|
Alexandra Araújo: outra
nacionalidade em nome do esporte
Por Paula Almeida, especial para a GE.Net
Já são mais de 150 partidas pela seleção
italiana de pólo-aquático. Duas medalhas
de ouro em Campeonatos Mundiais. Dois títulos
europeus. E Alexandra Araújo Santis é
apenas uma atleta brasileira. Mais uma que recorreu
à naturalização para fazer aquilo
que mais gosta: competir e vencer.
Alexandra, que chegou a jogar pelo Brasil entre os
anos de 1988 e 1994 (quando atuou pelos clubes paulistanos
Paineiras e Academia Formula), não será
a única brasileira do pólo a disputar
as Olimpíadas por uma seleção que
não é a sua. Pietro Fiolo (Austrália),
Kiko Perrone (Espanha) e Tony Azevedo (Estados Unidos)
seguem o mesmo exemplo.
A atitude de naturalizar-se em nome de uma competição
esportiva tem sido alvo de discussões há
quase uma década e, para os brasileiros, entrou
na ordem do dia depois que o jogador Deco obteve cidadania
portuguesa para disputar os principais torneios do futebol
mundial, entre eles a última Eurocopa. Para Alexandra,
tudo vale a pena em nome do esporte. "Acho que
o atleta deve recorrer a todas as chances".
Aos 32 anos, a atleta admite que a prática do
pólo-aquático no Brasil tem crescido,
mas não a ponto de comparar-se a outros países
como a própria Itália. "A falta de
incentivo por parte da federação e de
patrocinadores externos diminuem bastante a popularização
do esporte".
Nesta entrevista exclusiva, Alexandra fala sobre sua
vida na Itália, as chances de conquistar uma
medalha nas Olimpíadas, o medo de atentados em
Atenas e uma possível volta ao Brasil. "Seria
um retorno difícil".
| Foto Acervo/ Gazeta Press |
 |
Por que você saiu do Brasil e resolveu morar
na Itália?
Saí do Brasil para fazer uma experiência
nova, falar outra língua e, lógico, jogar
pólo-aquático em um país onde este
esporte é levado um pouco mais a sério.
Entrei na seleção italiana em 1996 e desde
então resolvi ficar por aqui para fazer o que
gosto. Aqui o campeonato dura mais ou menos uns sete
meses, jogando quase todos os sábados.
Como foi sua adaptação à Itália?
Bom, moro em Pallermo desde 1994 (há cinco anos
mora com o namorado Filippo). No começo, minha
adaptação foi difícil, porque Pallermo
é uma cidade muito pequena e eu estava habituada
a São Paulo. Ficar longe da minha família
e dos meus amigos também foi uma barra, mas com
o tempo consegui me adaptar bem. Não tive tantas
dificuldades assim.
E quais são as vantagens em morar em Pallermo?
Aqui eu faço o que gosto. E tem o Filippo também...
Você se naturalizou apenas por causa do esporte?
Os meus bisavós eram italianos e eu tenho direito
aos dois passaportes. Mudei a cidadania só no
esporte, pois para jogar com a seleção
italiana eu era obrigada a mudar.
Acha certo um atleta se naturalizar apenas para
participar de uma competição?
Depende. Se esta competição esportiva
é o sonho da sua vida, e o time deste atleta
não está em condições de
se classificar para esta competição, sim,
acho que o atleta deve recorrer a todas as chances.
Como vê o pólo-aquático no Brasil?
O esporte no Brasil cresceu bastante nos últimos
tempos, conseguindo bons resultados tanto no masculino
quanto no feminino. Material humano nós temos,
e muito. Temos vários jogadores de bom nível
no Brasil, considerando que temos poucos times.
Por que o Brasil é tão inferior nesse
esporte em relação a outras equipes, principalmente
as européias?
Não temos é apoio para poder dar aos times
e aos atletas. Treinar duas vezes por dia sem ser remunerado
não é todo mundo que pode! O problema
é que falta muito intercâmbio no campo
internacional e apoio de patrocinadores para poder melhorar
a qualidade do esporte. A falta de incentivo por parte
da federação e de patrocinadores externos
diminui bastante a popularização do esporte.
Como tornar o Brasil tão competitivo como
as outras seleções?
A Itália tem, como já disse antes, um
campeonato que dura de sete a oito meses, jogando quase
todas as semanas. Isso dá uma base de treinamentos
e de jogos superior à do Brasil. No Feminino
Italiano, na série A1, temos 12 times. Na série
A2, 10 times. Na série B, mais 10. Tem também
o campeonato júnior e infantil.
Essa massa de gente que joga pólo-aquático,
inevitavelmente, cria mais concorrência entre
atletas e, conseqüentemente, qualidade. A mesma
coisa no masculino, mas com um número bem maior
de jogadores. A Itália também tem uma
federação que recebe dinheiro do governo
para dar incentivo às seleções,
permitindo aos atletas e técnicos dedicarem-se
em tempo integral ao esporte.
Não é considerado um esporte profissional,
mas tem bastante ajuda de custos.
Quais são suas expectativas em relação
às Olimpíadas?
As expectativas são grandes. Mas é um
campeonato único, que engloba times de alto nível
e bem preparados. Tudo pode acontecer. Ultimamente,
a Itália obteve ótimos resultados em campeonatos
Europeus e Mundiais, espero que continue assim por um
bom período.
Você tem medo da possibilidade de ocorrer
algum tipo de atentado durante os Jogos?
Acho que todo mundo tem esse medo. Mas dediquei boa
parte da minha vida para chegar aonde estou, e não
penso minimamente em renunciar. Mesmo sabendo que somos
um 'alvo fácil'.
Tem vontade de voltar ao Brasil?
Tenho. Mas seria um reinício difícil,
depois de dez anos que estou na Itália.
Pretende trabalhar de alguma maneira com o esporte
no Brasil depois que encerrar sua carreira?
O trabalho de um treinador ou dirigente deve ser um
trabalho constante, programado, dedicado e com muitas
ambições. Se estas prioridades podem ser
seguidas com um apoio e entusiasmo, seria uma coisa
a ser pensada. Acho que é difícil para
qualquer brasileiro ficar longe do Brasil.
Ficha:
Nome: Alexandra Araújo de Santis
Local de Nascimento: Rio de Janeiro
Data de Nascimento: 7 de julho de 1972
Clube atual: Gifa Città di Pallermo (Itália)
Conquistas:
1997- Campeonato Europeu de Sevilha (Esp) - campeã
1998- Campeonato Mundial de Perth (Aus) - campeã
1999- Campeonato Europeu de Prato (Ita) - campeã
1999- Campeonato Europeu de Budapeste (Hun) -
vice-campeã
2000- Campeonato Mundial de Fukuoka (Jap) - campeã
2001- Campeonato Europeu de Liubliana (Esv) -
campeã
2003- Campeonato Mundial de Barcelona (Esp) -
vice-campeã
|