Por Emanuel Colombari, especial para
a Gazeta Esportiva.Net
Apesar de um início tardio no esporte, começou
apenas em 1999 a competir internacionalmente, César
Almeida é um dos principais nomes do hipismo brasileiro.
Na última semana, ele ganhou de vez a atenção
do público, ao ser o responsável por garantir
a medalha de ouro para o Brasil na prova de saltos por equipes
nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro. Após ver
o cavalo refugar no primeiro percurso, ele completou sem erros
a sua terceira participação no evento e assegurou
o ouro, ao lado de Rodrigo Pessoa, Bernardo Alves e Pedro
Veniss. Um mérito que esteve bastante ameaçado
na carreira deste cavaleiro, um discípulo da "arte
de vencer obstáculos".
Antes de assegurar presença no Rio de Janeiro, César
teve que superar mais uma barreira: as polêmicas na
convocação do time do Pan. Por conta das mudanças
de comando na Confederação Brasileira de Hipismo,
os cavaleiros que tentavam vagas para o evento teriam que
passar por seletivas que excluiria os que competissem no exterior
– ainda que garantindo Rodrigo Pessoa e Bernardo Alves
na convocação, com base nos rankings internacionais.
Com a confusão criada, a CBH definiu novas seletivas,
desta vez que respeitassem índices técnicos.
Foi nessa seletiva que César se confirmou nos Jogos,
tendo sido o único a não estourar a pontuação
de 28,00 pontos prevista pela regra. Como foi o único,
a Confederação convocou o outro integrante por
critérios subjetivos. Excluíram Vítor
Alves, que, inconformado, conseguiu uma liminar na Justiça
garantindo sua classificação e limando Pedro
Veniss. A entidade recorreu e definiu a lista definitiva apenas
uma semana antes do Pan, selando a “paz armada”
na modalidade.
A polêmica, pelo jeito, já é passado.
Uma semana após o término do Pan, a equipe já
era presença no Athina Onassis International Horse
Show, que recebe em São Paulo o primeiro CSI cinco
estrelas da história do Brasil. César, Rodrigo,
Bernardo e Pedro estão lá, na companhia de Álvaro
Afonso de Miranda Neto, o Doda, que conta com o apoio da esposa
para organizar (e batizar) o evento. Com a companhia de mais
de 70 dos melhores conjuntos do mundo na prova, a expectativa
da organização é colocar o Brasil no
mapa internacional dos cavalos.
Foi neste ambiente pós-Pan, pós-confusão
e pós-polêmica que César conversou com
a Gazeta Esportiva.Net. O experiente cavaleiro fez questão
de explicar o já resolvido problema com Vítor
Alves, comentou o desempenho do Brasil no Pan do Rio e revelou
as expectativas para o hipismo no Brasil após o ineditismo
do evento de Doda. E sem derrubar obstáculos.
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Popularizar é o objetivo |
O hipismo brasileiro já
conquistou campeonatos mundiais, medalhas olímpicas
e pan-americanas, mas ainda há uma barreira invisível
a ser rompida com o grande público. Considerada
de elite, a modalidade ainda não conseguiu cair
100% no gosto do brasileiro, embora nomes como Nelson
Pessoa, Álvaro Afonso de Miranda Neto e Rodrigo
Pessoa não escapem do assédio e da admiração
dos fãs.
Porém, o esporte sonha com uma guinada nesta
semana. Por iniciativa de Doda e com o apoio de sua
mulher, São Paulo é palco do Athina Onassis
International Horse Show, que, além de realizar
inúmeros concursos nacionais de saltos, ainda
receberá o primeiro CSI cinco estrelas da história
do país.
Mais de 70 conjuntos confirmaram presença na
Sociedade Hípica Paulista, onde se concentra
a chance de desenvolver no brasileiro o gosto pelos
cavalos. Para André Beck, organizador do evento,
as provas podem até não ajudar a diminuir
o custo reconhecidamente alto do hipismo no Brasil,
mas já pode encurtar a distância entre
as crianças e as selas.
“Hoje, para uma criança conseguir montar
um cavalo e ter aula duas vezes por semana é
relativamente fácil. Não é caro,
assim como não é caro ter aulas de tênis,
natação e inglês”, compara
André, que acredita que os melhores talentos
descobertos poderiam, aí sim, ser trabalhados
com a ajuda de patrocinadores. E claro, da TV, “que
vai massificar o show que a gente quer tanto mostrar”.
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Gazeta Esportiva.Net: É mais gratificante
conquistar a medalha em casa após a confusão
que houve na definição das seletivas para a
equipe do Pan?
César Almeida: Sem dúvida nenhuma.
Eu sou brasileiro, e meu treinamento é feito só
no Brasil. Não tive oportunidade de fazer nenhum treinamento
fora do país. Conquistei minha vaga objetivamente na
pista. Não sei se feliz ou infelizmente, mas eu fui
o único. Minha parte eu fiz, que era conquistar a vaga
em um critério objetivo. Por isso, tive mais tranqüilidade
e fiquei de fora de toda essa confusão. Minha vaga
não dependia de nenhuma confusão já instalada.
Isso tudo foi bem superado pela equipe, quando ficou decidido
que ela já estava formada. Todo mundo se concentrou,
os problemas foram esquecidos e a resposta está aí:
medalha de ouro, porque a equipe estava realmente unida.
GE.Net: Você chegou a conversar com o Vítor
Alves depois da definição da equipe ou dos próprios
Jogos Pan-americanos?
Almeida: O Vítor é um grande amigo
meu, com quem eu treino e por quem eu tenho muito carinho
há bastante tempo. Essa medalha que eu ganhei tem a
participação dele, que fez meu último
treinamento e que me ajudou lá (no Rio de Janeiro)
em vários momentos. Como ele conhecia bastante meu
cavalo e me conhecia há muito tempo, a gente teve bastante
contato e o respeito de todos. Nosso objetivo lá não
era pessoal; era algo muito maior, era uma medalha para o
país. Todo mundo respeitou isso, e a gente conseguiu
essa medalha com o apoio de todos, independente da confusão
instalada.
GE.Net: Durante o Pan, o Rodrigo Pessoa afirmou que
a conquista da vaga olímpica e da medalha de ouro no
concurso por equipes seria uma resposta aos críticos.
Quem seriam os críticos?
Almeida: Não vejo isso. A gente tinha uma
certa tranqüilidade em relação à
vaga olímpica, porque os EUA já tinham a vaga
garantida e a gente poderia ficar até na quarta colocação
para conquistar a nossa. Era uma coisa totalmente possível
de acontecer. Logicamente, o objetivo todo da equipe era trazer
a medalha de ouro, e não apenas conquistar a vaga.
Acho que esse foco é que foi mais importante: trazer
essa medalha de ouro e, com ela, a vaga olímpica. Acho
que essa foi a resposta.
GE.Net: A presença de um CSI cinco estrelas
no Brasil ajuda como incentivo à popularização
do esporte?
Almeida: Não tenha dúvida, é
um marco para nossa história. O Doda e a Athina estão
de parabéns pela oportunidade única. O esporte
inteiro tem que agradecer esta oportunidade que ele trouxe.
Eles são dois grandes amigos meus e sabem da importância
deste evento para o nosso país. O Doda já representou
várias vezes o Brasil e sabe o quanto isso é
importante para os cavaleiros, para os jovens e para o nosso
esporte. Os dois foram brilhantes quando transformaram nosso
esporte nesse evento e dar essa oportunidade para todo mundo.
GE.Net: Como foi a receptividade do torneio em relação
aos cavaleiros do exterior e, em especial, aos cavaleiros
europeus?
Almeida: A gente chegou aqui envolvido naquele glamour
todo do Pan-americano, com grandes cavaleiros que só
acompanharam esse concurso pela televisão – ou
muitos até nem acompanharam. Quando você chega
aqui, tem muita comemoração de seus amigos,
dos brasileiros, inclusive dos que moram no exterior. Isso
foi muito bacana de sentir, todo mundo muito entusiasmado
com essa medalha. Há um agradecimento especial dos
brasileiros por uma medalha que o grupo trouxe para o Brasil.
GE.Net: Houve comparação em relação
às pistas entre quem competiu no Pan e quem veio a
São Paulo para este evento?
Almeida: Não houve essa comparação.
Em relação ao Athina, está todo mundo
muito contente com a estrutura que estão encontrando
aqui, com o piso de primeira qualidade. Está todo mundo
bem satisfeito, tenho certeza de que não há
ninguém reclamando de nada. As cocheiras são
boas, e está todo mundo bem satisfeito com a estrutura.
GE.Net: Para quem está começando a
competir agora, qual é a importância deste tipo
de evento no Brasil?
Almeida: É muito importante, tendo em vista
que apenas convidados vieram saltar. Ficou muita gente de
fora, que queria estar saltando aqui. É importante
participar de um evento como esse, que cria um elo diferente:
não basta você simplesmente se inscrever no concurso,
você precisa ser convidado. Para isso, você tem
que ter um bom relacionamento e um bom ranking. Esse é
um diferencial, mas não há dúvidas da
importância para eles de virem observar os grandes cavaleiros
do mundo. É uma oportunidade única.
GE.Net: A maioria dos cavaleiros que estão
começando agora ainda não tem muito espaço
no exterior, certo?
Almeida: Não, não têm. É
muito difícil. Mas eles vão muito para assistir
os concursos lá fora, mas eles não têm
essa oportunidade de estar aqui, em seu país, podendo
ver esses cavaleiros e esses cavalos, que são sensacionais.
GE.Net: Tanto o tênis quanto o hipismo são
considerados esportes de elite, embora os dois tenham grandes
ídolos no Brasil. O que falta para que o hipismo alcance
um patamar mais popular como o do tênis?
Almeida: Acho que o que falta é incentivo
de empresas, de patrocínios. A gente tem muita dificuldade
de realizar grandes eventos como esse por falta de patrocinadores.
Se a gente tivesse mais apoio, conseguisse entrar um pouco
mais na mídia, teríamos um retorno maior, sem
dúvida nenhuma. Aí então eu acredito
que o esporte poderia ficar um pouco mais popular do que ele
é.
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