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22/12/2005

Por Marcelo Cazavia

Desde que Daniele Hypólito conquistou a prata no solo e o quarto lugar no individual geral no Mundial de Ghent em 2001, a ginástica artística brasileira vem apresentando uma evolução permanente, solidificada pelos resultados de Daiane dos Santos em 2003 e pelo "surgimento" de Laís Souza neste ano. No masculino, o desempenho de Diego Hypólito também dá esperanças de que novas medalhas virão.

Entretanto, apesar de satisfeita, a supervisora da seleção permanente Eliane Martins alerta para as limitações brasileiras na modalidade. Em entrevista exclusiva à GE.Net, a dirigente da Confederação Brasileira de Ginástica avalia que as expectativas ainda estão depositadas em poucos atletas e que o País carece de um investimento mais forte no desenvolvimento de base. Para resolver a carência, Eliane defende uma massificação do esporte nas escolas por meio de um programa específico para isso.

Outra preocupação de Eliane é com a avaliação equivocada que os torcedores brasileiros fazem dos resultados. "Não se pode cobrar os ginastas em Mundiais e em Olimpíadas baseado no desempenho nas etapas da Copa, porque estas não contam com todos os principais atletas do mundo", avisa.

Gazeta Esportiva.Net - A Daiane vem disputando as competições com infiltração no joelho, a Laís ficou fora do Mundial de Melbourne por contusão e a Daniele constantemente tem problemas de peso. Além disso, o Diego passou por cirurgia e ficou seis meses afastado dos treinos. Por que é tão difícil se manter em bom nível físico na ginástica?
Eliane Martins -
A ginástica é um esporte de muita precisão e os atletas treinam muito. O peso causa a contusão, porque são exercícios muito repetitivos e há muita carga, muito impacto. Para algumas meninas é difícil manter o peso. Os meninos têm menos problemas com isso, mas eles também sofrem contusões porque faz parte da ginástica.

GE.Net - A Laís disse que não participou da decisão de ficar fora do Mundial. A Daniele também já deu indicativos de que as decisões são unilaterais por parte da confederação. Como é a relação com as atletas?
EM -
A decisão de competir ou não em caso de contusão é tomada com o médico, que dá o parecer dele. O Mundial não é um campeonato classificatório para nada, não fazia diferença para o futuro. A Laís poderia competir e agravar mais a lesão e nós preferimos preservar a atleta. Se fosse um campeonato classificatório para as Olimpíadas, por exemplo, seria diferente. Se ela tivesse 70, 80% de condições e o Brasil precisasse dela para se classificar para as Olimpíadas, a decisão seria outra. Colocar a menina para competir sem condições poderia queimar o filme dela.

GE.Net - Mas ela questionou a decisão de não competir?
EM -
Não. Tem ginasta que insiste em competir, como o Diego em São Paulo. O médico e o técnico falaram que ele não tinha condições de competir e ele disse que queria, que achava que dava. O médico, então, falou para ele competir até o limite da dor (Diego acabou não disputando a etapa paulista da Copa por não suportar as dores no pé). Até hoje ele diz que foi bom ter insistido em competir porque se tivessem proibido ele estaria pensando que poderia ter competindo. Vai muito da personalidade do atleta.

GE.Net - E a decisão de quem disputará os campeonatos e em quais aparelhos é feita em conjunto com as atletas?
EM -
Não, de jeito nenhum. Quem decide em quais aparelhos vão competir são os treinadores, de acordo com o que vêem durante os treinamentos. O atleta não participa.

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
Por ser homem, Diego tem mais frieza para aguentar a pressão, segundo Eliane Martins

GE.Net - A pressão sobre a Daiane em Atenas foi muito grande. Sobre a Laís e o Diego, se eles mantiverem os bons resultados, não será diferente. A Laís, inclusive, disse que a autoconfiança das rivais é muito grande e isso ajuda. Os atletas estão preparados para a cobrança por resultados?
EM -
Essa pressão só existe na cabeça de vocês, jornalistas. A pressão só acontece aqui no Brasil por causa da mídia. Quando a competição é fora, eles não sentem. A CBG não cobra dos atletas além do que eles podem fazer. A cobrança é feita em cima do que eles estão habituados a fazer no treinamento. Além disso, temos uma equipe médica formada por dez profissionais que faz todo acompanhamento do atleta, inclusive psicológico.

GE.Net - É que sempre que surge um campeão no Brasil a exposição na mídia é muito grande. Foi isso que aconteceu com a Daniele quando ela obteve seus primeiros resultados importantes e é isso que está acontecendo agora com o Diego?
EM -
As pessoas não conseguem entender que as conquistas estão vindo na Copa do Mundo, onde não estão os melhores do mundo. É bem diferente de um Mundial ou de uma Olimpíada. A gente está evoluindo, mas não é porque estamos indo bem na Copa do Mundo que vamos voltar do Mundial com o mesmo número de medalhas. Isso vem com o tempo. Antigamente não tínhamos resultado nenhum na Copa do Mundo e a ginástica é um esporte a longo prazo.

GE.Net - A Daniele acabou caindo de rendimento após tornar-se a principal estrela da ginástica feminina do Brasil. Corre o risco de acontecer o mesmo com o Diego?
EM - Acho que o Diego não corre esse risco porque os homens são diferentes, emocionalmente são muito mais frios, isso de forma geral. Até o tratamento da imprensa é diferente. A imprensa não deu tanta evidência para o titulo do Diego, foi menor que o da Daiane.

GE.Net - Nas potências da ginástica, o que se vê é que a dedicação ao esporte começa muito cedo e geralmente ela é total. As garotas que competem são muito novas. Já a Daiane começou mais tarde e acabou se tornando campeã mundial. Aqui no Brasil é diferente?
EM -
A Daiane é uma exceção. Existem determinadas qualidades físicas que você tem que desenvolver na criança pequena, porque depois você não consegue mais, como coordenação motora, flexibilidade. Se começa muito tarde, a ginasta não consegue desenvolver o potencial cedo. As meninas começam a treinar forte a partir dos 11, 12 anos. A Daiane só conseguiu se destacar começando mais tarde porque ela é forte demais, compensa as limitações que ela tem com a explosão. Ela tem problemas de base nos outros aparelhos, embora tenha melhorado muito. A ginástica é um esporte de automação, que você faz por repetição. É impossível raciocinar na hora de uma acrobacia, por exemplo. Faz porque o movimento já está automatizado. Se você aprende desde pequeno a fazer o movimento da maneira correta, no momento em que está em uma situação de pressão você vai fazer da maneira correta porque foi assim que você aprendeu.

GE.Net - Qual seria a idade ideal para uma criança começar a se dedicar à ginástica e onde isso deveria começar?
EM -
As crianças podem começar com uns 6 anos, treinando uma hora, três vezes por semana, gradativamente. Mas como a aparelhagem é cara, precisa de um local especifico. Esse é o grande problema da ginástica artística. Só existe ginástica nos clubes e, ainda assim, alguns deles só aceitam sócios, não é aberto à comunidade. Aqui em Curitiba (sede da seleção permanente) a gente tem uma escolinha com mais de 800 crianças, existe um trabalho semelhante em São Paulo também. A CBG criou um programa que dá as diretrizes para os clubes como trabalhar e o que trabalhar, mas o número de atletas é muito pequeno.

GE.Net - Estamos desperdiçando talentos, então?
EM -
Com certeza. Exitem países que têm bastante tradição que é do tamanho de um estado do Brasil. O problema é que aqui, na maioria dos casos, não faz ginástica quem quer, faz quem pode. Ás vezes a criança não tem todo esse talento para a ginástica, mas tem a oportunidade e passa a fazer. Deveria ser o contrário. Tem que levar a criança para o esporte que ela vai se dar melhor. Você deveria trabalhar já com crianças com potencial para a ginástica, porque é mais fácil para a própria criança, para os treinadores. Mas é difícil porque não há uma política esportiva no país. Só vamos ter esporte de massa mesmo quando tivermos esporte na escola e uma política para isso, com capacitação de treinadores. A ginástica rítmica, por exemplo, tem cinco vezes mais atletas cadastrados na CBG que a artística, pois não precisa de um lugar específico, é tudo mais barato. No Nordeste não tem ginástica artística, por exemplo, mas a maioria das escolas tem a ginástica rítmica. Hoje em dia tem muito mais criança interessada e praticando ginástica artística, mas ainda não é suficiente. A gente precisaria de muita criança para tirar uma equipe mais forte.

GE.Net - Com tantas adversidades, como o Brasil conseguiu se colocar entre as principais potências deste esporte no mundo?
EM -
Nós tínhamos duas opções. Ou partiríamos para a massificação ou para esse trabalho de seleção permanente para conseguir ter a chance de sucesso. E deu certo. Começou em 1996, quando nós ganhamos as primeiras bolsas do Comitê Olímpico Internacional (COI). Eram três bolsas, no valor entre US$ 1.000 e 1.500, que normalmente são dadas para atletas, mas nós pedimos para o Comitê Olímpico Brasileiro para que não usássemos esse dinheiro em apenas três atletas e sim num grupo de ginastas. Aí começamos a formar seleções, que treinavam quatro ou cinco vezes por ano, participavam de competições internacionais. E a partir de 2002, criamos a seleção permanente.

GE.Net - Os Estados Unidos, hoje, são a grande potência da ginástica feminina. Os países do leste europeu estão perdendo força?
EM -
Os norte-americanos são um caso à parte. Lá existe um trabalho de massa, de alto nível, mais de 2.000 ginásios iguais a esse de Curitiba, são mais de 200 meninas em condições de estar na seleção. Lá ninguém precisa fazer pressão porque a própria concorrência já é a motivação para as meninas. Elas sabem que se elas não tiverem bem têm 200 atrás delas para pegar o lugar. Aqui nós temos que escolher entre oito. Além disso, o Brasil é muito jovem na ginástica, não tem tradição. A confederação foi criada em 1978. Com relação aos países do leste europeu, eles perderam muita força, sim. Há 10, 12 anos eles tinham um domínio absoluto, com a União Soviética, a Bulgária, a Romênia, a Tchecoslováquia. A União Soviética, sobretudo, concentrava vários países tradicionais, como a Rússia, a Ucrânia, a Bielo-Rússia, a Armênia.

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
Enfraquecimento do Leste Europeu provocou a "exportação" de técnicos, inclusive de Oleg ao Brasil

GE.Net - O fim da União Soviética contribuiu para o desenvolvimento da ginástica em outras regiões?
EM -
Foi determinante o fim da União Soviética, pois acabou sendo importante para expandir para o resto do mundo os conhecimentos que praticamente ficavam concentrados naquele país. Os maiores treinadores foram para outros países. Os Estados Unidos hoje estão lotados de treinadores estrangeiros e o Brasil também é um exemplo, com a Iryna Ilyashenko e o Oleg Ostapenko. A Iryna, que chegou em 1999, começou a implantar esse sistema de treinamento, esses programas de desenvolvimento da CBG. Ela preparou o terreno para o Oleg, que veio dois anos depois em 2001. Hoje eles trabalham conjuntamente aqui em Curitiba.

GE.Net - Muito se fala que as notas nas competições internacionais têm caído muito e que esse seria um fator de aproximação entre os países mais tradicionais e os mais jovens na ginástica.
EM -
Isso é em função do regulamento e da evolução do esporte. Antigamente a ginástica era mais fácil, a complexidade dos movimentos era menor. Se você pegar as séries da Nadia Comaneci que tiraram 10, hoje em dia não sei se tiraria 8. A exigência hoje é bem maior. Estamos no maior momento de evolução da ginástica e nos próximos quatro anos vai mudar mais ainda.

GE.Net - Qual a realidade de Daiane para as Olimpíadas de Pequim? A idade dela permite pensarmos em vê-la competindo por medalhas?
EM -
Se a Daiane, a Daniele, a Camila vão estar em 2008 a gente não sabe. Elas pretendem estar, mas vai depender da motivação delas, do físico, se vão agüentar os treinos no mesmo ritmo forte. Idade não é o problema, e sim a condição física. No Mundial tinha atletas de 30 anos, de 25 anos, todas competindo num nível bom. Também vai depender da evolução das mais jovens. É muito diferente a motivação para treinar quando você sabe que tem seis vagas e seis meninas. Tudo vai evoluindo. De 2002 a 2004, preparamos oito meninas para seis vagas. Só tinha oito no Brasil todo em condições de integrar a equipe da Olimpíada. Hoje já temos 16 meninas em condições de competir nas Olimpíadas. O nível das mais jovens (13 a 15 anos) melhorou muito. Elas têm um nível técnico muito mais forte, por exemplo, que o da Laís, que chegou em 2002. O ideal é ter duas atletas em cada final olímpica e nós temos meninas com potencial para isso.

GE.Net - E para os Jogos Pan-Americanos de 2007?
EM -
O Pan hoje em dia já não é tão importante para nós porque não há concorrência. Os Estados Unidos são a principal potência mundial hoje em dia, estão muito superiores a nós. Já Canadá e Cuba, de quem antigamente nós não ganhávamos, hoje não rivalizam mais com a gente. O interessante para nós, em questão de evolução, é em nível mundial mesmo.

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