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11/07/2006
Montagem sobre foto de Djalma Vassão/Gazeta Press
Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

legenda
PERFIL
Nome completo: Valdemir dos santos Pereira
Data de nascimento: 15/11/1974
Local de nascimento: Cruz das Almas (BA)
Residência: São Caetano (SP)
Altura: 1,70 m
Peso: cerca de 60 kg
Lutas: 24
Vitórias: 22
Nocautes: 13
Derrotas: 1
Técnico: Ivan de Oliveira (Pitu)
Empresário: Servílio de Oliveira
Promotor: Arthur Pelullo
Brasileiros campeões mundiais
Lutador
Categoria
Ano
Entidade
Éder Jofre
Galo
1960
unificado
Éder Jofre
Pena
1973
CMB
Miguel de Oliveira
Médio-ligeiro
1975
CMB
Acelino “Popó” Freitas
Superpena
1999
OMB
Acelino “Popó” Freitas
Superpena
2002
AMB
Acelino “Popó” Freitas
Leve
2004
OMB
Acelino “Popó” Freitas
Leve
2006
OMB
Valdemir “Sertão” Pereira
Pena
2006
FIB

Por Marcelo Cazavia

Valdemir “Sertão” Pereira não tira da cabeça a noite do dia 13 de maio deste ano. Foi nesta data que o baiano de 31 anos conheceu sua primeira derrota em 24 lutas como profissional, diante do norte-americano Eric “Super Mouse” Aiken, e, com isso, perdeu o cinturão dos penas (até 57,153kg) da Federação Internacional de Boxe (FIB).

O brasileiro foi desclassificado no oitavo round do combate, após o árbitro Charlie Dwyer considerar que ele desferiu quatro golpes baixos no adversário. Sertão contesta, e o próprio público presente ao ginásio de Boston vaiou a decisão de Dwyer. Mas o fato é que o título mundial saiu das mãos de Sertão. Desde então, ele não pensa em outra coisa que não seja a revanche.

Seu empresário, Servílio de Oliveira, participou da convenção anual da FIB em Porto Rico no início de junho a fim de conseguir uma nova luta contra Aiken. Apesar de Sertão e seu treinador, Ivan de Oliveira (o Pitu, filho de Servílio), já darem como certa a realização da revanche para o dia 9 de setembro, o empresário do pugilista aguarda um definição por parte do norte-americano Arthur Pelullo, promotor tanto de Sertão como de Aiken.

Calejado pelas lutas diárias de quem começou a trabalhar aos nove anos, está há 18 no boxe, e luta para sustentar três filhos de diferentes mães, ele aprendeu que é muito mais difícil superar um rival norte-americano na terra do Tio Sam.

Enquanto aguarda uma decisão oficial, Sertão segue sua rotina de treinos na Associação Desportiva São Caetano, clube em que está desde 1997. Nesta entrevista exclusiva à GE.Net, o pugilista relembra a luta contra Aiken e comenta os momentos pós-queda de invencibilidade.

GE.Net - Hoje, com a cabeça mais fria, como você avalia o combate contra o Aiken?
Sertão -
Fui prejudicado. Só acertei um golpe baixo no cara. Quando você acerta um golpe baixo no adversário, o juiz chama sua atenção. Não tira ponto, como ele tirou. Na segunda, eu acertei na costela e ele botou o cotovelo, foi malandro. Nos outros eu acertei no meio da faixa branca do calção dele, que estava bem acima do normal. E ele ainda é alto. Isso não pode acontecer em uma disputa de título mundial. Tanto é que ele quer lutar comigo de novo, porque não deve ter conseguido dormir direito. Ele foi vaiado após a luta.

GE.Net - O Popó, quando perdeu para o norte-americano Diego Corrales, reclamou de favorecimento por parte dos juízes dos Estados Unidos com pugilistas da casa. Você acredita nisso também?
Sertão -
Com certeza. O Popó bateu pra caramba e teve gente que deu ponto para o adversário. É o que eu falo: ‘para ganhar de norte-americano no país deles tem de bater bastante, tem de massacrar que é para não deixar dúvida. Foi o que eu fiz. Mas esse juiz não foi com a minha cara. Todo juiz chega brincando e esse já chegou meio fechado, nem me olhou direito.

GE.Net - Como é conviver com sua primeira derrota como profissional?
Sertão -
É muito ruim, mas o atleta tem que saber viver de derrota e de vitória. Fiquei uma semana sem dormir direito. Quando dormia, pensava na luta. Até acertei sem querer um murro na minha parceira. Fui dormir no pé da cama para não machucá-la (risos). O Pitu, meu treinador, chorou bastante. Mas eu falei para ele que não devíamos chorar, que não foi falta de treino e que tinha de continuar. Agora estamos aqui, de cabeça erguida e esperando a revanche.

GE.Net - Erros do juiz à parte, você ficou surpreso com a perda da invencibilidade?
Sertão -
Eu já estava preparado para essa derrota porque foi tudo em cima da hora. O visto deu zebra, acabei viajando tarde. Cheguei só na quinta-feira, teve coletiva de imprensa no mesmo dia e treinei à noite. Na sexta de manhã teve a pesagem e mais um tempão de coletiva e a briga já foi no dia seguinte. Além disso, o treinador dele ficou arrumando confusão na hora da pesagem. Eu subi e me pesei normalmente, mas o cara queria que eu me pesasse de novo, só para tumultuar, me pressionar. Fui lá e me pesei outra vez. Aí ele pediu para eu tirar a cueca, e lá fui eu de novo: mesmo peso. Ele só parou com a palhaçada quando eu perguntei se ele queria que eu tirasse o negócio aqui também (risos). Eu estava bem preparado fisicamente, mas meu psicológico ficou bastante abalado depois de tudo isso.

Ge.Net - E a autoconfiança ficou abalada?
Sertão -
Não. Campeão tem que lutar com qualquer um e eu não costumo escolher adversário. Muitas pessoas falaram para eu não lutar contra o bielo-russo (Yuri Romanovich, dia 9 de abril), porque eu estava desgastado e teria uma luta forte na seqüência, mas eu já tinha treinado e baixado meu peso e não poderia voltar atrás, mas as pessoas não entendem isso. Dizem que eu não respeito o adversário. Respeito, mas subiu em cima do ringue tem que meter a mão mesmo. Se eu não bater, ele vai bater em mim. Eu não desprezo adversário nenhum.

GE.Net - Mas nessa luta contra o Romanovich você acabou baixando a guarda algumas vezes, deu umas sambadas no ringue...
Sertão -
É verdade. Se o cara estivesse no país dele, faria a mesma coisa. Isso faz parte. Um dia eu peguei um argentino aqui mesmo no Brasil, no Ibirapuera, e ele ficava mostrando a língua para mim, fazendo palhaçada, e ninguém falou nada. Quando eu faço esse tipo de coisa, chamo a torcida, as pessoas dizem que eu estou humilhando. Mas não é isso. Eu estava dando um show de boxe. O boxe é espetáculo também. Quando vamos para os Estados Unidos, pensa que somos bem tratados? Somos nada. Agora quando eles vêm para cá, só falta estender o tapete vermelho para eles.

GE.Net - E os “amigos” se afastaram?
Sertão -
Alguns, que diziam ser meus amigos, sumiram. Mas eu sei bem quem são meus amigos, embora às vezes a gente acabe se decepcionando. Eu não quero falar nomes, mas ouvi que uma pessoa que eu jamais esperava comemorou a minha derrota. Mas eu não ligo para esse tipo de gente não. Amigo meu é minha mãe, meu pai, meus irmãos, a galera de Cruz das Almas. Eu passava na rua lá e o pessoal todo me apoiando, reconhecendo que eu fui prejudicado e esperando pela revanche.

GE.Net - Assédio, então, não mudou muito.
Sertão - Não, de jeito nenhum. Eu ando na rua e o pessoal continua me cumprimentando. Acho que as pessoas viram que a derrota foi injusta.

GE.Net - Você acha que pode acontecer algo semelhante ao que aconteceu com o Popó, que depois de aparecer tanto na mídia acabou um pouco esquecido?
Sertão -
O brasileiro não abandona, não gosta de fugir do pau, mesmo se a cara estiver sangrando. Eu falo para o meu treinador: ‘Não joga a toalha, não faça nada, só deixa eu lutar. Mesmo seu eu estiver com a cara aberta, deixa eu me virar’. Brasileiro gosta de ir com raça, com garra. O Popó está um pouco esquecido mesmo, talvez porque alguns falem que ele é muito mala, mascarado, e acho que cada um tem que saber seu caminho. Eu, graças a Deus, não estou esquecido não. Desde o primeiro dia da derrota todo dia tem gente me perguntando que dia é a minha revanche.

GE.Net - Depois de nove anos, como é seu relacionamento com o Servílio?
Sertão -
Ah, continua a mesma coisa. Muitos falam que ele está me roubando, mas isso não tem nada a ver. Ele ficou bastante chateado depois da última luta. Eu nunca vi o Servílio tão triste daquele jeito. A esposa dele também. Era Dia das Mães e ela chorava como seu eu fosse o filho dela. O meu treinador (Pitu, filho de Servílio) abraçou ela e disse ‘feliz Dia das Mães’. Ela abraçou e normal. Quando eu fui falar, ela me abraçou e começou a chorar. Aí eu percebi que ela tinha sentido também.

Ge.Net - Você não costuma estudar o estilo de luta dos seus adversários antes dos combates. Mas, desta vez, você já sabe como é. Vai fazer alguma preparação especial para pegar o Aiken?
Sertão -
Ah, mas mesmo assim eu não quero ver a fita dele. Peço para o meu treinador ver. Acho que vou ser malandro que nem ele e colocar o calção aqui perto da garganta (risos). Mas deixa ele. Eu não gosto de encarar adversário, mas ele eu vou encarar.

GE.Net - Ele falou alguma coisa para você após a luta?
Sertão -
Não. Eu olhei para cara dele querendo dizer ‘Pô, sacanagem!’ e ele só abriu os braços e disse ‘sorry’.

GE.Net - Seu próximo objetivo, claro, é vencer a revanche. Mas, e seu maior sonho?
Sertão -
É, eu quero meu cinturão de volta. E quero dinheiro para dar uma casa para a minha mãe, que eu não consegui ainda. Muita gente pensa que o Sertão está com dinheiro, mas não sabe de nada. Na primeira luta que eu fiz, disseram que eu ganhei US$ 75 mil. Mas eu fico com pouco, tenho que pagar imposto, a foto da luta, um monte de coisa. Tem gente que me vê de Golf e fala que vai lutar boxe por causa do dinheiro. Então vai lá.

GE.Net - Como é a história do seu começo no boxe?
Sertão -
Eu tinha nove para dez anos de idade e comecei a vender sorvete. Na época, como ainda hoje, os maiores batiam nos menores. Aí estava lá eu, pequeninho, franzino, só tinha barriga e cabeça, e chegaram três caras atrás de picolé. Um me deu um cascudo na cabeça e pegou meu dinheiro; o outro foi e quebrou a minha caixa. Saí para procurar a polícia e não achei ninguém. Revoltado, fui para casa, rasguei a calça do meu pai, enchi de areia e comecei a socar, para depois pegar esses caras e enchê-los de porrada. Foi quando comecei a treinar boxe mesmo. Meu primeiro sonho era lutar em cima de um ringue. Aí fui para Salvador com uns 13 anos, fiquei lá uns seis e vim para São Paulo.

GE.Net - E você nunca mais encontrou os caras que te roubaram?
Sertão -
Depois de um tempo, quando eu já estava em Salvador, encontrei eles. Vieram com uma conversa de que éramos amigos... Quando eu já estava com o cinturão, encontrei eles de novo. Vieram me parabenizar. Tiveram sorte porque eu tive sucesso no boxe, senão teriam levado um pau (risos).

GE.Net - Como foi o período de amador?
Sertão -
Eu me profissionalizei em 2000, logo após os Jogos Olímpicos de Sydney. Fiquei uns quatro anos na seleção brasileira e lá todo mundo quer quebrar o recorde do Servílio, que é o único que tem a medalha olímpica (bronze no México-68). Eu não consegui, mas o Servílio virou e disse: ‘é, neguinho, medalha não enche a barriga de ninguém’. Ele acreditou em mim e me levou para o profissional. Disse que não havia sido campeão do mundo, mas faria um campeão do mundo. E conseguiu.

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