Campinas (SP) - Uma das
maiores estrelas da natação brasileira, César Cielo está
focado em demonstrar que evoluiu ainda mais depois do
quarto lugar nos 100m livres do Mundial deste ano, disputado
em Melbourne, na Austrália. Ele reconhece que não ficou
nada satisfeito em perder a medalha por quatro centésimos.
Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net,
o sucessor de Gustavo Borges e Fernando Scherer avisou
que vai atrás de um desempenho perfeito nos 50m e 100m
livres - provas em que é recordista Sul-americano
- dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro. Para o
nadador, será uma prévia dos Jogos Olímpicos de Pequim-2008
para os quais ele já tem dois índices
garantidos.
Ainda por cima, César Cielo falou sobre sua rotina de treinos na Universidade de Auburn, nos Estados Unidos. Apesar de jovem, o atleta já sentiu na pele as dificuldades de se manter como um esportista de alto nível. “Agora sei o porquê Ian Thorpe se aposentou”, reconhece.
Para completar, César Cielo também elogiou o nível da natação brasileira e abordou a boa relação com Thiago Pereira, outra estrela da modalidade na atualidade. “Não temos qualquer tipo de rivalidade. Somos grandes amigos”, avisa.
Gazeta Esportiva.Net: Atualmente você treina nos Estados Unidos. Qual a diferença dos métodos em relação ao Brasil?
César Cielo: Em primeiro lugar, tem a questão da faculdade. Consigo estudar e treinar em alto nível ao mesmo tempo. Em relação à preparação, também existem diferenças. Não digo tanto no trabalho dentro da piscina, mas principalmente na questão da musculação, que melhorei bastante. Eu treino entre quatro e cinco horas e ainda faço musculação.
GE.Net: Nos Estados Unidos, as pessoas comentam sobre o Pan-americano? Existe a preocupação com os problemas de estrutura e violência do Brasil?
Cielo: Eles falam bastante, sim. Na minha faculdade estão oito atletas do time B deles, que irão representar os Estados Unidos na natação dos Jogos Pan-americanos. São cinco rapazes e três meninas. Estamos sempre treinando juntos. Mas eles não sabem muito quanto a essa questão da organização e violência. E também nem falo nada (risos). Mas pelo que fiquei sabendo, os norte-americanos mandaram duas pessoas especialmente para verificar as condições que serão encontradas no Rio de Janeiro.
GE.Net: No último Pan, a natação ganhou 22 medalhas. É possível superar a marca? Como você vê o nível da equipe brasileira?
Cielo: Vejo um time mais coeso do que em outras épocas. Temos nadadores de ponta em várias provas, o Thiago Pereira, o Kaio Márcio. Na época do Gustavo Borges e do Fernando Scherer, só eles disputavam as principais colocações. Por esse motivo, temos totais condições de bater essa marca de 22 medalhas, basta olhar apenas para o balizamento já feito.
GE.Net: Você citou o Thiago Pereira. Os dois tiveram o melhor resultado do Brasil no último Mundial. Existe algum tipo de rivalidade para o posto de número um da natação?
Cielo: Não tem isso, até porque as nossas provas são muito diferentes. A gente nem pensa na questão, pode ter certeza. Somos grandes amigos, ficamos juntos no quarto durante as competições. O Thiago até me ligou para eu ir na casa dele em São Paulo nessa minha passagem pelo Brasil. Infelizmente não deu certo.
GE.Net: Já que são tão amigos, você dá dicas ao Thiago de como derrotar o Michael Phelps?
Cielo: (Risos). A gente brinca com ele durante as competições. Falamos “você está com medo dele”. Mas o Thiago está no caminho certo. Falta muito pouco para ele alcançar aquele nível de ganhar a medalha em um Mundial ou Olimpíada. Estou na mesma situação dele. Acho que precisamos de mais experiência competindo fora do Brasil. É tudo questão de tempo.
GE.Net: Falando em quarto lugar, você já digeriu perder a medalha de bronze no Mundial por quatro centésimos?
Cielo: Eu odiei esse quarto lugar. É claro que tem um sabor amargo. Mas curiosamente meu técnico gostou. Ele acha que foi importante para avaliarmos os erros. Eu já vi o vídeo da prova do Mundial umas 100 vezes, quadro por quadro. No Pan, estamos em busca da prova perfeita e pretendemos mantê-la para as Olimpíadas. O importante é que ainda sou visto como um atirador no cenário internacional.
GE.Net: Mas no Pan-americano não tem jeito: haverá muita pressão em cima de você.
Cielo: Sim, eu sei que nos Jogos Pan-americanos entro com a obrigação de ganhar uma medalha. Estou consciente de que terei um adversário de grande nível dos Estados Unidos, o Gary Hall Júnior, que já disputou inúmeras competições importantes, mas, mesmo assim, não posso escapar dessa pressão.
GE.Net: Com apenas 20 anos, você já sofre toda essa pressão. É complicado administrar isso?
Cielo: Eu acordo todo dia às 5h30 para treinar e tem dia que você não está bem, a água está fria. Agora eu entendo o porquê Ian Thorpe (fenômeno da natação australiana) abandonou as piscinas aos 24 anos. Chega uma hora que você fica estressado mesmo. O maior cansaço nem é do corpo, mas sim o psicológico. A natação é muito cruel em relação a isso.
GE.Net: Pelo jeito, você não gosta muito de água fria (antes de conceder entrevistas, César Cielo deixou rapidamente a piscina auxiliar do Tênis Clube de Campinas, onde tentava relaxar os músculos, por causa da água fria).
Cielo: (Risos) Pois é, eu já treino todos os dias com uma água muito gelada. Aí venho aqui para o Campeonato Paulista e a piscina também está fria. Lá nos Estados Unidos já pedi para mudarem isso, mas não tem jeito.
GE.Net: Mas o público brasileiro pode ficar tranqüilo: o César Cielo ainda está longe de abandonar as piscinas como o Thorpe...
Cielo: Claro que sim, eu ainda tenho muito a conquistar. Acho que meu máximo ainda está bem longe. Na verdade, o Thorpe encerrou sua carreira porque não havia mais motivos para continuar. Ele ganhou inúmeras medalhas, bateu vários recordes muito cedo.
GE.Net: Você acha que existe limite na natação?
Cielo: Acho que cada um tem seu limite, varia de atleta para atleta. Posso dizer que nas minhas provas, os 50m e 100m livre, acredito que o limite é maior. Sempre estão inventando algo diferente, alguém faz algo novo para conseguir um novo tempo, um novo recorde.