior nesse esporte em relação a outras equipes, principalmente as européias?
Não temos é apoio para poder dar aos times e aos atletas. Treinar duas vezes por dia sem ser remunerado não é todo mundo que pode! O problema é que falta muito intercâmbio no campo internacional e apoio de patrocinadores para poder melhorar a qualidade do esporte. A falta de incentivo por parte da federação e de patrocinadores externos diminui bastante a popularização do esporte.

Como tornar o Brasil tão competitivo como as outras seleções?
A Itália tem, como já disse antes, um campeonato que dura de sete a oito meses, jogando quase todas as semanas. Isso dá uma base de treinamentos e de jogos superior à do Brasil. No Feminino Italiano, na série A1, temos 12 times. Na série A2, 10 times. Na série B, mais 10. Tem também o campeonato júnior e infantil.
Essa massa de gente que joga pólo-aquático, inevitavelmente, cria mais concorrência entre atletas e, conseqüentemente, qualidade. A mesma coisa no masculino, mas com um número bem maior de jogadores. A Itália também tem uma federação que recebe dinheiro do governo para dar incentivo às seleções, permitindo aos atletas e técnicos dedicarem-se em tempo integral ao esporte.
Não é considerado um esporte profissional, mas tem bastante ajuda de custos.

Quais são suas expectativas em relação às Olimpíadas?
As expectativas são grandes. Mas é um campeonato único, que engloba times de alto nível e bem preparados. Tudo pode acontecer. Ultimamente, a Itália obteve ótimos resultados em campeonatos Europeus e Mundiais, espero que continue assim por um bom período.

Você tem medo da possibilidade de ocorrer algum tipo de atentado durante os Jogos?
Acho que todo mundo tem esse medo. Mas dediquei boa parte da minha vida para chegar aonde estou, e não penso minimamente em renunciar. Mesmo sabendo que somos um 'alvo fácil'.

Tem vontade de voltar ao Brasil?
Tenho. Mas seria um reinício difícil, depois de dez anos que estou na Itália.

Pretende trabalhar de alguma maneira com o esporte no Brasil depois que encerrar sua carreira?
O trabalho de um treinador ou dirigente deve ser um trabalho constante, programado, dedicado e com muitas ambições. Se estas prioridades podem ser seguidas com um apoio e entusiasmo, seria uma coisa a ser pensada. Acho que é difícil para qualquer brasileiro ficar longe do Brasil.

Ficha:
Nome: Alexandra Araújo de Santis
Local de Nascimento: Rio de Janeiro
Data de Nascimento: 7 de julho de 1972
Clube atual: Gifa Città di Pallermo (Itália)

Conquistas:
1997- Campeonato Europeu de Sevilha (Esp) - campeã
1998- Campeonato Mundial de Perth (Aus) - campeã
1999- Campeonato Europeu de Prato (Ita) - campeã
1999- Campeonato Europeu de Budapeste (Hun) - vice-campeã
2000- Campeonato Mundial de Fukuoka (Jap) - campeã
2001- Campeonato Europeu de Liubliana (Esv) - campeã
2003- Campeonato Mundial de Barcelona (Esp) - vice-campeã

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