Voltar para a home Terça, 02 de Dezembro de 2008 Home Fale conosco. Receba o boletim   Ir para a Gazeta Press
 
13/12/2006
Montagem sobre foto de Djalma Vassão/Gazeta Press

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

São Paulo (SP) - Primeiro brasileiro a ganhar uma medalha em Mundiais de Ginástica, com um ouro em 2005, Diego Hypólito agora se prepara para marcar mais uma vez a história da modalidade. Repetindo Daiane dos Santos, o atleta quer também um movimento com o seu nome. E o feito pode ser alcançado já no próximo sábado, quando será disputada a prova de solo da Final da Copa do Mundo de ginástica.

É quando Diego tentará executar pela primeira vez em uma competição da Federação Internacional de Ginástica (FIG) o salto “Hypólito”, um duplo twist carpado com uma pirueta no eixo longitudinal durante o segundo mortal. “É um movimento que não tem no código. Vamos entregar o pedido para arbitragem nesta quinta. Durante a tarde vai haver uma reunião, onde, acredito, será decidido o valor deste movimento. Esperamos que ele valha seis décimos (o maior grau de dificuldade). Daí, a nota partida seria de 16,700”, explica Renato Araújo, técnico do atleta.

Na verdade, o movimento já foi executado durante o Campeonato Brasileiro, em agosto, mas a FIG não considera este tipo de evento. Segundo o treinador, o fato de a estréia em âmbito internacional ser no Brasil é apenas uma coincidência. “Vínhamos querendo executar há algum tempo, mas sempre ocorria algo. Uma hora não estava bem treinado ou então o tablado não era bom. Mas agora o Diego está no auge do treinamento e por coincidência é a grande final”, despista o técnico.

E as expectativas são otimistas. Mesmo sem conhecer direito o tablado montado no Ibirapuera e cansado da viagem ao Rio de Janeiro, onde recebeu o prêmio Brasil Olímpico, do COB, Diego executou o Hipólyto. “Foi um só, apenas para sentir. Não foi maravilhoso, mas ficou legal pelas circunstâncias”, avalia Araújo.

Depois do treino, o ginasta conversou com a Gazeta Esportiva.Net. Além do sonho de inscrever seu nome no livro de regras da modalidade com um salto próprio, Diego também falou sobre suas possibilidades na Final da Copa do Mundo e da frustração de 2005, quando teve de abandonar a etapa paulista com uma lesão.

Gazeta Esportiva. Net: Qual a sua expectativa para a execução do salto Hypólito?
Diego: É um pouco complicado porque você tem que falar para os árbitros que vai fazer o movimento, executar e acertar. Mas quero tentar porque é um elemento que todos já estão visando. Se eu não fizer, pode ser que venha alguém, que tenha facilidade em dar um duplo twist carpado com pirueta, consiga. O próprio Victor Rosa, do Flamengo, tem facilidade para fazer isso. É um atleta muito bom de solo.

GE.Net: Como foi o primeiro treino deste movimento aqui no Ibirapuera, nesta quarta?
Diego: Gostei do tablado e me senti à vontade no ginásio. Isso que importa: se acontecer de errar, é apenas conseqüência. Eu treinei bastante para vir aqui. Antes, eu falava que não sabia se ia fazer, porque não sabia das minhas condições aqui. Se estaria bem, por exemplo. Ainda tenho um pouquinho de medo, mas vou tentar porque é um elemento que levaria meu nome para a história da ginástica.

GE.Net: Como você vê as chances do Brasil nesta final?
Diego: Chances nós temos muitas, mas competição é aquela coisa: depende do dia que você acorda, contam muitos pontinhos-chave. Tem que acordar com o pé direito, descansar bastante no dia e mentalizar muito a competição. Por mais que pareça ser um esporte de equipe, a ginástica é bem individual. Meu treinador me tranqüiliza muito, mas não posso ser substituído no aparelho. É você ou você.

GE.Net: Do Brasil, você apostaria em quem?
Diego: Minha expectativa maior é no solo (exercício em que foi campeão mundial em 2005 e vice em 2006), mas também temos chances com as três meninas no solo, com a Laís no salto e a Daniele na trave. Talvez eu possa beliscar uma medalhinha no salto, onde vou arriscar uma reversão dupla, movimento que nunca fiz em competição e é muito difícil de ser executado. Pode ser que saia bom ou ruim. O que vier no salto é lucro.

GE.Net: Como é competir em São Paulo ao lado da torcida?
Diego: Eu me sinto bem, porque sei que pode vir minha família e a torcida brasileira é calorosa. Muitos atletas não gostam disso, mas depois que você está no aparelho tem que tentar se concentrar ao máximo, independente se tem gente te xingando, criticando, amando ou gritando. É difícil saber que têm outras milhões de pessoas te assistindo na TV, todas esperando que você ganhe uma medalha. Então tenho que pensar que isso é positivo porque, se elas estão assim, é um sinal de que acreditam em você.

GE.Net: Você está recuperado do problema no pé esquerdo?
Diego: Meu pé está começando a cooperar comigo e melhorou bastante. Tratei muito para vir para cá e tenho que agradecer muito ao médico e ao fisioterapeuta, que me ajudaram e apoiaram bastante. É complicado um momento deste para um atleta que depende do seu alto rendimento, mas estou seguro e achei meu treino de hoje excelente: consegui fazer o Hypólito com facilidade, além de dar dois mortais com duas piruetas, coisa que eu não faço desde que operei o meu pé. Talvez eu até use este movimento na competição. Tive esse azar de romper três ligamentos do pé esquerdo, mas consegui competir e agora ele está bem mais firme. Só que vou usar uma botinha de esparadrapo na final porque não posso correr riscos: se eu tiver um entorse, tenho que correr para o hospital operar.

GE.Net: Em 2005, você competiu com uma lesão e teve de abandonar a etapa. Isso ainda te incomoda? Tem receio que possa acontecer de novo?
Diego: De forma alguma. É a minha casa. Frio na barriga eu até sinto, mas é de felicidade. Não minto: fico muito nervoso com uma competição, apesar de transparecer estar bem. Mas tento me tranqüilizar ao máximo, porque não posso deixar o nervosismo me puxar.

GE.Net: As suas escolhas mostram que você vai ousar nesta final. Acredita que esteja indo contra o que vem ocorrendo com outros ginastas, que por conta do novo código, não estão arriscando tanto para não perder muitos pontos na execução?
Diego: Há muito tempo eu treino muitos elementos. Não faço aquela ginástica certinha só para determinado torneio. Tenho uma certa dificuldade com alguns elementos, mas tento fazer tudo com a maior leveza possível. Eu arrisco mais, enquanto outros atletas apostam na postura. É o caso do Kyle Shewfelt, atual campeão olímpico do solo. Hoje em dia não dá para ser perfeito na ginástica, pois as dificuldades são grandes e os árbitros estão mais rigorosos. Por um pouquinho a mais, coisa que às vezes você nem vê, um fica melhor que o outro.

GE.Net: Você se arrepende de não ter arriscado um pouco mais no Mundial, fato que lhe tirou o bi?
Diego: Fiquei muito feliz por continuar sendo um medalhista mundial. Ali eu consegui a prata: essa é a minha colocação e o que vai ficar na história. Eu iria também ficar satisfeito em oitavo, mas foi uma medalha importante: era a segunda da história da ginástica masculina brasileira e a quarta da nossa ginástica no geral. É dificílimo chegar no topo, mas se manter é mais difícil ainda. E eu consegui isso. Os erros dos meus movimentos não foram surpresa para mim, tinha certeza onde eram.

GE.Net: Existe uma certa rivalidade com o Marian Dragulescu (romeno, ouro do solo no Mundial de 2006)?
Diego: De forma alguma. Eu sou extremamente profissional e o que tenho que fazer aqui é a minha parte, o que treinei. Se acontecer de ficar em terceiro, oitavo, segundo ou primeiro é independente de tudo. Estarei satisfeito se eu repetir o que treinei.

GE.Net: No começo da sua carreira você se sentia pressionado por ter a Daniele como parâmetro?
Diego: Nunca liguei muito para essas coisas. Pelo contrário, eu me sentia feliz por ter ela como irmã, pois a Dani sempre cooperou e também ajuda no meu desenvolvimento. Quando eu fui quinto do mundo, colocação muitas vezes não reconhecida no Brasil, todos valorizaram justamente porque eu era irmão dela. A Daniele me ajuda muito, é extremamente irmã, meu diário, minha amiga acima de tudo. Eu a amo demais e sempre a elogio, porque foi por ela que eu comecei.

GE.Net: Você continua com o projeto de disputar as Olimpíadas em todos os aparelhos?
Diego: Para ir às Olimpíadas em todos os aparelhos ou a equipe tem que se classificar ou eu tenho que fazer os seis aparelhos no Mundial do ano que vem para tentar me garantir individualmente. E eu estou treinando para fazer tudo no Mundial. Sou o pior de barra (fixa) na seleção, por isso geralmente só faço cinco aparelhos. Não será prioridade, mas vou dar uma ênfase maior na barra porque eu preciso bastante dela.

GE.Net: Este é o melhor momento da sua carreira?
Diego: Não tem melhor momento, só tenho que treinar mais para chegar à perfeição. Melhor momento só se eu fosse perfeito.

anuncie seu carro
Gazeta Esportiva.Net © Todos os direitos reservados à Gazeta Esportiva.Net