
Por Marta Teixeira
Dono de duas medalhas olímpicas, dez títulos nacionais,
cinco sul-americanos e acostumado à condição de timoneiro
nas embarcações, o medalhista olímpico Lars Grael assume
nesta quarta-feira a presidência da Federação Brasileira
de Vela e Motor (a posse acontece às 10h30 no Iate Clube
do Rio de Janeiro).
Candidato único para substituir Walcles Figueiredo
de Alencar Osório, Lars terá como vice-presidente
o também velejador Alan Adler (outro colecionador
de títulos). Confirmado para o cargo no final
de 2006, Lars aumenta a possibilidade de vir a se tornar
presidente do Comitê Olímpico Brasileiro
(COB) dentro de alguns anos.
Na nova tarefa em sua vitoriosa carreira, Lars tem
suas metas bem definidas. “Não temos a ilusão que em
dois anos se possa revolucionar a vela”, admite, mas
projeta uma reforma estatutária para aumentar a participação
dos iatistas na entidade e investimentos na base para
divulgar a modalidade.
Faltando 185 dias para o início dos Jogos Pan-americanos
no Rio, contudo, não basta pensar apenas na estrutura
da vela para o país. Lars chega ao posto sob a nuvem
do impasse jurídico que coloca em risco as reformas
da sede prevista para a modalidade na competição. Sem
esconder sua preocupação com o assunto. O velejador
afirma que já estão em estudos ‘planos B e C’ para que
a modalidade não seja prejudicada pelo imbróglio.
Nesta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net,
o novo dirigente fala sobre Pan, Olimpíadas, suas preocupações
com o futuro da vela, o processo de renovação para suprir
os espaços criados pela mudança de classe de Robert
Scheidt e os planos oceânicos de Torben Grael e Marcelo
Ferreira e sua própria expectativa de lutar por
uma vaga na Star para as Olimpíadas de Pequim.
| Conquistas
da vela brasileira |
|
Medalhas olímpicas do Brasil |
| Ouro
|
Prata |
Bronze |
Total |
|
6 |
2 |
6 |
14 |
| Medalhas
em Mundiais |
| Ouro
|
Prata |
Bronze |
Total |
|
65
|
10 |
6 |
81* |
| Medalhas
em Pan-americanos** |
| Ouro
|
Prata |
Bronze |
Total |
|
24 |
19 |
12 |
55 |
* O total inclui seis medalhas
em mundiais juvenis. Destas conquistas apenas 2
bronzes, três ouros
** A vela é a quarta modalidade em número
de medalhas pan-americanas conquistadas e a segunda
em medalhas de ouro (perde apenas para o atletismo
com 24). Fonte: FVBM. |
Gazeta Esportiva.Net – O sr. assume a Federação
nesta quarta-feira. Quais são suas metas para sua gestão?
Lars Grael - Nossa meta é a melhor preparação
possível da equipe brasileira para os Jogos Pan-americanos
e para os Jogos Olímpicos em 2008. Também queremos dar
andamento a todo um trabalho de formação na vela e capacitação
de profissionais e pretendemos, ao longo deste biênio,
fazer uma reforma estatutária para que a Federação Brasileira
possa ter uma transparência muito grande e mais controle
por parte dos velejadores.
GE.Net - De que maneira, o sr. acredita que
toda a experiência acumulada em cargos do Governo podem
ajudá-lo a realizar tudo isso (Lars integrou o Instituto
de Desenvolvimento do Desporto e foi secretário nacional
de esportes no governo Fernando Henrique Cardoso. Até
março de 2006 comandou a Secretaria Estadual da Juventude,
Esporte e Lazer de São Paulo)?
Lars - Foi uma experiência muito válida no
aspecto administrativo. Muito boa no relacionamento
com o Governo, que nos deu uma facilidade na forma de
investir verba. Havendo verba, com certeza há mais investimento.
GE.Net - Como o sr. avalia a situação do trabalho
de base atualmente e o que pretende fazer para incrementá-lo?
Lars - A vela hoje está em cima do trabalho
dos clubes da região sudeste. Tem alguma coisa na região
nordeste e outro pólo em Brasília. Mas é importante
não apenas fortalecer a vela, mas também as Federações
Estaduais. Criar Federações em estados onde existe alguma
atividade, mas não houve ainda incentivo. Queremos aproximar
também os projetos de inclusão social através da vela.
Como, por exemplo, os Projetos Navegar e Navega São
Paulo, da Secretaria de Esporte.
GE.Net - Pensando no incremento da modalidade,
de que maneira a Lei de Incentivo ao esporte pode contribuir
para isso?
Lars - Será fundamental porque permitirá que
a gente possa investir em bons projetos da iniciativa
privada, além dos projetos dos próprios atletas, velejadores
e em grandes eventos. Também ajudará no estímulo a nossa
equipe permanente pan-americana e para-olímpica.
GE.Net - Alguns atletas já expressaram uma
certa preocupação com o risco de centralização. O sr.
acredita que estes recursos podem acabar ficando apenas
com os atletas de ponta?
Lars - É uma política de lei de mercado. Após
a regulamentação, caberá ao Ministério saber classificar
o que ele quer priorizar. Tenho certeza que o Ministério
dos Esportes e o ministro Orlando Silva vão saber dosar
quanto de percentual vão querer para incentivar a formação
no esporte de base, quanto vão colocar nos atletas de
desenvolvimento e quanto em favor dos atletas de ponta,
que também não podem ser esquecidos.
GE.Net - A vela é uma modalidade que já rendeu
muitas conquistas ao país nas principais competições
(são 76 pódios mundiais adultos e 14 medalhas olímpicas).
No entanto, ela ainda é pouco conhecida do público.
Isto causa alguma preocupação e o que pode ser feito
para reverter isso?
Lars - O Brasil tem como característica ser
um país sem cultura náutica. Isso muda lentamente. Entretanto,
ao longo de algum tempo fatos agregados vêm aumentando
a popularidade da vela: os feitos de Amyr Klink, da
família Schürmann, as conquistas das medalhas da equipe
olímpica nacional, a regata de volta ao mundo (o Brasil1
terminou em terceiro na Volvo Ocean Race) e toda uma
idolatria gerada em cima da imagem de Robert Scheidt,
de Torben Grael. Isso tudo nos favorece muito.
GE.Net - Mas o sr. assume o cargo em um momento
delicado. Estamos no ano do Pan-americano e o impasse
sobre a sede da vela permanece (as obras na Marina da
Glória estão interditadas por decisão da Justiça). Isso
o preocupa? O que pretende fazer quanto a isso?
Lars - Preocupação claro que eu tenho, mas
acho que é importante agora ter muito equilíbrio, bom
senso, devido à complexidade da questão no aspecto técnico.
Devemos pensar sim em um plano B, um plano C para que
isto possa funcionar e preservar a programação do evento.
GE.Net - Há algum tempo, Robert Scheidt comentou
que para um bom evento bastaria ter uma raia e um local
para lavar e deixar os barcos. Assim, ele considerava
que o Iate Clube poderia receber o evento tranqüilamente,
sem precisar de intervenções. O sr. pensa a mesma coisa
e por que então o Iate Clube não foi acionado desde
o início?
Lars – Bom, alguma intervenção sempre precisa.
Mas primeiro ele é um clube privado, que se destina
aos seus associados e o Pan-americano é um evento basicamente
internacional e seria preciso interromper seu uso pelos
sócios. Este é um entendimento de certa forma frágil,
mas que pode acontecer porque existe boa vontade de
ambas as partes. Quem pode definir a situação é o Comitê
Organizador dos Jogos Pan-americanos e vamos avaliar
o que é possível. Existe ainda uma outra possibilidade
que seria realizar na Escola Naval. Nós fazemos parte
de um colegiado. Damos suporte técnico, mas a tomada
de decisão depende do colegiado.
GE.Net - Mas vocês trabalham com algum prazo?
Alguma data-limite para ter uma solução do impasse?
Lars - Esta é uma situação complexa, que não
depende de nós. Então, prazo não há.
GE.Net - A seleção para os Jogos Pan-americanos
ainda não está definida...
Lars – Não. Vamos ter as seletivas em fevereiro.
GE.net - Mas o sistema de seletivas da vela
sempre suscitou uma certa polêmica. O sr. pretende rever
este critério?
Lars - A Federação tem um Comitê Técnico e
é eleque avalia permanentemente a questão. Mas a princípio
o Brasil adota um processo semelhante aos Estados Unidos,
que é realizar uma competição alguns meses antes de
Olimpíadas ou Pan-americano. Uma competição longa para
que o fator sorte não venha influenciar.
Este é o critério porque não existe um perfeito. Se
você faz por índice técnico ou por escolha da comissão
técnica, você pode incorrer, às vezes, em reprimir novos
talentos. Eu mesmo já fui beneficiado com isso, quando
em 84 consegui ir à Olimpíada porque venci a eliminatória.
Se fosse fazer valer o critério técnico de análise de
eficiência ou experiência, teria ido a dupla que era
campeã olímpica dos Jogos anteriores (Alexandre Welter/Lars
Bjorskstrom, em Moscou-80). Pode ser que ao longo do
tempo este critério seja reavaliado. Mas este é um critério
que tem garantido resultados.
GE.Net - E qual sua expectativa de resultados
para os Jogos do Pan?
Lars - Nossa vela tem conseguido bons resultados.
Sabemos que não é fácil porque teremos a equipe dos
Estados Unidos que é sempre fortíssima, temos outros
países fortes. Por exemplo, Canadá, algumas classes
nas quais o Paraguai é muito forte. A briga é acirrada
em todas as classes, mas se fosse fazer uma média, nosso
principal adversário seria a equipe dos Estados Unidos.
GE.Net - Retomando a questão da tradição da
vela no país e todas suas conquistas, percebe-se que
os resultados foram conquistados, principalmente, no
masculino. O sr. pretende desenvolver um projeto para
impulsionar a vela feminina?
Lars - A gestão anterior à nossa já fez um
importante trabalho de valorização da vela feminina
e nós vamos continuar a desenvolvê-lo. Mas a vela é
um esporte fundamentalmente machista, não é? Basta vermos
que a primeira participação da vela foi nos Jogos de
Paris-1900 (seria em Atenas-1896, mas não houve condições
meteorológicas para o evento) e só foi haver uma categoria
feminina nos Jogos de Seul-88. Ou seja, 88 anos depois.
Então, isso demanda mais tempo. Este trabalho vem sido
feito desde a primeira participação na classe 470, mas
é uma coisa que vem crescendo. (Em 2003, o país foi
campeão mundial na 420 com Isabel Ficker e Laura Zanni).
O Brasil está crescendo, mas a vela feminina merece
uma atenção especial.
GE.Net - Desde o ano passado a Federação Internacional
adotou novas regras nas competições internacionais,
dizendo que isso ajudaria a popularizar o esporte. Qual
sua opinião sobre isso?
Lars – Nós, velejadores, temos a tendência
conservadora de preservar tudo o que aprendemos ao velejar.
Por outro lado, a vela é um esporte tradicional, presidido
por um ex-velejador, mas não podemos nos contentar com
isso. Esta modalidade ocupa uma alta posição em Jogos
Olímpicos, mas tem dificuldade de transmissão de imagem
e as regatas são regidas pelo regime de vento. Então,
algumas medidas foram tomadas para tentar fazer da vela
um esporte mais vendável.
GE.Net - Nos últimos tempos, o Brasil tem
experimentado um momento de transição de seus principais
velejadores. Temos o Robert Scheidt mudando de classe
(da Laser para a Star) e também seu irmão (Torben) com
os projetos na vela oceânica. Existe preocupação com
a capacidade da nova geração ocupar os espaços que estão
sendo deixados?
Lars - Esse ponto que você tocou é muito importante.
Renovação, acho que tem de ser o nosso principal compromisso.
Primeiro porque, se nós formos analisar o esporte, a
vela deu ao Brasil o melhor saldo de medalhas olímpicas,
14 das quais seis de ouro. Porém, destas 14 medalhas,
13 são de apenas dois clubes: Iate Clube do Rio de Janeiro
e Yatch Club de Santo Amaro. Além disso, o Brasil está
hoje em destaque permanente por conta de dois fenômenos
da vela, que são o Torben Grael e o Robert Scheidt,
e eles naturalmente vão mudar de classe por idade ou
por físico. Chegou a um ponto que o Robert migrou para
a Star, na mesma classe do Torben, e este é um processo
exclusivo - significa que alguém vai ficar de fora dos
Jogos Olímpicos -, o que apressa nossa necessidade de
investir na formação de novas gerações da vela olímpica.
Apesar de não podermos nunca ter certeza que vamos conseguir
encontrar alguém que possa chegar ao mesmo nível.
GE.net - De maneira geral, essa renovação
é preocupante?
Lars - Claro que preocupa. A vela perde uma
chance de lutar por medalhas porque dois grandes velejadores
se encontram na mesma classe e esse é um processo de
exclusão. Mas faz parte do processo olímpico. Temos
que melhorar a formação de profissionais, treinadores
e quem sabe surge um nome...
GE.Net - Seu mandato é de 2 anos, o que espera
ver quando olhar para trás no final deste tempo?
Lars - Não temos a ilusão que em dois anos
se possa revolucionar a vela. Na verdade, estaremos
trabalhando para tentar aprimorar, fazer o possível
pelo esporte.
GE.net - O sr. é o novo presidente da Federação,
mas continua sendo um velejador na ativa. Em ano de
Pan e perto das Olimpíadas, quais são seus projetos
pessoais?
Lars - Tenho que saber separar muito bem meu
papel de presidente de meu papel de velejador. Tenho
um projeto de prioridade em cima da vela oceânica. Sou
timoneiro em um barco que é vice-campeão e neste Mundial,
vamos tentar conquistar o título. Para as Olimpíadas,
a gente vai tentar o melhor possível, mas consciente
de nossas limitações e do amplo favoritismo que têm
o Robert Scheidt (líder do ranking mundial com o proeiro
Bruno Prada) e o atual campeão olímpico (Torben e Marcelo
Ferreira).
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