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20/07/2007
Montagem sobre foto de Fernado Pilatos/Gazeta Press

Por Marta Teixeira

O judoca Tiago Camilo está vivendo uma experiência singular nestes Jogos Pan-americanos do Rio. Originário da categoria meio-médio, ele foi escolhido para competir na médio em seu primeiro Pan porque o tradicional titular Carlos Honorato não estava em boa fase. A passagem pelo novo peso, Camilo garante que será temporária.

Com planos de trocar de peso ainda em um futuro distante, o paulista de Bastos traça metas ambiciosas para a competição carioca. Vice-campeão olímpico em Sydney-2000, ele encara o atual momento como parte de sua preparação para o Campeonato Mundial, também no Rio, em setembro, e os Jogos Olímpicos de Pequim-2008.

Com os mesmos 83kg de sempre, na preparação optou por investir em agilidade ao invés de ganhar peso. E depois de um longo estudo dos adversários no Campeonato Pan-americano no Canadá, Camilo diz ter traçado estratégias de luta específicas e promete usar as características de meio-médio para surpreender os adversários.

Não importa qual seja seu resultado, Camilo terá de enfrentar o também medalhista olímpico Flávio Canto na disputa pela vaga dos médios para o Mundial, mas isto não o incomoda. Pelo contrário, o estimula.

Judoca desde os 5 anos, Camilo começou no esporte na esteira do irmão Francisco, o Chicão, campeão pan-americano em Santo Domingo-2003. O início foi mais por falta de opção. Com 75% da população de sua cidade de origem japonesa, judô e beisebol eram as alternativas esportivas acessíveis.

“Começou como uma brincadeira, o Chicão foi, eu fui assistir, fui pegando gosto, comecei a competir e a aguçar este lado competitivo dentro de mim”, lembra o judoca, que teve como primeiros mestres Ichiro Makakeba e Omar Mikinoati.

Aos 14 anos, ele e o irmão mudaram sozinhos para São Paulo para ampliar os horizontes. A nova etapa começou no Projeto Futuro, lutando ao lado de nomes como Aurélio Miguel e Henrique Guimarães. “Depois de três anos de Projeto Futuro fui vice-campeão olímpico. Fui campeão mundial júnior em 98, campeão dos Jogos Mundiais da juventude, campeão pan-americano e depois Olimpíada. Tudo aconteceu rapidamente na minha vida, mas sempre foi com muito trabalho, muita luta muita perseverança”, lembra.

Mas se as coisas começaram a acontecer depois da chegada em São Paulo, Camilo não esquece que a base com os mestres de Bastos fez toda a diferença. Foi com ela que obteve os resultados necessários para passar no teste que lhe abriu as portas na capital. “O Projeto foi muito importante, foi lá que pude sonhar realmente com esporte. Mas em Bastos, quando comecei, tudo que foi depositado em mim, isso eu colho até hoje”.

A gratidão foi revertida em projeto social mantido há 7 anos na cidade sob supervisão dos antigos professores. A iniciativa já começa a dar frutos. “Uma das crianças já foi vice-campeã sul-americana”, ressalta orgulhoso.

Com semente garantida para a próxima geração, destaca a importância do esporte em sua vida. “Judô é aquilo que eu amo. É a minha vida. Tudo que sou, tudo que conquistei foi através do esporte. O judô me deu oportunidade de sonhar e de realizar. Sou um privilegiado porque minha família sempre me deu todo suporte para caminhar e atingir meus objetivos e se estou aqui é graças a todos que me apoiaram.

Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, ele fala sobre seus projetos para o futuro, os desafios da preparação pan-americana e a motivação de continuar a aprender.

Gazeta Esportiva.Net – Como foi sua adaptação à nova categoria, o que você precisou fazer de musculação, alimentação..?
Tiago Camilo –
Continuei tudo da mesma maneira. Tenho feito um trabalho que está dando certo e quero usar coisas como velocidade e explosão que tenho ganhado bastante. Acho que se fosse ganhar muito peso em pouco tempo, ficaria lento. Eu quero continuar o trabalho que vinha fazendo e atingir nestes Jogos Pan-americanos os objetivos que tracei juntamente com o técnico. Venho evoluindo há algum tempo e espero que nestes Jogos eu possa chegar lá.

GE.Net – Qual seu peso agora?
TC -
83, 84 quilos. É o meu normal porque perco um pouco para lutar na categoria meio-médio. Mas no Mundial por Equipes, quando lutei com o japonês que é campeão do mundo (Iroshi Izumi) e com o holandês, estava com 81 quilos e eles optaram por me colocar nos 90 quilos. Em algumas experiências que tive na categoria 90 quilos, estava até mais leve que agora e acabou dando certo. Quando lutei, frisei isso. Eu estava rápido. Coloquei um ritmo de luta muito mais ágil do que a categoria. Acho que isso fez a diferença e quero usar isso agora.

GE.Net – Você tem planos de mudar de categoria?
TC -
Tenho, para o futuro.

GE.Net – Futuro daqui a quanto tempo?
TC -
Não quero pensar nisso agora. Quero viver intensamente esta fase da minha vida. Apesar de já ter sido medalhista olímpico, tem muita coisa nova acontecendo. Foi a primeira vez que entrei no Maracanã, primeira vez que eu presenciei uma abertura de Jogos Pan-americanos. São sensações únicas e ao mesmo tempo intensas. Não que ter sido medalhista olímpico não tenha sido intenso. Mas são experiências novas em minha vida.

GE.Net – Você e o técnico Luis Shinohara traçaram metas. Quais são estes objetivos?
TC -
Fazer um bom Pan-americano. Este é o meu primeiro Pan estou bastante motivado e com muita vontade de vencer. Depois tem o Campeonato Mundial. Na verdade, tem algumas coisas para acontecer até lá. Passando os Jogos Pan-americanos tenho um processo seletivo com o Flávio (Canto), mas estas são metas que a gente tem de atingir uma por uma. Primeiro quero pensar nestes Jogos, dar meu máximo e extrair todo o potencial que tenho. O resultado vai ser conseqüência da boa competição que espero fazer.

GE.Net – Você destacou coisas de sua categoria original que pretende usar competido na médio e o inverso. O que a médio pode acrescentar quando você voltar a sua categoria?
TC -
Eu sempre treinei com o pessoal mais pesado, desde criança porque sentia mais facilidade com os mais leves. Mas treino é uma coisa, competição é outra. Quando você compete na categoria 90kg, com o pessoal mais forte, e volta para a 81kg pode ser, entre aspas, que tenha um pouco mais de facilidade. Mas as duas categorias são difíceis e são grandes desafios.

GE.Net – E seus adversários? Você chegou a conversar com o Honorato sobre eles? Ele te deu alguma dica?
TC -
No Campeonato Pan-americano no Canadá tive a oportunidade de conhecer todos os adversários que estão aqui. Foi importante para mim porque não tinha muito conhecimento desta categoria em competição. Aproveitei muito esta oportunidade para conhecer os adversários, para definir uma tática e não chegar no escuro. Foi bom e agora já estou com o pé no chão e bem tranqüilo com as lutas traçadas na minha cabeça.

GE.Net – Houve algum adversário que você visualizou como um obstáculo maior aqui?
TC –
Cuba, sem dúvida. Não só no meu peso, mas em todas as categorias o maior desafio dos brasileiros será os cubanos. Na minha categoria tem também o canadense (Keith Morgan), o venezuelano (Jose Camacho), o argentino (Diego Rosati). São os atletas que mais figuram nos pódios das competições na pan-américa. Na verdade, eu sempre respeitei todo mundo da mesma maneira porque no esporte, no judô principalmente, tudo pode acontecer. É muito dinâmico, você está ganhando e de repente perde. Você tem que ficar ligado, atento e respeitar todo mundo da mesma maneira. Mas acho que estes serão meus adversários no decorrer da competição.

GE.Net – Com todas estas mudanças, como está seu planejamento olímpico?
TC -
Este aqui já é um passo. Na verdade, a evolução é constante. Lógico que tenho metas: Mundial, Olimpíadas, mas minha evolução técnica, física e tática é o que mais me motiva. Sempre corro atrás da melhora, da perfeição, é isto que me mantém vivo e com o fogo aceso dentro de mim.

GE.Net - Independente do resultado que vocês obtenham aqui, você e o Flávio Canto terão de enfrentar uma seletiva para o Mundial. Como é saber que não importa o desempenho terá de começar tudo do zero?
TC -
Isso que é legal no esporte, os desafios. Nessas horas que grandes atletas aparecem, os verdadeiros campeões. Mas acho que esta rivalidade minha e do Flávio fez a gente crescer porque quando você tem um rival forte, que pensa da mesma maneira e sonha igual, isto mantém você em evolução constante. Acho que o grande resultado que eu tenho, e ele também, vem desta rivalidade sadia. Mas quem ganha mesmo é o Brasil porque com ele ou comigo está bem representado e quando um ganha tem sempre grande chance de trazer medalha.

GE.Net – Vocês têm toda esta rivalidade no esporte, como é o relacionamento de vocês fora do tatame?
TC -
Eu nunca tive problemas com ninguém no esporte. Sei separar bem aquilo que encaro dentro do tatame e fora. Acho que todo mundo é assim. A gente se dá muito bem e isso faz com que o grupo cresça como um todo. A gente se respeita muito, conversa com todo mundo. Sabemos que somos grandes guerreiros e acima de tudo queremos vencer. Mas isto é legal.

GE.Net – Você destacou as experiências novas que está tendo aqui. Qual a diferença do clima Pan para o Olímpico?
TC -
São momentos diferentes da minha vida. Em Sydney, eu tinha 18 anos, era muito moleque, não tinha noção do que uma Olimpíada representava e da dimensão que aquilo poderia ter na minha vida. Hoje, sei o quanto é difícil e o quanto você tem que batalhar para chegar em um pódio olímpico. Sei o quanto vou precisar lutar para sair daqui campeão. Então, olho para mim e me espelho lá. Mas sei que estou mais maduro, mais ponderado nas minhas atitudes, no meu dia-a-dia, naquilo que penso, que falo, em como ajo. Evoluí em muita coisa, mas aquilo não deixou de ser um espelho para mim.

GE.Net – Quando você chegou na Austrália, acreditava que poderia subir ao pódio?
TC –
Eu era tão puro, tão moleque que não pensava: quero ser medalhista. Eu queria lutar bem. Acho que esta desenvoltura, esta naturalidade com que encarei a Olimpíada fez com que saísse dali medalhista. Eu procuro resgatar isso, não me cobrar, fazer boas lutas que o resultado é conseqüência da competição. Quando você pensa: quero ser campeão, quero ser campeão, você esquece de lutar. Hoje em dia tenho total convicção que a competição e uma medalha saem de uma luta atrás da outra.

GE.Net – Qual sua melhor recordação esportiva?
TC –
Certamente a Olimpíada. O que todo atleta de esporte olímpico mais sonha um dia é subir no pódio. Não troco aquele momento por nada. Naqueles poucos minutos, tudo passou na minha cabeça, a trajetória da minha vida, da minha família. Foi um momento único que vou guardar para sempre.

 
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