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04/09/2006

Montagem sobre foto de Djalma Vassão/Gazeta Press
Por Marta Teixeira

Coaracy Nunes Filho é o tipo da pessoa que não consegue apenas acompanhar os acontecimentos de longe. Presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) desde 1988, ele ainda faz questão de cuidar de cada detalhe pessoalmente. Foi assim na organização do 1º Mundial Júnior de natação, em agosto, no Rio de Janeiro, quando acompanhava até o ensaio das crianças para a apresentação das bandeiras dos países competidores.

Com a mesma dedicação, ele faz planos para a participação brasileira nos Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio de Janeiro, e para o futuro das modalidades sob sua responsabilidade em nível internacional.

A natação mostrou sua força no Pan logo na edição de estréia, em Buenos Aires/51. Tetsuo Okamoto foi o primeiro brasileiro campeão pan-americano, voltando para casa com o ouro nos 400m e 1.500m, além da prata no revezamento 4x200m livre. De lá para cá, os esportes aquáticos não decepcionaram. Apenas em Chicago/59 nenhum competidor das piscinas subiu ao pódio.

Com 122 medalhas ao longo da história – 23 ouros, 37 pratas e 62 bronzes -, a CBDA é responsável pelo maior número de conquistar para o país em Pan-americanos desde Mar Del Plata-95. Patrocinada pela mesma empresa há 18 anos - privilégio raro quando lembramos que à exceção do futebol, a maior parte das outras modalidades vive com apoios temporários -, acabou por se tornar um dos portos-seguros do Brasil em sua constante luta por subir um degrau no quadro geral de medalhas.

Não por acaso, mesmo já existindo no Rio um parque aquático no qual são realizadas competições internacionais, os esportes aquáticos vão sair dos Jogos de 2007 com uma nova instalação com nível de primeiro mundo na área do Autódromo, em Jacarepaguá.

Nesta entrevista à GE.Net, Coaracy fala sobre o propósito de manter os esportes aquáticos no topo da lista dos que mais conquistam medalhas para o Brasil no Pan, o desafio de melhorar a colocação nacional nos rankings mundiais de natação, pólo e saltos ornamentais e rebate críticas à queda de rendimento da natação nacional.

Gazeta Esportiva.Net - Que tipo de reflexo, os Jogos no Rio podem ter para o esporte nacional?
Coaracy Nunes -
A história do esporte brasileiro vai estar dividida em duas partes: antes e depois dos Jogos Pan-americanos, porque é uma oportunidade que o Brasil tem de se tornar vitrine do esporte para o mundo todo não só para a América pan-americana. Ele chega em um momento que o povo brasileiro está carente de auto-estima por todas estas problemáticas na vida brasileira que são do conhecimento público. O Pan vem trazer ao povo brasileiro a oportunidade de ver os seus atletas ganhando medalha em seu país. O esporte é um instrumento de afirmação para o povo.

Para o Rio é um benefício enorme por todo o legado das estruturas. E o Rio, sem nenhuma dúvida, é a vitrine do Brasil no mundo. É uma cidade linda, um povo muito acolhedor e é a cidade que tem maior divulgação e popularidade no mundo. Temos que reconhecer isso. Quando nós pedimos lá fora para fazer alguma coisa no Rio de Janeiro, esse pedido é aceito com muito mais facilidade. É uma pena que a segurança não esteja à altura da beleza da cidade.

GE.Net - Então, o destino do Rio é tornar-se uma referência nacional no esporte?
Coaracy -
Não é o Rio, é o Brasil. Os Jogos Pan-americanos são bons para o Brasil porque isso vai trazer turista para o Rio de Janeiro. O Brasil ficará mais conhecido lá fora. Se a competição for muito bem realizada, terá uma repercussão, um êxito. Nós teremos chances de amanhã disputar os Jogos Olímpicos de 2016 e, se eles forem no Rio, será bom para o Brasil. Mas não é tudo aqui. Nós temos feito eventos fora. Quando você traz para o Rio, traz para outras cidades, traz para o Brasil.

GE.Net - Mas o senhor não acredita que por toda a questão do legado, a tendência é que ocorra uma centralização esportiva no Rio?
Coaracy -
Não, de jeito nenhum. Não há risco nenhum. São Paulo é uma potência para realizar eventos. Grandes eventos têm sido feitos em São Paulo, grandes espetáculos, shows. Mas como o Rio Janeiro ganhou o direito de realizar os Jogos, ele está na vitrine sem dúvida.

GE.Net - A CBDA tem duas situações opostas em relação às sedes. O Parque Aquático Júlio Delamare (que receberá as competições de pólo-aquático) foi reformado e já está entregue. Em contrapartida, o Parque Aquático do Complexo do Autódromo, ainda está levantando as fundações. Isso preocupa vocês?
Coaracy -
Não há mais nenhuma preocupação. O problema agora é correr para deixar tudo pronto até abril. Visitei as obras e está tudo uma maravilha. São 2000 homens trabalhando o dia inteiro.

GE.Net - E qual é a meta da CBDA para este Pan-americano?
Coaracy –
Estamos muito otimistas, porque a CBDA é tricampeã de medalhas em Jogos Pan-americanos. Em Mar Del Plata, Winnipeg e Santo Domingo, nós fomos a entidade nacional com o maior número de medalhas e a natação foi disparado o esporte com o maior número de medalhas. Nós esperamos manter esta possibilidade.

GE.Net - A natação, aliás, tem um dos recordistas de medalhas pan-americanas do país...
Goaracy –
Sim, o Gustavo (Borges, que conquistou 18 medalhas pan-americanas, sendo oito de ouro) e, em segundo, o Fernando Scherer.

Sátiro Sodré/Divulgação CBDA

Estreante, maratona aquática será mais uma oportunidade de Brasil conquistar medalha. Poliana já é campeã mundial dos 5 e 10 quilômetros.

GE.Net - E agora, quem pode seguir esta tradição?
Coaracy -
Eu acho que o Thiago (Pereira) tem chance de ganhar medalha em todas as provas que vai participar. Nos revezamentos, todos nós temos chances de medalha. O Kaio Márcio nos 50m, 100m e 200m borboleta também. O (César) Cielo tem chance de medalha, assim como a Flávia Delaroli e a Rebeca Gusmão. Temos muitos atletas com chance.

GE.Net - O futuro então está garantido?
Coaracy –
Está, porque temos uma base com atletas excepcionais.

GE.Net - E quanto ao Scherer, que marca esta transição entre as duas gerações. O sr. acredita que ele ainda pode subir ao pódio no Rio?
Coaracy -
Ele ainda vai nos dar grandes alegrias. É um grande atleta, um rapaz que treina muito. Ele foi um dos maiores nadadores da história do Brasil e vai ser medalhista nos jogos pan-americanos. Ele já me prometeu isso e eu acredito na palavra dele.

GE.Net - Há algum tempo, o ex-técnico da seleção Alberto Klar disse à GE.Net que os resultados internacionais brasileiros haviam sofrido uma queda porque a natação perdera seu foco competitivo. O sr. concorda com essa avaliação?
Coaracy –
Não. O que está acontecendo é normal. O problema todo é o seguinte: tudo tem um ciclo. Teve o ciclo do Gustavo e do Scherer. Aí, tem um espaço vazio, que é exatamente a turma da nova geração. Eles subiram e agora o Kaio é recordista mundial, o Thiago é campeão mundial e nós fomos medalhistas olímpicos. Esta geração é nova, com atletas de 18, 19 anos, e terá mais quatro, cinco anos para jogar a natação lá em cima.

GE.Net - Qual considera ter sido o auge da natação?
Coaracy -
Nós tivemos nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg uma situação espetacular da natação, como também em Santo Domingo. Demonstramos que só estamos abaixo dos Estados Unidos.

GE.Net - Isso na pan-américa. E no mundo?
Coaracy -
Em termos mundiais, a natação brasileira está entre os 12 primeiros. O pólo aquático também entre os 12, o nado sincronizado entre os dez primeiros e os saltos ornamentais entre os seis maiores países do mundo.

GE.Net - Mas o carro chefe é a natação...
Coaracy -
Mas para mim todos são importantes. Tanto são importantes, que temos nas Olimpíadas hoje a mesma chance com a natação e os saltos ornamentais.

GE.Net - E quais são as metas da CBDA para estas modalidades?
Coaracy -
Assumir a liderança na pan-américa no pólo-aquático masculino. Já somos medalha de prata, mas ganhar dos Estados Unidos não é fácil. Eles estão entre as quatro melhores do mundo.

GE.Net - O que está sendo feito para que isso aconteça?
Coaracy -
Um trabalho paralelo de organização de treinamento em altitude e participação em competições internacionais. No pólo eu já mandei o time júnior para a Austrália este ano, para o Canadá e vai ter o pré-Mundial. Já foram para 12 campeonatos este ano.

GE.Net - No geral, qual é o desafio para os esportes aquáticos brasileiros?
Coaracy -
Ficarmos melhores posicionados no ranking internacional e para isto estamos fazendo um grande esforço.

GE.Net - Mas a CBDA é hoje uma das Confederações nacionais mais estáveis e com melhor estrutura. O patrocínio com os Correios já tem 18 anos...
Coaracy –
E já têm a intenção de renovar.

Sátiro Sodré/Divulgação CBDA

Thiago Pereira é uma das principais apostas de Coaracy para suprir ausência de Gustavo Borges nas piscinas

GE.Net - Qual o diferencial de vocês?
Coaracy -
Antigamente, a natação era esporte de Rio e São Paulo, hoje é esporte do Brasil. Ela está semeada por todo o país. Antes de eu assumir a Confederação (em 1988), todos os campeonatos nacionais eram feitos em São Paulo e Rio, o Brasil ignorava. A natação era um esporte de elite. Hoje é um esporte do povo. Tenho 2030 clubes filiados às 27 Federações. Para isso tivemos que nos organizar e gastamos US$ 6 milhões na estrutura da Confederação na área de informática. Eu tenho tudo informatizado, não temos nada em papel e as 27 federações estão estruturadas pela CBDA para se integrarem ao CBDA system, um programa que gerencia todo esporte aquático.

GE.Net - E quanto tempo levou esta reestruturação?
Coaracy -
Foi muito tempo. Lembro especificamente quando em 91 nós fizemos o contrato com os Correios, que foi o que modelou a CBDA. Os Correios são a alma da Confederação, é a alma da natação brasileira. Se não fosse assim, nós estávamos na idade da pedra porque sem recursos você não é inteligente. Não tem outra saída.

GE.Net - Esta questão de patrocínio é complicada no Brasil para instituições, clubes, times. O sr. acredita que o Pan pode ajudar nesse aspecto também?
Coaracy -
Sem dúvida nenhuma. Principalmente agora que a Câmara enviou a proposta da Lei de Incentivo Fiscal ao esporte. Nós vamos ter chances. O próprio Correios já me autorizou a procurar um co-patrocinador para obter mais recursos. A lei de incentivo é a grande jogada. Aí, nós vamos ver se o dirigente tem competência ou não. Porque ele vai ter que pegar mala e ir até as empresas e dizer: “o sr. não vai gastar nada, vai gastar apenas o que deixar de pagar em seu imposto de renda”.

GE.Net - Apesar de toda esta estabilidade da Confederação é comum que nadadores deixem o Brasil para treinar no exterior...
Coaracy –
Isso é muito pouco hoje. A Joana foi e voltou, a Flávia foi e voltou, a Rebeca foi e voltou, o Scherer foi e voltou. Todos estão voltando.

GE.Net - Retornos em função de?
Coaracy -
Para estes atletas de altíssimo nível a Confederação dá todas as condições de patrocinador que o norte-americano dá e tem a vantagem de não (precisar) deixar o país e (ainda) garantir um futuro na universidade.


As medalhas que vieram das águas
Edição
Ouro
Prata
Bronze
Total
Buenos Aires/51
2
3
2
7
México/55
-
-
1
1
Chicago/59
-
-
1
1
São Paulo/63
1
-
4
4
Winnipeg/67
2
-
1
3
Cali/71
-
1
6
7
México/75
-
-
9
9
San Juan/79
-
4
3
7
Caracas/83
2
5
-
7
Indianápolis/87
-
2
4
6
Havana/91
3
3
3
9
Mar Del Plata/95
3
8
6
17
Winnipeg/99
7
2
6
15
Santo Domingo/2003
3
9
16
28
Total
23
37
62
122

As medalhas por modalidade *

Ouro
Prata
Bronze
Natação
22
31
111
Nado sincronizado
-
-
4
Pólo-aquático
1
4
6
Saltos ornamentais
-
2
1
* As maratonas aquáticas foram incluídas no programa pan-americano apenas nos Jogos de 2007

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