| Por Fernando Narazaki
A falta de incentivo, patrocínio e reconhecimento
podem encerrar prematuramente a carreira do baiano Edvaldo
Valério. Com 25 anos, o nadador afirma que vai deixar
as piscinas caso não consiga a classificação
para as Olimpíadas de Atenas-2004.
Cansado de lutar por patrocínio, o atleta admite que
está farto desta situação e deve continuar
a carreira como professor de Educação Física.
'Estou cansado de lutar, lutar e não ter nada em troca',
explica Bala Valério, como ficou conhecido na modalidade.
Valério despontou no final de 1998, quando passou a
ameaçar o reinado de Fernando Scherer nos 50m livre.
O nadador negro tornou-se um exemplo para os atletas do Nordeste
e serviu de referência para o sucesso posterior de Nayara
Ribeiro, também da Bahia, e Joanna Maranhão,
do Pernambuco.
Há três anos, o velocista teve o grande momento
da carreira, quando ajudou o Brasil a conquistar a medalha
de bronze no revezamento 4x100m livre nas Olimpíadas
de Sydney-2000. Esta foi a única medalha do país
na modalidade nos Jogos.
O baiano sonhava com o reconhecimento e a vinda de patrocínios.
Na época, ironicamente, o patrocínio de um banco
na sunga de Valério ameaçou a conquista da medalha,
já que a veiculação de patrocínios
nos materias esportivos dos atletas é proibida na natação
nas Olimpíadas.
Entretanto, do sonho de Valério, nada aconteceu. O
atleta reclama da falta de valor aos atletas olímpicos
e diz que os incentivos da Lei Piva deveriam ser melhor distribuídos
e chegar ao maior interessado: o atleta.
Veja abaixo a entrevista de Valério para a Gazeta
Esportiva Net durante o Troféu José Finkel,
que está sendo realizado em Santos:
Gazeta Esportiva Net: Você não teve bons
resultados aqui no Finkel. O que aconteceu?
Edvaldo Valério: É uma situação
muito desconfortável, cara. Eu não tive qualquer
reconhecimento, a minha preparação foi completamente
afetada por isso. Eu estou passando por um péssimo
momento, que nunca esperava ter. Eu fico frustrado com meus
resultados, pois sei que posso render bem mais do que isso.
GE Net: Até agora, o seu melhor resultado foi um
quarto lugar no revezamento. É uma grande frustração
para você?
EV: Eu nadei bem hoje (sexta). Abri o revezamento (4x50m
livre) com 23s10, foi um tempo excelente, mas as coisas não
estão acontecendo. Não dá nada certo.
Estávamos brigando pelo ouro, mas paciência.
Agora eu tenho de ir melhor nos 100m livre. O grande problema,
na verdade, é outro. Eu não tenho incentivo,
fiquei sem patrocínio por mais de um ano.
GE Net: Mas e depois das Olimpíadas?
EV: Pois é, tive um patrocínio, mas só
durou um ano. Fiquei mais de um ano depois sem receber nada
e fiquei muito desmotivado. As pessoas ficam me cobrando resultado,
eu já fiz muita coisa, fui ouro na Copa, fechei o revezamento
do Brasil em Sydney, fui recordista sul-americano. Não
tenho de provar mais nada a ninguém. Eu não
preciso ficar exibindo resultado para ter apoio e respaldo.
GE Net: O Xuxa também passou pelo mesmo problema.
Falta o quê para a natação?
EV: Não sei cara. O problema é que ninguém
valoriza o que a gente faz. Ganhamos medalha e, retorno que
é bom, nada. Fica muito difícil você manter
a motivação. Eu fiquei muito desanimado e se
eu não me classificar para as Olimpíadas, eu
vou abandonar as piscinas. Tô cansado de bater em nada
e de ficar pedindo patrocínio. Tenho a sensação
de que nada que fiz tem reconhecimento.
GE Net: O fato de você ser da Bahia, fora do eixo
Rio-São Paulo-Minas tem alguma responsabilidade nesta
falta de respaldo?
EV: Na Bahia, pouca gente olha para você. É
muito difícil o reconhecimento por lá. Eles
só cobram resultados e, quando vêm, ninguém
faz nada. Sonhava com um bom patrocínio depois das
Olimpíadas, mas logo parou. Estou cansado dessa vida.
GE Net: Nos últimos anos, alguns dirigentes se
gabam da Lei Piva, que ela melhorou a vida dos esportistas.
Isso aconteceu com você?
EV: Não. O dinheiro não chega para a gente.
A Lei Piva é para as confederações. Até
os Correios (patrocinadora da natação brasileira)
não dão dinheiro para todos. É muito
difícil isso. Eu estou dois anos sem ganhar nada. Eles
ficam tentando tapar o sol com a peneira, falando que tem
um monte de gente indo para as Olimpíadas. Sem querer
tirar o mérito do pessoal, que é muito bom,
mas quais deles têm chance de medalha? Os mesmos. (Nota
da redação: No Mundial de Barcelona, o Brasil
não conquistou medalhas)
GE Net: E o que vai fazer, caso não consiga a vaga
olímpica?
EV: Estou fazendo um curso de Educação Física
na Bahia. Eu me formo no próximo ano e depois posso
exercer a profissão. Trabalho é o que não
falta. O que não pode é eu ficar nesta luta,
sem reconhecimento. Estou muito cansado disso.
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