|
Por Marta Teixeira
O judoca Tiago Camilo está
vivendo uma experiência singular nestes Jogos
Pan-americanos do Rio. Originário da categoria
meio-médio, ele foi escolhido para competir na
médio em seu primeiro Pan porque o tradicional
titular Carlos Honorato não estava em boa fase.
A passagem pelo novo peso, Camilo garante que será
temporária.
Com planos de trocar de peso ainda em um futuro distante,
o paulista de Bastos traça metas ambiciosas para
a competição carioca. Vice-campeão
olímpico em Sydney-2000, ele encara o atual momento
como parte de sua preparação para o Campeonato
Mundial, também no Rio, em setembro, e os Jogos
Olímpicos de Pequim-2008.
Com os mesmos 83kg de sempre, na preparação
optou por investir em agilidade ao invés de ganhar
peso. E depois de um longo estudo dos adversários
no Campeonato Pan-americano no Canadá, Camilo
diz ter traçado estratégias de luta específicas
e promete usar as características de meio-médio
para surpreender os adversários.
Não importa qual seja seu resultado, Camilo
terá de enfrentar o também medalhista
olímpico Flávio Canto na disputa pela
vaga dos médios para o Mundial, mas isto não
o incomoda. Pelo contrário, o estimula.
Judoca desde os 5 anos, Camilo começou no esporte
na esteira do irmão Francisco, o Chicão,
campeão pan-americano em Santo Domingo-2003.
O início foi mais por falta de opção.
Com 75% da população de sua cidade de
origem japonesa, judô e beisebol eram as alternativas
esportivas acessíveis.
“Começou como uma brincadeira, o Chicão
foi, eu fui assistir, fui pegando gosto, comecei a competir
e a aguçar este lado competitivo dentro de mim”,
lembra o judoca, que teve como primeiros mestres Ichiro
Makakeba e Omar Mikinoati.
Aos 14 anos, ele e o irmão mudaram sozinhos
para São Paulo para ampliar os horizontes. A
nova etapa começou no Projeto Futuro, lutando
ao lado de nomes como Aurélio Miguel e Henrique
Guimarães. “Depois de três anos de
Projeto Futuro fui vice-campeão olímpico.
Fui campeão mundial júnior em 98, campeão
dos Jogos Mundiais da juventude, campeão pan-americano
e depois Olimpíada. Tudo aconteceu rapidamente
na minha vida, mas sempre foi com muito trabalho, muita
luta muita perseverança”, lembra.
Mas se as coisas começaram a acontecer depois
da chegada em São Paulo, Camilo não esquece
que a base com os mestres de Bastos fez toda a diferença.
Foi com ela que obteve os resultados necessários
para passar no teste que lhe abriu as portas na capital.
“O Projeto foi muito importante, foi lá
que pude sonhar realmente com esporte. Mas em Bastos,
quando comecei, tudo que foi depositado em mim, isso
eu colho até hoje”.
A gratidão foi revertida em projeto social mantido
há 7 anos na cidade sob supervisão dos
antigos professores. A iniciativa já começa
a dar frutos. “Uma das crianças já
foi vice-campeã sul-americana”, ressalta
orgulhoso.
Com semente garantida para a próxima geração,
destaca a importância do esporte em sua vida.
“Judô é aquilo que eu amo. É
a minha vida. Tudo que sou, tudo que conquistei foi
através do esporte. O judô me deu oportunidade
de sonhar e de realizar. Sou um privilegiado porque
minha família sempre me deu todo suporte para
caminhar e atingir meus objetivos e se estou aqui é
graças a todos que me apoiaram.
Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net,
ele fala sobre seus projetos para o futuro, os desafios
da preparação pan-americana e a motivação
de continuar a aprender.
Gazeta Esportiva.Net – Como foi sua adaptação
à nova categoria, o que você precisou fazer
de musculação, alimentação..?
Tiago Camilo – Continuei tudo da mesma
maneira. Tenho feito um trabalho que está dando
certo e quero usar coisas como velocidade e explosão
que tenho ganhado bastante. Acho que se fosse ganhar
muito peso em pouco tempo, ficaria lento. Eu quero continuar
o trabalho que vinha fazendo e atingir nestes Jogos
Pan-americanos os objetivos que tracei juntamente com
o técnico. Venho evoluindo há algum tempo
e espero que nestes Jogos eu possa chegar lá.
GE.Net – Qual seu peso agora?
TC - 83, 84 quilos. É o meu normal porque
perco um pouco para lutar na categoria meio-médio.
Mas no Mundial por Equipes, quando lutei com o japonês
que é campeão do mundo (Iroshi Izumi)
e com o holandês, estava com 81 quilos e eles
optaram por me colocar nos 90 quilos. Em algumas experiências
que tive na categoria 90 quilos, estava até mais
leve que agora e acabou dando certo. Quando lutei, frisei
isso. Eu estava rápido. Coloquei um ritmo de
luta muito mais ágil do que a categoria. Acho
que isso fez a diferença e quero usar isso agora.
GE.Net – Você tem planos de mudar
de categoria?
TC - Tenho, para o futuro.
GE.Net – Futuro daqui a quanto tempo?
TC - Não quero pensar nisso agora. Quero
viver intensamente esta fase da minha vida. Apesar de
já ter sido medalhista olímpico, tem muita
coisa nova acontecendo. Foi a primeira vez que entrei
no Maracanã, primeira vez que eu presenciei uma
abertura de Jogos Pan-americanos. São sensações
únicas e ao mesmo tempo intensas. Não
que ter sido medalhista olímpico não tenha
sido intenso. Mas são experiências novas
em minha vida.
GE.Net – Você e o técnico
Luis Shinohara traçaram metas. Quais são
estes objetivos?
TC - Fazer um bom Pan-americano. Este é
o meu primeiro Pan estou bastante motivado e com muita
vontade de vencer. Depois tem o Campeonato Mundial.
Na verdade, tem algumas coisas para acontecer até
lá. Passando os Jogos Pan-americanos tenho um
processo seletivo com o Flávio (Canto), mas estas
são metas que a gente tem de atingir uma por
uma. Primeiro quero pensar nestes Jogos, dar meu máximo
e extrair todo o potencial que tenho. O resultado vai
ser conseqüência da boa competição
que espero fazer.
GE.Net – Você destacou coisas de
sua categoria original que pretende usar competido na
médio e o inverso. O que a médio pode
acrescentar quando você voltar a sua categoria?
TC - Eu sempre treinei com o pessoal mais pesado,
desde criança porque sentia mais facilidade com
os mais leves. Mas treino é uma coisa, competição
é outra. Quando você compete na categoria
90kg, com o pessoal mais forte, e volta para a 81kg
pode ser, entre aspas, que tenha um pouco mais de facilidade.
Mas as duas categorias são difíceis e
são grandes desafios.
GE.Net – E seus adversários? Você
chegou a conversar com o Honorato sobre eles? Ele te
deu alguma dica?
TC - No Campeonato Pan-americano no Canadá
tive a oportunidade de conhecer todos os adversários
que estão aqui. Foi importante para mim porque
não tinha muito conhecimento desta categoria
em competição. Aproveitei muito esta oportunidade
para conhecer os adversários, para definir uma
tática e não chegar no escuro. Foi bom
e agora já estou com o pé no chão
e bem tranqüilo com as lutas traçadas na
minha cabeça.
GE.Net – Houve algum adversário
que você visualizou como um obstáculo maior
aqui?
TC – Cuba, sem dúvida. Não
só no meu peso, mas em todas as categorias o
maior desafio dos brasileiros será os cubanos.
Na minha categoria tem também o canadense (Keith
Morgan), o venezuelano (Jose Camacho), o argentino (Diego
Rosati). São os atletas que mais figuram nos
pódios das competições na pan-américa.
Na verdade, eu sempre respeitei todo mundo da mesma
maneira porque no esporte, no judô principalmente,
tudo pode acontecer. É muito dinâmico,
você está ganhando e de repente perde.
Você tem que ficar ligado, atento e respeitar
todo mundo da mesma maneira. Mas acho que estes serão
meus adversários no decorrer da competição.
GE.Net – Com todas estas mudanças,
como está seu planejamento olímpico?
TC - Este aqui já é um passo.
Na verdade, a evolução é constante.
Lógico que tenho metas: Mundial, Olimpíadas,
mas minha evolução técnica, física
e tática é o que mais me motiva. Sempre
corro atrás da melhora, da perfeição,
é isto que me mantém vivo e com o fogo
aceso dentro de mim.
GE.Net - Independente do resultado que vocês
obtenham aqui, você e o Flávio Canto terão
de enfrentar uma seletiva para o Mundial. Como é
saber que não importa o desempenho terá
de começar tudo do zero?
TC - Isso que é legal no esporte, os
desafios. Nessas horas que grandes atletas aparecem,
os verdadeiros campeões. Mas acho que esta rivalidade
minha e do Flávio fez a gente crescer porque
quando você tem um rival forte, que pensa da mesma
maneira e sonha igual, isto mantém você
em evolução constante. Acho que o grande
resultado que eu tenho, e ele também, vem desta
rivalidade sadia. Mas quem ganha mesmo é o Brasil
porque com ele ou comigo está bem representado
e quando um ganha tem sempre grande chance de trazer
medalha.
GE.Net – Vocês têm toda esta
rivalidade no esporte, como é o relacionamento
de vocês fora do tatame?
TC - Eu nunca tive problemas com ninguém
no esporte. Sei separar bem aquilo que encaro dentro
do tatame e fora. Acho que todo mundo é assim.
A gente se dá muito bem e isso faz com que o
grupo cresça como um todo. A gente se respeita
muito, conversa com todo mundo. Sabemos que somos grandes
guerreiros e acima de tudo queremos vencer. Mas isto
é legal.
GE.Net – Você destacou as experiências
novas que está tendo aqui. Qual a diferença
do clima Pan para o Olímpico?
TC - São momentos diferentes da minha
vida. Em Sydney, eu tinha 18 anos, era muito moleque,
não tinha noção do que uma Olimpíada
representava e da dimensão que aquilo poderia
ter na minha vida. Hoje, sei o quanto é difícil
e o quanto você tem que batalhar para chegar em
um pódio olímpico. Sei o quanto vou precisar
lutar para sair daqui campeão. Então,
olho para mim e me espelho lá. Mas sei que estou
mais maduro, mais ponderado nas minhas atitudes, no
meu dia-a-dia, naquilo que penso, que falo, em como
ajo. Evoluí em muita coisa, mas aquilo não
deixou de ser um espelho para mim.
GE.Net – Quando você chegou na
Austrália, acreditava que poderia subir ao pódio?
TC – Eu era tão puro, tão
moleque que não pensava: quero ser medalhista.
Eu queria lutar bem. Acho que esta desenvoltura, esta
naturalidade com que encarei a Olimpíada fez
com que saísse dali medalhista. Eu procuro resgatar
isso, não me cobrar, fazer boas lutas que o resultado
é conseqüência da competição.
Quando você pensa: quero ser campeão, quero
ser campeão, você esquece de lutar. Hoje
em dia tenho total convicção que a competição
e uma medalha saem de uma luta atrás da outra.
GE.Net – Qual sua melhor recordação
esportiva?
TC – Certamente a Olimpíada. O
que todo atleta de esporte olímpico mais sonha
um dia é subir no pódio. Não troco
aquele momento por nada. Naqueles poucos minutos, tudo
passou na minha cabeça, a trajetória da
minha vida, da minha família. Foi um momento
único que vou guardar para sempre.
|