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04/10/2006

Montagem sobre foto de Wander Roberto/Gazeta Press
Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Campeã mundial no solo em 2003, Daiane dos Santos terá no Pan-americano de 2007 a grande – e talvez, última – chance de se consagrar diante de sua torcida. Em entrevista exclusiva para a Gazeta Esportiva.Net, a ginasta admite que, apesar de ainda não estar totalmente concentrada na competição carioca, já imagina a hora em que irá pisar no tablado diante de toda a torcida brasileira, que contará, claro, com seus familiares e amigos. “É um pouco difícil para o coração agüentar”, afirma a simpática gaúcha, que pretende se aposentar depois de 2008, ano dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Com um Mundial e uma final de Copa do Mundo programado para este ano, Daiane, assim como toda a equipe de ginástica brasileira, ainda não possui um plano de treinamento para o Pan, mas enxerga uma equipe bem mais madura em relação àquela que disputou as Olimpíadas de Atenas. Em tom de desabafo, aliás, ela fala sobre a disputa grega, onde o foco ficou mais voltado ao fato de ela não ter levado uma medalha no solo que ao resultado inédito conquistado pelas brasileiras. “Houve várias quebras de recordes lá”, afirma a atleta, de 23 anos. “Essa coisa de trazer medalha, de ser favorito ou não, é complicado para as pessoas”, complementa.

Por outro lado, Daiane mostra que aprendeu muito com a decepção olímpica e evita fazer qualquer prognóstico concreto para as próximas disputas. “A ginástica é uma loteria: às vezes se treina muito e as coisas não dão tão certo quanto você pensou que iria dar”, justifica, antes de fazer sua única promessa: dedicação total em busca de um pódio no Rio de Janeiro. Confira:

Gazeta Esportiva.Net: Como está o clima na equipe feminina de ginástica para o Pan?
Daiane dos Santos:
Não estamos pensando muito nisso ainda. Temos duas competições superimportantes este ano (Mundial e final da Copa do Mundo), inclusive uma que vai ser aqui na nossa casa. É um marco para nós a superfinal da Copa ser aqui no Brasil (a disputa será nos dias 16 e 17 de dezembro em São Paulo). O Pan também será, mas só vamos pensar nisso a partir de janeiro, quando voltarmos a treinar. Aí sim, é Pan-americano na cabeça até o começo da competição.

GE.Net: Vai haver algum tipo de treinamento especial?
Daiane:
Não sei. Isso quem sabe é a comissão técnica, pois todo o planejamento é feito no final do ano. Então, ainda não sabemos onde vamos treinar.

GE.Net: Até pelos resultados nos últimos anos, o Brasil é favorito na ginástica do Pan?
Daiane:
Todo mundo é favorito em um Pan, assim como em qualquer competição. Vamos dar o máximo para o Brasil ser campeão ou pelo menos subir no pódio. Mas nós temos que esperar as coisas acontecerem. A ginástica é uma loteria: às vezes se treina muito e as coisas não dão tão certo quanto você pensou que iria dar.

GE.Net: O fato de o Pan ser no Rio vai influenciar vocês de alguma forma?
Daiane:
No coração influência bastante. Quando se está no Brasil, você tem a torcida ali do seu lado e sente toda a harmonia do país, que é um lugar caloroso e abraça todo mundo. Os pais, tios, avôs também estarão lá... é um pouco difícil para o coração da gente agüentar. Uma coisa é competir fora de seu país e outra competir dentro, com todos do lado.

GE.Net: Por isso mesmo pode haver uma pressão maior?
Daiane:
Acho que tem pressão de todo lado. Só que isso vamos ter que acabar aprendendo a lidar. Toda competição é uma pressão que se sofre, nem que seja de você mesma dizendo: “Eu quero dar o máximo de mim”. Mas se aprende a controlar.

GE.Net: Ficou alguma lição de Atenas com relação a isso?
Daiane:
É que essa coisa de trazer medalha, de ser favorito ou não, é complicado para as pessoas. Para a gente foi um grande resultado: nós nunca tínhamos levado uma equipe para Olimpíadas e ficamos em nono. Fizemos final individual, o que também nunca tinha acontecido. Eu, por exemplo, fiquei em quinto lugar. Houve várias quebras de recordes lá. A gente espera que em Pequim seja ainda melhor e que o Brasil possa trazer medalha ou pelo menos melhores resultados. Queremos ter uma nova formação de atletas muito boa.

GE.Net: O Pan 2007 vai ser uma etapa de preparação para Pequim?
Daiane:
Cada competição tem o seu valor próprio. O Pan e a Olimpíadas são dois torneios diferentes, mas muito importantes.

GE.Net: O que a ginástica feminina brasileira evoluiu desde as Olimpíadas até agora?
Daiane:
A maturidade das meninas aumentou bastante. Atenas era uma competição inédita para a maioria da equipe. Como eu era reserva em Sidney para mim foi uma coisa totalmente diferente. Não adianta você ter já competido mil vezes: quando se chega em uma Olimpíada, o clima é diferente.

GE.Net: No Pan você vai focar seu trabalho inteiramente no solo?
Daiane:
Não. Eu faço todos os aparelhos, exceto a trave.

GE.Net: Como você vê o fato de você e a Daniele terem sido praticamente as precursoras da modalidade no Brasil?
Daiane:
Eu não acho isso. Antes houve a Luiza Parente, a Soraya Carvalho... Depois apareceram a Dani e a Camila, que foram para Sidney, e só aí teve a equipe que competiu Atenas. Foi uma escadinha: subimos degrau por degrau. Várias pessoas ajudaram o Brasil a chegar onde estamos hoje. E eu espero que essa nova geração dê continuidade a tudo porque nós trabalhamos lá trás e continuamos focadas nisso.

GE.Net: Então você não acredita em um efeito “Daiane” na ginástica?
Daiane:
Essa coisa das crianças se espelharem em mim e quererem praticar ginástica é até legal. Às vezes é preciso mesmo que alguém se destaque, mas eu acho que isso não ocorreu somente comigo, mas sim com o grupo inteiro. Fizemos com que a ginástica fosse conhecida no Brasil. Houve ajuda da mídia, que faz a conexão do povo com a gente, então não é o efeito “Daiane”, mas sim o efeito “ginástica”. As pessoas querem assistir, querem nos ver.

GE.Net: Como é competir em um esporte que exige tanto do físico?
Daiane:
Não é só a ginástica: em todo esporte de alto rendimento há o risco de lesão porque você trabalha com o desgaste corporal e até psicológico. Então, tem que aprender a superar este tipo de coisa uma vez que não se pode chegar na competição e não fazer nada. A não ser que seja um caso de urgência. Senão você agüenta a dor e vai competir.

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