Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

legenda |
| PERFIL |
Nome
completo: Valdemir dos santos Pereira Data
de nascimento: 15/11/1974 Local de
nascimento: Cruz das Almas (BA) Residência:
São Caetano (SP) Altura: 1,70
m Peso: cerca de 60 kg Lutas:
24 Vitórias: 22 Nocautes:
13 Derrotas: 1 Técnico:
Ivan de Oliveira (Pitu) Empresário:
Servílio de Oliveira Promotor:
Arthur Pelullo |
| Brasileiros
campeões mundiais |
|
Lutador
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Categoria
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Ano
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Entidade
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|
Éder Jofre
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Galo
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1960
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unificado
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Éder Jofre
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Pena
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1973
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CMB
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|
Miguel de Oliveira
|
Médio-ligeiro
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1975
|
CMB
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Acelino “Popó”
Freitas
|
Superpena
|
1999
|
OMB
|
|
Acelino “Popó”
Freitas
|
Superpena
|
2002
|
AMB
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|
Acelino “Popó”
Freitas
|
Leve
|
2004
|
OMB
|
|
Acelino “Popó”
Freitas
|
Leve
|
2006
|
OMB
|
|
Valdemir “Sertão”
Pereira
|
Pena
|
2006
|
FIB
|
|
Por Marcelo Cazavia
Valdemir “Sertão” Pereira não tira da cabeça a noite do dia
13 de maio deste ano. Foi nesta data que o baiano de 31 anos
conheceu sua primeira derrota em 24 lutas como profissional,
diante do norte-americano Eric “Super Mouse” Aiken, e, com
isso, perdeu o cinturão dos penas (até 57,153kg) da Federação
Internacional de Boxe (FIB).
O brasileiro foi desclassificado no oitavo round do combate,
após o árbitro Charlie Dwyer considerar que ele desferiu quatro
golpes baixos no adversário. Sertão contesta, e o próprio
público presente ao ginásio de Boston vaiou a decisão de Dwyer.
Mas o fato é que o título mundial saiu das mãos de Sertão.
Desde então, ele não pensa em outra coisa que não seja a revanche.
Seu empresário, Servílio de Oliveira, participou da convenção
anual da FIB em Porto Rico no início de junho a fim de conseguir
uma nova luta contra Aiken. Apesar de Sertão e seu treinador,
Ivan de Oliveira (o Pitu, filho de Servílio), já darem como
certa a realização da revanche para o dia 9 de setembro, o
empresário do pugilista aguarda um definição por parte do
norte-americano Arthur Pelullo, promotor tanto de Sertão como
de Aiken.
Calejado pelas lutas diárias de quem começou a trabalhar
aos nove anos, está há 18 no boxe, e luta para sustentar três
filhos de diferentes mães, ele aprendeu que é muito mais difícil
superar um rival norte-americano na terra do Tio Sam.
Enquanto aguarda uma decisão oficial, Sertão segue sua rotina
de treinos na Associação Desportiva São Caetano, clube em
que está desde 1997. Nesta entrevista exclusiva à GE.Net,
o pugilista relembra a luta contra Aiken e comenta os momentos
pós-queda de invencibilidade.
GE.Net - Hoje, com a cabeça mais fria, como você
avalia o combate contra o Aiken?
Sertão - Fui prejudicado. Só acertei um golpe baixo
no cara. Quando você acerta um golpe baixo no adversário,
o juiz chama sua atenção. Não tira ponto, como ele tirou.
Na segunda, eu acertei na costela e ele botou o cotovelo,
foi malandro. Nos outros eu acertei no meio da faixa branca
do calção dele, que estava bem acima do normal. E ele ainda
é alto. Isso não pode acontecer em uma disputa de título mundial.
Tanto é que ele quer lutar comigo de novo, porque não deve
ter conseguido dormir direito. Ele foi vaiado após a luta.
GE.Net - O Popó, quando perdeu para o norte-americano
Diego Corrales, reclamou de favorecimento por parte dos juízes
dos Estados Unidos com pugilistas da casa. Você acredita nisso
também?
Sertão - Com certeza. O Popó bateu pra caramba e
teve gente que deu ponto para o adversário. É o que eu falo:
‘para ganhar de norte-americano no país deles tem de bater
bastante, tem de massacrar que é para não deixar dúvida. Foi
o que eu fiz. Mas esse juiz não foi com a minha cara. Todo
juiz chega brincando e esse já chegou meio fechado, nem me
olhou direito.
GE.Net - Como é conviver com sua primeira derrota
como profissional?
Sertão - É muito ruim, mas o atleta tem que saber
viver de derrota e de vitória. Fiquei uma semana sem dormir
direito. Quando dormia, pensava na luta. Até acertei sem querer
um murro na minha parceira. Fui dormir no pé da cama para
não machucá-la (risos). O Pitu, meu treinador, chorou bastante.
Mas eu falei para ele que não devíamos chorar, que não foi
falta de treino e que tinha de continuar. Agora estamos aqui,
de cabeça erguida e esperando a revanche.
GE.Net - Erros do juiz à parte, você ficou surpreso
com a perda da invencibilidade?
Sertão - Eu já estava preparado para essa derrota
porque foi tudo em cima da hora. O visto deu zebra, acabei
viajando tarde. Cheguei só na quinta-feira, teve coletiva
de imprensa no mesmo dia e treinei à noite. Na sexta de manhã
teve a pesagem e mais um tempão de coletiva e a briga já foi
no dia seguinte. Além disso, o treinador dele ficou arrumando
confusão na hora da pesagem. Eu subi e me pesei normalmente,
mas o cara queria que eu me pesasse de novo, só para tumultuar,
me pressionar. Fui lá e me pesei outra vez. Aí ele pediu para
eu tirar a cueca, e lá fui eu de novo: mesmo peso. Ele só
parou com a palhaçada quando eu perguntei se ele queria que
eu tirasse o negócio aqui também (risos). Eu estava bem preparado
fisicamente, mas meu psicológico ficou bastante abalado depois
de tudo isso.
Ge.Net - E a autoconfiança ficou abalada?
Sertão - Não. Campeão tem que lutar com qualquer
um e eu não costumo escolher adversário. Muitas pessoas falaram
para eu não lutar contra o bielo-russo (Yuri Romanovich, dia
9 de abril), porque eu estava desgastado e teria uma luta
forte na seqüência, mas eu já tinha treinado e baixado meu
peso e não poderia voltar atrás, mas as pessoas não entendem
isso. Dizem que eu não respeito o adversário. Respeito, mas
subiu em cima do ringue tem que meter a mão mesmo. Se eu não
bater, ele vai bater em mim. Eu não desprezo adversário nenhum.
GE.Net - Mas nessa luta contra o Romanovich você
acabou baixando a guarda algumas vezes, deu umas sambadas
no ringue...
Sertão - É verdade. Se o cara estivesse no país dele,
faria a mesma coisa. Isso faz parte. Um dia eu peguei um argentino
aqui mesmo no Brasil, no Ibirapuera, e ele ficava mostrando
a língua para mim, fazendo palhaçada, e ninguém falou nada.
Quando eu faço esse tipo de coisa, chamo a torcida, as pessoas
dizem que eu estou humilhando. Mas não é isso. Eu estava dando
um show de boxe. O boxe é espetáculo também. Quando vamos
para os Estados Unidos, pensa que somos bem tratados? Somos
nada. Agora quando eles vêm para cá, só falta estender o tapete
vermelho para eles.
GE.Net - E os “amigos” se afastaram?
Sertão - Alguns, que diziam ser meus amigos, sumiram.
Mas eu sei bem quem são meus amigos, embora às vezes a gente
acabe se decepcionando. Eu não quero falar nomes, mas ouvi
que uma pessoa que eu jamais esperava comemorou a minha derrota.
Mas eu não ligo para esse tipo de gente não. Amigo meu é minha
mãe, meu pai, meus irmãos, a galera de Cruz das Almas. Eu
passava na rua lá e o pessoal todo me apoiando, reconhecendo
que eu fui prejudicado e esperando pela revanche.
GE.Net - Assédio, então, não mudou muito.
Sertão - Não, de jeito nenhum. Eu ando na rua e o pessoal
continua me cumprimentando. Acho que as pessoas viram que
a derrota foi injusta.
GE.Net - Você acha que pode acontecer algo semelhante
ao que aconteceu com o Popó, que depois de aparecer tanto
na mídia acabou um pouco esquecido?
Sertão - O brasileiro não abandona, não gosta de
fugir do pau, mesmo se a cara estiver sangrando. Eu falo para
o meu treinador: ‘Não joga a toalha, não faça nada, só deixa
eu lutar. Mesmo seu eu estiver com a cara aberta, deixa eu
me virar’. Brasileiro gosta de ir com raça, com garra. O Popó
está um pouco esquecido mesmo, talvez porque alguns falem
que ele é muito mala, mascarado, e acho que cada um tem que
saber seu caminho. Eu, graças a Deus, não estou esquecido
não. Desde o primeiro dia da derrota todo dia tem gente me
perguntando que dia é a minha revanche.
GE.Net - Depois de nove anos, como é seu relacionamento
com o Servílio?
Sertão - Ah, continua a mesma coisa. Muitos falam
que ele está me roubando, mas isso não tem nada a ver. Ele
ficou bastante chateado depois da última luta. Eu nunca vi
o Servílio tão triste daquele jeito. A esposa dele também.
Era Dia das Mães e ela chorava como seu eu fosse o filho dela.
O meu treinador (Pitu, filho de Servílio) abraçou ela e disse
‘feliz Dia das Mães’. Ela abraçou e normal. Quando eu fui
falar, ela me abraçou e começou a chorar. Aí eu percebi que
ela tinha sentido também.
Ge.Net - Você não costuma estudar o estilo de luta
dos seus adversários antes dos combates. Mas, desta vez, você
já sabe como é. Vai fazer alguma preparação especial para
pegar o Aiken?
Sertão - Ah, mas mesmo assim eu não quero ver a fita
dele. Peço para o meu treinador ver. Acho que vou ser malandro
que nem ele e colocar o calção aqui perto da garganta (risos).
Mas deixa ele. Eu não gosto de encarar adversário, mas ele
eu vou encarar.
GE.Net - Ele falou alguma coisa para você após a
luta?
Sertão - Não. Eu olhei para cara dele querendo dizer
‘Pô, sacanagem!’ e ele só abriu os braços e disse ‘sorry’.
GE.Net - Seu próximo objetivo, claro, é
vencer a revanche. Mas, e seu maior sonho?
Sertão - É, eu quero meu cinturão
de volta. E quero dinheiro para dar uma casa para a minha
mãe, que eu não consegui ainda. Muita gente
pensa que o Sertão está com dinheiro, mas não
sabe de nada. Na primeira luta que eu fiz, disseram que eu
ganhei US$ 75 mil. Mas eu fico com pouco, tenho que pagar
imposto, a foto da luta, um monte de coisa. Tem gente que
me vê de Golf e fala que vai lutar boxe por causa do
dinheiro. Então vai lá.
GE.Net - Como é a história do seu começo no boxe?
Sertão - Eu tinha nove para dez anos de idade e comecei
a vender sorvete. Na época, como ainda hoje, os maiores batiam
nos menores. Aí estava lá eu, pequeninho, franzino, só tinha
barriga e cabeça, e chegaram três caras atrás de picolé. Um
me deu um cascudo na cabeça e pegou meu dinheiro; o outro
foi e quebrou a minha caixa. Saí para procurar a polícia e
não achei ninguém. Revoltado, fui para casa, rasguei a calça
do meu pai, enchi de areia e comecei a socar, para depois
pegar esses caras e enchê-los de porrada. Foi quando comecei
a treinar boxe mesmo. Meu primeiro sonho era lutar em cima
de um ringue. Aí fui para Salvador com uns 13 anos, fiquei
lá uns seis e vim para São Paulo.
GE.Net - E você nunca mais encontrou os caras que
te roubaram?
Sertão - Depois de um tempo, quando eu já estava
em Salvador, encontrei eles. Vieram com uma conversa de que
éramos amigos... Quando eu já estava com o cinturão, encontrei
eles de novo. Vieram me parabenizar. Tiveram sorte porque
eu tive sucesso no boxe, senão teriam levado um pau (risos).
GE.Net - Como foi o período de amador?
Sertão - Eu me profissionalizei em 2000, logo após
os Jogos Olímpicos de Sydney. Fiquei uns quatro anos na seleção
brasileira e lá todo mundo quer quebrar o recorde do Servílio,
que é o único que tem a medalha olímpica (bronze no México-68).
Eu não consegui, mas o Servílio virou e disse: ‘é, neguinho,
medalha não enche a barriga de ninguém’. Ele acreditou em
mim e me levou para o profissional. Disse que não havia sido
campeão do mundo, mas faria um campeão do mundo. E conseguiu.
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