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09/01/2007

Montagem sobre foto de Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Por Marta Teixeira

Dono de duas medalhas olímpicas, dez títulos nacionais, cinco sul-americanos e acostumado à condição de timoneiro nas embarcações, o medalhista olímpico Lars Grael assume nesta quarta-feira a presidência da Federação Brasileira de Vela e Motor (a posse acontece às 10h30 no Iate Clube do Rio de Janeiro).

Candidato único para substituir Walcles Figueiredo de Alencar Osório, Lars terá como vice-presidente o também velejador Alan Adler (outro colecionador de títulos). Confirmado para o cargo no final de 2006, Lars aumenta a possibilidade de vir a se tornar presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) dentro de alguns anos.

Na nova tarefa em sua vitoriosa carreira, Lars tem suas metas bem definidas. “Não temos a ilusão que em dois anos se possa revolucionar a vela”, admite, mas projeta uma reforma estatutária para aumentar a participação dos iatistas na entidade e investimentos na base para divulgar a modalidade.

Faltando 185 dias para o início dos Jogos Pan-americanos no Rio, contudo, não basta pensar apenas na estrutura da vela para o país. Lars chega ao posto sob a nuvem do impasse jurídico que coloca em risco as reformas da sede prevista para a modalidade na competição. Sem esconder sua preocupação com o assunto. O velejador afirma que já estão em estudos ‘planos B e C’ para que a modalidade não seja prejudicada pelo imbróglio.

Nesta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, o novo dirigente fala sobre Pan, Olimpíadas, suas preocupações com o futuro da vela, o processo de renovação para suprir os espaços criados pela mudança de classe de Robert Scheidt e os planos oceânicos de Torben Grael e Marcelo Ferreira e sua própria expectativa de lutar por uma vaga na Star para as Olimpíadas de Pequim.

Conquistas da vela brasileira
Medalhas olímpicas do Brasil
Ouro
Prata
Bronze
Total
6
2
6
14
Medalhas em Mundiais
Ouro
Prata
Bronze
Total
65
10
6
81*
Medalhas em Pan-americanos**
Ouro
Prata
Bronze
Total
24
19
12
55
* O total inclui seis medalhas em mundiais juvenis. Destas conquistas apenas 2 bronzes, três ouros
** A vela é a quarta modalidade em número de medalhas pan-americanas conquistadas e a segunda em medalhas de ouro (perde apenas para o atletismo com 24).
Fonte: FVBM.
Gazeta Esportiva.Net – O sr. assume a Federação nesta quarta-feira. Quais são suas metas para sua gestão?
Lars Grael -
Nossa meta é a melhor preparação possível da equipe brasileira para os Jogos Pan-americanos e para os Jogos Olímpicos em 2008. Também queremos dar andamento a todo um trabalho de formação na vela e capacitação de profissionais e pretendemos, ao longo deste biênio, fazer uma reforma estatutária para que a Federação Brasileira possa ter uma transparência muito grande e mais controle por parte dos velejadores.

GE.Net - De que maneira, o sr. acredita que toda a experiência acumulada em cargos do Governo podem ajudá-lo a realizar tudo isso (Lars integrou o Instituto de Desenvolvimento do Desporto e foi secretário nacional de esportes no governo Fernando Henrique Cardoso. Até março de 2006 comandou a Secretaria Estadual da Juventude, Esporte e Lazer de São Paulo)?
Lars -
Foi uma experiência muito válida no aspecto administrativo. Muito boa no relacionamento com o Governo, que nos deu uma facilidade na forma de investir verba. Havendo verba, com certeza há mais investimento.

GE.Net - Como o sr. avalia a situação do trabalho de base atualmente e o que pretende fazer para incrementá-lo?
Lars -
A vela hoje está em cima do trabalho dos clubes da região sudeste. Tem alguma coisa na região nordeste e outro pólo em Brasília. Mas é importante não apenas fortalecer a vela, mas também as Federações Estaduais. Criar Federações em estados onde existe alguma atividade, mas não houve ainda incentivo. Queremos aproximar também os projetos de inclusão social através da vela. Como, por exemplo, os Projetos Navegar e Navega São Paulo, da Secretaria de Esporte.

GE.Net - Pensando no incremento da modalidade, de que maneira a Lei de Incentivo ao esporte pode contribuir para isso?
Lars -
Será fundamental porque permitirá que a gente possa investir em bons projetos da iniciativa privada, além dos projetos dos próprios atletas, velejadores e em grandes eventos. Também ajudará no estímulo a nossa equipe permanente pan-americana e para-olímpica.

GE.Net - Alguns atletas já expressaram uma certa preocupação com o risco de centralização. O sr. acredita que estes recursos podem acabar ficando apenas com os atletas de ponta?
Lars -
É uma política de lei de mercado. Após a regulamentação, caberá ao Ministério saber classificar o que ele quer priorizar. Tenho certeza que o Ministério dos Esportes e o ministro Orlando Silva vão saber dosar quanto de percentual vão querer para incentivar a formação no esporte de base, quanto vão colocar nos atletas de desenvolvimento e quanto em favor dos atletas de ponta, que também não podem ser esquecidos.

GE.Net - A vela é uma modalidade que já rendeu muitas conquistas ao país nas principais competições (são 76 pódios mundiais adultos e 14 medalhas olímpicas). No entanto, ela ainda é pouco conhecida do público. Isto causa alguma preocupação e o que pode ser feito para reverter isso?
Lars -
O Brasil tem como característica ser um país sem cultura náutica. Isso muda lentamente. Entretanto, ao longo de algum tempo fatos agregados vêm aumentando a popularidade da vela: os feitos de Amyr Klink, da família Schürmann, as conquistas das medalhas da equipe olímpica nacional, a regata de volta ao mundo (o Brasil1 terminou em terceiro na Volvo Ocean Race) e toda uma idolatria gerada em cima da imagem de Robert Scheidt, de Torben Grael. Isso tudo nos favorece muito.

GE.Net - Mas o sr. assume o cargo em um momento delicado. Estamos no ano do Pan-americano e o impasse sobre a sede da vela permanece (as obras na Marina da Glória estão interditadas por decisão da Justiça). Isso o preocupa? O que pretende fazer quanto a isso?
Lars -
Preocupação claro que eu tenho, mas acho que é importante agora ter muito equilíbrio, bom senso, devido à complexidade da questão no aspecto técnico. Devemos pensar sim em um plano B, um plano C para que isto possa funcionar e preservar a programação do evento.

GE.Net - Há algum tempo, Robert Scheidt comentou que para um bom evento bastaria ter uma raia e um local para lavar e deixar os barcos. Assim, ele considerava que o Iate Clube poderia receber o evento tranqüilamente, sem precisar de intervenções. O sr. pensa a mesma coisa e por que então o Iate Clube não foi acionado desde o início?
Lars –
Bom, alguma intervenção sempre precisa. Mas primeiro ele é um clube privado, que se destina aos seus associados e o Pan-americano é um evento basicamente internacional e seria preciso interromper seu uso pelos sócios. Este é um entendimento de certa forma frágil, mas que pode acontecer porque existe boa vontade de ambas as partes. Quem pode definir a situação é o Comitê Organizador dos Jogos Pan-americanos e vamos avaliar o que é possível. Existe ainda uma outra possibilidade que seria realizar na Escola Naval. Nós fazemos parte de um colegiado. Damos suporte técnico, mas a tomada de decisão depende do colegiado.

GE.Net - Mas vocês trabalham com algum prazo? Alguma data-limite para ter uma solução do impasse?
Lars -
Esta é uma situação complexa, que não depende de nós. Então, prazo não há.

GE.Net - A seleção para os Jogos Pan-americanos ainda não está definida...
Lars –
Não. Vamos ter as seletivas em fevereiro.

GE.net - Mas o sistema de seletivas da vela sempre suscitou uma certa polêmica. O sr. pretende rever este critério?
Lars -
A Federação tem um Comitê Técnico e é eleque avalia permanentemente a questão. Mas a princípio o Brasil adota um processo semelhante aos Estados Unidos, que é realizar uma competição alguns meses antes de Olimpíadas ou Pan-americano. Uma competição longa para que o fator sorte não venha influenciar.
Este é o critério porque não existe um perfeito. Se você faz por índice técnico ou por escolha da comissão técnica, você pode incorrer, às vezes, em reprimir novos talentos. Eu mesmo já fui beneficiado com isso, quando em 84 consegui ir à Olimpíada porque venci a eliminatória. Se fosse fazer valer o critério técnico de análise de eficiência ou experiência, teria ido a dupla que era campeã olímpica dos Jogos anteriores (Alexandre Welter/Lars Bjorskstrom, em Moscou-80). Pode ser que ao longo do tempo este critério seja reavaliado. Mas este é um critério que tem garantido resultados.

GE.Net - E qual sua expectativa de resultados para os Jogos do Pan?
Lars -
Nossa vela tem conseguido bons resultados. Sabemos que não é fácil porque teremos a equipe dos Estados Unidos que é sempre fortíssima, temos outros países fortes. Por exemplo, Canadá, algumas classes nas quais o Paraguai é muito forte. A briga é acirrada em todas as classes, mas se fosse fazer uma média, nosso principal adversário seria a equipe dos Estados Unidos.

GE.Net - Retomando a questão da tradição da vela no país e todas suas conquistas, percebe-se que os resultados foram conquistados, principalmente, no masculino. O sr. pretende desenvolver um projeto para impulsionar a vela feminina?
Lars -
A gestão anterior à nossa já fez um importante trabalho de valorização da vela feminina e nós vamos continuar a desenvolvê-lo. Mas a vela é um esporte fundamentalmente machista, não é? Basta vermos que a primeira participação da vela foi nos Jogos de Paris-1900 (seria em Atenas-1896, mas não houve condições meteorológicas para o evento) e só foi haver uma categoria feminina nos Jogos de Seul-88. Ou seja, 88 anos depois.
Então, isso demanda mais tempo. Este trabalho vem sido feito desde a primeira participação na classe 470, mas é uma coisa que vem crescendo. (Em 2003, o país foi campeão mundial na 420 com Isabel Ficker e Laura Zanni). O Brasil está crescendo, mas a vela feminina merece uma atenção especial.

GE.Net - Desde o ano passado a Federação Internacional adotou novas regras nas competições internacionais, dizendo que isso ajudaria a popularizar o esporte. Qual sua opinião sobre isso?
Lars –
Nós, velejadores, temos a tendência conservadora de preservar tudo o que aprendemos ao velejar. Por outro lado, a vela é um esporte tradicional, presidido por um ex-velejador, mas não podemos nos contentar com isso. Esta modalidade ocupa uma alta posição em Jogos Olímpicos, mas tem dificuldade de transmissão de imagem e as regatas são regidas pelo regime de vento. Então, algumas medidas foram tomadas para tentar fazer da vela um esporte mais vendável.

GE.Net - Nos últimos tempos, o Brasil tem experimentado um momento de transição de seus principais velejadores. Temos o Robert Scheidt mudando de classe (da Laser para a Star) e também seu irmão (Torben) com os projetos na vela oceânica. Existe preocupação com a capacidade da nova geração ocupar os espaços que estão sendo deixados?
Lars -
Esse ponto que você tocou é muito importante. Renovação, acho que tem de ser o nosso principal compromisso. Primeiro porque, se nós formos analisar o esporte, a vela deu ao Brasil o melhor saldo de medalhas olímpicas, 14 das quais seis de ouro. Porém, destas 14 medalhas, 13 são de apenas dois clubes: Iate Clube do Rio de Janeiro e Yatch Club de Santo Amaro. Além disso, o Brasil está hoje em destaque permanente por conta de dois fenômenos da vela, que são o Torben Grael e o Robert Scheidt, e eles naturalmente vão mudar de classe por idade ou por físico. Chegou a um ponto que o Robert migrou para a Star, na mesma classe do Torben, e este é um processo exclusivo - significa que alguém vai ficar de fora dos Jogos Olímpicos -, o que apressa nossa necessidade de investir na formação de novas gerações da vela olímpica. Apesar de não podermos nunca ter certeza que vamos conseguir encontrar alguém que possa chegar ao mesmo nível.

GE.net - De maneira geral, essa renovação é preocupante?
Lars -
Claro que preocupa. A vela perde uma chance de lutar por medalhas porque dois grandes velejadores se encontram na mesma classe e esse é um processo de exclusão. Mas faz parte do processo olímpico. Temos que melhorar a formação de profissionais, treinadores e quem sabe surge um nome...

GE.Net - Seu mandato é de 2 anos, o que espera ver quando olhar para trás no final deste tempo?
Lars -
Não temos a ilusão que em dois anos se possa revolucionar a vela. Na verdade, estaremos trabalhando para tentar aprimorar, fazer o possível pelo esporte.

GE.net - O sr. é o novo presidente da Federação, mas continua sendo um velejador na ativa. Em ano de Pan e perto das Olimpíadas, quais são seus projetos pessoais?
Lars -
Tenho que saber separar muito bem meu papel de presidente de meu papel de velejador. Tenho um projeto de prioridade em cima da vela oceânica. Sou timoneiro em um barco que é vice-campeão e neste Mundial, vamos tentar conquistar o título. Para as Olimpíadas, a gente vai tentar o melhor possível, mas consciente de nossas limitações e do amplo favoritismo que têm o Robert Scheidt (líder do ranking mundial com o proeiro Bruno Prada) e o atual campeão olímpico (Torben e Marcelo Ferreira).

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