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Oportunidade inédita
Disputar um Parapan-americano em casa é
uma oportunidade inédita para os atletas
nacionais. O Brasil abriga o evento pela primeira
vez e está inovando na realização.
Até 2003, em Santo Domingo, os Jogos não
eram correlacionados ao Pan-americano tradicional.
Em sua candidatura para 2007, o Comitê Organizador
do Rio (CO-Rio) solicitou autorização
para promover os dois eventos na seqüência,
como ocorre com as Olimpíadas desde Seul-88.
O pedido foi aceito pela seção América
do Comitê Paraolímpico Internacional.
"Nossa preocupação sempre
foi garantir o mesmo padrão de qualidade
para os Jogos Pan-americanos e Parapan-americanos,
e isso será possível tanto pelo
uso das mesmas instalações como
pela participação das mesmas equipes
de planejamento, preparação e operação
em ambos, explica o secretário-geral
do CO-Rio, Carlos Roberto Osório.
Por enquanto, a organização do
evento ainda está em compasso de espera
porque o desenvolvimento de projetos específicos
só terá início após
o término desta etapa no Pan-americano,
provavelmente, em maio de 2006.
Mas, de início, as instalações
deverão ser basicamente as mesmas para
os dois eventos. Em alguns casos, as sedes precisarão
passar por adaptações para atender
às necessidades dos atletas. Também
haverá mudanças por logística.
É o que acontecerá com futebol e
vôlei, por exemplo, transferidos do Complexo
do Maracanã para o Riocentro.
Os Jogos Parapan-americanos serão realizados
de 12 a 19 de agosto (o Pan-americano está
programado para o período de 13 a 29 de
julho). A expectativa é de participação
de 1.300 atletas. Este será o terceiro
Parapan da história, os anteriores foram
realizados na Cidade do México (México-1999)
e Mar del Plata (Argentina-2003).
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Por Marta Teixeira
Até os sete anos, Clodoaldo Silva não andava.
Nascido com paralisia cerebral, o irmão Luís
Antônio eram suas pernas. Quem o via, dificilmente imaginaria
que aos 26 anos ele seria eleito o melhor atleta paraolímpico
do mundo, teria recordes mundiais em seis provas 10m,
50m, 100m e 200m livre; 50m costas e 50m borboleta
e 120 medalhas em casa (o que já o obrigou a desocupar
o quarto). Tudo isso nadando, esporte que só conheceu
aos 16 anos, como exercício fisioterápico.
Em 1998, disputou seu primeiro Campeonato Brasileiro e estreou
com três medalhas de ouro. De lá para cá,
passou situações difíceis por falta de
patrocínio. Deu a volta por cima, comprou casa, teve
seu valor reconhecido. Mas, ao lado da família, sabe
que nada mudou. A mãe, dona Maria das Neves, faz questão
de lembra-lo que nada muda por completo. Até
hoje, me trata como criana. Às vezes, tô conversando
e ela diz: cresce filho, na frente de um monte
de gente... Isso é legal, fico muito feliz. Voltar
para casa, ter sempre o mesmo tratamento. É bom porque
não deixa subir na sua cabeça. Você volta
cheio de prêmios, cheio de medalhas, melhor do mundo
e acha que pode... Chega em casa, ela te dá bronca,
manda você fazer a mesma coisa que mandava antes. Aí
você percebe: poxa, não sou melhor de nada, continuo
a mesma pessoa.
Fenômeno nas piscinas, Clodoaldo sabe de sua responsabilidade
fora delas. Apadrinha diversos projetos sociais e planeja
abrir um próprio no próximo ano. Atento à
concorrência, sabe que sua única arma é
o treinamento, coisa que gosta mais até que de competir.
Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, ele
conta sobre sua emoção ao se perceber ídolo
de crianças que não têm deficiência,
define como sua principal mensagem a alegria de ser uma pessoa
comum e admite que as brigas pelo poder nos bastidores só
fazem um tipo de vítimas: os atletas.
Gazeta Esportiva.Net Foram 39 medalhas em 2005,
foi a melhor temporada de sua carreira?
Clodoaldo Silva Foi a melhor temporada em nível
de competição, porque participei de mais campeonatos.
Porque não tem nem comparação com o ano
passado, 2004, que foi a Paraolimpíada. Lá o
Clodoaldo surgiu para o Brasil e para o mundo. Mas esse ano,
pela primeira vez estamos tendo um circuito (Circuito Loterias
Caixa Brasil Paraolímpico), tendo um calendário
de etapas com premiação financeira para atletas
técnicos e clubes.
GE.Net - Além das medalhas, você foi eleito
o melhor atleta paraolímpico do mundo (Prêmio
Laureus) e recebeu o troféu Hors Concours no Brasil
(outorgado pelo Comitê Olímpico Brasileiro
COB). Você esperava ser eleito o melhor do mundo?
CS - Eu espero dentro da piscina, porque eu treino para
isso, fora é conseqüência. E, graças
a Deus, desde Atenas, venho tendo um reconhecimento muito
grande nacional e internacional. Realizo palestras pelo Brasil,
passando mensagem de vontade, de superar as adversidades.
Participo de vários projetos sociais e isso me deixa
muito feliz. Por causa de todas estas coisas tenho a oportunidade
de ser indicado para premiações internacionais.
Recebi o troféu de Hors Concours do Comitê Brasileiro,
que só duas outras pessoas ganharam: o Ronaldinho Fenômeno
e o Ronaldinho Gaúcho. Então, fico muito alegre
porque cada vez que o Clodoaldo tem reconhecimento, os atletas
paraolímpicos, as pessoas com deficiência, estão
tendo este reconhecimento.
GE.Net - Nos últimos anos, o paradesporto começou
a ter destaque maior. Como você avalia esta evolução
e qual comparativo faz com o que há lá fora?
CS - Temos muito que crescer. O trabalho ainda vai ser
um pouco longo porque a estrutura que vejo lá fora
é de mais apoio. O Brasil vem tendo evolução
muito grande, começou em Sydney, na Paraolimpíada
de 2000, e agora temos um circuito nacional. Isso nos deixa
muito feliz, porque a gente sabe que está começando
a ter esta evolução. O Comitê Paraolímpico
Brasileiro está fazendo um trabalho belíssimo.
Tenho certeza que em um futuro bem próximo, a gente
pode ter essa evolução total para que possamos
ser potência paraolímpica como tanto sonhamos.
GE.Net Por falar em Comitê, em alguns momentos
houve controvérsias envolvendo esse trabalho. Por que
isso aconteceu?
CS - Como todo órgão grande, tem algumas
dificuldades administrativas. Nós atletas não
gostamos muito de nos meter, mas ficamos muito tristes com
o que acontece porque, muitas vezes, os atletas vão
treinar sem nenhuma estrutura sem nenhum apoio. Quando chegam
em competições internacionais se destacam pra
caramba, levam o nome do Brasil para as alturas e vêm
dirigentes e atrapalham tudo com essas brigas e, eu acho,
com vaidades. Fico muito triste, porque até 2000 não
se brigava, porque o Comitê não tinha nenhuma
verba. Depois de 2001, curiosamente, começou a Lei
Agnelo-Piva, as loterias começaram a destinar 2% para
o Comitê Olímpico e Paraolímpico e essas
brigas começaram. Onde acontece algum retorno financeiro,
há briga. Mas com o tempo, só quem tem a perder
somos nós atletas.
GE.Net Se tivesse que eleger uma prioridade no
trabalho para os paraolímpicos, qual seria?
CS - Em primeiro lugar patrocínio. Porque o atleta
não é formado em três, dois meses e, geralmente,
os apoios temporários vêm em tempo de Mundial,
de Paraolimpíada. É um pensamento de todos os
atletas, terem apoio do ano pós paraolímpico
até a paraolimpíada para que a gente possa ter
um resultado mais expressivo do que já temos. Eu fico
imaginando, com toda esta falta de estrutura nós conseguimos
o que temos, imagina se houvesse apoio, estrutura, condições.
Nós seríamos potência paraolímpica
fácil, fácil.
GE.Net Mas você tem patrocínio...
CS - Tenho patrocínio das Loterias Caixa e Nutriday.
Hoje sou atleta profissional, tenho uma assessoria de comunicação,
assessoria de capitação de recursos de patrocínio
que está negociando para que no próximo ano
possa estar fazendo o que eu gosto que é nadar, viajando
pelo Brasil, pelo mundo, conseguindo novos resultados e colocando
ele (o país) no lugar que merece: o alto do pódio.
GE.Net - Você consegue viver do esporte, o que é
uma raridade...
CS - É uma raridade, principalmente para atleta
paraolímpico. Infelizmente, hoje só o Clodoaldo
é considerado um ídolo, um exemplo. Mas nós
temos muitos outros atletas que têm uma história
de vida maravilhosa, vencedora. Mas eu tenho certeza que daqui
a algum tempo não vai ser só o Clodoaldo que
vai ser um grande ídolo e sim todos os atletas paraolímpicos.
Tenho um sonho que vão ser parados na rua para bater
fotos, dar autógrafos...
GE.Net Coisas que já acontecem com você...
CS - Acontece e eu fico muito feliz porque, às
vezes, eu não consigo nem andar em alguns lugares que
vou. Isso é uma alegria muito grande, um reconhecimento,
porque eles vêem o Clodoaldo não deficiente,
mas sim eficiente, campeão, que busca seus objetivos,
suas metas. Eu fico muito feliz porque isso dá incentivo
para outras pessoas com ou sem deficiência a praticar
esporte, querer um algo mais na vida.
GE.Net E quando estas pessoas vêem você,
o que deseja que elas guardem?
CS - A alegria, isso é fundamental. Eu quero que
eles admirem o Clodoaldo atleta, mas quero que, em primeiro
lugar, eles vejam o Clodoaldo pessoa, que gosta de brincar,
que gosta de falar. Que possam levar essa mensagem de felicidade.
GE.Net - Como é o Clodoaldo fora das piscinas?
Porque dentro da piscina a gente sabe que ele é aplicado,
esforçado...
CS - Totalmente o contrário. Ele não é
aplicado, fala besteiras como qualquer outro. Eu sempre digo
uma frase: em time que ganha não se mexe e tudo que
eu consegui foi através desta simplicidade, das brincadeiras,
do bom-humor e não tem porque eu mudar hoje. Tenho
certeza que este é o caminho, e o objetivo maior é
incentivar outras pessoas a estar sempre participando do esporte
e da vida.
GE.Net - Além de nadar, o que mais você gosta
de fazer?
CS - Ir ao cinema, ir à praia, namorar, se eu tivesse
uma namorada hoje (rindo)... Como qualquer pessoa normal.
Principalmente estar com a minha família, com meus
amigos. Com essa vida maluca que estou tendo, quase não
estou parando em casa. Então, dá muitas saudades
da minha mãe, que eu adoro, que eu amo.
GE.Net - Como é o relacionamento de vocês,
a importância do apoio da família na sua carreira?
CS - Maravilhoso, desde o nascimento até hoje.
Até os 7 anos de idade eu não andava então,
meu irmão (Luis Antônio) eram minhas pernas.
Para onde eu tinha que ir: praia, escola, creche ele que me
levava. Minhas irmãs também, temos um amor muito
grande entre nós até hoje. Isso é fundamental
para qualquer pessoa e para um atleta principalmente. Porque
eu tenho toda tranqüilidade de ir para um campeonato
e, se não conseguir nenhuma medalha e chegar em casa,
eles vão me tratar da mesma forma, com o mesmo carinho
porque para eles eu já sou um campeão desde
antes.
GE.Net - Mas faz tempo que você não vai a
um campeonato e volta sem nada...
CS - Mas ninguém é imbatível (rindo).
Eu tenho esta consciência. Eu sempre vou para o campeonato
não para bater recorde nem para ganhar medalhas e sim
para me divertir. Enquanto estiver fazendo isso eu vou continuar
nadando aos 50, 60, 70, mas quando isso se tornar obrigação
e esse sentimento for amanhã, eu paro.
GE.Net - Tem um lugar especial na sua casa para seus prêmios,
seus troféus. Você já precisou desocupar
um quarto para eles?
CS - Já precisei desocupar um quarto. As minhas
medalhas ficam no meu quarto, na sala ficam todos os meus
quadros e troféus. Tenho lugar para todos, mas se faltar,
eu espero que falte, espero que eu tenha este problema para
sempre, eu arrumo.
GE.Net - Se tivesse que escolher o momento que mais te
marcou na sua carreira, qual seria?
CS - Paraolimpíada de Atenas, último dia
de competição. Eu estava com cinco medalhas
de ouro e uma de prata e o revezamento 4x50m livre ia competir.
Nós não éramos favoritos e algumas pessoas
falaram: o Clodoaldo não vai se esforçar muito
porque ele já tem cinco medalhas de ouro. Os outros
três, naquele momento, não tinham nenhuma e eu
fiquei um pouco chateado porque tiveram este pensamento. Nós
fomos lá, competimos, conseguimos a medalha de ouro
e todos se emocionaram muito, choraram pra caramba. Eu achava
que isso nunca ia acontecer, eu me emocionar tanto. Nas minhas
cinco medalhas anteriores eu nem chorei, fiquei tranqüilo.
Mas esta sexta foi uma emoção, uma alegria muito
grande porque eu sabia que estava contribuindo para que outras
pessoas pudessem ter aquele sonho que eu estava tendo. Isso
foi bem emocionante.
GE.Net - E o momento mais difícil que você
atravessou?
CS - Passei grandes dificuldades na minha vida, mas essas
dificuldades serviram para me motivar, me incentivar a continuar.
Em 2000, quando cheguei da Paraolimpíada de Sydney,
achei que as coisas iam melhorar e não melhoraram.
Eu tive que conseguir um trabalho, estudar e treinar. Passei
um ano fazendo isso, estava muito cansativo e eu não
estava conseguindo conciliar. Mas nunca pensei em desistir.
Com apoio da minha família, minha mãe que sempre
me incentivou, deixei o emprego. Um ano depois, na primeira
competição, bati três recordes mundiais.
Esse período foi de muitas dificuldades, mas serviu
para fortalecer.
GE.Net - Em casa, para sua mãe, não mudou
nada, mas na sua vida, o que mudou nestes últimos anos?
CS - Depois de Atenas, comecei a realizar palestras em
todo Brasil, a participar de projetos sociais sendo padrinho.
Acho muito legal porque tudo que tenho hoje é através
do esporte. Tenho uma casa, que eu não tinha, moro
eu minha mãe e meu padrasto, tenho carro e tenho patrocinadores.
Tenho um lugar de destaque na sociedade. Fico muito feliz
por isso, mas o que fico muito mais feliz é que, através
de toda essa visibilidade, eu tô podendo ajudar outras
pessoas. Me emociono muito quando vem crianças sem
nenhuma deficiência e falam: pôxa, quando eu crescer
quero ser igual a você. Quando vejo nas palavras das
crianças este tipo de frase é uma coisa que
me emociona e todos os dias, quando eu acordo, não
caiu a ficha.
GE.Net - Você começou na natação
tarde, com 16 anos, imaginava chegar aonde chegou?
CS - Nunca. Eu comecei como fisioterapia. Foi tudo por
acaso. Eu acho que, se pensasse: eu quero entrar na natação
para ser um grande atleta, campeão paraolímpico,
melhor atleta do mundo, não daria certo. Mas como eu
entrei por acaso , vivi um dia após o outro, é
por isso que dá tão certo. Eu não gosto
de pensar no futuro. Não tem como eu chegar para você
e dizer: daqui um ano eu vou ganhar sete medalhas de ouro,
daqui a três anos vou estar assim. Meu futuro é
hoje, gosto de viver bem o presente, fazer bem o meu hoje
pra que se torne realidade amanhã.
GE.Net - Você pretende usar sua imagem para ajudar
outras pessoas que têm necessidade especial?
CS - Com certeza. Hoje eu já estou participando
de projetos sociais. Lá em Natal, tô com um que
se chama Mergulho para o Futuro. Ainda está no papel,
mas acredito que no ano que vem já possa estar beneficiando
mais de 600 crianças e adolescentes com ou sem deficiência.
Não é só porque eu sou deficiente que
tenho que trabalhar só com deficientes, porque baixa
estima, pessoa que não acreditam em si próprias
existe em todas as faixas etárias. Eu quero ajudar
estas pessoas, e no que eu puder estar aliando Clodoaldo Silva
a projetos para dar qualidade de vida e independência
a outras pessoas eu vou fazer. Esse é o meu sentimento
tanto agora quanto para depois da carreira, que eu nem sei
quando é.
GE.Net - Ano que vem é um ano pré-pan, como
está sua programação?
CS - Treinar muito, é isso que eu posso te dizer.
2007 tem o Parapan-americano, 2008 tem a Paraolimpiada de
Pequim. Hoje e sempre nome não ganhou títulos,
ninguém foi convocado por nome. Você tem que
treinar todos os dias, ralar como qualquer outra pessoa e
é isso que eu vou fazer. Não me sinto garantido
em Mundial, em Parapan-americano ou Paraolimpíada.
Eu vou buscar estes índices, vou treinar mais do que
já treinei esses anos todos porque os resultados são
conseqüências.
GE.Net - O Parapan-americano em casa é um privilégio,
dá um incentivo a mais, não?
CS - É um incentivo, é um sonho, não
só para o Clodoaldo mas tenho certeza que para todos
os atletas brasileiros, olímpicos e paraolímpicos.
Porque o primeiro grande sonho de um atleta de alto rendimento
é participar de uma seleção brasileira,
depois participar de um campeonato internacional e, quando
consegue, o outro sonho é participar de uma competição
internacional defendendo a seleção brasileira
em seu país e em 2007 vamos ter esta oportunidade.
Mas ainda falta muito tempo para isso, vamos esperar, mas
que é um grande sonho, sem dúvida...
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