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Por Marcelo Cazavia
Desde que Daniele Hypólito conquistou a prata no solo
e o quarto lugar no individual geral no Mundial de Ghent em
2001, a ginástica artística brasileira vem apresentando
uma evolução permanente, solidificada pelos
resultados de Daiane dos Santos em 2003 e pelo "surgimento"
de Laís Souza neste ano. No masculino, o desempenho
de Diego Hypólito também dá esperanças
de que novas medalhas virão.
Entretanto, apesar de satisfeita, a supervisora da seleção
permanente Eliane Martins alerta para as limitações
brasileiras na modalidade. Em entrevista exclusiva à
GE.Net, a dirigente da Confederação Brasileira
de Ginástica avalia que as expectativas ainda estão
depositadas em poucos atletas e que o País carece de
um investimento mais forte no desenvolvimento de base. Para
resolver a carência, Eliane defende uma massificação
do esporte nas escolas por meio de um programa específico
para isso.
Outra preocupação de Eliane é com a
avaliação equivocada que os torcedores brasileiros
fazem dos resultados. "Não se pode cobrar os ginastas
em Mundiais e em Olimpíadas baseado no desempenho nas
etapas da Copa, porque estas não contam com todos os
principais atletas do mundo", avisa.
Gazeta Esportiva.Net - A Daiane vem disputando as competições
com infiltração no joelho, a Laís ficou
fora do Mundial de Melbourne por contusão e a Daniele
constantemente tem problemas de peso. Além disso, o
Diego passou por cirurgia e ficou seis meses afastado dos
treinos. Por que é tão difícil se manter
em bom nível físico na ginástica?
Eliane Martins - A ginástica é um esporte
de muita precisão e os atletas treinam muito. O peso
causa a contusão, porque são exercícios
muito repetitivos e há muita carga, muito impacto.
Para algumas meninas é difícil manter o peso.
Os meninos têm menos problemas com isso, mas eles também
sofrem contusões porque faz parte da ginástica.
GE.Net - A Laís disse que não participou
da decisão de ficar fora do Mundial. A Daniele também
já deu indicativos de que as decisões são
unilaterais por parte da confederação. Como
é a relação com as atletas?
EM - A decisão de competir ou não em caso
de contusão é tomada com o médico, que
dá o parecer dele. O Mundial não é um
campeonato classificatório para nada, não fazia
diferença para o futuro. A Laís poderia competir
e agravar mais a lesão e nós preferimos preservar
a atleta. Se fosse um campeonato classificatório para
as Olimpíadas, por exemplo, seria diferente. Se ela
tivesse 70, 80% de condições e o Brasil precisasse
dela para se classificar para as Olimpíadas, a decisão
seria outra. Colocar a menina para competir sem condições
poderia queimar o filme dela.
GE.Net - Mas ela questionou a decisão de não
competir?
EM - Não. Tem ginasta que insiste em competir,
como o Diego em São Paulo. O médico e o técnico
falaram que ele não tinha condições de
competir e ele disse que queria, que achava que dava. O médico,
então, falou para ele competir até o limite
da dor (Diego acabou não disputando a etapa paulista
da Copa por não suportar as dores no pé). Até
hoje ele diz que foi bom ter insistido em competir porque
se tivessem proibido ele estaria pensando que poderia ter
competindo. Vai muito da personalidade do atleta.
GE.Net - E a decisão de quem disputará os
campeonatos e em quais aparelhos é feita em conjunto
com as atletas?
EM - Não, de jeito nenhum. Quem decide em quais
aparelhos vão competir são os treinadores, de
acordo com o que vêem durante os treinamentos. O atleta
não participa.
| Foto: Fernando Pilatos/Gazeta
Press |
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| Por ser homem, Diego tem mais frieza para
aguentar a pressão, segundo Eliane
Martins |
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GE.Net - A pressão sobre a Daiane em Atenas foi
muito grande. Sobre a Laís e o Diego, se eles mantiverem
os bons resultados, não será diferente. A Laís,
inclusive, disse que a autoconfiança das rivais é
muito grande e isso ajuda. Os atletas estão preparados
para a cobrança por resultados?
EM - Essa pressão só existe na cabeça
de vocês, jornalistas. A pressão só acontece
aqui no Brasil por causa da mídia. Quando a competição
é fora, eles não sentem. A CBG não cobra
dos atletas além do que eles podem fazer. A cobrança
é feita em cima do que eles estão habituados
a fazer no treinamento. Além disso, temos uma equipe
médica formada por dez profissionais que faz todo acompanhamento
do atleta, inclusive psicológico.
GE.Net - É que sempre que surge um campeão
no Brasil a exposição na mídia é
muito grande. Foi isso que aconteceu com a Daniele quando
ela obteve seus primeiros resultados importantes e é
isso que está acontecendo agora com o Diego?
EM - As pessoas não conseguem entender que as conquistas
estão vindo na Copa do Mundo, onde não estão
os melhores do mundo. É bem diferente de um Mundial
ou de uma Olimpíada. A gente está evoluindo,
mas não é porque estamos indo bem na Copa do
Mundo que vamos voltar do Mundial com o mesmo número
de medalhas. Isso vem com o tempo. Antigamente não
tínhamos resultado nenhum na Copa do Mundo e a ginástica
é um esporte a longo prazo.
GE.Net - A Daniele acabou caindo de rendimento após
tornar-se a principal estrela da ginástica feminina
do Brasil. Corre o risco de acontecer o mesmo com o Diego?
EM - Acho que o Diego não corre esse risco porque
os homens são diferentes, emocionalmente são
muito mais frios, isso de forma geral. Até o tratamento
da imprensa é diferente. A imprensa não deu
tanta evidência para o titulo do Diego, foi menor que
o da Daiane.
GE.Net - Nas potências da ginástica, o que
se vê é que a dedicação ao esporte
começa muito cedo e geralmente ela é total.
As garotas que competem são muito novas. Já
a Daiane começou mais tarde e acabou se tornando campeã
mundial. Aqui no Brasil é diferente?
EM - A Daiane é uma exceção. Existem
determinadas qualidades físicas que você tem
que desenvolver na criança pequena, porque depois você
não consegue mais, como coordenação motora,
flexibilidade. Se começa muito tarde, a ginasta não
consegue desenvolver o potencial cedo. As meninas começam
a treinar forte a partir dos 11, 12 anos. A Daiane só
conseguiu se destacar começando mais tarde porque ela
é forte demais, compensa as limitações
que ela tem com a explosão. Ela tem problemas de base
nos outros aparelhos, embora tenha melhorado muito. A ginástica
é um esporte de automação, que você
faz por repetição. É impossível
raciocinar na hora de uma acrobacia, por exemplo. Faz porque
o movimento já está automatizado. Se você
aprende desde pequeno a fazer o movimento da maneira correta,
no momento em que está em uma situação
de pressão você vai fazer da maneira correta
porque foi assim que você aprendeu.
GE.Net - Qual seria a idade ideal para uma criança
começar a se dedicar à ginástica e onde
isso deveria começar?
EM - As crianças podem começar com uns 6
anos, treinando uma hora, três vezes por semana, gradativamente.
Mas como a aparelhagem é cara, precisa de um local
especifico. Esse é o grande problema da ginástica
artística. Só existe ginástica nos clubes
e, ainda assim, alguns deles só aceitam sócios,
não é aberto à comunidade. Aqui em Curitiba
(sede da seleção permanente) a gente tem uma
escolinha com mais de 800 crianças, existe um trabalho
semelhante em São Paulo também. A CBG criou
um programa que dá as diretrizes para os clubes como
trabalhar e o que trabalhar, mas o número de atletas
é muito pequeno.
GE.Net - Estamos desperdiçando talentos, então?
EM - Com certeza. Exitem países que têm bastante
tradição que é do tamanho de um estado
do Brasil. O problema é que aqui, na maioria dos casos,
não faz ginástica quem quer, faz quem pode.
Ás vezes a criança não tem todo esse
talento para a ginástica, mas tem a oportunidade e
passa a fazer. Deveria ser o contrário. Tem que levar
a criança para o esporte que ela vai se dar melhor.
Você deveria trabalhar já com crianças
com potencial para a ginástica, porque é mais
fácil para a própria criança, para os
treinadores. Mas é difícil porque não
há uma política esportiva no país. Só
vamos ter esporte de massa mesmo quando tivermos esporte na
escola e uma política para isso, com capacitação
de treinadores. A ginástica rítmica, por exemplo,
tem cinco vezes mais atletas cadastrados na CBG que a artística,
pois não precisa de um lugar específico, é
tudo mais barato. No Nordeste não tem ginástica
artística, por exemplo, mas a maioria das escolas tem
a ginástica rítmica. Hoje em dia tem muito mais
criança interessada e praticando ginástica artística,
mas ainda não é suficiente. A gente precisaria
de muita criança para tirar uma equipe mais forte.
GE.Net - Com tantas adversidades, como o Brasil conseguiu
se colocar entre as principais potências deste esporte
no mundo?
EM - Nós tínhamos duas opções.
Ou partiríamos para a massificação ou
para esse trabalho de seleção permanente para
conseguir ter a chance de sucesso. E deu certo. Começou
em 1996, quando nós ganhamos as primeiras bolsas do
Comitê Olímpico Internacional (COI). Eram três
bolsas, no valor entre US$ 1.000 e 1.500, que normalmente
são dadas para atletas, mas nós pedimos para
o Comitê Olímpico Brasileiro para que não
usássemos esse dinheiro em apenas três atletas
e sim num grupo de ginastas. Aí começamos a
formar seleções, que treinavam quatro ou cinco
vezes por ano, participavam de competições internacionais.
E a partir de 2002, criamos a seleção permanente.
GE.Net - Os Estados Unidos, hoje, são a grande
potência da ginástica feminina. Os países
do leste europeu estão perdendo força?
EM - Os norte-americanos são um caso à parte.
Lá existe um trabalho de massa, de alto nível,
mais de 2.000 ginásios iguais a esse de Curitiba, são
mais de 200 meninas em condições de estar na
seleção. Lá ninguém precisa fazer
pressão porque a própria concorrência
já é a motivação para as meninas.
Elas sabem que se elas não tiverem bem têm 200
atrás delas para pegar o lugar. Aqui nós temos
que escolher entre oito. Além disso, o Brasil é
muito jovem na ginástica, não tem tradição.
A confederação foi criada em 1978. Com relação
aos países do leste europeu, eles perderam muita força,
sim. Há 10, 12 anos eles tinham um domínio absoluto,
com a União Soviética, a Bulgária, a
Romênia, a Tchecoslováquia. A União Soviética,
sobretudo, concentrava vários países tradicionais,
como a Rússia, a Ucrânia, a Bielo-Rússia,
a Armênia.
| Foto: Fernando Pilatos/Gazeta
Press |
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| Enfraquecimento do Leste Europeu provocou
a "exportação" de
técnicos, inclusive de Oleg ao Brasil |
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GE.Net - O fim da União Soviética contribuiu
para o desenvolvimento da ginástica em outras regiões?
EM - Foi determinante o fim da União Soviética,
pois acabou sendo importante para expandir para o resto do
mundo os conhecimentos que praticamente ficavam concentrados
naquele país. Os maiores treinadores foram para outros
países. Os Estados Unidos hoje estão lotados
de treinadores estrangeiros e o Brasil também é
um exemplo, com a Iryna Ilyashenko e o Oleg Ostapenko. A Iryna,
que chegou em 1999, começou a implantar esse sistema
de treinamento, esses programas de desenvolvimento da CBG.
Ela preparou o terreno para o Oleg, que veio dois anos depois
em 2001. Hoje eles trabalham conjuntamente aqui em Curitiba.
GE.Net - Muito se fala que as notas nas competições
internacionais têm caído muito e que esse seria
um fator de aproximação entre os países
mais tradicionais e os mais jovens na ginástica.
EM - Isso é em função do regulamento
e da evolução do esporte. Antigamente a ginástica
era mais fácil, a complexidade dos movimentos era menor.
Se você pegar as séries da Nadia Comaneci que
tiraram 10, hoje em dia não sei se tiraria 8. A exigência
hoje é bem maior. Estamos no maior momento de evolução
da ginástica e nos próximos quatro anos vai
mudar mais ainda.
GE.Net - Qual a realidade de Daiane para as Olimpíadas
de Pequim? A idade dela permite pensarmos em vê-la competindo
por medalhas?
EM - Se a Daiane, a Daniele, a Camila vão estar
em 2008 a gente não sabe. Elas pretendem estar, mas
vai depender da motivação delas, do físico,
se vão agüentar os treinos no mesmo ritmo forte.
Idade não é o problema, e sim a condição
física. No Mundial tinha atletas de 30 anos, de 25
anos, todas competindo num nível bom. Também
vai depender da evolução das mais jovens. É
muito diferente a motivação para treinar quando
você sabe que tem seis vagas e seis meninas. Tudo vai
evoluindo. De 2002 a 2004, preparamos oito meninas para seis
vagas. Só tinha oito no Brasil todo em condições
de integrar a equipe da Olimpíada. Hoje já temos
16 meninas em condições de competir nas Olimpíadas.
O nível das mais jovens (13 a 15 anos) melhorou muito.
Elas têm um nível técnico muito mais forte,
por exemplo, que o da Laís, que chegou em 2002. O ideal
é ter duas atletas em cada final olímpica e
nós temos meninas com potencial para isso.
GE.Net - E para os Jogos Pan-Americanos de 2007?
EM - O Pan hoje em dia já não é tão
importante para nós porque não há concorrência.
Os Estados Unidos são a principal potência mundial
hoje em dia, estão muito superiores a nós. Já
Canadá e Cuba, de quem antigamente nós não
ganhávamos, hoje não rivalizam mais com a gente.
O interessante para nós, em questão de evolução,
é em nível mundial mesmo.
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