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Representante do Brasil nas Olimpíadas de 1992 e 1996, a
ex-judoca Rosicléia Campos assumiu o comando da seleção feminina
de judô em 2005, início do ciclo olímpico para a disputa em
Pequim-2008. Jovem e extremamente agitada ao lado do tatame,
ela pode ser considerada umas das principais responsáveis
pela evolução pela qual o judô feminino brasileiro está passando:
nos últimos Jogos Pan-americanos, por exemplo, as mulheres
medalharam em todas as categorias, obtendo resultados melhores
que os badalados membros da seleção masculina.
Se há uma unanimidade entre as judocas da seleção brasileira
que começam a disputar o Mundial do Rio nesta quinta-feira,
é a de que Rosicléia provocou mudanças positivas na forma
que as atletas nacionais encaravam as competições. Agora,
de acordo com elas, as brasileiras se sentem mais unidas e
confiantes. Com isso, os resultados internacionais melhoraram
e, consequentemente, o respeito ao judô feminino brasileiro
aumentou.
No entanto, em entrevista à Gazeta Esportiva.Net,
a treinadora revela acreditar que, por melhor que seja o desempenho
no Mundial, o respeito merecido só virá com uma medalha olímpica.
Para isso, o trabalho já começou: além de muita união, é necessário
manter o trabalho físico reforçado nas atletas, mesmo que
isso signifique conflitos estéticos. “Se você pergunta para
as atletas se elas preferem ficar bonitas ou ganhar a medalha
em Pequim, todas vão preferir ficar feias, mas com a medalha
no peito”, brinca Rosicléia. Confira a entrevista:
Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net
| Foto: Túlio Vidal/Gazeta Press |
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Gazeta Esportiva.Net: Muitos ex-atletas viram técnicos
e não dão certo. Por que é diferente com você?
Rosicléia Campos - No início, é porque eu ainda era atleta
(risos). Quando estava nessa transição para virar técnica, cheguei
até a ser confundida como atleta em algumas competições. Eu
também tenho muita vontade de mudar a história do judô feminino,
da qual faço parte. Queremos sair dessa comparação com o masculino
para que as mulheres possam escrever sua própria história.
GE.Net - E o que precisa para escrever a própria
história?
Na verdade, a gente já começou, mas precisa da medalha olímpica
para consolidar essa história. Por exemplo, no começo
do ano, nós tivemos uma conquista inédita, quando fomos campeãs
da Supercopa do Mundo de Hamburgo (na ocasião, a meio pesado
Edinanci Silva ficou com o ouro e a pesado Priscila Marques
conquistou a prata). Esta é uma competição tão difícil
quanto o campeonato mundial, só que não se dá o devido valor
porque não é um torneio pontual. Ninguém lembra o caminho
para se chegar até a medalha olímpica e mundial.
GE.Net - O reforço físico promovido nas atletas
desde 2006 é a causa da evolução do judô feminino brasileiro
no cenário mundial?
Tecnicamente as brasileiras são absurdamente boas. Antes,
elas até faziam a parte física, mas havia um medo absurdo
de largar o tatame. Havia um sentimento de culpa por não estar
treinando golpe, mas o que precisava era dar um upgrade na
parte física. Houve uma conscientização não só delas e sim
dos clubes, do entorno e isso fez com que a estrutura física
delas mudasse.
GE.Net - Você pode dar um exemplo?
A Priscila Marques entrava na luta com medo de cansar. Por
quê? Porque não tinha uma parte física realmente trabalhada.
Hoje ela entra no tatame, luta e sai inteira.
GE.Net - Sob a alegação de preservar a estética,
houve alguma resistência das atletas quando vocês optaram
por reforçar o trabalho físico?
Quando eu falo em várias entrevistas que eu não quero uma
Gisele Bundchen na minha equipe, é real. Começávamos a perder
a competição já na hora da pesagem porque as brasileiras eram
todas mirradinhas e as européias e cubanas tinham uns braços
absurdos. Hoje, vibramos uma com outra. Colocamos setenta
e poucos quilos no supino para a companheira e começamos a
gritar: “Vamos lá, sua pangaré, você não é de nada”. Isso
faz com que seja gostoso treinar parte física. Nosso objetivo
é muito mais do que ser bonitinha. Depois, coloca silicone,
faz lipoescultura, sei lá.
GE.Net - O que mais mudou?
A conscientização de que elas podem vencer. Antes do Pan,
eu falava: “Vocês vão ganhar sete medalhas” e elas ficavam
meio duvidando. Mas eu tinha certeza do que estava falando,
porque via o trabalho. O treino é importante, a preparação
física também, mas, se na hora da luta amarelar ou ficar na
dúvida, a adversária já está com o waza-ari na frente. Eu
não admito que elas falem: “Não consigo”, porque se disser
isso, já está perdendo. O que existe é “vou tentar”.
GE.Net - Outro fator apontado pelas atletas é o
fato de o judô agora ser visto como esporte individual, mas
pensado com uma mente coletiva...
Isso também mudou, porque trabalhar com mulher é muito complicado.
Mulher compete entre si. Eu via isso de fora. Quando entrei,
nos conscientizamos que a vitória individual era também do
grupo. Pensamos o seguinte: se existe uma coisa ruim, isso
é dividido por sete e fica menos pesado para cada um. Se há
uma coisa boa, a gente multiplica por sete. Então, não temos
problemas (risos). Quando tem algo ruim, fechamos a porta
e lavamos a roupa suja. Sai todo mundo mais leve.
GE.Net - Esse grupo é unido?
Sim, nos falamos o tempo todo, mesmo quando não estamos treinando
no mesmo lugar. É chato quando estão todas muito juntas, mas
é doloroso quando a gente se separa. Somos uma família, pois
passamos muito tempo longe de casa e cada um tem seu problema
pessoal. E eu também não tenho aquilo de “Ah, sou a técnica”.
Ter uma equipe como essa é um presente de Deus.
GE.Net - Como o judô feminino brasileiro está sendo
visto no exterior?
Antes, existia um respeito individualmente, para atletas como
a Edinanci Silva e a Danielle Zangrando, mas hoje toda equipe
é respeitada. Começou de dentro para fora: as brasileiras
mesmo se respeitam como equipe, não de forma individual. Por
isso, o mundo nos solicita para treinar. Não vamos mais atrás
dos treinos: os treinos chegam até nós. Sou megaorgulhosa
de tudo isso.
GE.Net - E esse respeito começou quando?
Eu peguei a equipe em 2005, mas já estava encaminhado. Apesar
que, depois das eliminações no Mundial daquele ano, coloquei
todo mundo no quarto e falei: “Estou com vergonha de vocês”.
Não por elas terem perdido, mas pela forma como elas perderam.
Quando se perde querendo ganhar, é uma coisa, mas lá foi horrível.
Em janeiro de 2006, eu sentei com o Ney (Ney Wilson Pereira
da Silva, coordenador-técnico da Confederação Brasileira de
Judô) e expus que estava tudo errado. A minha condição de
permanecer era dividir totalmente o feminino do masculino,
fazendo um trabalho diferenciado. Queria promover uma avaliação
e comprovar cientificamente que elas eram fracas fisicamente.
A partir daí, tudo mudou. É por isso que me considero técnica
desde 2006. Trata-se de um trabalho recente e nós vamos colher
muito frutos.
GE.Net - Como você imagina o judô feminino brasileiro
daqui a dez anos?
Eu vou mais perto e imagino o próximo ciclo olímpico. Tenho
certeza que as meninas que vêem esta equipe estão doidas para
se unir ao time. Isso motiva quem está atrás da vaga e quem
está dentro da seleção. Nenhuma delas quer sair e isso é muito
bom. O motivacional tem que ser permanente, até para acordar.
Quando termina o treino, está todo mundo feliz. Daqui a cinco
anos, eu vejo um outro judô feminino, com outra cara, graças
a Deus.
GE.Net - Das suas atletas, você considera a Edinanci
Silva aquela que tem melhores chances no Mundial?
Ela está muito concentrada. Mesmo já tendo medalhado na competição,
a Edinanci é uma das atletas que mais mudou em relação à concentração
e ao objetivo real nas competições. Quando está com todo mundo,
a Edinanci é a mais fechada, até pelo massacre psicológico
que ela sofreu em 1996. Lembro que a gente saía para
correr e brotava repórter de árvore. Aquilo foi muito ruim
para ela e eu a admiro muito por continuar aqui. Só que entre
a gente, a Edinanci é a mais engraçada, imita todo mundo.
GE.Net - Quem, por exemplo?
Ela imitando o Branco Zanol (Eldemar “Branco” Zanol, ex-judoca)
é a coisa mais engraçada do mundo. Depois do Pan, a gente
vinha na van com ela imitando ele. De repente, demos de cara
com o Branco. Todo mundo riu.
GE.Net - No judô, fala-se muito em “o resultado
depende de como vou acordar no dia da competição”. Dá para
diminuir essa influência?
Fazemos tudo para minimizar. Mas além de como você acorda
no dia, a competição de judô começa no sorteio da chave. Até
fazemos um exercício: montamos a chave que elas querem. É
muito engraçado. Falamos: “Olha, eu vou cair com fulano, enquanto
ciclano vai cair do outro lado da chave com beltrano”. É pensamento
positivo. Acredito muito em energia, mas temos que estar preparadas
sempre para o pior, caindo na estréia contra a melhor judoca,
porque aí já passa por ela e embala no torneio.
GE.Net - No Pan, o judô feminino superou o masculino
em quantidade e qualidade de medalhas. Você achava que isso
era possível?
Eu nunca pensei no masculino, até porque eu quero dividir
as duas modalidades para evitar comparações. Compararam a
gente com o masculino, mas isso para mim não tem a menor importância.
Nossa comparação é conosco mesmo. Nossa superação é em cima
de onde já passamos e onde queremos chegar. Não ficamos preocupadas
com os meninos. Somos independentes hoje.
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