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12/09/2007
Montagem sobre foto de Túlio Vidal/Gazeta Press

Representante do Brasil nas Olimpíadas de 1992 e 1996, a ex-judoca Rosicléia Campos assumiu o comando da seleção feminina de judô em 2005, início do ciclo olímpico para a disputa em Pequim-2008. Jovem e extremamente agitada ao lado do tatame, ela pode ser considerada umas das principais responsáveis pela evolução pela qual o judô feminino brasileiro está passando: nos últimos Jogos Pan-americanos, por exemplo, as mulheres medalharam em todas as categorias, obtendo resultados melhores que os badalados membros da seleção masculina.

Se há uma unanimidade entre as judocas da seleção brasileira que começam a disputar o Mundial do Rio nesta quinta-feira, é a de que Rosicléia provocou mudanças positivas na forma que as atletas nacionais encaravam as competições. Agora, de acordo com elas, as brasileiras se sentem mais unidas e confiantes. Com isso, os resultados internacionais melhoraram e, consequentemente, o respeito ao judô feminino brasileiro aumentou.

No entanto, em entrevista à Gazeta Esportiva.Net, a treinadora revela acreditar que, por melhor que seja o desempenho no Mundial, o respeito merecido só virá com uma medalha olímpica. Para isso, o trabalho já começou: além de muita união, é necessário manter o trabalho físico reforçado nas atletas, mesmo que isso signifique conflitos estéticos. “Se você pergunta para as atletas se elas preferem ficar bonitas ou ganhar a medalha em Pequim, todas vão preferir ficar feias, mas com a medalha no peito”, brinca Rosicléia. Confira a entrevista:

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Foto: Túlio Vidal/Gazeta Press
 
Gazeta Esportiva.Net: Muitos ex-atletas viram técnicos e não dão certo. Por que é diferente com você?
Rosicléia Campos - No início, é porque eu ainda era atleta (risos). Quando estava nessa transição para virar técnica, cheguei até a ser confundida como atleta em algumas competições. Eu também tenho muita vontade de mudar a história do judô feminino, da qual faço parte. Queremos sair dessa comparação com o masculino para que as mulheres possam escrever sua própria história.

GE.Net - E o que precisa para escrever a própria história?
Na verdade, a gente já começou, mas precisa da medalha olímpica para consolidar essa história. Por exemplo, no começo do ano, nós tivemos uma conquista inédita, quando fomos campeãs da Supercopa do Mundo de Hamburgo (na ocasião, a meio pesado Edinanci Silva ficou com o ouro e a pesado Priscila Marques conquistou a prata). Esta é uma competição tão difícil quanto o campeonato mundial, só que não se dá o devido valor porque não é um torneio pontual. Ninguém lembra o caminho para se chegar até a medalha olímpica e mundial.

GE.Net - O reforço físico promovido nas atletas desde 2006 é a causa da evolução do judô feminino brasileiro no cenário mundial?
Tecnicamente as brasileiras são absurdamente boas. Antes, elas até faziam a parte física, mas havia um medo absurdo de largar o tatame. Havia um sentimento de culpa por não estar treinando golpe, mas o que precisava era dar um upgrade na parte física. Houve uma conscientização não só delas e sim dos clubes, do entorno e isso fez com que a estrutura física delas mudasse.

GE.Net - Você pode dar um exemplo?
A Priscila Marques entrava na luta com medo de cansar. Por quê? Porque não tinha uma parte física realmente trabalhada. Hoje ela entra no tatame, luta e sai inteira.

GE.Net - Sob a alegação de preservar a estética, houve alguma resistência das atletas quando vocês optaram por reforçar o trabalho físico?
Quando eu falo em várias entrevistas que eu não quero uma Gisele Bundchen na minha equipe, é real. Começávamos a perder a competição já na hora da pesagem porque as brasileiras eram todas mirradinhas e as européias e cubanas tinham uns braços absurdos. Hoje, vibramos uma com outra. Colocamos setenta e poucos quilos no supino para a companheira e começamos a gritar: “Vamos lá, sua pangaré, você não é de nada”. Isso faz com que seja gostoso treinar parte física. Nosso objetivo é muito mais do que ser bonitinha. Depois, coloca silicone, faz lipoescultura, sei lá.

GE.Net - O que mais mudou?
A conscientização de que elas podem vencer. Antes do Pan, eu falava: “Vocês vão ganhar sete medalhas” e elas ficavam meio duvidando. Mas eu tinha certeza do que estava falando, porque via o trabalho. O treino é importante, a preparação física também, mas, se na hora da luta amarelar ou ficar na dúvida, a adversária já está com o waza-ari na frente. Eu não admito que elas falem: “Não consigo”, porque se disser isso, já está perdendo. O que existe é “vou tentar”.

GE.Net - Outro fator apontado pelas atletas é o fato de o judô agora ser visto como esporte individual, mas pensado com uma mente coletiva...
Isso também mudou, porque trabalhar com mulher é muito complicado. Mulher compete entre si. Eu via isso de fora. Quando entrei, nos conscientizamos que a vitória individual era também do grupo. Pensamos o seguinte: se existe uma coisa ruim, isso é dividido por sete e fica menos pesado para cada um. Se há uma coisa boa, a gente multiplica por sete. Então, não temos problemas (risos). Quando tem algo ruim, fechamos a porta e lavamos a roupa suja. Sai todo mundo mais leve.

GE.Net - Esse grupo é unido?
Sim, nos falamos o tempo todo, mesmo quando não estamos treinando no mesmo lugar. É chato quando estão todas muito juntas, mas é doloroso quando a gente se separa. Somos uma família, pois passamos muito tempo longe de casa e cada um tem seu problema pessoal. E eu também não tenho aquilo de “Ah, sou a técnica”. Ter uma equipe como essa é um presente de Deus.

GE.Net - Como o judô feminino brasileiro está sendo visto no exterior?
Antes, existia um respeito individualmente, para atletas como a Edinanci Silva e a Danielle Zangrando, mas hoje toda equipe é respeitada. Começou de dentro para fora: as brasileiras mesmo se respeitam como equipe, não de forma individual. Por isso, o mundo nos solicita para treinar. Não vamos mais atrás dos treinos: os treinos chegam até nós. Sou megaorgulhosa de tudo isso.

GE.Net - E esse respeito começou quando?
Eu peguei a equipe em 2005, mas já estava encaminhado. Apesar que, depois das eliminações no Mundial daquele ano, coloquei todo mundo no quarto e falei: “Estou com vergonha de vocês”. Não por elas terem perdido, mas pela forma como elas perderam. Quando se perde querendo ganhar, é uma coisa, mas lá foi horrível. Em janeiro de 2006, eu sentei com o Ney (Ney Wilson Pereira da Silva, coordenador-técnico da Confederação Brasileira de Judô) e expus que estava tudo errado. A minha condição de permanecer era dividir totalmente o feminino do masculino, fazendo um trabalho diferenciado. Queria promover uma avaliação e comprovar cientificamente que elas eram fracas fisicamente. A partir daí, tudo mudou. É por isso que me considero técnica desde 2006. Trata-se de um trabalho recente e nós vamos colher muito frutos.

GE.Net - Como você imagina o judô feminino brasileiro daqui a dez anos?
Eu vou mais perto e imagino o próximo ciclo olímpico. Tenho certeza que as meninas que vêem esta equipe estão doidas para se unir ao time. Isso motiva quem está atrás da vaga e quem está dentro da seleção. Nenhuma delas quer sair e isso é muito bom. O motivacional tem que ser permanente, até para acordar. Quando termina o treino, está todo mundo feliz. Daqui a cinco anos, eu vejo um outro judô feminino, com outra cara, graças a Deus.

GE.Net - Das suas atletas, você considera a Edinanci Silva aquela que tem melhores chances no Mundial?
Ela está muito concentrada. Mesmo já tendo medalhado na competição, a Edinanci é uma das atletas que mais mudou em relação à concentração e ao objetivo real nas competições. Quando está com todo mundo, a Edinanci é a mais fechada, até pelo massacre psicológico que ela sofreu em 1996. Lembro que a gente saía para correr e brotava repórter de árvore. Aquilo foi muito ruim para ela e eu a admiro muito por continuar aqui. Só que entre a gente, a Edinanci é a mais engraçada, imita todo mundo.

GE.Net - Quem, por exemplo?
Ela imitando o Branco Zanol (Eldemar “Branco” Zanol, ex-judoca) é a coisa mais engraçada do mundo. Depois do Pan, a gente vinha na van com ela imitando ele. De repente, demos de cara com o Branco. Todo mundo riu.

GE.Net - No judô, fala-se muito em “o resultado depende de como vou acordar no dia da competição”. Dá para diminuir essa influência?
Fazemos tudo para minimizar. Mas além de como você acorda no dia, a competição de judô começa no sorteio da chave. Até fazemos um exercício: montamos a chave que elas querem. É muito engraçado. Falamos: “Olha, eu vou cair com fulano, enquanto ciclano vai cair do outro lado da chave com beltrano”. É pensamento positivo. Acredito muito em energia, mas temos que estar preparadas sempre para o pior, caindo na estréia contra a melhor judoca, porque aí já passa por ela e embala no torneio.

GE.Net - No Pan, o judô feminino superou o masculino em quantidade e qualidade de medalhas. Você achava que isso era possível?
Eu nunca pensei no masculino, até porque eu quero dividir as duas modalidades para evitar comparações. Compararam a gente com o masculino, mas isso para mim não tem a menor importância. Nossa comparação é conosco mesmo. Nossa superação é em cima de onde já passamos e onde queremos chegar. Não ficamos preocupadas com os meninos. Somos independentes hoje.

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