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Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net
São Paulo (SP) - Primeiro brasileiro
a ganhar uma medalha em Mundiais de Ginástica, com um ouro
em 2005, Diego Hypólito agora se prepara para marcar mais
uma vez a história da modalidade. Repetindo Daiane dos Santos,
o atleta quer também um movimento com o seu nome. E o feito
pode ser alcançado já no próximo sábado, quando será disputada
a prova de solo da Final da Copa do Mundo de ginástica.
É quando Diego tentará executar pela primeira vez em uma
competição da Federação Internacional de Ginástica (FIG) o
salto “Hypólito”, um duplo twist carpado com uma pirueta no
eixo longitudinal durante o segundo mortal. “É um movimento
que não tem no código. Vamos entregar o pedido para arbitragem
nesta quinta. Durante a tarde vai haver uma reunião, onde,
acredito, será decidido o valor deste movimento. Esperamos
que ele valha seis décimos (o maior grau de dificuldade).
Daí, a nota partida seria de 16,700”, explica Renato Araújo,
técnico do atleta.
Na verdade, o movimento já foi executado durante o Campeonato
Brasileiro, em agosto, mas a FIG não considera este tipo de
evento. Segundo o treinador, o fato de a estréia em âmbito
internacional ser no Brasil é apenas uma coincidência. “Vínhamos
querendo executar há algum tempo, mas sempre ocorria algo.
Uma hora não estava bem treinado ou então o tablado não era
bom. Mas agora o Diego está no auge do treinamento e por coincidência
é a grande final”, despista o técnico.
E as expectativas são otimistas. Mesmo sem conhecer direito
o tablado montado no Ibirapuera e cansado da viagem ao Rio
de Janeiro, onde recebeu o prêmio Brasil Olímpico,
do COB, Diego executou o Hipólyto. “Foi um só, apenas para
sentir. Não foi maravilhoso, mas ficou legal pelas circunstâncias”,
avalia Araújo.
Depois do treino, o ginasta conversou com a Gazeta
Esportiva.Net. Além do sonho de inscrever
seu nome no livro de regras da modalidade com um salto próprio,
Diego também falou sobre suas possibilidades na Final
da Copa do Mundo e da frustração de 2005, quando
teve de abandonar a etapa paulista com uma lesão.
Gazeta Esportiva. Net: Qual a sua expectativa para a execução do salto Hypólito?
Diego: É um pouco complicado porque você
tem que falar para os árbitros que vai fazer o movimento,
executar e acertar. Mas quero tentar porque é um elemento
que todos já estão visando. Se eu não fizer, pode ser que
venha alguém, que tenha facilidade em dar um duplo twist carpado
com pirueta, consiga. O próprio Victor Rosa, do Flamengo,
tem facilidade para fazer isso. É um atleta muito bom de solo.
GE.Net: Como foi o primeiro treino deste movimento aqui no Ibirapuera, nesta quarta?
Diego: Gostei do tablado e me senti à vontade
no ginásio. Isso que importa: se acontecer de errar, é apenas
conseqüência. Eu treinei bastante para vir aqui. Antes, eu
falava que não sabia se ia fazer, porque não sabia das minhas
condições aqui. Se estaria bem, por exemplo. Ainda tenho um
pouquinho de medo, mas vou tentar porque é um elemento que
levaria meu nome para a história da ginástica.
GE.Net: Como você vê as chances do Brasil nesta final?
Diego: Chances nós temos muitas, mas competição
é aquela coisa: depende do dia que você acorda, contam muitos
pontinhos-chave. Tem que acordar com o pé direito, descansar
bastante no dia e mentalizar muito a competição. Por mais
que pareça ser um esporte de equipe, a ginástica é
bem individual. Meu treinador me tranqüiliza muito, mas não
posso ser substituído no aparelho. É você ou você.
GE.Net: Do Brasil, você apostaria em quem?
Diego: Minha expectativa maior é no solo
(exercício em que foi campeão mundial em 2005
e vice em 2006), mas também temos chances com as três meninas
no solo, com a Laís no salto e a Daniele na trave. Talvez
eu possa beliscar uma medalhinha no salto, onde vou arriscar
uma reversão dupla, movimento que nunca fiz em competição
e é muito difícil de ser executado. Pode ser que saia bom
ou ruim. O que vier no salto é lucro.
GE.Net: Como é competir em São Paulo ao lado da
torcida?
Diego: Eu me sinto bem, porque sei que pode
vir minha família e a torcida brasileira é calorosa. Muitos
atletas não gostam disso, mas depois que você está no aparelho
tem que tentar se concentrar ao máximo, independente se tem
gente te xingando, criticando, amando ou gritando. É difícil
saber que têm outras milhões de pessoas te assistindo
na TV, todas esperando que você ganhe uma medalha. Então tenho
que pensar que isso é positivo porque, se elas estão assim,
é um sinal de que acreditam em você.
GE.Net: Você está recuperado do problema no pé esquerdo?
Diego: Meu pé está começando a cooperar comigo
e melhorou bastante. Tratei muito para vir para cá e tenho
que agradecer muito ao médico e ao fisioterapeuta, que me
ajudaram e apoiaram bastante. É complicado um momento deste
para um atleta que depende do seu alto rendimento, mas estou
seguro e achei meu treino de hoje excelente: consegui fazer
o Hypólito com facilidade, além de dar dois mortais com duas
piruetas, coisa que eu não faço desde que operei o meu pé.
Talvez eu até use este movimento na competição. Tive esse
azar de romper três ligamentos do pé esquerdo, mas consegui
competir e agora ele está bem mais firme. Só que vou usar
uma botinha de esparadrapo na final porque não posso correr
riscos: se eu tiver um entorse, tenho que correr para o hospital
operar.
GE.Net: Em 2005, você competiu com uma lesão
e teve de abandonar a etapa. Isso ainda te incomoda? Tem receio
que possa acontecer de novo?
Diego: De forma alguma. É a minha casa. Frio
na barriga eu até sinto, mas é de felicidade. Não minto: fico
muito nervoso com uma competição, apesar de transparecer estar
bem. Mas tento me tranqüilizar ao máximo, porque não posso
deixar o nervosismo me puxar.
GE.Net: As suas escolhas mostram que você vai ousar nesta final. Acredita que esteja indo contra o que vem ocorrendo com outros ginastas, que por conta do novo código, não estão arriscando tanto para não perder muitos pontos na execução?
Diego: Há muito tempo eu treino muitos elementos.
Não faço aquela ginástica certinha só para determinado
torneio. Tenho uma certa dificuldade com alguns elementos,
mas tento fazer tudo com a maior leveza possível. Eu arrisco
mais, enquanto outros atletas apostam na postura. É o caso
do Kyle Shewfelt, atual campeão olímpico do solo. Hoje em
dia não dá para ser perfeito na ginástica, pois as dificuldades
são grandes e os árbitros estão mais rigorosos. Por um pouquinho
a mais, coisa que às vezes você nem vê, um fica melhor que
o outro.
GE.Net: Você se arrepende de não ter arriscado um pouco
mais no Mundial, fato que lhe tirou o bi?
Diego: Fiquei muito feliz por continuar sendo
um medalhista mundial. Ali eu consegui a prata: essa é a minha
colocação e o que vai ficar na história. Eu iria também ficar
satisfeito em oitavo, mas foi uma medalha importante: era
a segunda da história da ginástica masculina brasileira e
a quarta da nossa ginástica no geral. É dificílimo chegar
no topo, mas se manter é mais difícil ainda. E eu consegui
isso. Os erros dos meus movimentos não foram surpresa para
mim, tinha certeza onde eram.
GE.Net: Existe uma certa rivalidade com o Marian
Dragulescu (romeno, ouro do solo no Mundial de 2006)?
Diego: De forma alguma. Eu sou extremamente
profissional e o que tenho que fazer aqui é a minha parte,
o que treinei. Se acontecer de ficar em terceiro, oitavo,
segundo ou primeiro é independente de tudo. Estarei satisfeito
se eu repetir o que treinei.
GE.Net: No começo da sua carreira você se sentia pressionado por ter a Daniele como parâmetro?
Diego: Nunca liguei muito para essas coisas.
Pelo contrário, eu me sentia feliz por ter ela como irmã,
pois a Dani sempre cooperou e também ajuda no meu desenvolvimento.
Quando eu fui quinto do mundo, colocação muitas vezes não
reconhecida no Brasil, todos valorizaram justamente porque
eu era irmão dela. A Daniele me ajuda muito, é extremamente
irmã, meu diário, minha amiga acima de tudo. Eu a amo demais
e sempre a elogio, porque foi por ela que eu comecei.
GE.Net: Você continua com o projeto de disputar
as Olimpíadas em todos os aparelhos?
Diego: Para ir às Olimpíadas em todos os
aparelhos ou a equipe tem que se classificar ou eu tenho que
fazer os seis aparelhos no Mundial do ano que vem para tentar
me garantir individualmente. E eu estou treinando para fazer
tudo no Mundial. Sou o pior de barra (fixa) na seleção, por
isso geralmente só faço cinco aparelhos. Não será prioridade,
mas vou dar uma ênfase maior na barra porque eu preciso bastante
dela.
GE.Net: Este é o melhor momento da sua carreira?
Diego: Não tem melhor momento, só tenho que
treinar mais para chegar à perfeição. Melhor momento só se
eu fosse perfeito. |