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31/12/2005

Oportunidade inédita

Disputar um Parapan-americano em casa é uma oportunidade inédita para os atletas nacionais. O Brasil abriga o evento pela primeira vez e está inovando na realização. Até 2003, em Santo Domingo, os Jogos não eram correlacionados ao Pan-americano tradicional. Em sua candidatura para 2007, o Comitê Organizador do Rio (CO-Rio) solicitou autorização para promover os dois eventos na seqüência, como ocorre com as Olimpíadas desde Seul-88. O pedido foi aceito pela seção América do Comitê Paraolímpico Internacional.

"Nossa preocupação sempre foi garantir o mesmo padrão de qualidade para os Jogos Pan-americanos e Parapan-americanos, e isso será possível tanto pelo uso das mesmas instalações como pela participação das mesmas equipes de planejamento, preparação e operação em ambos”, explica o secretário-geral do CO-Rio, Carlos Roberto Osório.

Por enquanto, a organização do evento ainda está em compasso de espera porque o desenvolvimento de projetos específicos só terá início após o término desta etapa no Pan-americano, provavelmente, em maio de 2006.

Mas, de início, as instalações deverão ser basicamente as mesmas para os dois eventos. Em alguns casos, as sedes precisarão passar por adaptações para atender às necessidades dos atletas. Também haverá mudanças por logística. É o que acontecerá com futebol e vôlei, por exemplo, transferidos do Complexo do Maracanã para o Riocentro.

Os Jogos Parapan-americanos serão realizados de 12 a 19 de agosto (o Pan-americano está programado para o período de 13 a 29 de julho). A expectativa é de participação de 1.300 atletas. Este será o terceiro Parapan da história, os anteriores foram realizados na Cidade do México (México-1999) e Mar del Plata (Argentina-2003).

Por Marta Teixeira

Até os sete anos, Clodoaldo Silva não andava. Nascido com paralisia cerebral, o irmão Luís Antônio eram suas pernas. Quem o via, dificilmente imaginaria que aos 26 anos ele seria eleito o melhor atleta paraolímpico do mundo, teria recordes mundiais em seis provas – 10m, 50m, 100m e 200m livre; 50m costas e 50m borboleta – e 120 medalhas em casa (o que já o obrigou a desocupar o quarto). Tudo isso nadando, esporte que só conheceu aos 16 anos, como exercício fisioterápico.

Em 1998, disputou seu primeiro Campeonato Brasileiro e estreou com três medalhas de ouro. De lá para cá, passou situações difíceis por falta de patrocínio. Deu a volta por cima, comprou casa, teve seu valor reconhecido. Mas, ao lado da família, sabe que nada mudou. A mãe, dona Maria das Neves, faz questão de lembra-lo que nada muda por completo. “Até hoje, me trata como criana. Às vezes, tô conversando e ela diz: ‘cresce filho’, na frente de um monte de gente... Isso é legal, fico muito feliz. Voltar para casa, ter sempre o mesmo tratamento. É bom porque não deixa subir na sua cabeça. Você volta cheio de prêmios, cheio de medalhas, melhor do mundo e acha que pode... Chega em casa, ela te dá bronca, manda você fazer a mesma coisa que mandava antes. Aí você percebe: poxa, não sou melhor de nada, continuo a mesma pessoa”.

Fenômeno nas piscinas, Clodoaldo sabe de sua responsabilidade fora delas. Apadrinha diversos projetos sociais e planeja abrir um próprio no próximo ano. Atento à concorrência, sabe que sua única arma é o treinamento, coisa que gosta mais até que de competir.

Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, ele conta sobre sua emoção ao se perceber ídolo de crianças que não têm deficiência, define como sua principal mensagem a alegria de ser uma pessoa comum e admite que as brigas pelo poder nos bastidores só fazem um tipo de vítimas: os atletas.

Gazeta Esportiva.Net – Foram 39 medalhas em 2005, foi a melhor temporada de sua carreira?
Clodoaldo Silva
– Foi a melhor temporada em nível de competição, porque participei de mais campeonatos. Porque não tem nem comparação com o ano passado, 2004, que foi a Paraolimpíada. Lá o Clodoaldo surgiu para o Brasil e para o mundo. Mas esse ano, pela primeira vez estamos tendo um circuito (Circuito Loterias Caixa Brasil Paraolímpico), tendo um calendário de etapas com premiação financeira para atletas técnicos e clubes.

GE.Net - Além das medalhas, você foi eleito o melhor atleta paraolímpico do mundo (Prêmio Laureus) e recebeu o troféu Hors Concours no Brasil (outorgado pelo Comitê Olímpico Brasileiro – COB). Você esperava ser eleito o melhor do mundo?
CS
- Eu espero dentro da piscina, porque eu treino para isso, fora é conseqüência. E, graças a Deus, desde Atenas, venho tendo um reconhecimento muito grande nacional e internacional. Realizo palestras pelo Brasil, passando mensagem de vontade, de superar as adversidades. Participo de vários projetos sociais e isso me deixa muito feliz. Por causa de todas estas coisas tenho a oportunidade de ser indicado para premiações internacionais. Recebi o troféu de Hors Concours do Comitê Brasileiro, que só duas outras pessoas ganharam: o Ronaldinho Fenômeno e o Ronaldinho Gaúcho. Então, fico muito alegre porque cada vez que o Clodoaldo tem reconhecimento, os atletas paraolímpicos, as pessoas com deficiência, estão tendo este reconhecimento.

GE.Net - Nos últimos anos, o paradesporto começou a ter destaque maior. Como você avalia esta evolução e qual comparativo faz com o que há lá fora?
CS
- Temos muito que crescer. O trabalho ainda vai ser um pouco longo porque a estrutura que vejo lá fora é de mais apoio. O Brasil vem tendo evolução muito grande, começou em Sydney, na Paraolimpíada de 2000, e agora temos um circuito nacional. Isso nos deixa muito feliz, porque a gente sabe que está começando a ter esta evolução. O Comitê Paraolímpico Brasileiro está fazendo um trabalho belíssimo. Tenho certeza que em um futuro bem próximo, a gente pode ter essa evolução total para que possamos ser potência paraolímpica como tanto sonhamos.

GE.Net – Por falar em Comitê, em alguns momentos houve controvérsias envolvendo esse trabalho. Por que isso aconteceu?
CS
- Como todo órgão grande, tem algumas dificuldades administrativas. Nós atletas não gostamos muito de nos meter, mas ficamos muito tristes com o que acontece porque, muitas vezes, os atletas vão treinar sem nenhuma estrutura sem nenhum apoio. Quando chegam em competições internacionais se destacam pra caramba, levam o nome do Brasil para as alturas e vêm dirigentes e atrapalham tudo com essas brigas e, eu acho, com vaidades. Fico muito triste, porque até 2000 não se brigava, porque o Comitê não tinha nenhuma verba. Depois de 2001, curiosamente, começou a Lei Agnelo-Piva, as loterias começaram a destinar 2% para o Comitê Olímpico e Paraolímpico e essas brigas começaram. Onde acontece algum retorno financeiro, há briga. Mas com o tempo, só quem tem a perder somos nós atletas.

GE.Net – Se tivesse que eleger uma prioridade no trabalho para os paraolímpicos, qual seria?
CS
- Em primeiro lugar patrocínio. Porque o atleta não é formado em três, dois meses e, geralmente, os apoios temporários vêm em tempo de Mundial, de Paraolimpíada. É um pensamento de todos os atletas, terem apoio do ano pós paraolímpico até a paraolimpíada para que a gente possa ter um resultado mais expressivo do que já temos. Eu fico imaginando, com toda esta falta de estrutura nós conseguimos o que temos, imagina se houvesse apoio, estrutura, condições. Nós seríamos potência paraolímpica fácil, fácil.

GE.Net – Mas você tem patrocínio...
CS
- Tenho patrocínio das Loterias Caixa e Nutriday. Hoje sou atleta profissional, tenho uma assessoria de comunicação, assessoria de capitação de recursos de patrocínio que está negociando para que no próximo ano possa estar fazendo o que eu gosto que é nadar, viajando pelo Brasil, pelo mundo, conseguindo novos resultados e colocando ele (o país) no lugar que merece: o alto do pódio.

GE.Net - Você consegue viver do esporte, o que é uma raridade...
CS
- É uma raridade, principalmente para atleta paraolímpico. Infelizmente, hoje só o Clodoaldo é considerado um ídolo, um exemplo. Mas nós temos muitos outros atletas que têm uma história de vida maravilhosa, vencedora. Mas eu tenho certeza que daqui a algum tempo não vai ser só o Clodoaldo que vai ser um grande ídolo e sim todos os atletas paraolímpicos. Tenho um sonho que vão ser parados na rua para bater fotos, dar autógrafos...

GE.Net – Coisas que já acontecem com você...
CS
- Acontece e eu fico muito feliz porque, às vezes, eu não consigo nem andar em alguns lugares que vou. Isso é uma alegria muito grande, um reconhecimento, porque eles vêem o Clodoaldo não deficiente, mas sim eficiente, campeão, que busca seus objetivos, suas metas. Eu fico muito feliz porque isso dá incentivo para outras pessoas com ou sem deficiência a praticar esporte, querer um algo mais na vida.

GE.Net – E quando estas pessoas vêem você, o que deseja que elas guardem?
CS
- A alegria, isso é fundamental. Eu quero que eles admirem o Clodoaldo atleta, mas quero que, em primeiro lugar, eles vejam o Clodoaldo pessoa, que gosta de brincar, que gosta de falar. Que possam levar essa mensagem de felicidade.

GE.Net - Como é o Clodoaldo fora das piscinas? Porque dentro da piscina a gente sabe que ele é aplicado, esforçado...
CS
- Totalmente o contrário. Ele não é aplicado, fala besteiras como qualquer outro. Eu sempre digo uma frase: em time que ganha não se mexe e tudo que eu consegui foi através desta simplicidade, das brincadeiras, do bom-humor e não tem porque eu mudar hoje. Tenho certeza que este é o caminho, e o objetivo maior é incentivar outras pessoas a estar sempre participando do esporte e da vida.

GE.Net - Além de nadar, o que mais você gosta de fazer?
CS
- Ir ao cinema, ir à praia, namorar, se eu tivesse uma namorada hoje (rindo)... Como qualquer pessoa normal. Principalmente estar com a minha família, com meus amigos. Com essa vida maluca que estou tendo, quase não estou parando em casa. Então, dá muitas saudades da minha mãe, que eu adoro, que eu amo.

GE.Net - Como é o relacionamento de vocês, a importância do apoio da família na sua carreira?
CS
- Maravilhoso, desde o nascimento até hoje. Até os 7 anos de idade eu não andava então, meu irmão (Luis Antônio) eram minhas pernas. Para onde eu tinha que ir: praia, escola, creche ele que me levava. Minhas irmãs também, temos um amor muito grande entre nós até hoje. Isso é fundamental para qualquer pessoa e para um atleta principalmente. Porque eu tenho toda tranqüilidade de ir para um campeonato e, se não conseguir nenhuma medalha e chegar em casa, eles vão me tratar da mesma forma, com o mesmo carinho porque para eles eu já sou um campeão desde antes.

GE.Net - Mas faz tempo que você não vai a um campeonato e volta sem nada...
CS
- Mas ninguém é imbatível (rindo). Eu tenho esta consciência. Eu sempre vou para o campeonato não para bater recorde nem para ganhar medalhas e sim para me divertir. Enquanto estiver fazendo isso eu vou continuar nadando aos 50, 60, 70, mas quando isso se tornar obrigação e esse sentimento for amanhã, eu paro.

GE.Net - Tem um lugar especial na sua casa para seus prêmios, seus troféus. Você já precisou desocupar um quarto para eles?
CS
- Já precisei desocupar um quarto. As minhas medalhas ficam no meu quarto, na sala ficam todos os meus quadros e troféus. Tenho lugar para todos, mas se faltar, eu espero que falte, espero que eu tenha este problema para sempre, eu arrumo.

GE.Net - Se tivesse que escolher o momento que mais te marcou na sua carreira, qual seria?
CS
- Paraolimpíada de Atenas, último dia de competição. Eu estava com cinco medalhas de ouro e uma de prata e o revezamento 4x50m livre ia competir. Nós não éramos favoritos e algumas pessoas falaram: o Clodoaldo não vai se esforçar muito porque ele já tem cinco medalhas de ouro. Os outros três, naquele momento, não tinham nenhuma e eu fiquei um pouco chateado porque tiveram este pensamento. Nós fomos lá, competimos, conseguimos a medalha de ouro e todos se emocionaram muito, choraram pra caramba. Eu achava que isso nunca ia acontecer, eu me emocionar tanto. Nas minhas cinco medalhas anteriores eu nem chorei, fiquei tranqüilo. Mas esta sexta foi uma emoção, uma alegria muito grande porque eu sabia que estava contribuindo para que outras pessoas pudessem ter aquele sonho que eu estava tendo. Isso foi bem emocionante.

GE.Net - E o momento mais difícil que você atravessou?
CS
- Passei grandes dificuldades na minha vida, mas essas dificuldades serviram para me motivar, me incentivar a continuar. Em 2000, quando cheguei da Paraolimpíada de Sydney, achei que as coisas iam melhorar e não melhoraram. Eu tive que conseguir um trabalho, estudar e treinar. Passei um ano fazendo isso, estava muito cansativo e eu não estava conseguindo conciliar. Mas nunca pensei em desistir. Com apoio da minha família, minha mãe que sempre me incentivou, deixei o emprego. Um ano depois, na primeira competição, bati três recordes mundiais. Esse período foi de muitas dificuldades, mas serviu para fortalecer.

GE.Net - Em casa, para sua mãe, não mudou nada, mas na sua vida, o que mudou nestes últimos anos?
CS
- Depois de Atenas, comecei a realizar palestras em todo Brasil, a participar de projetos sociais sendo padrinho. Acho muito legal porque tudo que tenho hoje é através do esporte. Tenho uma casa, que eu não tinha, moro eu minha mãe e meu padrasto, tenho carro e tenho patrocinadores. Tenho um lugar de destaque na sociedade. Fico muito feliz por isso, mas o que fico muito mais feliz é que, através de toda essa visibilidade, eu tô podendo ajudar outras pessoas. Me emociono muito quando vem crianças sem nenhuma deficiência e falam: pôxa, quando eu crescer quero ser igual a você. Quando vejo nas palavras das crianças este tipo de frase é uma coisa que me emociona e todos os dias, quando eu acordo, não caiu a ficha.

GE.Net - Você começou na natação tarde, com 16 anos, imaginava chegar aonde chegou?
CS
- Nunca. Eu comecei como fisioterapia. Foi tudo por acaso. Eu acho que, se pensasse: eu quero entrar na natação para ser um grande atleta, campeão paraolímpico, melhor atleta do mundo, não daria certo. Mas como eu entrei por acaso , vivi um dia após o outro, é por isso que dá tão certo. Eu não gosto de pensar no futuro. Não tem como eu chegar para você e dizer: daqui um ano eu vou ganhar sete medalhas de ouro, daqui a três anos vou estar assim. Meu futuro é hoje, gosto de viver bem o presente, fazer bem o meu hoje pra que se torne realidade amanhã.

GE.Net - Você pretende usar sua imagem para ajudar outras pessoas que têm necessidade especial?
CS
- Com certeza. Hoje eu já estou participando de projetos sociais. Lá em Natal, tô com um que se chama Mergulho para o Futuro. Ainda está no papel, mas acredito que no ano que vem já possa estar beneficiando mais de 600 crianças e adolescentes com ou sem deficiência. Não é só porque eu sou deficiente que tenho que trabalhar só com deficientes, porque baixa estima, pessoa que não acreditam em si próprias existe em todas as faixas etárias. Eu quero ajudar estas pessoas, e no que eu puder estar aliando Clodoaldo Silva a projetos para dar qualidade de vida e independência a outras pessoas eu vou fazer. Esse é o meu sentimento tanto agora quanto para depois da carreira, que eu nem sei quando é.

GE.Net - Ano que vem é um ano pré-pan, como está sua programação?
CS
- Treinar muito, é isso que eu posso te dizer. 2007 tem o Parapan-americano, 2008 tem a Paraolimpiada de Pequim. Hoje e sempre nome não ganhou títulos, ninguém foi convocado por nome. Você tem que treinar todos os dias, ralar como qualquer outra pessoa e é isso que eu vou fazer. Não me sinto garantido em Mundial, em Parapan-americano ou Paraolimpíada. Eu vou buscar estes índices, vou treinar mais do que já treinei esses anos todos porque os resultados são conseqüências.

GE.Net - O Parapan-americano em casa é um privilégio, dá um incentivo a mais, não?
CS
- É um incentivo, é um sonho, não só para o Clodoaldo mas tenho certeza que para todos os atletas brasileiros, olímpicos e paraolímpicos. Porque o primeiro grande sonho de um atleta de alto rendimento é participar de uma seleção brasileira, depois participar de um campeonato internacional e, quando consegue, o outro sonho é participar de uma competição internacional defendendo a seleção brasileira em seu país e em 2007 vamos ter esta oportunidade. Mas ainda falta muito tempo para isso, vamos esperar, mas que é um grande sonho, sem dúvida...

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