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24/08/2006

Montagem sobre foto de Djalma Vassão/Gazeta Press
Por Marta Teixeira

Ao contrário de muitos atletas que já elegeram um título nos Jogos Pan-americanos Rio-2007 como grande sonho e principal meta, o judoca Leandro Guilheiro confessa que os Jogos na capital carioca são apenas um trampolim para seu verdadeiro objetivo: chegar a outra Olimpíada e subir mais uma vez ao pódio.

O desafio da seleção
Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

GE.Net – A evolução geral acabou tornando a situação dos atletas delicada na seleção, não? A concorrência é muito acirrada por uma vaga? Como é lidar com isso?
Guilheiro -
É difícil. Tem que separar treinamento em duas etapas. Primeira é a seletiva. Nossa vida vive em função de seletiva. A partir do momento que conseguiu vaga, há tranqüilidade para pensar no que vai pegar lá fora. A seletiva geralmente é mais nervosa que a própria competição: Mundial e Olimpíadas. O Aurélio Miguel é a favor, por exemplo, porque se você é capaz de superar tudo aquilo, já será um passo importantíssimo para se sair bem na Olimpíada. Ele é a favor desse inferno mental (rindo).

GE.Net – E vocês enfrentam este “inferno” praticamente todos os anos. No final, isso é mais estimulante ou estressante?
Guilheiro -
Tem os dois lados da moeda. Para quem está dentro, é ruim, porque pode perder a vaga. Para quem está fora, é legal, porque é um sistema democrático. Se você estiver bem consigo, bem treinado, geralmente o melhor cara é o que vai. Uma exceção ou outra acontece por uma bobeira ou, por exemplo, porque um lutador está muito bem preparado para enfrentar aquele adversário especificamente e ganha a seletiva. Até por isso estão levando para a Europa. De repente, o cara é um exímio tático que aqui ganha de um e de outro e, às vezes, chega lá fora e não tem bom resultado.

GE.Net – Então, você gostou da mudança...
Guilheiro -
Gostei. É justo. Foi até a pedido dos próprios atletas. Diminui um pouco a pressão até da seletiva interna e faz com que a gente se estimule para treinar e estudar os adversários lá fora.

Nesta entrevista à GE.Net, o medalhista de bronze nos Jogos de Atenas-2004 conta como planeja sua meta em Pequim, relembra o começo sem muita paixão nos tatames, mas que determinou sua vida, fala do status e da responsabilidade de representar um país que se tornou referência internacionalmente e comenta sobre a profunda frustração pelo fracasso no Mundial do Cairo.

GE.Net – Depois que você conquistou a medalha em Atenas, enfrentou muitos problemas. Passou por duas cirurgias, mas se manteve na seleção principal. Recentemente, enfrentou outro problema físico (contusão no ombro). Como você está agora?
Leandro Guilheiro -
Fiz exame físico e me saí melhor até do que imaginava, mas não estou no ideal. Judô é coisa que você não esquece, mas certas coisas você precisa treinar, a pegada no quimono, por exemplo. Quando você fica muito tempo afastado, sua pegada perde um pouco de pressão, a mão escorrega. Perde até um pouco da sensibilidade. Tenho muito a melhorar, mas não estou mal.

GE.Net – O que acontece com os judocas brasileiros que acabam sempre enfrentando lesões após bons resultados?
Guilheiro -
É esquisito. Parece que é uma sina. É engraçado porque o Tiago Camilo quando voltou da Olimpíada operou o joelho. Eu tive que operar, o Carlos Honorato quando voltou da Olimpíada passou por uma fase difícil. O Flávio (Canto) perdeu o ano de 2005 porque machucou o joelho, passou por uma cirurgia, ficou fora da seletiva e não entrou na seleção. Eu não sei o que acontece quando a gente volta.

GE.Net – Rotina de treinos puxada e um calendário intenso. Tudo isso contribui, não?
Guilheiro -
É complicado. Ano passado teve seletiva em junho e julho, depois Mundial em setembro. No GP nacional temos que lutar todo fim de semana. A seleção brasileira viajou para Coréia e Japão, voltou no meio de dezembro. No final de janeiro já tinha uma seletiva. Geralmente nossas férias são curtas e, depois da seletiva, você não pode parar porque começa a temporada do circuito europeu. Aí vêm desafios, campeonato pan-americano e vai embora... Temos obrigações de janeiro a dezembro. Cada atleta tem que ver se pode parar um pouco. Eu vejo por mim: só paro quando machuco. Talvez seja mais inteligente parar antes de me machucar para evitar contusões.

GE.Net – E você já trabalha com esta possibilidade, montar um calendário neste sentido?
Guilheiro -
Acho que pode ser feito. Parar de treinar não, mas diminuir a intensidade. Tenho enfrentado muitas contusões. Treino muito e, na verdade, acho que tenho que treinar mais até, mas em certos momentos pode ser possível diminuir um pouco, naquele momento que não vai me afetar em uma possível competição.

GE.Net – Vocês têm pela frente o Mundial por equipes e a seletiva para os Jogos Pan-americanos. Será possível estar como você deseja até lá?
Guilheiro -
Fisicamente, vou estar no ponto que meu preparador físico quer.

GE.Net – Quais suas metas?
Guilheiro -
Tenho o Campeonato Mundial por Equipe em setembro que é importante. Mas acredito que seja mais um treino forte, de luxo, para um objetivo maior que será outra seletiva em dezembro para definir a seleção (cada peso terá dois representantes e o melhor em torneios na Europa vai para o Mundial e o Pan). Acho que são três competições chaves: seletiva, Pan e o Mundial. Meu objetivo maior, o que sempre foi o objetivo da minha vida, é a Olimpíada.

GE.Net – O Pan então é apenas uma etapa?
Guilheiro -
O Pan tem essa coisa de ser no Rio e muita gente se motiva com isso. Mas na verdade para mim é um trampolim, porque é uma seletiva. Nunca escondi de ninguém que o objetivo de vida que tenho é a Olimpíada e o Mundial. O resto, o que estiver junto, serve como treino para evoluir, para chegar onde quero.
Começo no tatame
Foto: Luz Bittar/Gazeta Press

GE.Net – Como começou no judô?
Guilheiro -
Minha mãe achou que eu não ia gostar e, nas primeiras aulas, falou para o professor que nem ia comprar o quimono. Mas o professor viu que eu tinha jeito, e acabei gostando. Na academia falaram que para ser forte, teria que treinar muito e eu treinava muito. Com seis anos treinava que nem um doente. Nunca tive pressão dentro de casa, mas se quisesse fazer tinha que fazer direito porque de gente medíocre tinha um monte. Tinha que continuar estudando também. Era a condição.

GE.Net – De que maneira o judô influenciou a sua vida?
Guilheiro -
Não seria a mesma pessoa se não fosse o judô. Aprendi a conviver com a decepção e também a ter metas a curto e a longo prazo. E o que mais me ensinou é que, se você quer alguma coisa, tem que fazer muito mais que os outros e muito melhor. Seu dia vai ser sozinho, solitário, treinando. Todo Carnaval, muitas vezes no Natal e no Ano Novo passei treinando. Várias vezes no meu aniversário, na época em que fazia dieta, passava fome e sem poder ter festa. Na hora da competição, é uma coisa que vai além da parte física e técnica, é aquela coisa de merecimento, que me leva para frente. Não tenho idéia de como seria minha vida sem o judô. Acho que o judô me achou.

GE.Net – Mas CBJ e COB têm como meta que o judô consiga manter o domínio no Pan...
Guilheiro -
É meta da nossa Confederação e do COB. Não lutei o último Pan, mas quem lutar este terá muito mais pressão. Se o judô for um fiasco, será meio ruim para nossa imagem, principalmente em casa. Mas acho que o Brasil vai se sair bem. Se vou para qualquer competição, quero ganhar. Mas, se tivesse que sacrificar uma pela outra, sem dúvida meu treino todo faria específico para os Jogos Olímpicos e Campeonato Mundial.

GE.Net – No exterior, o judô brasileiro já se tornou uma das principais forças da modalidade. O que o torna diferente das demais escolas? É possível definir um estilo brasileiro?
Guilheiro -
O Brasil tem uma mistura meio única que é da cultura japonesa com um pouco da influência do judô europeu também. Potências do mundo têm conhecimento que o Brasil é país forte e perigoso, e vem treinar com a gente, França vem treinar. Temos um (estilo) brazilian jiu-jitsu, muito judoca que treina jiu-jitsu também. Em pé, mistura japonês com europeu, e tem um solo muito forte, que dificilmente perde lá fora. Quando eles vêm lutar com a gente, não tem aquilo de: ‘puxa aquele cara luta em estilo europeu’. De repente, o cara que luta em pé, no estilo japonês, pode soltar algo do europeu. Digamos que temos mais recurso. Você não sabe como o cara vai lutar. Eles sabem que é parada dura.

GE.Net – Você foi ao Mundial do Cairo cercado de muita expectativa, mas acabou voltando sem medalha. O que aconteceu?
Guilheiro -
Esse Mundial é uma coisa que vai machucar o resto da vida. A competição foi se desenhando realmente para eu ganhar. Peguei uma chave muito boa, coisa que raramente acontece comigo. Estava nas quartas-de-final, ganhando a luta. Faltando dois segundos, entrei um golpe idiota, defensivo, e o cara me inverteu e perdi. Se ganhasse, iria para a semifinal e tinha grandes chances de chegar à final. Apesar de estar com a contusão no ombro, meu problema não era físico ou mental. Acho que estava meio desligado no dia. Se você me perguntar como era a roupa dos árbitros em Atenas, não vou lembrar, mas neste Mundial eu vou lembrar. Não ganhei por besteira minha, por culpa minha. Foi uma coisa que me abalou.

GE.Net – Foi uma lição...
Guilheiro -
Sim, mas da pior forma. Se estivesse com o mesmo foco que estava em Atenas, não teria perdido o campeonato Mundial. Não era eu realmente quem estava lutando, o cara que ganhou o Mundial, que ganhou a Olimpíada.

GE.Net – Mas o currículo inclui uma medalha olímpica (Atenas/2004). Como foi logo depois de você conquistar o bronze?
Guilheiro -
Foi uma loucura. Até me incomodou um pouco. Fiquei três semanas fora de casa e quando cheguei não parava na minha casa. Depois que operei, tive uma parada obrigatória. Foi o lado bom da minha cirurgia. Por isso, é importante saber quais são seus objetivos. Eu saí das Olimpíadas querendo mais. Saí de lá, no dia seguinte, querendo treinar para dali a quatro anos ter um resultado melhor. Para competir, acabou me fazendo melhor porque me dá mais confiança. Confio mais em mim, no meu judô e sei que posso chegar aonde quero.

GE.Net – E a pressão? Como foi lidar com a mudança de expectativa das pessoas?
Guilheiro -
Não penso nisso. É uma coisa que fica tão fora da minha vida. Consigo viver dentro do meu mundo. Pressão não me influencia. E geralmente, quando estou sob pressão, trabalho até melhor. Nas primeiras competições depois da medalha, me senti muito melhor, mais solto, mais tranqüilo. Tenho uma pressão natural sobre mim mesmo, de saber que sempre treinei muito para alcançar alguma coisa e, se o resultado não vem, fico muito chateado comigo mesmo.

GE.Net – A questão do patrocínio mudou? Você tem patrocinador?
Guilheiro -
Não mudou. O único salário que ganho é do Pinheiros. Em termos de patrocínio, meu quimono é branco. A Confederação Brasileira tem o patrocínio da Infraero que, diga-se de passagem, ocupa um grande espaço em nosso quimono, que é um equipamento esportivo ingrato. Os únicos espaços livres que tem são o ombro e embaixo do ombro um quadradinho de 10x10 dos dois lados. O principal é da Infraero, mas não é diretamente para a gente. Eles dão premiações, mas não é salário fixo. Se você tomar porrada o ano inteiro, não vai ganhar nada.

GE.Net - Mesmo depois das Olimpíadas?
Guilheiro -
Mesmo depois. É complicado esta coisa de patrocínio. Às vezes, tem pessoas interessadas, mas é difícil você saber. É mais na base de quem te indica, quem tem conhecimento, quem está no meio da roda social. Coisa que não é muito meu perfil e acho até que ter este perfil atrapalha um pouco a vida de atleta. Mas acredito que as coisas vão melhorar. O (presidente da República) Lula enviou um projeto de lei para o Congresso, isenção fiscal, um incentivo, vamos ver se será aprovado.

GE.Net – Você acha que isso resolverá a situação?
Guilheiro -
Vai ajudar, resolver não. Não é todo mundo que terá conhecimento disso e não sei se será interessante para as empresas. Acho que ter um incentivo dará uma ajudinha para os patrocinadores verem que vale a pena, que é legal e não sai tão caro quanto imaginam.

GE.Net – E dá para levar numa boa, mesmo sem patrocínio?
Guilheiro -
Dá porque ganho meu salário. Não é nada gigantesco, mas está ótimo para a realidade do Brasil. Posso te garantir que tem atletas que não são medalhistas olímpicos e ganham mais que eu, no judô e em outras modalidades, que talvez nem sejam olímpicas, mas que um trabalho de marketing bem feito faz o atleta ter mais patrocínio.

GE.Net – Isso não te chateia?
Guilheiro –
Não, porque tenho um objetivo maior. Na verdade, no judô tudo o que faço, que treino não é por causa disso. Acho que não faria metade do que fiz por causa de grana. Lutar com dor, com catapora como já lutei quando era moleque, passar por cirurgia, sentir cansaço. Não faria isso por dinheiro. É porque dentro de mim tem um algo a mais e é uma coisa que sinto desde os seis anos de idade e que não mudou, só aumentou. Com seis anos não teria este tipo de pensamento, querer ganhar dinheiro... Mesmo se não tivesse esta condição de um patrocínio, continuaria com a mesma vontade atrás dos meus objetivos. Sei que depois que acabar minha vida de atleta não vai dar para viver disso. Por isso, estou estudando (3º de Direito) para ter uma saída e até pelo lado mental.

GE.Net – Você ainda é jovem, é cedo para falar em aposentadoria, mas já pensa no que pode fazer quando parar?
Guilheiro -
Hoje não me vejo como professor profissional, mas tenho 22 anos, vai saber como estarei com a cabeça daqui dez anos. As coisas mudam. Estando na seleção brasileira em contato com caras bons, que sabem judô, estudam judô, vou aprendendo uma série de coisas e posso aprender muito mais, ainda não sei nada. Acho que é até um pouco de pecado guardar o pouco que sei para mim. Então, se puder ensinar uma criança, um adulto o pouco que aprendi é isso que eu tenho que fazer. Mas não sei se vou ter talento, jeito para ser técnico. Mas sempre vou praticar judô depois que encerrar minha carreira... porque me faz bem isso. Parece que eu entro em uma bolha.

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