
Por Marta Teixeira
Ao contrário de muitos atletas que já elegeram um título
nos Jogos Pan-americanos Rio-2007 como grande sonho
e principal meta, o judoca Leandro Guilheiro confessa
que os Jogos na capital carioca são apenas um trampolim
para seu verdadeiro objetivo: chegar a outra Olimpíada
e subir mais uma vez ao pódio.
| O desafio da seleção |
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GE.Net – A evolução
geral acabou tornando a situação dos atletas delicada
na seleção, não? A concorrência é muito acirrada
por uma vaga? Como é lidar com isso?
Guilheiro - É difícil. Tem que separar
treinamento em duas etapas. Primeira é a seletiva.
Nossa vida vive em função de seletiva. A partir
do momento que conseguiu vaga, há tranqüilidade
para pensar no que vai pegar lá fora. A seletiva
geralmente é mais nervosa que a própria competição:
Mundial e Olimpíadas. O Aurélio Miguel é a favor,
por exemplo, porque se você é capaz de superar
tudo aquilo, já será um passo importantíssimo
para se sair bem na Olimpíada. Ele é a favor desse
inferno mental (rindo).
GE.Net –
E vocês enfrentam este “inferno” praticamente
todos os anos. No final, isso é mais estimulante
ou estressante?
Guilheiro - Tem os dois lados da moeda.
Para quem está dentro, é ruim, porque pode perder
a vaga. Para quem está fora, é legal, porque é
um sistema democrático. Se você estiver bem consigo,
bem treinado, geralmente o melhor cara é o que
vai. Uma exceção ou outra acontece por uma bobeira
ou, por exemplo, porque um lutador está muito
bem preparado para enfrentar aquele adversário
especificamente e ganha a seletiva. Até por isso
estão levando para a Europa. De repente, o cara
é um exímio tático que aqui ganha de um e de outro
e, às vezes, chega lá fora e não tem bom resultado.
GE.Net –
Então, você gostou da mudança...
Guilheiro - Gostei. É justo. Foi até
a pedido dos próprios atletas. Diminui um pouco
a pressão até da seletiva interna e faz com que
a gente se estimule para treinar e estudar os
adversários lá fora. |
Nesta entrevista à GE.Net, o medalhista
de bronze nos Jogos de Atenas-2004 conta como planeja
sua meta em Pequim, relembra o começo sem muita paixão
nos tatames, mas que determinou sua vida, fala do status
e da responsabilidade de representar um país que se
tornou referência internacionalmente e comenta sobre
a profunda frustração pelo fracasso no Mundial do Cairo.
GE.Net – Depois que você conquistou a medalha
em Atenas, enfrentou muitos problemas. Passou por duas
cirurgias, mas se manteve na seleção principal. Recentemente,
enfrentou outro problema físico (contusão no ombro).
Como você está agora?
Leandro Guilheiro - Fiz exame físico e me saí
melhor até do que imaginava, mas não estou no ideal.
Judô é coisa que você não esquece, mas certas coisas
você precisa treinar, a pegada no quimono, por exemplo.
Quando você fica muito tempo afastado, sua pegada perde
um pouco de pressão, a mão escorrega. Perde até um pouco
da sensibilidade. Tenho muito a melhorar, mas não estou
mal.
GE.Net – O que acontece com os judocas brasileiros
que acabam sempre enfrentando lesões após bons resultados?
Guilheiro - É esquisito. Parece que é uma sina.
É engraçado porque o Tiago Camilo quando voltou da Olimpíada
operou o joelho. Eu tive que operar, o Carlos Honorato
quando voltou da Olimpíada passou por uma fase difícil.
O Flávio (Canto) perdeu o ano de 2005 porque machucou
o joelho, passou por uma cirurgia, ficou fora da seletiva
e não entrou na seleção. Eu não sei o que acontece quando
a gente volta.
GE.Net – Rotina de treinos puxada e um calendário
intenso. Tudo isso contribui, não?
Guilheiro - É complicado. Ano passado teve
seletiva em junho e julho, depois Mundial em setembro.
No GP nacional temos que lutar todo fim de semana. A
seleção brasileira viajou para Coréia e Japão, voltou
no meio de dezembro. No final de janeiro já tinha uma
seletiva. Geralmente nossas férias são curtas e, depois
da seletiva, você não pode parar porque começa a temporada
do circuito europeu. Aí vêm desafios, campeonato pan-americano
e vai embora... Temos obrigações de janeiro a dezembro.
Cada atleta tem que ver se pode parar um pouco. Eu vejo
por mim: só paro quando machuco. Talvez seja mais inteligente
parar antes de me machucar para evitar contusões.
GE.Net – E você já trabalha com esta possibilidade,
montar um calendário neste sentido?
Guilheiro - Acho que pode ser feito. Parar
de treinar não, mas diminuir a intensidade. Tenho enfrentado
muitas contusões. Treino muito e, na verdade, acho que
tenho que treinar mais até, mas em certos momentos pode
ser possível diminuir um pouco, naquele momento que
não vai me afetar em uma possível competição.
GE.Net – Vocês têm pela frente o Mundial por
equipes e a seletiva para os Jogos Pan-americanos. Será
possível estar como você deseja até lá?
Guilheiro - Fisicamente, vou estar no ponto
que meu preparador físico quer.
GE.Net – Quais suas metas?
Guilheiro - Tenho o Campeonato Mundial por
Equipe em setembro que é importante. Mas acredito que
seja mais um treino forte, de luxo, para um objetivo
maior que será outra seletiva em dezembro para definir
a seleção (cada peso terá dois representantes
e o melhor em torneios na Europa vai para o Mundial
e o Pan). Acho que são três competições chaves: seletiva,
Pan e o Mundial. Meu objetivo maior, o que sempre foi
o objetivo da minha vida, é a Olimpíada.
GE.Net – O Pan então é apenas uma etapa?
Guilheiro - O Pan tem essa coisa de ser no
Rio e muita gente se motiva com isso. Mas na verdade
para mim é um trampolim, porque é uma seletiva. Nunca
escondi de ninguém que o objetivo de vida que tenho
é a Olimpíada e o Mundial. O resto, o
que estiver junto, serve como treino para evoluir, para
chegar onde quero.
| Começo no
tatame |
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| GE.Net – Como
começou no judô?
Guilheiro - Minha mãe achou que eu não
ia gostar e, nas primeiras aulas, falou para o
professor que nem ia comprar o quimono. Mas o
professor viu que eu tinha jeito, e acabei gostando.
Na academia falaram que para ser forte, teria
que treinar muito e eu treinava muito. Com seis
anos treinava que nem um doente. Nunca tive pressão
dentro de casa, mas se quisesse fazer tinha que
fazer direito porque de gente medíocre tinha um
monte. Tinha que continuar estudando também. Era
a condição.
GE.Net –
De que maneira o judô influenciou a sua vida?
Guilheiro - Não seria a mesma pessoa
se não fosse o judô. Aprendi a conviver com a
decepção e também a ter metas a curto e a longo
prazo. E o que mais me ensinou é que, se você
quer alguma coisa, tem que fazer muito mais que
os outros e muito melhor. Seu dia vai ser sozinho,
solitário, treinando. Todo Carnaval, muitas vezes
no Natal e no Ano Novo passei treinando. Várias
vezes no meu aniversário, na época em que fazia
dieta, passava fome e sem poder ter festa. Na
hora da competição, é uma coisa que vai além da
parte física e técnica, é aquela coisa de merecimento,
que me leva para frente. Não tenho idéia de como
seria minha vida sem o judô. Acho que o judô me
achou. |
GE.Net – Mas CBJ e COB têm como meta que o
judô consiga manter o domínio no Pan...
Guilheiro - É meta da nossa Confederação e
do COB. Não lutei o último Pan, mas quem lutar este
terá muito mais pressão. Se o judô for um fiasco, será
meio ruim para nossa imagem, principalmente em casa.
Mas acho que o Brasil vai se sair bem. Se vou para qualquer
competição, quero ganhar. Mas, se tivesse que sacrificar
uma pela outra, sem dúvida meu treino todo faria específico
para os Jogos Olímpicos e Campeonato Mundial.
GE.Net – No exterior, o judô brasileiro já
se tornou uma das principais forças da modalidade. O
que o torna diferente das demais escolas? É possível
definir um estilo brasileiro?
Guilheiro - O Brasil tem uma mistura meio única
que é da cultura japonesa com um pouco da influência
do judô europeu também. Potências do mundo têm conhecimento
que o Brasil é país forte e perigoso, e vem treinar
com a gente, França vem treinar. Temos um (estilo) brazilian
jiu-jitsu, muito judoca que treina jiu-jitsu também.
Em pé, mistura japonês com europeu, e tem um
solo muito forte, que dificilmente perde lá fora. Quando
eles vêm lutar com a gente, não tem aquilo de: ‘puxa
aquele cara luta em estilo europeu’. De repente, o cara
que luta em pé, no estilo japonês, pode soltar algo
do europeu. Digamos que temos mais recurso. Você não
sabe como o cara vai lutar. Eles sabem que é
parada dura.
GE.Net – Você foi ao Mundial do Cairo cercado
de muita expectativa, mas acabou voltando sem medalha.
O que aconteceu?
Guilheiro - Esse Mundial é uma coisa que vai
machucar o resto da vida. A competição foi se desenhando
realmente para eu ganhar. Peguei uma chave muito boa,
coisa que raramente acontece comigo. Estava nas quartas-de-final,
ganhando a luta. Faltando dois segundos, entrei um golpe
idiota, defensivo, e o cara me inverteu e perdi. Se
ganhasse, iria para a semifinal e tinha grandes chances
de chegar à final. Apesar de estar com a contusão no
ombro, meu problema não era físico ou mental. Acho que
estava meio desligado no dia. Se você me perguntar como
era a roupa dos árbitros em Atenas, não vou lembrar,
mas neste Mundial eu vou lembrar. Não ganhei por besteira
minha, por culpa minha. Foi uma coisa que me abalou.
GE.Net – Foi uma lição...
Guilheiro - Sim, mas da pior forma. Se estivesse
com o mesmo foco que estava em Atenas, não teria perdido
o campeonato Mundial. Não era eu realmente quem estava
lutando, o cara que ganhou o Mundial, que ganhou a Olimpíada.
GE.Net – Mas o currículo inclui uma medalha
olímpica (Atenas/2004). Como foi logo depois de você
conquistar o bronze?
Guilheiro - Foi uma loucura. Até me incomodou
um pouco. Fiquei três semanas fora de casa e quando
cheguei não parava na minha casa. Depois que operei,
tive uma parada obrigatória. Foi o lado bom da minha
cirurgia. Por isso, é importante saber quais são seus
objetivos. Eu saí das Olimpíadas querendo mais. Saí
de lá, no dia seguinte, querendo treinar para dali a
quatro anos ter um resultado melhor. Para competir,
acabou me fazendo melhor porque me dá mais confiança.
Confio mais em mim, no meu judô e sei que posso chegar
aonde quero.
GE.Net – E a pressão? Como foi lidar com a
mudança de expectativa das pessoas?
Guilheiro - Não penso nisso. É uma coisa que
fica tão fora da minha vida. Consigo viver dentro do
meu mundo. Pressão não me influencia. E geralmente,
quando estou sob pressão, trabalho até melhor. Nas primeiras
competições depois da medalha, me senti muito melhor,
mais solto, mais tranqüilo. Tenho uma pressão natural
sobre mim mesmo, de saber que sempre treinei muito para
alcançar alguma coisa e, se o resultado não vem, fico
muito chateado comigo mesmo.
GE.Net – A questão do patrocínio mudou? Você
tem patrocinador?
Guilheiro - Não mudou. O único salário que
ganho é do Pinheiros. Em termos de patrocínio, meu quimono
é branco. A Confederação Brasileira tem o patrocínio
da Infraero que, diga-se de passagem, ocupa um grande
espaço em nosso quimono, que é um equipamento esportivo
ingrato. Os únicos espaços livres que tem são o ombro
e embaixo do ombro um quadradinho de 10x10 dos dois
lados. O principal é da Infraero, mas não é diretamente
para a gente. Eles dão premiações, mas não é salário
fixo. Se você tomar porrada o ano inteiro, não vai ganhar
nada.
GE.Net - Mesmo depois das Olimpíadas?
Guilheiro - Mesmo depois. É complicado esta
coisa de patrocínio. Às vezes, tem pessoas interessadas,
mas é difícil você saber. É mais na base de quem te
indica, quem tem conhecimento, quem está no meio da
roda social. Coisa que não é muito meu perfil e acho
até que ter este perfil atrapalha um pouco a vida de
atleta. Mas acredito que as coisas vão melhorar. O (presidente
da República) Lula enviou um projeto de lei para
o Congresso, isenção fiscal, um incentivo, vamos ver
se será aprovado.
GE.Net – Você acha que isso resolverá a situação?
Guilheiro - Vai ajudar, resolver não. Não é
todo mundo que terá conhecimento disso e não sei se
será interessante para as empresas. Acho que ter um
incentivo dará uma ajudinha para os patrocinadores verem
que vale a pena, que é legal e não sai tão caro quanto
imaginam.
GE.Net – E dá para levar numa boa, mesmo sem
patrocínio?
Guilheiro - Dá porque ganho meu salário. Não
é nada gigantesco, mas está ótimo para a realidade do
Brasil. Posso te garantir que tem atletas que não são
medalhistas olímpicos e ganham mais que eu, no judô
e em outras modalidades, que talvez nem sejam olímpicas,
mas que um trabalho de marketing bem feito faz o atleta
ter mais patrocínio.
GE.Net – Isso não te chateia?
Guilheiro – Não, porque tenho um objetivo maior.
Na verdade, no judô tudo o que faço, que treino não
é por causa disso. Acho que não faria metade do que
fiz por causa de grana. Lutar com dor, com catapora
como já lutei quando era moleque, passar por cirurgia,
sentir cansaço. Não faria isso por dinheiro. É porque
dentro de mim tem um algo a mais e é uma coisa que sinto
desde os seis anos de idade e que não mudou, só aumentou.
Com seis anos não teria este tipo de pensamento, querer
ganhar dinheiro... Mesmo se não tivesse esta condição
de um patrocínio, continuaria com a mesma vontade atrás
dos meus objetivos. Sei que depois que acabar minha
vida de atleta não vai dar para viver disso. Por isso,
estou estudando (3º de Direito) para ter uma saída e
até pelo lado mental.
GE.Net – Você ainda é jovem, é cedo para falar
em aposentadoria, mas já pensa no que pode fazer quando
parar?
Guilheiro - Hoje não me vejo como professor
profissional, mas tenho 22 anos, vai saber como estarei
com a cabeça daqui dez anos. As coisas mudam. Estando
na seleção brasileira em contato com caras bons, que
sabem judô, estudam judô, vou aprendendo uma série de
coisas e posso aprender muito mais, ainda não sei nada.
Acho que é até um pouco de pecado guardar o pouco que
sei para mim. Então, se puder ensinar uma criança, um
adulto o pouco que aprendi é isso que eu tenho que fazer.
Mas não sei se vou ter talento, jeito para ser técnico.
Mas sempre vou praticar judô depois que encerrar minha
carreira... porque me faz bem isso. Parece que eu entro
em uma bolha.
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