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18/08/2006

Montagem sobre foto Satiro Sodre/Divulgação CBDA
Por Elói Silveira

Considerada por especialistas como um prodígio da natação brasileira anos atrás, a paulista Poliana Okimoto provou no último mês de agosto que pode render frutos ao país nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Mas ao contrário do que muitos esperavam, a nadadora deve entrar como uma das maiores favoritas na Maratona Aquática, prova que abre a competição, em 14 de julho, e tem sua primeira participação em competição deste nível.

Tudo isso graças ao excelente resultado obtido por ela no último mês de agosto. No Mundial da categoria, disputado em Nápoles, na Itália, ela entrou desacreditada, mas saiu com duas medalhas de prata, nos 5km e nos 10km, perdendo apenas para a russa Larisa Ilchenko e ficando bem à frente das principais adversárias em nível pan-americano. Na distância mais longo, o feito é ainda mais heróico levando-se em conta que ela nadou com o tímpano rompido por uma cotovelada na largada.

Animada com a ascensão, Okimoto falou à GE.Net sobre seus planos futuros, admitiu ter aumentado seus objetivos para as próximas competições e garantiu que ainda não pensa em largar as piscinas. Pelo contrário, como ainda tem conseguido “resultados satisfatórios nos 800m”, prova em que sustenta o segundo melhor tempo do país no ano, quer mesclar as duas modalidades e concretizar um sonho: estar presente nos dois esportes no Pan de 2007.
Foto: Satiro Sodre/Divulgação CBDA

Gazeta Esportiva.Net - Como foi a disputa do Mundial de Maratonas Aquáticas e as conquistas das medalhas nos 5km e 10km? Você foi para a Itália pensando em algo tão bom?
Poliana Okimoto -
Não, foi uma grande surpresa. Ninguém esperava o resultado, nem eu, nem meu técnico, minha família, nem os dirigentes que estavam lá. As (nadadoras) européias também estranharam ao ver uma sul-americana no pódio, principalmente na prova dos 5km. Foi minha primeira participação internacional em maratonas e cheguei sem saber o que esperar e fazer. Meu objetivo era melhorar a marca do Brasil, que tinha sido o 15º lugar. Era para entrar entre as dez, pensando nas Olimpíadas, em ver quem eram as melhores. Mas quando ganhei as medalhas fiquei emocionada.

GE.Net - A inexperiência, inclusive, foi um problema na largada dos 10km. Como foi o momento em que levou a cotovelada e o que você sentiu na hora?
Poliana -
A hora da largada é a mais crítica. Muita gente, todo mundo querendo ocupar o mesmo espaço. E pela minha falta de experiência na prova, aconteceu a pancada. Não soube me proteger. Senti muita dor na hora, fiquei meio tonta, mas não pensei em desistir. Era a largada, estava meio fria, mas a partir do momento que aqueci, parei de pensar na dor e fui melhorando.

GE.Net - Em que momento você sentiu que daria para ultrapassar as adversárias e em que ponto a dor parou de interferir?
Poliana -
Na largada fiquei mesmo para trás. Mas depois fui para o pelotão da frente, com umas 15 outras, todas juntas. É difícil administrar a dor, ainda mais vendo 15 nadadoras bem colocadas na luta pelo pódio. Mas me concentrei e comecei a nadar mais forte, sempre puxando entre as primeiras. Fiquei com a russa que ganhou (Ilchenko), disputando a liderança e deu certo.

GE.Net - O que você pode dizer das outras adversárias? Acha que já tem condições de brigar por um ouro olímpico, por exemplo?
Poliana -
Os meus objetivos depois do campeonato se tornaram maiores. Estou pensando no Pan, lógico, objetivo mais recente, e para Olimpíadas ainda preciso ir com calma e pegar a vaga. Nela, tem que estar entre as 25 melhores do ranking internacional. Não é igual ao Pan, que vão as duas melhores do país. É uma briga pela vaga diretamente com as americanas, as russas, as canadenses. Então isso torna a participação muito mais difícil.

GE.Net - Depois deste desempenho, você considera o Pan-americano uma barbada? Quem seriam suas principais rivais em nível pan-americano?
Poliana -
Ainda estou engatinhando no esporte. Esta foi a primeira participação, depois vai ter o Mundial de Melbourne e vou ter duas participações internacionais antes do Pan. Acredito que os EUA sempre têm nadadoras fortes, o Canadá também. Não conheço em maratona ainda, mas em piscina eles sempre vêm bem. Não sei se Cuba pode trazer alguém bom. Mas meu objetivo, meus treinamentos estão voltados ao Pan e quem sabe conseguir uma medalha para o Brasil.

GE.Net - Como será sua preparação para o Pan? Aliás, qual é sua rotina normal de treinos para a Maratona Aquática?
Poliana -
São treinamentos exaustivos, treino duas vezes por dia, musculação três vezes por semana. Treinos em torno de 14 quilômetros por dia, agora mais na parte aeróbica, para ganhar resistência, também faço específico para travessias. Mas também não deixo o ritmo da piscina cair, porque ajuda nas maratonas.

GE.Net - Você já conhece a raia da Praia de Copacabana. Sabe o que esperar dela?
Poliana -
O Brasil, por ser sede do Pan, tem uma vantagem a mais, que é conhecer o local, a temperatura da água, o percurso. Vai ter agora em outubro uma seletiva para o Pan lá. Em janeiro tem outra e em maio outra, que é a que vale de verdade, as outras são classificatórias para as seletivas. Todas são em Copacabana. É uma vantagem nossa, nadar no mesmo lugar do Pan. Esse tipo de treino faz parte do planejamento e é interessante, porque nos dá vantagem em relação às outras, que chegam em cma da hora e vão ter que se virar.

GE.Net - Em termos de condições do mar, temperatura da água, o quanto isso modifica na prova? Treinar em piscina não acaba sendo prejudicial?
Poliana -
Muda muito. Mas eu faço treinamento em piscina e participo do Circuito Brasileiro de Maratonas, que tem 14 etapas por ano. Por isso, estou sempre competindo, sempre exposta às dificuldades da natureza, de correnteza, chuva, muito sol, água fria ou quente demais. Tenho que participar dessas provas para me acostumar a tudo, distância, mudanças climáticas, ao mar, que é diferente demais de nadar em um lago. O circuito está sendo importante para a preparação.

GE.Net - O que representa o Pan para você e também para a modalidade, que vai ter sua primeira chance em uma competição global?
Poliana -
O Pan será importante para os atletas brasileiros. Pensando também em patrocínio, será bem visado por patrocinadores que já apóiam, para outros que pensam em apoiar. Tem também a imprensa, que vai mostrar tudo, e como a maratona abre o Pan, vai ter uma visibilidade ainda maior. Todo mundo estará com a expectativa grande, pra ver como o Brasil está, se bem ou mal, quantas medalhas podemos ganhar. E por ser na praia, lugar mais atrativo, o público vai ajudar na hora do vamos ver, naquele finalzinho que a gente tem que tirar. Vai ser interessante.

GE.Net 0 Você não começou nadando maratona. Você veio da piscina, mas como foi sua trajetória?
Poliana -
Comecei a nadar com dois anos e a competir com sete. Ganhei meu primeiro Troféu Brasil com 14 anos, nos 800m. E daí para frente sempre peguei boas colocações, primeiros, segundos.

GE.Net - E quando descobriu a paixão por provas longas?
Poliana -
Desde pequena. Quando era mirim e não tinha prova mais longa que 100m, nunca ganhava nada, sempre ficava lá em último (risos). Mas meu técnico falava “calma, quando você for mais velha você vai nadar bem”. Aí quando cheguei nessa fase bati recorde paulista, começaram a falar que eu seria promessa. Fui a primeira mulher a baixar dos nove segundos nos 800m depois da Patrícia Amorim. E foi legal o começo. Aí entrou a prova dos 1.500m nas piscinas, mas tem quatro anos seguidos que ganho o Troféu Brasil ou o Finkel.

GE.Net - Então você não pensa em largar as piscinas e ficar só com a maratona?
Poliana -
Não, porque nas piscinas tenho resultados satisfatórios. Meu tempo dos 1.500m ainda é o melhor do Brasil do ano. Nos 800m estou pré-convocada para o Pan, com o segundo tempo. Está dando certo mesclar os dois esportes. Não tenho porque deixar um de lado. Enquanto estiver dando certo vou levando.

GE.Net - E é sua vontade para o Pan, disputar as duas, caso venha a acontecer?
Poliana -
Vai ser o maior prazer.

GE.Net - Com 23 anos, você consegue viver bem como “nadadora”?
Poliana -
A profissão de nadadora é meio difícil de levar. Falta de patrocínio, poucas empresas investindo, muito por ser um esporte individual. Tenho sorte por ter o Pinheiros, que me apóia nas maratonas também. Mas o gasto no circuito brasileiro é muito alto, porque sempre levo meu técnico e cada etapa é em um lugar do Brasil.

GE.Net - Como você mescla com os estudos na faculdade (Letras)? Nas horas livres, você estuda ou você treina?
Poliana -
Nas horas vagas, estudo (risos). Porque minha rotina é 100% natação. Nos finais de semana, feriados, eu aproveito para ler um livro, estudar. Porque é difícil, treino de manhã, à tarde, musculação e estudo à noite.

GE.Net - A CBDA recentemente cortou ajuda de custo com nadadores que treinam fora. Como você vê isso? Treinar fora faz mesmo tanta diferença?
Poliana -
Todo mundo pensa em treinar nos EUA, porque lá a natação é muito forte. Mas nada que também não tenha aqui no Brasil. Existem profissionais excelentes aqui, cada um que tem que se adaptar ao ritmo. O Kaio Márcio é um bom exemplo, por treinar na Paraíba. Mas teve o Gustavo Borges, que foi para os EUA e deu ótimos resultados. Muita gente que vai para os EUA e piora os treinos, às vezes engorda, por causa da comida, ou relaxa, pensa em farra. Acho que foi o que pesou para o corte. Mas não sei, teria que ver caso a caso. Teria que ter um critério para resolver esse problema.

GE.Net - Pelo que você viu do Troféu Brasil, o que o Brasil pode esperar da natação?
Poliana -
Pode esperar bastante. Essa turma que está vindo está bem. Foram sete recordes sul-americanos. Temos ainda duas seletivas, então tem pessoal que pode render mais. Teve tempos absurdos, por exemplo do (César) Cielo, que bateu o recorde do Gustavo Borges e poderia até ter ganhado o Pan-pacífico com este tempo. Nos 200m livre o Rodrigo Castro, acho que o revezamento vai bem forte. Entre as meninas, a Flávia (Delaroli), a Rebeca (Gusmão), sempre dando resultados legais. A Fabíola Molina, com 31 anos de idade, bateu recorde sul-americano. Nos 100m borboleta, a Gabriela Silva, baixando cada vez mais, a Joanna Maranhão voltando.

GE.Net - E a Poliana?
Poliana -
A Poliana está brigando (risos). Nos 800m não pude nadar infelizmente, porque estava numa fase ótima para nadar em piscina. Ainda mais com os resultados da maratona, me deu mais vontade. Mas vou participar do Open no final do ano. Quero tentar defender o Brasil no Pan-americano.

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