
Por Marta Teixeira
Coaracy Nunes Filho é o tipo da pessoa que não consegue
apenas acompanhar os acontecimentos de longe. Presidente
da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA)
desde 1988, ele ainda faz questão de cuidar de cada detalhe
pessoalmente. Foi assim na organização do 1º Mundial Júnior
de natação, em agosto, no Rio de Janeiro, quando acompanhava
até o ensaio das crianças para a apresentação das bandeiras
dos países competidores.
Com a mesma dedicação, ele faz planos para a participação
brasileira nos Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio
de Janeiro, e para o futuro das modalidades sob sua
responsabilidade em nível internacional.
A natação mostrou sua força no Pan logo na edição
de estréia, em Buenos Aires/51. Tetsuo Okamoto foi o
primeiro brasileiro campeão pan-americano, voltando
para casa com o ouro nos 400m e 1.500m, além da prata
no revezamento 4x200m livre. De lá para cá, os esportes
aquáticos não decepcionaram. Apenas em Chicago/59 nenhum
competidor das piscinas subiu ao pódio.
Com 122 medalhas ao longo da história – 23 ouros,
37 pratas e 62 bronzes -, a CBDA é responsável pelo
maior número de conquistar para o país em Pan-americanos
desde Mar Del Plata-95. Patrocinada pela mesma empresa
há 18 anos - privilégio raro quando lembramos que à
exceção do futebol, a maior parte das outras modalidades
vive com apoios temporários -, acabou por se tornar
um dos portos-seguros do Brasil em sua constante luta
por subir um degrau no quadro geral de medalhas.
Não por acaso, mesmo já existindo no Rio um parque
aquático no qual são realizadas competições internacionais,
os esportes aquáticos vão sair dos Jogos de 2007 com
uma nova instalação com nível de primeiro mundo na área
do Autódromo, em Jacarepaguá.
Nesta entrevista à GE.Net, Coaracy fala sobre o propósito
de manter os esportes aquáticos no topo da lista dos
que mais conquistam medalhas para o Brasil no Pan, o
desafio de melhorar a colocação nacional nos rankings
mundiais de natação, pólo e saltos ornamentais e rebate
críticas à queda de rendimento da natação nacional.
Gazeta Esportiva.Net - Que tipo de reflexo,
os Jogos no Rio podem ter para o esporte nacional?
Coaracy Nunes - A história do esporte brasileiro
vai estar dividida em duas partes: antes e depois dos
Jogos Pan-americanos, porque é uma oportunidade que
o Brasil tem de se tornar vitrine do esporte para o
mundo todo não só para a América pan-americana. Ele
chega em um momento que o povo brasileiro está carente
de auto-estima por todas estas problemáticas na vida
brasileira que são do conhecimento público. O Pan vem
trazer ao povo brasileiro a oportunidade de ver os seus
atletas ganhando medalha em seu país. O esporte é um
instrumento de afirmação para o povo.
Para o Rio é um benefício enorme por todo o legado
das estruturas. E o Rio, sem nenhuma dúvida, é a vitrine
do Brasil no mundo. É uma cidade linda, um povo muito
acolhedor e é a cidade que tem maior divulgação e popularidade
no mundo. Temos que reconhecer isso. Quando nós pedimos
lá fora para fazer alguma coisa no Rio de Janeiro, esse
pedido é aceito com muito mais facilidade. É uma pena
que a segurança não esteja à altura da beleza da cidade.
GE.Net - Então, o destino do Rio é tornar-se
uma referência nacional no esporte?
Coaracy - Não é o Rio, é o Brasil. Os Jogos
Pan-americanos são bons para o Brasil porque isso vai
trazer turista para o Rio de Janeiro. O Brasil ficará
mais conhecido lá fora. Se a competição for muito bem
realizada, terá uma repercussão, um êxito. Nós teremos
chances de amanhã disputar os Jogos Olímpicos de 2016
e, se eles forem no Rio, será bom para o Brasil. Mas
não é tudo aqui. Nós temos feito eventos fora. Quando
você traz para o Rio, traz para outras cidades, traz
para o Brasil.
GE.Net - Mas o senhor não acredita que por
toda a questão do legado, a tendência é que ocorra uma
centralização esportiva no Rio?
Coaracy - Não, de jeito nenhum. Não há risco
nenhum. São Paulo é uma potência para realizar eventos.
Grandes eventos têm sido feitos em São Paulo, grandes
espetáculos, shows. Mas como o Rio Janeiro ganhou o
direito de realizar os Jogos, ele está na vitrine sem
dúvida.
GE.Net - A CBDA tem duas situações opostas
em relação às sedes. O Parque Aquático Júlio Delamare
(que receberá as competições de pólo-aquático) foi reformado
e já está entregue. Em contrapartida, o Parque Aquático
do Complexo do Autódromo, ainda está levantando as fundações.
Isso preocupa vocês?
Coaracy - Não há mais nenhuma preocupação.
O problema agora é correr para deixar tudo pronto até
abril. Visitei as obras e está tudo uma maravilha. São
2000 homens trabalhando o dia inteiro.
GE.Net - E qual é a meta da CBDA para este
Pan-americano?
Coaracy – Estamos muito otimistas, porque a
CBDA é tricampeã de medalhas em Jogos Pan-americanos.
Em Mar Del Plata, Winnipeg e Santo Domingo, nós fomos
a entidade nacional com o maior número de medalhas e
a natação foi disparado o esporte com o maior número
de medalhas. Nós esperamos manter esta possibilidade.
GE.Net - A natação, aliás, tem um dos recordistas
de medalhas pan-americanas do país...
Goaracy – Sim, o Gustavo (Borges, que conquistou
18 medalhas pan-americanas, sendo oito de ouro) e, em
segundo, o Fernando Scherer.
| Sátiro Sodré/Divulgação
CBDA |
 |
| Estreante,
maratona aquática será mais uma
oportunidade de Brasil conquistar medalha. Poliana
já é campeã mundial dos 5
e 10 quilômetros.
|
GE.Net - E agora, quem pode seguir esta tradição?
Coaracy - Eu acho que o Thiago (Pereira) tem
chance de ganhar medalha em todas as provas que vai
participar. Nos revezamentos, todos nós temos chances
de medalha. O Kaio Márcio nos 50m, 100m e 200m borboleta
também. O (César) Cielo tem chance de medalha, assim
como a Flávia Delaroli e a Rebeca Gusmão. Temos muitos
atletas com chance.
GE.Net - O futuro então está garantido?
Coaracy – Está, porque temos uma base com atletas
excepcionais.
GE.Net - E quanto ao Scherer, que marca esta
transição entre as duas gerações. O sr. acredita que
ele ainda pode subir ao pódio no Rio?
Coaracy - Ele ainda vai nos dar grandes alegrias.
É um grande atleta, um rapaz que treina muito. Ele foi
um dos maiores nadadores da história do Brasil e vai
ser medalhista nos jogos pan-americanos. Ele já me prometeu
isso e eu acredito na palavra dele.
GE.Net - Há algum tempo, o ex-técnico da seleção
Alberto Klar disse à GE.Net que os resultados internacionais
brasileiros haviam sofrido uma queda porque a natação
perdera seu foco competitivo. O sr. concorda com essa
avaliação?
Coaracy – Não. O que está acontecendo é normal.
O problema todo é o seguinte: tudo tem um ciclo. Teve
o ciclo do Gustavo e do Scherer. Aí, tem um espaço vazio,
que é exatamente a turma da nova geração. Eles subiram
e agora o Kaio é recordista mundial, o Thiago é campeão
mundial e nós fomos medalhistas olímpicos. Esta geração
é nova, com atletas de 18, 19 anos, e terá mais quatro,
cinco anos para jogar a natação lá em cima.
GE.Net - Qual considera ter sido o auge da
natação?
Coaracy - Nós tivemos nos Jogos Pan-americanos
de Winnipeg uma situação espetacular da natação, como
também em Santo Domingo. Demonstramos que só estamos
abaixo dos Estados Unidos.
GE.Net - Isso na pan-américa. E no mundo?
Coaracy - Em termos mundiais, a natação brasileira
está entre os 12 primeiros. O pólo aquático também entre
os 12, o nado sincronizado entre os dez primeiros e
os saltos ornamentais entre os seis maiores países do
mundo.
GE.Net - Mas o carro chefe é a natação...
Coaracy - Mas para mim todos são importantes.
Tanto são importantes, que temos nas Olimpíadas hoje
a mesma chance com a natação e os saltos ornamentais.
GE.Net - E quais são as metas da CBDA para
estas modalidades?
Coaracy - Assumir a liderança na pan-américa
no pólo-aquático masculino. Já somos medalha de prata,
mas ganhar dos Estados Unidos não é fácil. Eles estão
entre as quatro melhores do mundo.
GE.Net - O que está sendo feito para que isso
aconteça?
Coaracy - Um trabalho paralelo de organização
de treinamento em altitude e participação em competições
internacionais. No pólo eu já mandei o time júnior para
a Austrália este ano, para o Canadá e vai ter o pré-Mundial.
Já foram para 12 campeonatos este ano.
GE.Net - No geral, qual é o desafio para os
esportes aquáticos brasileiros?
Coaracy - Ficarmos melhores posicionados no
ranking internacional e para isto estamos fazendo um
grande esforço.
GE.Net - Mas a CBDA é hoje uma das Confederações
nacionais mais estáveis e com melhor estrutura. O patrocínio
com os Correios já tem 18 anos...
Coaracy – E já têm a intenção de renovar.
| Sátiro Sodré/Divulgação
CBDA |
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| Thiago
Pereira é uma das principais apostas de
Coaracy para suprir ausência de Gustavo
Borges nas piscinas
|
GE.Net - Qual o diferencial de vocês?
Coaracy - Antigamente, a natação era esporte
de Rio e São Paulo, hoje é esporte do Brasil. Ela está
semeada por todo o país. Antes de eu assumir a Confederação
(em 1988), todos os campeonatos nacionais eram feitos
em São Paulo e Rio, o Brasil ignorava. A natação era
um esporte de elite. Hoje é um esporte do povo. Tenho
2030 clubes filiados às 27 Federações. Para isso tivemos
que nos organizar e gastamos US$ 6 milhões na estrutura
da Confederação na área de informática. Eu tenho tudo
informatizado, não temos nada em papel e as 27 federações
estão estruturadas pela CBDA para se integrarem ao CBDA
system, um programa que gerencia todo esporte aquático.
GE.Net - E quanto tempo levou esta reestruturação?
Coaracy - Foi muito tempo. Lembro especificamente
quando em 91 nós fizemos o contrato com os Correios,
que foi o que modelou a CBDA. Os Correios são a alma
da Confederação, é a alma da natação brasileira. Se
não fosse assim, nós estávamos na idade da pedra porque
sem recursos você não é inteligente. Não tem outra saída.
GE.Net - Esta questão de patrocínio é complicada
no Brasil para instituições, clubes, times. O sr. acredita
que o Pan pode ajudar nesse aspecto também?
Coaracy - Sem dúvida nenhuma. Principalmente
agora que a Câmara enviou a proposta da Lei de Incentivo
Fiscal ao esporte. Nós vamos ter chances. O próprio
Correios já me autorizou a procurar um co-patrocinador
para obter mais recursos. A lei de incentivo é a grande
jogada. Aí, nós vamos ver se o dirigente tem competência
ou não. Porque ele vai ter que pegar mala e ir até as
empresas e dizer: “o sr. não vai gastar nada, vai gastar
apenas o que deixar de pagar em seu imposto de renda”.
GE.Net - Apesar de toda esta estabilidade
da Confederação é comum que nadadores deixem o Brasil
para treinar no exterior...
Coaracy – Isso é muito pouco hoje. A Joana
foi e voltou, a Flávia foi e voltou, a Rebeca foi e
voltou, o Scherer foi e voltou. Todos estão voltando.
GE.Net - Retornos em função de?
Coaracy - Para estes atletas de altíssimo
nível a Confederação dá
todas as condições de patrocinador que
o norte-americano dá e tem a vantagem de não
(precisar) deixar o país e (ainda) garantir um
futuro na universidade.
As medalhas que vieram das águas
|
Edição |
Ouro |
Prata |
Bronze |
Total |
| Buenos Aires/51
|
2
|
3
|
2
|
7 |
|
México/55 |
- |
- |
1 |
1 |
| Chicago/59 |
- |
- |
1 |
1 |
|
São Paulo/63
|
1 |
- |
4 |
4 |
| Winnipeg/67
|
2 |
- |
1 |
3 |
|
Cali/71 |
- |
1 |
6 |
7 |
| México/75
|
- |
- |
9 |
9 |
|
San Juan/79
|
- |
4 |
3 |
7 |
| Caracas/83 |
2 |
5 |
- |
7 |
| Indianápolis/87 |
- |
2 |
4 |
6 |
| Havana/91 |
3 |
3 |
3 |
9 |
| Mar Del Plata/95 |
3 |
8 |
6 |
17 |
| Winnipeg/99 |
7 |
2 |
6 |
15 |
| Santo Domingo/2003 |
3 |
9 |
16 |
28 |
| Total |
23 |
37 |
62 |
122 |
As medalhas por modalidade
*
|
|
Ouro |
Prata |
Bronze |
| Natação
|
22
|
31
|
111
|
|
Nado sincronizado
|
- |
- |
4 |
| Pólo-aquático
|
1 |
4 |
6 |
|
Saltos ornamentais
|
- |
2 |
1 |
* As maratonas aquáticas
foram incluídas no programa pan-americano apenas
nos Jogos de 2007 |