|

Por Marta Teixeira
A 149 dias dos Jogos Pan-americanos, a administração
do Rio de Janeiro demonstra otimismo em ralação às conquistas
da cidade na preparação para o evento. De olho nos Jogos
Olímpicos de 2016, o responsável pelo acompanhamento
da Prefeitura, o secretário-especial para o Pan, Ruy
Cezar Miranda Reis, assume a proposta carioca de se
tornar a capital esportiva da América Latina e rebate
as críticas à preocupação esportiva do Governo em detrimento
ao cuidado social.
Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, ele diz que
o Município já investiu R$ 1,5 bilhão no evento, mesmo
enfrentando o que chama de postura política de alguns
setores para prejudicar o projeto. Responsabilizando
estes agentes pelo enxugamento das benfeitorias urbanas
que ficariam como legado, Cezar faz questão de garantir
que o Pan será um grande negócio para a evolução econômica
e social do Rio.
Gazeta Esportiva.Net - Qual o balanço que
a Prefeitura do Rio faz sobre a preparação para o Pan
até o momento?
Ruy Cesar - Altamente positivo. Entre os legados
que os Jogos deixarão para a Cidade, o planejamento
e preparação para os Jogos é um deles. Além dos megaeventos
organizados na cidade, como o Reveillon e o Carnaval,
agora estaremos aptos a organizar também megaeventos
esportivos que envolvem diversos setores de Governo
e da sociedade na sua estruturação.
GE.Net - Economicamente, qual o impacto esperado
pela Prefeitura para a cidade com o Pan? E para a imagem
do Rio?
Ruy Cezar - Apenas na região do Engenho Novo,
a construção do Estádio João Havelange está tirando
o bairro de uma estagnação de décadas, provocando uma
dinamização de diversas atividades, entre elas a construção
civil, que começa a se desenvolver na região. Isto terá
um efeito contaminador para os bairros vizinhos, trazendo
novos investimentos e desenvolvimento.
Além disto, o legado dos Jogos de 2007 se estende por
vários outros setores socioeconômicos e culturais da
cidade e do país. Passa, entre outras vertentes, pelo
incremento do setor turístico, através da exposição
do Rio e do Brasil na mídia exterior; pela incorporação
de modernas tecnologias de comunicação e de resultados
colocados à disposição das competições; pelas novas
oportunidades de empregos e negócios vinculados ao esporte;
pela integração cultural com os demais países participantes
da competição e, sobretudo, pelo incentivo da inclusão
social pelo esporte, trabalho este já iniciado pela
Prefeitura através das vilas olímpicas.
GE.Net - O Pan vai atrair turistas com um
perfil diferente do tradicional na cidade. O Rio tenta
mudar sua imagem ou é apenas uma estratégia de diversificação?
Ruy Cezar - Um pouco de cada. O Rio de Janeiro
é um grande centro esportivo a céu aberto. A qualquer
hora do dia ou da noite há pessoas pedalando, correndo
ou caminhando. Nas montanhas, escaladas e vôos maravilhosos
de asa delta. As quadras públicas de basquete, vôlei
e futsal, entre outros esportes, reúnem atletas, apreciadores,
cariocas, enfim. A cidade do Rio assumiu desde seus
primórdios, com o maior orgulho, o perfil de cidade
acolhedora.
Aí cabe a pergunta: existe cidade mais apropriada para
a realização festiva de um megaevento esportivo? Com
a infra-estrutura esportiva em construção e em reforma
na cidade, o Rio de Janeiro se firmará, definitivamente,
como a capital esportiva da América Latina e esta imagem
atrairá para a cidade toda uma cadeia produtiva vinculada
ao esporte. O esporte, hoje, é o principal setor da
indústria do entretenimento, portanto a cidade deve
tirar todo o partido desta sua vocação.
GE.Net - Inicialmente, esperava-se uma participação
maior da iniciativa privada no evento. Com o tempo,
o aporte financeiro de todos os níveis de Governo aumentou.
Qual o impacto disso nos planos originais da Prefeitura
para os Jogos?
Ruy Cezar - Já avançamos bastante na captação
de investimentos privados como na Vila Pan-americana,
no Riocentro e na Marina da Glória. Só nestes três equipamentos,
foram mais de 300 milhões de investimentos privados,
desonerando o poder público destes valores. Está nos
nossos planos a concessão dos equipamentos esportivos
da Cidade dos Esportes e do Estádio Olímpico João Havelange.
Desta forma, restituiremos aos cofres públicos parte
dos investimentos realizados.
| Fernando Pilatos/Gazeta Press |
 |
| Secretário especial do
Pan valoriza revitalização impulsiona
no entorno das sedes dos Jogos |
GE.Net - Quanto a Prefeitura está investindo
para realizar o evento? Todo o recurso necessário já
está garantido?
Ruy Cezar - Aproximadamente R$ 1,5 bilhão.
Estamos aguardando a aprovação do orçamento de 2007
pela Câmara de Vereadores, com previsão de cerca de
mais R$ 405 milhões. De nossa parte, está tudo garantido.
GE.Net - O Rio foi buscar exemplo em alguma
outra cidade para definir que o Pan seria um bom investimento?
Qual experiência serviu de motivação?
Ruy Cezar - Na verdade, estudamos várias cidades
e os impactos positivos e negativos dos Jogos, tanto
Pan-americanos quanto Olímpicos. Nossas maiores preocupações
foram não construir “elefantes brancos”, construir arenas
esportivas multiusos, ampliar, através destas novas
instalações, o programa municipal de inclusão social
através dos esportes e, também, estabelecer parcerias
com a iniciativa privada para desonerar os investimentos
públicos. Visitamos Barcelona, Seul, Santo Domingo,
além das assessorias internacionais que a Prefeitura
contratou para a organização do evento e para a área
de segurança.
GE.Net - Durante este período de preparação,
qual tem sido o principal desafio para a Prefeitura
na organização do evento?
Ruy Cezar - Superar as ações políticas impostas
por embargos de pessoas e grupos não interessados que
os Jogos se realizem na cidade. Procuraram partidarizar
o evento.
GE.net - A cidade ficará com vários equipamentos
de alto nível para receber muitas outras competições
importantes, mas nem tudo o que foi planejado no projeto
original pode ser mantido. As obras no entorno de algumas
instalações, por exemplo, foram canceladas ou ganharam
versões mais simples. Isso foi resultado apenas da não
obtenção de recursos junto ao BNDES? De que maneira
isto afeta o legado social do evento?
Ruy Cezar - Um evento deste porte, por sua
importância estratégica, extrapola os limites da cidade.
É um evento nacional, do país. Entendemos que a participação
do Governo Federal deveria ser ampliada dentro deste
conceito, através da participação das intervenções da
melhoria da infra-estrutura urbana. Solicitamos um empréstimo
ao BNDES. Empréstimo! Uma decisão meramente política
indeferiu o que tinha o parecer favorável do corpo técnico
do banco.
GE.Net - Como a Prefeitura recebeu as negativas
do BNDES?
Ruy Cezar - O empréstimo foi aprovado pelo
BNDES e, posteriormente, negado pelo Ministério da Fazenda.
Ainda estamos em entendimentos com o Governo Federal
tentando obter recursos para as obras de infra-estrutura
urbana.
GE.Net - Qual outro legado de infra-estrutura
a Prefeitura espera deixar com o Pan?
Ruy Cezar - A região do Engenho de Dentro,
vizinha ao estádio deixou de ser uma zona industrial
estagnada, para se consolidar como uma área de usos
múltiplos com atividades comerciais e residenciais multifamiliares
em franco desenvolvimento. O entorno da cidade dos esportes
no autódromo e da Vila Pan-americana também está se
desenvolvendo rapidamente. A ligação com corredor exclusivo
de ônibus entre a Penha e a Barra, conhecida como corredor
T5, começa a sair do papel, a partir destas novas demandas.
Estes são alguns dos legados que já se consolidam antes
mesmos de os Jogos começarem.
GE.Net - A questão do transporte é uma preocupação
em qualquer grande cidade. Qual o plano elaborado para
evitar problemas durante os Jogos?
Ruy Cezar - Estamos desenvolvendo um plano
geral de circulação da família pan-americana em faixas
exclusivas, com o cuidado de não sobrecarregar ainda
mais o trânsito da cidade. A realização dos Jogos se
dará no mês das férias escolares, o que já ajuda a reduzir
em 18% a circulação de veículos pela cidade. Mas precisamos
reduzir mais. Estamos estudando diversas alternativas.
Em fevereiro estaremos divulgando o plano de transportes
para a cidade e para o entorno de cada um dos locais
de competição. Todos serão informados da melhor maneira
de se dirigir para os locais de competição e como se
dará a rotina da cidade.
GE.Net - O Rio apresentou uma nova candidatura
para Jogos Olímpicos. Qual o peso do Pan-americano como
garoto-propaganda para o sucesso deste novo projeto
olímpico ambicionado pelo Brasil?
Ruy Cezar - A capacidade de organização de
um megaevento esportivo é o principal item numa disputa
à sede olímpica. O Pan de 2007 será o grande vestibular
da cidade para as pretensões olímpicas. Se fizermos
bem nosso dever de casa, estaremos em condições de disputar
em condições reais a sede dos Jogos de 2016.
GE.Net - Algumas pessoas criticam a iniciativa
brasileira de tentar receber eventos como Pan, Olimpíadas
ou mesmo a Copa do Mundo, alegando que o país enfrenta
problemas sociais graves (violência, pobreza etc) e
que a solução destas questões deveria ser a prioridade.
O Rio, assim como São Paulo e outros grandes centros
urbanos, tem de lidar com estes problemas. Por que priorizar
o esporte e não as questões sociais nos investimentos
deste momento?
Ruy Cezar - Temos que ter a visão mais abrangente.
É preciso entender os Jogos Pan-americanos como uma
janela de oportunidades tangíveis e intangíveis que
deixarão um grande legado para a cidade em várias áreas,
principalmente na social: empregos, renda, valorização
patrimonial dos moradores das áreas que anteriormente
estavam degradadas; a oportunidade de oferecer aos jovens
o esporte, em complementação à escola, tirando-o da
rua; a modernização de quatro hospitais da rede municipal,
entre outros.
Além dos já mencionados nesta entrevista, a cidade ganhará
uma estrutura de segurança pública mais articulada e
com mais inteligência, através do Comando Único de Segurança
dos Jogos sob coordenação da Secretaria Nacional de
Segurança Pública – SENASP. A inclusão social através
dos esportes também dará um salto quantitativo e qualitativo
com as novas instalações esportivas, dinamizando ainda
mais os programas da Prefeitura realizada nas Vilas
Olímpicas.
|