
Por Elói Silveira
Considerada por especialistas como um prodígio da natação
brasileira anos atrás, a paulista Poliana Okimoto provou
no último mês de agosto que pode render frutos ao país
nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007.
Mas ao contrário do que muitos esperavam, a nadadora
deve entrar como uma das maiores favoritas na Maratona
Aquática, prova que abre a competição, em 14 de julho,
e tem sua primeira participação em competição deste
nível.
Tudo isso graças ao excelente resultado obtido por
ela no último mês de agosto. No Mundial da categoria,
disputado em Nápoles, na Itália, ela entrou desacreditada,
mas saiu com duas medalhas de prata, nos 5km e nos 10km,
perdendo apenas para a russa Larisa Ilchenko e ficando
bem à frente das principais adversárias em nível pan-americano.
Na distância mais longo, o feito é ainda mais heróico
levando-se em conta que ela nadou com o tímpano rompido
por uma cotovelada na largada.
Animada com a ascensão, Okimoto falou à GE.Net
sobre seus planos futuros, admitiu ter aumentado seus
objetivos para as próximas competições e garantiu que
ainda não pensa em largar as piscinas. Pelo contrário,
como ainda tem conseguido “resultados satisfatórios
nos 800m”, prova em que sustenta o segundo melhor tempo
do país no ano, quer mesclar as duas modalidades e concretizar
um sonho: estar presente nos dois esportes no Pan de
2007.
Foto: Satiro Sodre/Divulgação
CBDA
 |
Gazeta Esportiva.Net - Como foi a disputa do
Mundial de Maratonas Aquáticas e as conquistas das medalhas
nos 5km e 10km? Você foi para a Itália pensando em algo
tão bom?
Poliana Okimoto - Não, foi uma grande surpresa.
Ninguém esperava o resultado, nem eu, nem meu técnico,
minha família, nem os dirigentes que estavam lá. As
(nadadoras) européias também estranharam ao ver uma
sul-americana no pódio, principalmente na prova dos
5km. Foi minha primeira participação internacional em
maratonas e cheguei sem saber o que esperar e fazer.
Meu objetivo era melhorar a marca do Brasil, que tinha
sido o 15º lugar. Era para entrar entre as dez, pensando
nas Olimpíadas, em ver quem eram as melhores. Mas quando
ganhei as medalhas fiquei emocionada.
GE.Net - A inexperiência, inclusive, foi um
problema na largada dos 10km. Como foi o momento em
que levou a cotovelada e o que você sentiu na hora?
Poliana - A hora da largada é a mais crítica.
Muita gente, todo mundo querendo ocupar o mesmo espaço.
E pela minha falta de experiência na prova, aconteceu
a pancada. Não soube me proteger. Senti muita dor na
hora, fiquei meio tonta, mas não pensei em desistir.
Era a largada, estava meio fria, mas a partir do momento
que aqueci, parei de pensar na dor e fui melhorando.
GE.Net - Em que momento você sentiu que daria
para ultrapassar as adversárias e em que ponto a dor
parou de interferir?
Poliana - Na largada fiquei mesmo para trás.
Mas depois fui para o pelotão da frente, com umas 15
outras, todas juntas. É difícil administrar a dor, ainda
mais vendo 15 nadadoras bem colocadas na luta pelo pódio.
Mas me concentrei e comecei a nadar mais forte, sempre
puxando entre as primeiras. Fiquei com a russa que ganhou
(Ilchenko), disputando a liderança e deu certo.
GE.Net - O que você pode dizer das outras
adversárias? Acha que já tem condições de brigar por
um ouro olímpico, por exemplo?
Poliana - Os meus objetivos depois do campeonato
se tornaram maiores. Estou pensando no Pan, lógico,
objetivo mais recente, e para Olimpíadas ainda preciso
ir com calma e pegar a vaga. Nela, tem que estar entre
as 25 melhores do ranking internacional. Não é igual
ao Pan, que vão as duas melhores do país. É uma briga
pela vaga diretamente com as americanas, as russas,
as canadenses. Então isso torna a participação muito
mais difícil.
GE.Net - Depois deste desempenho, você considera
o Pan-americano uma barbada? Quem seriam suas principais
rivais em nível pan-americano?
Poliana - Ainda estou engatinhando no esporte.
Esta foi a primeira participação, depois vai ter o Mundial
de Melbourne e vou ter duas participações internacionais
antes do Pan. Acredito que os EUA sempre têm nadadoras
fortes, o Canadá também. Não conheço em maratona ainda,
mas em piscina eles sempre vêm bem. Não sei se Cuba
pode trazer alguém bom. Mas meu objetivo, meus treinamentos
estão voltados ao Pan e quem sabe conseguir uma medalha
para o Brasil.
GE.Net - Como será sua preparação para o Pan?
Aliás, qual é sua rotina normal de treinos para a Maratona
Aquática?
Poliana - São treinamentos exaustivos, treino
duas vezes por dia, musculação três vezes por semana.
Treinos em torno de 14 quilômetros por dia, agora mais
na parte aeróbica, para ganhar resistência, também faço
específico para travessias. Mas também não deixo o ritmo
da piscina cair, porque ajuda nas maratonas.
GE.Net - Você já conhece a raia da Praia de
Copacabana. Sabe o que esperar dela?
Poliana - O Brasil, por ser sede do Pan, tem
uma vantagem a mais, que é conhecer o local, a temperatura
da água, o percurso. Vai ter agora em outubro uma seletiva
para o Pan lá. Em janeiro tem outra e em maio outra,
que é a que vale de verdade, as outras são classificatórias
para as seletivas. Todas são em Copacabana. É uma vantagem
nossa, nadar no mesmo lugar do Pan. Esse tipo de treino
faz parte do planejamento e é interessante, porque nos
dá vantagem em relação às outras, que chegam em cma
da hora e vão ter que se virar.
GE.Net - Em termos de condições do mar, temperatura
da água, o quanto isso modifica na prova? Treinar em
piscina não acaba sendo prejudicial?
Poliana - Muda muito. Mas eu faço treinamento
em piscina e participo do Circuito Brasileiro de Maratonas,
que tem 14 etapas por ano. Por isso, estou sempre competindo,
sempre exposta às dificuldades da natureza, de correnteza,
chuva, muito sol, água fria ou quente demais. Tenho
que participar dessas provas para me acostumar a tudo,
distância, mudanças climáticas, ao mar, que é diferente
demais de nadar em um lago. O circuito está sendo importante
para a preparação.
GE.Net - O que representa o Pan para você
e também para a modalidade, que vai ter sua primeira
chance em uma competição global?
Poliana - O Pan será importante para os atletas
brasileiros. Pensando também em patrocínio, será bem
visado por patrocinadores que já apóiam, para outros
que pensam em apoiar. Tem também a imprensa, que vai
mostrar tudo, e como a maratona abre o Pan, vai ter
uma visibilidade ainda maior. Todo mundo estará com
a expectativa grande, pra ver como o Brasil está, se
bem ou mal, quantas medalhas podemos ganhar. E por ser
na praia, lugar mais atrativo, o público vai ajudar
na hora do vamos ver, naquele finalzinho que a gente
tem que tirar. Vai ser interessante.
GE.Net 0 Você não começou nadando maratona.
Você veio da piscina, mas como foi sua trajetória?
Poliana - Comecei a nadar com dois anos e a
competir com sete. Ganhei meu primeiro Troféu Brasil
com 14 anos, nos 800m. E daí para frente sempre peguei
boas colocações, primeiros, segundos.
GE.Net - E quando descobriu a paixão por provas
longas?
Poliana - Desde pequena. Quando era mirim e
não tinha prova mais longa que 100m, nunca ganhava nada,
sempre ficava lá em último (risos). Mas meu técnico
falava “calma, quando você for mais velha você vai nadar
bem”. Aí quando cheguei nessa fase bati recorde paulista,
começaram a falar que eu seria promessa. Fui a primeira
mulher a baixar dos nove segundos nos 800m depois da
Patrícia Amorim. E foi legal o começo. Aí entrou a prova
dos 1.500m nas piscinas, mas tem quatro anos seguidos
que ganho o Troféu Brasil ou o Finkel.
GE.Net - Então você não pensa em largar as
piscinas e ficar só com a maratona?
Poliana - Não, porque nas piscinas tenho resultados
satisfatórios. Meu tempo dos 1.500m ainda é o melhor
do Brasil do ano. Nos 800m estou pré-convocada para
o Pan, com o segundo tempo. Está dando certo mesclar
os dois esportes. Não tenho porque deixar um de lado.
Enquanto estiver dando certo vou levando.
GE.Net - E é sua vontade para o Pan, disputar
as duas, caso venha a acontecer?
Poliana - Vai ser o maior prazer.
GE.Net - Com 23 anos, você consegue viver
bem como “nadadora”?
Poliana - A profissão de nadadora é meio difícil
de levar. Falta de patrocínio, poucas empresas investindo,
muito por ser um esporte individual. Tenho sorte por
ter o Pinheiros, que me apóia nas maratonas também.
Mas o gasto no circuito brasileiro é muito alto, porque
sempre levo meu técnico e cada etapa é em um lugar do
Brasil.
GE.Net - Como você mescla com os estudos na
faculdade (Letras)? Nas horas livres, você estuda ou
você treina?
Poliana - Nas horas vagas, estudo (risos).
Porque minha rotina é 100% natação. Nos finais de semana,
feriados, eu aproveito para ler um livro, estudar. Porque
é difícil, treino de manhã, à tarde, musculação e estudo
à noite.
GE.Net - A CBDA recentemente cortou ajuda
de custo com nadadores que treinam fora. Como você vê
isso? Treinar fora faz mesmo tanta diferença?
Poliana - Todo mundo pensa em treinar nos EUA,
porque lá a natação é muito forte. Mas nada que também
não tenha aqui no Brasil. Existem profissionais excelentes
aqui, cada um que tem que se adaptar ao ritmo. O Kaio
Márcio é um bom exemplo, por treinar na Paraíba. Mas
teve o Gustavo Borges, que foi para os EUA e deu ótimos
resultados. Muita gente que vai para os EUA e piora
os treinos, às vezes engorda, por causa da comida, ou
relaxa, pensa em farra. Acho que foi o que pesou para
o corte. Mas não sei, teria que ver caso a caso. Teria
que ter um critério para resolver esse problema.
GE.Net - Pelo que você viu do Troféu Brasil,
o que o Brasil pode esperar da natação?
Poliana - Pode esperar bastante. Essa turma
que está vindo está bem. Foram sete recordes sul-americanos.
Temos ainda duas seletivas, então tem pessoal que pode
render mais. Teve tempos absurdos, por exemplo do (César)
Cielo, que bateu o recorde do Gustavo Borges e poderia
até ter ganhado o Pan-pacífico com este tempo. Nos 200m
livre o Rodrigo Castro, acho que o revezamento vai bem
forte. Entre as meninas, a Flávia (Delaroli), a Rebeca
(Gusmão), sempre dando resultados legais. A Fabíola
Molina, com 31 anos de idade, bateu recorde sul-americano.
Nos 100m borboleta, a Gabriela Silva, baixando cada
vez mais, a Joanna Maranhão voltando.
GE.Net - E a Poliana?
Poliana - A Poliana está brigando (risos).
Nos 800m não pude nadar infelizmente, porque estava
numa fase ótima para nadar em piscina. Ainda mais com
os resultados da maratona, me deu mais vontade. Mas
vou participar do Open no final do ano. Quero tentar
defender o Brasil no Pan-americano. |