Voltar para a home Terça, 02 de Dezembro de 2008 Home Fale conosco. Receba o boletim   Ir para a Gazeta Press
 
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País
EUA 97 88 52
Cuba 59 35 41
Brasil 52 40 65
Canadá 39 45 54
México 17 24 31
Quadro completo
Medalhas do Brasil
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30/04/2007
Montagem sobre foto de Fernando Pilatos/Gazeta Press

Por Marta Teixeira

Dirigente resgata memória olímpica
Chefe das missões brasileiras desde os Jogos Pan-americanos de Winnipeg-99 e coordenador-técnico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o ex-jogador Marcus Vinícius Freire ainda encontrou tempo para mais uma atividade. Após seis anos de pesquisa, ele lançou o livro Ouro Olímpico – A história do marketing dos aros, na última segunda-feira, em São Paulo. Escrita em parceria com a jornalista Deborah Ribeiro, a publicação desvenda os caminhos do marketing esportivo nas grandes competições esportivas e resgata histórias de grandes personalidades do esporte.

Uma das poucas publicações do gênero no país, o livro foi editado pela Casa da Palavra, no selo COB Cultural. O lançamento acabou se tornando ponto de encontro de três gerações do vôlei olímpico. Antônio Carlos Moreno (Moscou-80) e Leonídio Pasquali (Seul-88), além dos vice-campeões olímpicos em Los Angeles-84 Bernard Rajzman, Domingos Maracanã e Amauri Ribeiro, que também foi campeão em Barcelona-92, prestigiaram o ex-companheiro, além do meio-fundista Zequinha Barbosa.

Terceiro lugar no quadro geral, brigando de perto com a delegação cubana, tradicional vice do torneio. Esta é a meta do Brasil para os Jogos Pan-americanos do Rio, em julho.

Responsável pelo comando da delegação, o chefe de missão e coordenador técnico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Marcus Vinicius Freire, tem seguido de perto a preparação em todas as modalidades no país e até ‘espionado’ alguns adversários. Munido destes dados, ele aposta em boas surpresas para o país na capital fluminense.

Além das esperadas medalhas em esportes tradicionais como judô, vôlei, basquete e ginástica, Freire acha que alguns ‘coadjuvantes’ olímpicos podem fazer bonito este ano. Não apenas pelo apoio da torcida local mas, principalmente, porque pela primeira vez o país contou com recursos financeiros estáveis para todo um ciclo de preparação.

Em 2002, após a regulamentação da Lei Agnelo-Piva, as Confederações Brasileiras passaram a receber parte da renda das loterias federais. Com a conquista da sede dos Jogos Pan-americanos, a ajuda passou a incluir também isenções fiscais para a importação de artigos esportivos e a contratação de técnicos estrangeiros em um movimento que, Freire garante, deixa até as Olimpíadas para trás. “O esporte brasileiro parou e disse: 2007 é o ano.  Depois a gente vê. Temos 12 meses para ver Pequim”.

Depois de tantas mudanças na situação, o dirigente não tem dúvidas, os Jogos do Rio serão um verdadeiro teste para o Brasil mostrar o verdadeiro patamar esportivo que conseguiu alcançar. “(o resultado) Vai ficar mascarado? Lógico, porque vamos estar aqui e é óbvio que deveria ser melhor que se estivéssemos jogando na Argentina. Mas vai ser esta a fotografia”.

Estruturalmente, o país também terá a oportunidade de mostrar suas fichas para a candidatura como sede dos Jogos de 2016. Ex-atleta olímpico, foi medalha de prata com a seleção de vôlei em Los Angeles-84, Freire acredita que o nível de organização do Pan credencia o sonho olímpico pela qualidade das instalações e pelo comprometimento com o projeto.

Responsável pela chefia das missões nacionais desde Winnipeg-99, ele não tem
dúvidas: o Pan qualifica o país para os Jogos Olímpicos. “A Vila Pan-americana é de nível olímpico”, destaca, comparando com a situação no Canadá onde as delegações foram distribuídas em instalações adaptadas.

Mas e a questão financeira? Como bancar os acréscimos estruturais necessários para receber uma Olimpíada? Formado em Economia e com longa experiência no mercado financeiro, o dirigente vê na parceria público-privada a solução. “É assim desde Atlanta-92”, explica.

A fórmula foi a proposta apresentada pelo Brasil para o próprio Pan deste ano. Mas nas contas do Governo Federal acabou não funcionando exatamente desta maneira. Em março, a União calculou seus números e chegou à conclusão que 50% do orçamento dos Jogos saem dos cofres federais. Vinícius discorda.  “Não dá para fazer as contas assim. Você precisa separar o que é investimento que vai ficar para o país, do orçamento com a organização”.

Público ou privado, o Pan promete ser um termômetro esportivo no Brasil.
Nesta entrevista concedida anteriormente à GE.Net, o dirigente fala sobre a expectativa do COB para este Pan e as mudanças ocorridas na mentalidade esportiva do país, desde a estrutura de bastidores até os recursos.

Gazeta Esportiva.Net – Você é o responsável por acompanhar a preparação de todas as equipes brasileiras para o Pan. Como está o seu trabalho agora?
MV –
Vamos levar a maior delegação da história brasileira, quase 900 pessoas (700 atletas). É o primeiro Pan para o qual conseguimos realmente fazer uma programação de quatro anos, graças à Lei Agnelo-Piva e a patrocinadores, em alguns casos. Desde a República Dominicana até meados deste ano, cada Confederação conseguiu se programar e fizemos a melhor preparação de todos os tempos.
Em função do Pan, importamos muito material que será usado nos Jogos, mas que também já começamos a usar em treinamento (barcos, aparelhos de ginástica, pisos, bolas). Todo este material (em torno de US$ 10 milhões) é um dos legados que vai ficar dos Jogos para treinamento e competições.
Outro ponto importante são os técnicos estrangeiros que trouxemos para várias modalidades, mas sempre com uma preocupação: pelo acordo, tem sempre um brasileiro junto e ele tem a responsabilidade de passar este conhecimento para um corpo técnico, que vai ser o futuro de cada um destes esportes no Brasil. Agora eu acompanho as definições das equipes.

GE.Net – A meta brasileira é o terceiro lugar geral, mas vocês têm expectativas específicas por modalidade?
MV –
Não. Nossa meta parcial (em todos os Jogos) sempre tem sido classificar o maior número de atletas. No Brasil não temos esse problema (como sede, o país tem vaga em todas). Depois do número de atletas, vem o número de modalidades, depois ficar entre os dez, apesar de o brasileiro não gostar de ficar em segundo ou terceiro e, no caso de alguns esportes, ter chance de medalha (chegar à fase final). Esses são nossos parâmetros principais. As conseqüências vão aparecer no quadro de medalhas, comparável com os outros países. Nosso papel é muito mais macro do que pensar em desempenho desta ou daquela modalidade.

GE.Net – Pela primeira vez na história, o esporte brasileiro contou com recursos estáveis em um ciclo completo de preparação. Depois de tudo isso, o resultado do Pan vai ser encarado como uma prova?
MV –
Sem dúvida. Mas você vai vendo isso durante os anos, de 2003 para 2007, e tem que comparar o que aconteceu no meio. Acho que em 2007 vamos ter algumas surpresas agradáveis porque vem sendo feito um trabalho. Não adianta só apostar no cara que já é medalhista ou que eu tenho certeza que será finalista, porque dez meses depois tem Pequim, depois Sul-americano e depois o Pan no México. Então, a gente sempre diz que um pedaço (dos recursos) tem que ser para o futuro, o que a gente chama de seleções olímpicas permanentes. E isso já está dando resultado. Na ginástica, por exemplo, o técnico já diz que a base das mais novas é melhor que a de Daiane (dos Santos) e Daniele (Hypólito).

GE.Net – Para algumas modalidades que nunca tiveram apoio, este dinheiro foi um diferencial. Isso aumenta a expectativa em relação a resultados?
MV –
Algumas confederações são historicamente nossas medalhistas olímpicas e em Pans e, em função disso, são as que têm patrocínio. Mas algumas que não tinham nada mudaram de patamar. O tênis de mesa é um caso. Não tinha patrocinador há muito tempo e, até o último Pan, o Hugo Hoyama era sozinho.
Hoje, tem três garotos na cola dele. Isso é um exemplo de renovação através deste apoio. Não gosto de destacar um atleta ou Confederação especificamente porque sempre vai esquecer alguém. Mas principalmente as que não tinham apoio nenhum é que vão aparecer. Elas serão as surpresas que eu digo.

Cuba, a imbatível
De olho na terceira posição no quadro de medalhas pan-americano, Marcus Vinícius faz os cálculos para que o Brasil atinja sua meta lembrando do desempenho nacional em Santo Domingo-2003 (ver quadro). “Só precisaríamos ganhar 17 medalhas de prata a mais ou um ouro resolveria a situação”.

A disputa com Cuba é mais complicada. Investindo em modalidades que rendem muitas medalhas individuais, a ilha de Fidel Castro conquistou mais que o dobro de primeiras colocações que o Brasil na República Dominicana. Uma potência que, bem-humorado, o dirigente só vê uma forma de superar este ano: impedindo-os de entrar no país.

Posição/
País
Total de
medalhas
Ouro
Prata
Bronze
1º Estados Unidos
270
117
80
73
2º Cuba
152
72
41
39
3º Canadá
128
29
57
42
4º Brasil
123
29
40
54
Fonte: Comitê Olímpico Brasileiro (COB)
GE.Net – Você não acompanha apenas os brasileiros, também segue a preparação dos adversários...
MV –
A gente acompanha todos os resultados dentro dos mundiais, pan-americanos e sul-americanos de categoria. Por exemplo, se temos um atleta classificado nos 200m, temos um por um os caras que têm o tempo dele e que possivelmente estarão aqui. Por isso, quando a gente aponta que pode ser terceiro, é porque sabemos quem vem do Canadá, dos Estados Unidos... As delegações têm vindo aqui e temos confirmado o tamanho delas, perguntamos se vêm com o time principal, quem se aposentou. Temos esta análise internacional, mas Cuba é uma incógnita porque sempre faz um filtro interno que muitas vezes corta alguns que poderiam ser medalhistas.

GE.Net – Além da competição em si, como isso ajuda as Confederações?
MV –
Nós damos o apoio, quem faz o plano é a Confederação. Junto com estas informações, ajudamos o departamento técnico deles, que muitas vezes é pequeno, a preparar a estratégia. A história do esporte brasileiro sempre foi imediatista porque não tinha dinheiro. Perto de um Pan ou Olimpíada o cara vinha com um patrociniozinho. Mas meu esporte de origem mostrou que quando você muda isso, passa a ter resultado. O vôlei apostou nas categorias inferiores, fomos vice-mundiais em 1981. Nas Olimpíadas de 84, Nuzman (Carlos Arthur Nuzman, então presidente da Confederação de Vôlei) e Bebeto (de Freitas, técnico da seleção) disseram que metade do time tinha de ser da seleção juvenil e foi o que começou a dar resultado no adulto. Esse mapa ajuda a mostrar esta estratégia.

GE.Net – A mentalidade imediatista está mudando?
MV –
Já mudou. Foi até um susto da primeira vez que chegamos às Confederações e dissemos: a partir de agora você vai ter de fazer um plano de quatro anos. Mas eles vão aprendendo e nós também. Você vê a vela, por exemplo, que tem uma base na Europa desde Sydney-2000. Teoricamente, sem nenhum recurso ou com recurso imediato você não tem a menor chance de manter um barco no porto do lago de Como (que está mudando para Timau) e sem planejamento você nunca imaginaria isso. Na última Olimpíada, levamos os cavalos do CCE (Concurso Completo de Equitação) e alugamos uma fazenda na Escócia. Antes, chance zero de isso acontecer, era ir direto, pagar quarentena, treinar fechado e depois competir. Mas você vai aprendendo.

GE.Net – As Confederações também precisaram se adaptar...
MV –
Tem uma história que o Lula sempre conta. O cara dizia: a Confederação tá de sede nova, eu troquei de carro. Isso porque ficava tudo no porta-malas. Mas, desde a Lei Agnelo-Piva, tem um percentual mínimo que é para manutenção da sede, porque se você não forçar há pessoas que não querem se mexer.

GE.Net – É possível mensurar a evolução do esporte brasileiro nestes quatro anos?
MV –
É difícil dizer e vamos esperar 2007 para que se possa comparar no resultado. Vai ficar um pouco mascarado porque você joga em casa e logicamente tem vários benefícios. Mas acho que vai ser uma forma de a gente pesar, não olhando o número de medalhas conquistadas, mas o que eu já
disse: número de modalidades, número de atletas que fizeram a final e número de atletas que tinham chance de ganhar medalha. Na coletiva final de imprensa a gente abre o mapa.

GE.Net – Desde seu primeiro Pan, em Winnipeg, seu papel como chefe de missão mudou muito...
MV –
Ele cresceu como o próprio esporte brasileiro. Em 99, fomos tapando buraco. Orçamento não existia, você vivia um pouco de uma verba que o COB tinha, um pouco do Ministério. É meio baba ovo o que vou dizer, mas o Nuzman mudou a função do COB no esporte. Até ali, a função do COB era juntar delegação, colocar o mesmo uniforme e levar para algum lugar. De 96 para frente, o COB passou a viver com as Confederações os problemas e os louros. Isso é uma responsabilidade monstruosa. O COB hoje é formado por uma turma que tem histórico esportivo e esta é outra mudança. Nós fizemos o levantamento de quantos atletas trabalham aqui, são 35-37 e vamos chegar a 60 caras que viveram esse negócio, ajudando atletas a ficarem melhores porque o objetivo é 100% este. Qual a função? Fazer que treinador e atleta tenham a melhor condição.

GE.Net – A participação de ex-atletas foi fundamental para redirecionar o perfil do COB?
MV -
Foi. Foi feita aos poucos porque você tem que preparar o ex-atleta. Mas é um caminho sem volta. Tem que fazer parte da administração do esporte quem viveu do esporte para estar contribuindo.

GE.Net – Você chefiou a delegação brasileira em seis eventos (Pans de Winnipeg-99, Santo Domingo-2003, Olimpíadas de Sydney-2000 e Atenas-2004, mais dois Sul-americanos), qual foi a experiência mais difícil?
MV -
O mais difícil foi Sydney por vários motivos: a cidade era do outro lado do mundo, o transporte era difícil, a distância era muito grande, tivemos que viajar muito antes, fomos para Canberra e estava muito frio. Além disso, foi minha primeira Olimpíada como chefe de missão e ainda estava conhecendo as pessoas.

GE.Net – Organizar em casa é mais difícil?
MV -
Acho e espero que este seja o mais fácil, porque falo com qualquer pessoa sobre qualquer assunto. Mas é mais preocupante. Participamos da candidatura e mostramos que era o esporte e não a política. Mas depois da comemoração é igual casamento, quem menos aproveita são os noivos. Vamos viver uma preocupação boa, saudável, mas é uma preocupação, porque existe uma responsabilidade.

GE.Net – Seu assunto é esporte, organização é com o CO-Rio, mas claro que os problemas relacionados às sedes também te atingem. Temos este impasse na vela, o que você acha de tudo isso?
MV –
Eu diria que minha preocupação na Vela é diferente da preocupação do CO-Rio. A gente desligou, não tô ligando. Nossa preocupação é dentro do time. Minha resposta é parecida com a dos atletas: competição é na água. O problema é do CO-Rio, da Odepa, a prova vai ser na água e a água vai ser igual. Independente de estar na Marina, na Escola Naval, no Iate, a raia está no mesmo local.

GE.Net – Está mais fácil ser atleta hoje que no seu tempo?
MV –
Muito mais fácil, graças a Deus. Nossa geração foi a primeira profissional do vôlei, mas era um começo. Programação de quatro anos não tinha. Um mês antes você sabia que o Campeonato Brasileiro ia ser no mês que vem ou que não ia ter mais naquele ano. As empresas também passaram a acreditar que esta é uma bandeira boa. Claro que este ano muito mais, mas tem muita gente acreditando que isto traz valores positivos para sua marca, sua empresa. Então, o atleta passou a realmente poder viver disso. Mas ele tem que se preparar, porque esta vida é curta. Nós estamos no caminho de construir um instituto dentro do COB para ajudar estas pessoas a virarem técnicos, administratores esportivos ou, se quiser outro caminho, outro caminho.

GE.Net – Jogador ou personagem de bastidor, o que é mais fácil?
MV –
Ser jogador. Aí não tem jeito, você toma conta da bola. Aqui eu fico desesperado. Mas eu diria que a alegria é muito parecida. Quando a tocha (olímpica) passou aqui, escolheram alguns atletas, a maioria campeão olímpico. Eu fui vice, mas era reserva. Alguém maldoso perguntou por que eu achava que tinha sido escolhido e eu respondi: porque na Dominicana eu ganhei 123 medalhas, um pedaço de cada uma delas. Em Atenas foram tantas (dez), Sydney tantas (12), Winnipeg tantas (101). Um pedacinho de todas elas eu acho que participei. E é verdade. Eu realmente sinto isso quando um garoto ganha, porque lá atrás ele disse que ia parar se alguém não ajudasse ou porque um dia nós o levamos para um médico e não para outro. E realmente temos um retorno muito bom desta molecada toda.

GE.Net – De que forma o Pan será aproveitado para o projeto olímpico?
MV –
O Pan é um degrau para a gente, mas por ser no Rio é um degrau totalmente diferente. Nós focamos aqui todos os nossos recursos e objetivos.
Depois vamos ter de fazer o trabalho de burilar tudo em um ano, desde a classificação dos atletas. Nós focamos nosso circo para 2007, mas já estamos fazendo o necessário para 2008. Já fui três vezes para a China ver locais de competição, onde vamos fazer aclimatação, mas nosso foco esportivo é 2007.
Não tem nenhum esporte que esteja pensando: vou economizar em 2007 porque na Olimpíada... Zero, nenhum. O esporte brasileiro parou e disse: 2007 é o ano, depois a gente vê. Depois temos um ano para ver Pequim. Quer dizer, eles têm 12 meses, eu tenho uma semana porque a reunião dos chefes de missão é uma semana depois, em 6 de agosto.
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