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26/09/2006


Ficha Técnica
Nome: Aline Silva
Data e local de nascimento: 18/10/1986, em São Paulo (SP)
Tempo de carreira
: 4 anos
Principais conquistas: Medalha de ouro no Pan-americano Júnior (2006) e prata no Mundial Júnior (2006), ambos na categoria até 73 quilos
Técnico: Renato Romã (há 2 anos)
Sonho: Medalha olímpica
Ídolo na luta olímpica: Escola russa

Fábio Mello, especial para GE.Net

“Vou trazer uma medalha do Pan”. Essa frase pode soar pretensiosa vinda de uma atleta em início de carreira que sequer garantiu uma vaga nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, mas Aline Silva tem motivos para extravasar confiança. Medalha de prata no Mundial Júnior de luta olímpica no início de setembro, a paulista de 19 anos obteve o melhor resultado brasileiro da história do esporte e não coloca limites em seu futuro.

Para continuar sua trajetória meteórica, Aline não pensa em ficar de fora do Pan, mesmo tendo cinco seletivas pela frente e uma adversária mais experiente para barrar em sua categoria (até 72 quilos): Rosângela Conceição, que até de Olimpíadas já participou. “Tem outras atletas no páreo, mas as mais fortes somos nós duas. Ela é mais experiente, mas as últimas lutas foram equilibradas”, justifica.

Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, Aline conta um pouco mais sobre sua conquista histórica, seu início no judô, o panorama da luta olímpica no Brasil e a apreensão pelo último ano como júnior. Porém, mesmo prevendo “dores” em sua passagem para as competições adultas, ela não perde o otimismo e almeja participar das Olimpíadas de 2008, em Pequim.

Gazeta Esportiva.Net: Você esperava um resultado expressivo em tão pouco tempo de carreira?
Aline Silva: Não, não esperava. Ninguém esperava. No Pan-americano júnior eu fui campeã e tentava incentivar a galera: “vamos continuar nos concentrando, ainda tem o Mundial que é o mais importante”. E eles: Não. O mais importante era o Pan. No Mundial ninguém vai trazer nada, nosso dever é apenas trazer no Pan”. Eu falava isso para não perder o foco, porque não acreditava que ia conseguir uma medalha.

GE.Net: Quais as principais diferenças que você encontra em lutas internacionais em comparação às nacionais?
Aline: É bem diferente. Percebi logo na pesagem. A minha malha estava errada e brigaram comigo, mandaram trocar. Todas tinham uma carteirinha da Fila (confederação internacional do esporte) e eu um papelzinho velho. Além disso, todas já tinham se encontrado em outras competições internacionais. A minha luta foi com a ucraniana (Olga Dmukhovska) e a técnica da norte-americana me deu dicas sobre ela, porque elas tinham se enfrentado em outras várias competições. E eu não tinha a visto mais gorda (risos).

GE.Net: Esse “desconhecimento” pode ter favorecido você?
Aline: Acho que pode ter favorecido um pouco porque não entrei tão nervosa. Como já tinha participado de outro Mundial em Nova York, entrei calma para lutar. E as meninas vieram assim: “é brasileira, vamos atacar”. Eu percebi isso porque todas as lutas elas me atacavam muito. Aí ficava calma e consegui vencer nos erros delas. Não tive que fazer muito esforço. Foi muito difícil, mas consegui ficar calma.

GE.Net: Há muita diferença em lutar contra atletas de sua categoria (júnior) e com uma profissional?
Aline: Em questão internacional é. No Brasil, infelizmente não está tão grande a diferença. Quer dizer, infelizmente e felizmente. Porque este é meu último ano como júnior e para me adaptar aqui, sei que será rápido e fácil, assim espero. Estou treinando para isso. Em nível internacional, sei que vai ser um pouco mais doloroso. Mas não vou parar tão rápido, então tenho tempo para isso. O legal é que já vou com uma certa experiência do júnior.

GE.Net: Você acha que a sua medalha de prata trará benefícios para um esporte que ainda está engatinhando no Brasil?
Aline: Pode sim. Espero que venha porque esperamos reconhecimento com tanto trabalho, sofrimento e dedicação. Todas as medalhas que vieram são suadas e sofridas. Todo mundo comemora. Seria legal o Brasil torcendo por isso e reconhecendo nosso trabalho, assim como o de todos os esportes esquecidos.

GE.Net: Como você entrou em contato com esse esporte esquecido e começou a praticá-lo?
Aline: Eu vim do judô e o meu professor começou a conhecer a luta olímpica. Estava desanimada e quase parando no judô. E ele começou a falar: “vai para a luta olímpica, eu tô vendo, você tem jeito”. E eu não queria, não queria, não queria. Mas acabei me encantando e larguei o judô.

GE.Net: Você pratica judô ainda?
Aline: Esse ano voltei a praticar judô e jiu-jitsu, porque tenho curiosidade, quero aprender. Mas meu foco é a luta olímpica.

GE.Net: Quais benefícios você tira destes esportes para a luta olímpica?
Aline: Ajuda muito. A minha base melhora. Tanto que no primeiro Campeonato Brasileiro que participei, fui campeã lutando praticamente judô sem quimono. Hoje a minha forma de lutar mudou muito, não tenho mais o estilo de judô, e sim de luta olímpica. Mas a base continua sendo do judô. Na luta olímpica vale quedas e a gente vem do judô já acostumada a travar quedas, sabendo cair (...). Tem muitos golpes do judô que dá para encaixar na luta olímpica, defender golpes de quadril. Isso influi bastante no meu estilo.

GE.Net: Por que você optou por competir na luta olímpica?
Aline: Já tinha competido no judô, tanto que disputei um brasileiro pré-juvenil. Mas a luta olímpica me dava muito mais oportunidades. O judô é um esporte de elite no Brasil e tudo é mais caro. Você tem que ter suporte de custos. Na época eu não tinha. A luta olímpica não exigia tanto assim. Exigia pagar uma inscrição, uma anuidade baixa (...). Do contrário, depois que fui campeã brasileira, eles me pagavam até viagem para o exterior. Eu não tinha porque me preocupar com a parte financeira e isso serviu como incentivo.

GE.Net: Qual é o seu método de treinamento?
Aline: Treino todos os dias. Pela manhã, a parte física. À tarde, a parte técnica. E quando não estou muito focada numa competição, eu treino judô e jiu-jitsu. Mas perto de competições, eu fico só na luta olímpica porque as regras são diferentes e eu prefiro parar de treinar todo o resto.

GE.Net: Qual a sua prioridade para os próximos anos?
Aline: O meu foco era o Mundial desde o ano passado. Agora só vou ficar focada nos Jogos Pan-americanos.

GE.Net: Para chegar ao Pan, você terá de enfrentar a Rosângela Conceição, uma atleta mais experiente. Qual a perspectiva para esse confronto?
Aline: Já lutamos muito e isso faz até nossa luta ficar um pouco travada. Nós duas nos conhecemos bem, já fizemos ótimas lutas e vamos continuar fazendo porque serão cinco seletivas e entre essas terá muita competição. Por eu já conhecer ela, por estar mais experiente, estou chegando lá. Espero melhoras tanto para mim como para ela, porque a sua evolução me ajuda também. É bom ter adversárias fortes aqui para não ser tão doloroso lutar contra atletas de fora. Quando lutamos bem aqui, não estranhamos tanto.

GE.Net: Qual é o seu retrospecto contra ela?
Aline: Se for contar tudo, ela ainda está na frente. Mas se contar as últimas, me saí melhor. Na seletiva para o Pan-americano de Luta Olímpica fizemos melhor de três e ela ganhou só na terceira luta. Eu consegui subir muito de nível, talvez porque estava perto do Mundial e estava no meu pico. Com certeza a gente dá uma caída de novo, mas até lá espero vencer.

GE.Net: Você acha que um Pan-americano pode servir de ponto de virada em sua carreira?
Aline: Eu penso que vou ganhar a seletiva e vou estar no Pan. São cinco seletivas e vou ganhar dela. Daí será outra batalha, que é trazer a medalha do Pan. Aí é guerra, mas vou trazer essa medalha.

GE.Net: Se classificar, como você avalia suas chances no Pan?
Aline: Aqui no Brasil o legal é que cada atleta vai poder contar com quem sabe que vai te ajudar. No Mundial, por exemplo, eu senti falta do treinador (Renato Romã), porque ele conhece como treino, como me concentro. Fora isso é o nosso clima, não sofreremos com adaptação, comida. Tudo isso são coisas que têm muito valor. Nossa performance vai ser muito melhor.

GE.Net: E quais seriam suas principais adversárias?
Aline: Na minha categoria, Canadá e Estados Unidos. A atual campeã é norte-americana. Ela que tem que ser batida. A canadense também é forte. Já lutei contra ela, se continuar a mesma, ela está bem no ranking, mas dá para ser batida. Dá para brigar por medalha.

GE.Net: Você pensa nas Olimpíadas de 2008?
Aline: É muito cedo para pensar. É melhor pensar em uma coisa por vez. É que nem numa competição. A gente não vai pensar na final se tem um monte de cabeça para passar. Tenho que concentrar um passo de cada vez.

GE.Net: Uma perspectiva mais realista seria pensar em 2012?
Aline: Realista, sim. Mas eu acredito que dá para participar em 2008. Como as competições para definir os países das Olimpíadas serão logo depois do Pan, vou estar num bom ritmo, com boas perspectivas. Será uma boa hora para tentar a vaga.

GE.Net: Está difícil patrocínios?
Aline: Está saindo do engatinhando. Já evoluiu muito e esta aí o resultado. A confederação corre que nem louca por patrocínio para mandar nessas viagens. A Federação Paulista também dá um apoio. Se elas conseguem essa ajuda, mesmo com muito suor, é porque alguns santos reconhecem o esforço. Mas falta muito ainda.

GE.Net: O que falta para o Brasil chegar perto das potências do esporte?
Aline: A nossa seleção é muito forte, mas falta competir fora. Porque todo mundo fica nervoso, sem saber o que esperar quando participa de campeonatos lá fora.

GE.Net: E como você encara a ausência do Brasil no próximo Mundial adulto por falta de recursos?
Aline: É triste. Nunca o Brasil teve uma equipe inteira em Mundiais. É obvio que quanto mais gente for, podemos trazer não só uma de vice, mas outra de ouro e outra de bronze. Os atletas que viajariam agora, se não trouxessem medalhas, trariam ao menos experiência para em outros Mundiais conseguirmos medalhas. Falta acreditar nisso.

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