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26/09/2003

Por Fernando Narazaki

A falta de incentivo, patrocínio e reconhecimento podem encerrar prematuramente a carreira do baiano Edvaldo Valério. Com 25 anos, o nadador afirma que vai deixar as piscinas caso não consiga a classificação para as Olimpíadas de Atenas-2004.
Cansado de lutar por patrocínio, o atleta admite que está farto desta situação e deve continuar a carreira como professor de Educação Física. 'Estou cansado de lutar, lutar e não ter nada em troca', explica Bala Valério, como ficou conhecido na modalidade.
Valério despontou no final de 1998, quando passou a ameaçar o reinado de Fernando Scherer nos 50m livre. O nadador negro tornou-se um exemplo para os atletas do Nordeste e serviu de referência para o sucesso posterior de Nayara Ribeiro, também da Bahia, e Joanna Maranhão, do Pernambuco.

Há três anos, o velocista teve o grande momento da carreira, quando ajudou o Brasil a conquistar a medalha de bronze no revezamento 4x100m livre nas Olimpíadas de Sydney-2000. Esta foi a única medalha do país na modalidade nos Jogos.
O baiano sonhava com o reconhecimento e a vinda de patrocínios. Na época, ironicamente, o patrocínio de um banco na sunga de Valério ameaçou a conquista da medalha, já que a veiculação de patrocínios nos materias esportivos dos atletas é proibida na natação nas Olimpíadas.

Entretanto, do sonho de Valério, nada aconteceu. O atleta reclama da falta de valor aos atletas olímpicos e diz que os incentivos da Lei Piva deveriam ser melhor distribuídos e chegar ao maior interessado: o atleta.

Veja abaixo a entrevista de Valério para a Gazeta Esportiva Net durante o Troféu José Finkel, que está sendo realizado em Santos:

Gazeta Esportiva Net: Você não teve bons resultados aqui no Finkel. O que aconteceu?
Edvaldo Valério:
É uma situação muito desconfortável, cara. Eu não tive qualquer reconhecimento, a minha preparação foi completamente afetada por isso. Eu estou passando por um péssimo momento, que nunca esperava ter. Eu fico frustrado com meus resultados, pois sei que posso render bem mais do que isso.

GE Net: Até agora, o seu melhor resultado foi um quarto lugar no revezamento. É uma grande frustração para você?
EV:
Eu nadei bem hoje (sexta). Abri o revezamento (4x50m livre) com 23s10, foi um tempo excelente, mas as coisas não estão acontecendo. Não dá nada certo. Estávamos brigando pelo ouro, mas paciência. Agora eu tenho de ir melhor nos 100m livre. O grande problema, na verdade, é outro. Eu não tenho incentivo, fiquei sem patrocínio por mais de um ano.

GE Net: Mas e depois das Olimpíadas?
EV:
Pois é, tive um patrocínio, mas só durou um ano. Fiquei mais de um ano depois sem receber nada e fiquei muito desmotivado. As pessoas ficam me cobrando resultado, eu já fiz muita coisa, fui ouro na Copa, fechei o revezamento do Brasil em Sydney, fui recordista sul-americano. Não tenho de provar mais nada a ninguém. Eu não preciso ficar exibindo resultado para ter apoio e respaldo.

GE Net: O Xuxa também passou pelo mesmo problema. Falta o quê para a natação?
EV:
Não sei cara. O problema é que ninguém valoriza o que a gente faz. Ganhamos medalha e, retorno que é bom, nada. Fica muito difícil você manter a motivação. Eu fiquei muito desanimado e se eu não me classificar para as Olimpíadas, eu vou abandonar as piscinas. Tô cansado de bater em nada e de ficar pedindo patrocínio. Tenho a sensação de que nada que fiz tem reconhecimento.

GE Net: O fato de você ser da Bahia, fora do eixo Rio-São Paulo-Minas tem alguma responsabilidade nesta falta de respaldo?
EV:
Na Bahia, pouca gente olha para você. É muito difícil o reconhecimento por lá. Eles só cobram resultados e, quando vêm, ninguém faz nada. Sonhava com um bom patrocínio depois das Olimpíadas, mas logo parou. Estou cansado dessa vida.

GE Net: Nos últimos anos, alguns dirigentes se gabam da Lei Piva, que ela melhorou a vida dos esportistas. Isso aconteceu com você?
EV:
Não. O dinheiro não chega para a gente. A Lei Piva é para as confederações. Até os Correios (patrocinadora da natação brasileira) não dão dinheiro para todos. É muito difícil isso. Eu estou dois anos sem ganhar nada. Eles ficam tentando tapar o sol com a peneira, falando que tem um monte de gente indo para as Olimpíadas. Sem querer tirar o mérito do pessoal, que é muito bom, mas quais deles têm chance de medalha? Os mesmos. (Nota da redação: No Mundial de Barcelona, o Brasil não conquistou medalhas)

GE Net: E o que vai fazer, caso não consiga a vaga olímpica?
EV:
Estou fazendo um curso de Educação Física na Bahia. Eu me formo no próximo ano e depois posso exercer a profissão. Trabalho é o que não falta. O que não pode é eu ficar nesta luta, sem reconhecimento. Estou muito cansado disso.

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