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02/08/2007
Montagem sobre foto de Fernando Pilatos/Gazeta Press

Por Emanuel Colombari, especial para a Gazeta Esportiva.Net

Apesar de um início tardio no esporte, começou apenas em 1999 a competir internacionalmente, César Almeida é um dos principais nomes do hipismo brasileiro. Na última semana, ele ganhou de vez a atenção do público, ao ser o responsável por garantir a medalha de ouro para o Brasil na prova de saltos por equipes nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro. Após ver o cavalo refugar no primeiro percurso, ele completou sem erros a sua terceira participação no evento e assegurou o ouro, ao lado de Rodrigo Pessoa, Bernardo Alves e Pedro Veniss. Um mérito que esteve bastante ameaçado na carreira deste cavaleiro, um discípulo da "arte de vencer obstáculos".

Antes de assegurar presença no Rio de Janeiro, César teve que superar mais uma barreira: as polêmicas na convocação do time do Pan. Por conta das mudanças de comando na Confederação Brasileira de Hipismo, os cavaleiros que tentavam vagas para o evento teriam que passar por seletivas que excluiria os que competissem no exterior – ainda que garantindo Rodrigo Pessoa e Bernardo Alves na convocação, com base nos rankings internacionais. Com a confusão criada, a CBH definiu novas seletivas, desta vez que respeitassem índices técnicos.

Foi nessa seletiva que César se confirmou nos Jogos, tendo sido o único a não estourar a pontuação de 28,00 pontos prevista pela regra. Como foi o único, a Confederação convocou o outro integrante por critérios subjetivos. Excluíram Vítor Alves, que, inconformado, conseguiu uma liminar na Justiça garantindo sua classificação e limando Pedro Veniss. A entidade recorreu e definiu a lista definitiva apenas uma semana antes do Pan, selando a “paz armada” na modalidade.

A polêmica, pelo jeito, já é passado. Uma semana após o término do Pan, a equipe já era presença no Athina Onassis International Horse Show, que recebe em São Paulo o primeiro CSI cinco estrelas da história do Brasil. César, Rodrigo, Bernardo e Pedro estão lá, na companhia de Álvaro Afonso de Miranda Neto, o Doda, que conta com o apoio da esposa para organizar (e batizar) o evento. Com a companhia de mais de 70 dos melhores conjuntos do mundo na prova, a expectativa da organização é colocar o Brasil no mapa internacional dos cavalos.

Foi neste ambiente pós-Pan, pós-confusão e pós-polêmica que César conversou com a Gazeta Esportiva.Net. O experiente cavaleiro fez questão de explicar o já resolvido problema com Vítor Alves, comentou o desempenho do Brasil no Pan do Rio e revelou as expectativas para o hipismo no Brasil após o ineditismo do evento de Doda. E sem derrubar obstáculos.

Popularizar é o objetivo

O hipismo brasileiro já conquistou campeonatos mundiais, medalhas olímpicas e pan-americanas, mas ainda há uma barreira invisível a ser rompida com o grande público. Considerada de elite, a modalidade ainda não conseguiu cair 100% no gosto do brasileiro, embora nomes como Nelson Pessoa, Álvaro Afonso de Miranda Neto e Rodrigo Pessoa não escapem do assédio e da admiração dos fãs.

Porém, o esporte sonha com uma guinada nesta semana. Por iniciativa de Doda e com o apoio de sua mulher, São Paulo é palco do Athina Onassis International Horse Show, que, além de realizar inúmeros concursos nacionais de saltos, ainda receberá o primeiro CSI cinco estrelas da história do país.

Mais de 70 conjuntos confirmaram presença na Sociedade Hípica Paulista, onde se concentra a chance de desenvolver no brasileiro o gosto pelos cavalos. Para André Beck, organizador do evento, as provas podem até não ajudar a diminuir o custo reconhecidamente alto do hipismo no Brasil, mas já pode encurtar a distância entre as crianças e as selas.

“Hoje, para uma criança conseguir montar um cavalo e ter aula duas vezes por semana é relativamente fácil. Não é caro, assim como não é caro ter aulas de tênis, natação e inglês”, compara André, que acredita que os melhores talentos descobertos poderiam, aí sim, ser trabalhados com a ajuda de patrocinadores. E claro, da TV, “que vai massificar o show que a gente quer tanto mostrar”.

Gazeta Esportiva.Net: É mais gratificante conquistar a medalha em casa após a confusão que houve na definição das seletivas para a equipe do Pan?
César Almeida:
Sem dúvida nenhuma. Eu sou brasileiro, e meu treinamento é feito só no Brasil. Não tive oportunidade de fazer nenhum treinamento fora do país. Conquistei minha vaga objetivamente na pista. Não sei se feliz ou infelizmente, mas eu fui o único. Minha parte eu fiz, que era conquistar a vaga em um critério objetivo. Por isso, tive mais tranqüilidade e fiquei de fora de toda essa confusão. Minha vaga não dependia de nenhuma confusão já instalada. Isso tudo foi bem superado pela equipe, quando ficou decidido que ela já estava formada. Todo mundo se concentrou, os problemas foram esquecidos e a resposta está aí: medalha de ouro, porque a equipe estava realmente unida.

GE.Net: Você chegou a conversar com o Vítor Alves depois da definição da equipe ou dos próprios Jogos Pan-americanos?
Almeida:
O Vítor é um grande amigo meu, com quem eu treino e por quem eu tenho muito carinho há bastante tempo. Essa medalha que eu ganhei tem a participação dele, que fez meu último treinamento e que me ajudou lá (no Rio de Janeiro) em vários momentos. Como ele conhecia bastante meu cavalo e me conhecia há muito tempo, a gente teve bastante contato e o respeito de todos. Nosso objetivo lá não era pessoal; era algo muito maior, era uma medalha para o país. Todo mundo respeitou isso, e a gente conseguiu essa medalha com o apoio de todos, independente da confusão instalada.

GE.Net: Durante o Pan, o Rodrigo Pessoa afirmou que a conquista da vaga olímpica e da medalha de ouro no concurso por equipes seria uma resposta aos críticos. Quem seriam os críticos?
Almeida:
Não vejo isso. A gente tinha uma certa tranqüilidade em relação à vaga olímpica, porque os EUA já tinham a vaga garantida e a gente poderia ficar até na quarta colocação para conquistar a nossa. Era uma coisa totalmente possível de acontecer. Logicamente, o objetivo todo da equipe era trazer a medalha de ouro, e não apenas conquistar a vaga. Acho que esse foco é que foi mais importante: trazer essa medalha de ouro e, com ela, a vaga olímpica. Acho que essa foi a resposta.

GE.Net: A presença de um CSI cinco estrelas no Brasil ajuda como incentivo à popularização do esporte?
Almeida:
Não tenha dúvida, é um marco para nossa história. O Doda e a Athina estão de parabéns pela oportunidade única. O esporte inteiro tem que agradecer esta oportunidade que ele trouxe. Eles são dois grandes amigos meus e sabem da importância deste evento para o nosso país. O Doda já representou várias vezes o Brasil e sabe o quanto isso é importante para os cavaleiros, para os jovens e para o nosso esporte. Os dois foram brilhantes quando transformaram nosso esporte nesse evento e dar essa oportunidade para todo mundo.

GE.Net: Como foi a receptividade do torneio em relação aos cavaleiros do exterior e, em especial, aos cavaleiros europeus?
Almeida:
A gente chegou aqui envolvido naquele glamour todo do Pan-americano, com grandes cavaleiros que só acompanharam esse concurso pela televisão – ou muitos até nem acompanharam. Quando você chega aqui, tem muita comemoração de seus amigos, dos brasileiros, inclusive dos que moram no exterior. Isso foi muito bacana de sentir, todo mundo muito entusiasmado com essa medalha. Há um agradecimento especial dos brasileiros por uma medalha que o grupo trouxe para o Brasil.

GE.Net: Houve comparação em relação às pistas entre quem competiu no Pan e quem veio a São Paulo para este evento?
Almeida:
Não houve essa comparação. Em relação ao Athina, está todo mundo muito contente com a estrutura que estão encontrando aqui, com o piso de primeira qualidade. Está todo mundo bem satisfeito, tenho certeza de que não há ninguém reclamando de nada. As cocheiras são boas, e está todo mundo bem satisfeito com a estrutura.

GE.Net: Para quem está começando a competir agora, qual é a importância deste tipo de evento no Brasil?
Almeida:
É muito importante, tendo em vista que apenas convidados vieram saltar. Ficou muita gente de fora, que queria estar saltando aqui. É importante participar de um evento como esse, que cria um elo diferente: não basta você simplesmente se inscrever no concurso, você precisa ser convidado. Para isso, você tem que ter um bom relacionamento e um bom ranking. Esse é um diferencial, mas não há dúvidas da importância para eles de virem observar os grandes cavaleiros do mundo. É uma oportunidade única.

GE.Net: A maioria dos cavaleiros que estão começando agora ainda não tem muito espaço no exterior, certo?
Almeida:
Não, não têm. É muito difícil. Mas eles vão muito para assistir os concursos lá fora, mas eles não têm essa oportunidade de estar aqui, em seu país, podendo ver esses cavaleiros e esses cavalos, que são sensacionais.

GE.Net: Tanto o tênis quanto o hipismo são considerados esportes de elite, embora os dois tenham grandes ídolos no Brasil. O que falta para que o hipismo alcance um patamar mais popular como o do tênis?
Almeida:
Acho que o que falta é incentivo de empresas, de patrocínios. A gente tem muita dificuldade de realizar grandes eventos como esse por falta de patrocinadores. Se a gente tivesse mais apoio, conseguisse entrar um pouco mais na mídia, teríamos um retorno maior, sem dúvida nenhuma. Aí então eu acredito que o esporte poderia ficar um pouco mais popular do que ele é.

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