
Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net
Campeã mundial no solo em 2003, Daiane dos Santos
terá no Pan-americano de 2007 a grande – e talvez, última
– chance de se consagrar diante de sua torcida. Em entrevista
exclusiva para a Gazeta Esportiva.Net, a ginasta admite
que, apesar de ainda não estar totalmente concentrada
na competição carioca, já imagina a hora em que irá
pisar no tablado diante de toda a torcida brasileira,
que contará, claro, com seus familiares e amigos. “É
um pouco difícil para o coração agüentar”, afirma a
simpática gaúcha, que pretende se aposentar depois de
2008, ano dos Jogos Olímpicos de Pequim.
Com um Mundial e uma final de Copa do Mundo programado
para este ano, Daiane, assim como toda a equipe de ginástica
brasileira, ainda não possui um plano de treinamento
para o Pan, mas enxerga uma equipe bem mais madura em
relação àquela que disputou as Olimpíadas de Atenas.
Em tom de desabafo, aliás, ela fala sobre a disputa
grega, onde o foco ficou mais voltado ao fato de ela
não ter levado uma medalha no solo que ao resultado
inédito conquistado pelas brasileiras. “Houve várias
quebras de recordes lá”, afirma a atleta, de 23 anos.
“Essa coisa de trazer medalha, de ser favorito ou não,
é complicado para as pessoas”, complementa.
Por outro lado, Daiane mostra que aprendeu muito com
a decepção olímpica e evita fazer qualquer prognóstico
concreto para as próximas disputas. “A ginástica é uma
loteria: às vezes se treina muito e as coisas não dão
tão certo quanto você pensou que iria dar”, justifica,
antes de fazer sua única promessa: dedicação total em
busca de um pódio no Rio de Janeiro. Confira:
Gazeta Esportiva.Net: Como está o clima na
equipe feminina de ginástica para o Pan?
Daiane dos Santos: Não estamos pensando muito
nisso ainda. Temos duas competições superimportantes
este ano (Mundial e final da Copa do Mundo), inclusive
uma que vai ser aqui na nossa casa. É um marco para
nós a superfinal da Copa ser aqui no Brasil (a disputa
será nos dias 16 e 17 de dezembro em São Paulo). O Pan
também será, mas só vamos pensar nisso a partir de janeiro,
quando voltarmos a treinar. Aí sim, é Pan-americano
na cabeça até o começo da competição.
GE.Net: Vai haver algum tipo de treinamento
especial?
Daiane: Não sei. Isso quem sabe é a comissão
técnica, pois todo o planejamento é feito no final do
ano. Então, ainda não sabemos onde vamos treinar.
GE.Net: Até pelos resultados nos últimos anos,
o Brasil é favorito na ginástica do Pan?
Daiane: Todo mundo é favorito em um Pan, assim
como em qualquer competição. Vamos dar o máximo para
o Brasil ser campeão ou pelo menos subir no pódio. Mas
nós temos que esperar as coisas acontecerem. A ginástica
é uma loteria: às vezes se treina muito e as coisas
não dão tão certo quanto você pensou que iria dar.
GE.Net: O fato de o Pan ser no Rio vai influenciar
vocês de alguma forma?
Daiane: No coração influência bastante. Quando
se está no Brasil, você tem a torcida ali do seu lado
e sente toda a harmonia do país, que é um lugar caloroso
e abraça todo mundo. Os pais, tios, avôs também estarão
lá... é um pouco difícil para o coração da gente agüentar.
Uma coisa é competir fora de seu país e outra competir
dentro, com todos do lado.
GE.Net: Por isso mesmo pode haver uma pressão
maior?
Daiane: Acho que tem pressão de todo lado.
Só que isso vamos ter que acabar aprendendo a lidar.
Toda competição é uma pressão que se sofre, nem que
seja de você mesma dizendo: “Eu quero dar o máximo de
mim”. Mas se aprende a controlar.
GE.Net: Ficou alguma lição de Atenas com relação
a isso?
Daiane: É que essa coisa de trazer medalha,
de ser favorito ou não, é complicado para as pessoas.
Para a gente foi um grande resultado: nós nunca tínhamos
levado uma equipe para Olimpíadas e ficamos em nono.
Fizemos final individual, o que também nunca tinha acontecido.
Eu, por exemplo, fiquei em quinto lugar. Houve várias
quebras de recordes lá. A gente espera que em Pequim
seja ainda melhor e que o Brasil possa trazer medalha
ou pelo menos melhores resultados. Queremos ter uma
nova formação de atletas muito boa.
GE.Net: O Pan 2007 vai ser uma etapa de preparação
para Pequim?
Daiane: Cada competição tem o seu valor próprio.
O Pan e a Olimpíadas são dois torneios diferentes, mas
muito importantes.
GE.Net: O que a ginástica feminina brasileira
evoluiu desde as Olimpíadas até agora?
Daiane: A maturidade das meninas aumentou bastante.
Atenas era uma competição inédita para a maioria da
equipe. Como eu era reserva em Sidney para mim foi uma
coisa totalmente diferente. Não adianta você ter já
competido mil vezes: quando se chega em uma Olimpíada,
o clima é diferente.
GE.Net: No Pan você vai focar seu trabalho
inteiramente no solo?
Daiane: Não. Eu faço todos os aparelhos, exceto
a trave.
GE.Net: Como você vê o fato de você e a Daniele
terem sido praticamente as precursoras da modalidade
no Brasil?
Daiane: Eu não acho isso. Antes houve a Luiza
Parente, a Soraya Carvalho... Depois apareceram a Dani
e a Camila, que foram para Sidney, e só aí teve a equipe
que competiu Atenas. Foi uma escadinha: subimos degrau
por degrau. Várias pessoas ajudaram o Brasil a chegar
onde estamos hoje. E eu espero que essa nova geração
dê continuidade a tudo porque nós trabalhamos lá trás
e continuamos focadas nisso.
GE.Net: Então você não acredita em um efeito
“Daiane” na ginástica?
Daiane: Essa coisa das crianças se espelharem
em mim e quererem praticar ginástica é até legal. Às
vezes é preciso mesmo que alguém se destaque, mas eu
acho que isso não ocorreu somente comigo, mas sim com
o grupo inteiro. Fizemos com que a ginástica fosse conhecida
no Brasil. Houve ajuda da mídia, que faz a conexão do
povo com a gente, então não é o efeito “Daiane”, mas
sim o efeito “ginástica”. As pessoas querem assistir,
querem nos ver.
GE.Net: Como é competir em um esporte que
exige tanto do físico?
Daiane: Não é só a ginástica: em todo esporte
de alto rendimento há o risco de lesão porque você trabalha
com o desgaste corporal e até psicológico. Então, tem
que aprender a superar este tipo de coisa uma vez que
não se pode chegar na competição e não fazer nada. A
não ser que seja um caso de urgência. Senão você agüenta
a dor e vai competir.
|