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Por Marta Teixeira
Em outubro de 2006, o técnico Fernando Vanzella começou
uma parceria bem-sucedida com o nadador Thiago Pereira. Aos
21 anos, o atleta nascido em Volta Redonda desponta como uma
das grandes esperanças de medalha para o Brasil nos Jogos
Olímpicos de Pequim-2008.
Favorito na eleição para melhor nadador do mundo,
Thiago ocupa um lugar diferenciado no cenário brasileiro
e também concorre ao prêmio Brasil Olímpico
como melhor atleta do país em 2007. Nesta entrevista
à Gazeta Esportiva.Net, Vanzella revela o lado descontraído
do atleta e explica o que torna seu pupilo tão especial.
Para ele, Thiago já está no mesmo patamar de atletas
como Gustavo Borges e Fernando Scherer, faltando apenas a medalha
olímpica para igualar tudo de vez.
Ainda no início da preparação para os Jogos
Olímpicos de Pequim, a meta da dupla na Super Final da
Copa do Mundo em piscina curta, em Belo Horizonte, que começa
nesta sexta-feira, é limpar movimentos e melhorar os
tempos. O que já levou o nadador a bater o recorde mundial
dos 200m medley, na Alemanha, na semana passada.
Em casa (Thiago é atleta do Minas Tênis), esperam
manter os 100% de aproveitamento nas provas de medley (100m,
200m e 400m), que o brasileiro venceu em Estocolmo e Berlim.
Tudo para concretizar o principal projeto do nadador em 2008:
subir ao pódio na China, onde as disputas são
em piscinas de 50m.
Quatro anos depois de sua primeira participação
olímpica, Vanzella acredita que Thiago já possui
a maturidade e a confiança para fazer frente a seus principais
adversários: os norte-americanos Michael Phelps e Ryan
Lochte e o húngaro Laszlo Cseh.
Mesmo considerando Phelps ainda ‘imbatível’,
o treinador lembra que não está longe o dia no
qual esta situação pode mudar. Mas quando o assunto
é recorde mundial, ele prefere a prudência. “É
cedo demais”, diz, lembrando que disputas em piscinas
de 25m e 50m têm características muito diferentes.
Mas o trabalho para reverter esta situação segue
braçada após braçada.
Gazeta Esportiva.Net – Qual o foco de Thiago na carreira?
Fernando Vanzella - O objetivo principal é ganhar
uma medalha olímpica. Para isso, ele tem pelo menos três
adversários principais, Ryan Lochte e Michael Phelps
e o húngaro (Laszlo Cseh), e precisa superar
pelo menos um deles para conseguir uma medalha em Pequim, além
dos nomes novos que vão surgindo. Mas ele está
muito focado. Este ano, colocamos o Pan como principal objetivo
e ele conquistou oito medalhas, seis de ouro, uma de prata e
uma de bronze, sempre melhorando seus tempos.
GE.Net
- Ele já teve uma experiência olímpica antes,
em Atenas-2004...
Vanzella – Sim. Mas ele tinha 18 anos. Ainda
estava em situação de amadurecimento, não
tinha um currículo como campeão mundial (em piscina
curta) nem era recordista do mundo (200m medley, em piscina
curta).
GE.Net - Faltou maturidade?
Vanzella - Maturidade e tranqüilidade. Natação
é um esporte de maturação constante. A
maioria dos atletas atinge seu auge com 22, 24 anos.
GE.Net – Quais provas ele vai disputar em Pequim?
Vanzella - O Thiago tem seis índices (200 m
peito, 200 m livre, 100 m e 200 m costas, 200 m e 400 m medley),
mas não vai nadar todas elas. Provavelmente, vamos focar
mais no medley.
GE.Net - Você falou do
Pan e depois dele vocês começaram a trabalhar especificamente
para Pequim. Como está a preparação?
Vanzella - Fizemos um trabalho de preparação
em três fases. A primeira termina agora em dezembro e
inclui as etapas da Copa do Mundo e o Open de São Paulo.
Vamos fazer um trabalho especial de virada no estilo crawl,
que ele precisa melhorar para fechar melhor as provas. De janeiro
a maio, tem o Sul-americano (Rio de Janeiro), o Mundial em Manchester
e o Troféu Maria Lenk (Rio), a última seletiva
olímpica. Depois tem o trabalho final de junho a agosto.
GE.Net - Que avaliação faz da
preparação até agora?
Vanzella - Não é uma avaliação
muito concreta porque a competição na piscina
de 25m é muito diferente da longa (50m, medida olímpica), mas foi muito bom porque, antes disso, a última disputa
dele em piscina curta tinha sido em janeiro de 2006, em Nova
York, e é bom ter alguns tempos nos 25m para criarmos
parâmetros. Já deu para perceber uma evolução
dele no crawl porque ele está finalizando o medley melhor
que antes e é o que ele precisava. Depois tem o Open
em São Paulo, que será em piscina longa.
GE.Net - Como explicar os resultados dele na Copa?
Vanzella - Ele tem um trabalho submerso muito bom.
Hoje, o Thiago é melhor de (piscina) curta que de longa
porque precisa melhorar a resistência geral para os 50m.
GE.Net - Thiago bateu um recorde de Michael
Phelps nos 25m (200m medley). Já podemos esperar um recorde
dele também na piscina longa?
Vanzella - É cedo demais, principalmente porque
o Phelps acabou de bater o recorde (29/03/2007, em Melbourne,
com 1min54s98, nos 200m medley).
GE.Net -
Todos esperam o duelo entre eles, já sabem quando isso
vai acontecer?
Vanzella - Não sei em quais etapas ele vai estar,
mas este ano o Thiago participou de uma competição
no Missouri com o Phelps, em fevereiro, e vamos tentar repetir
em 2008. Seria interessante, até para criar um parâmetro.
GE.Net - Já dá para pensar que
o Thiago pode vencer o Phelps?
Vanzella - Não. O Phelps ainda é imbatível.
Ele está alguns degraus acima dos outros.
GE.Net
- Thiago é um novo Gustavo Borges, um novo Xuxa (Fernando
Scherer) na natação brasileira?
Vanzella – Hoje, ele está praticamente
no mesmo patamar deles. O que falta é a medalha na Olimpíada.
No Pan, ele bateu um recorde, conquistando mais medalhas que
qualquer outro atleta do mundo em uma única edição.
É um feito que o coloca em uma posição
significativa. Teve também o recorde mundial nos 25m,
que os outros (Borges e Xuxa) também conseguiram. O Gustavo
no revezamento (4x100m livre) e Xuxa no individual (50m livre).
O único detalhe, que não é um detalhe,
é a medalha olímpica. Com isso ele vai atingir
o mesmo status dos outros.
GE.Net –
Neste momento, o que significa para a carreira e os projetos
do Thiago ter conquistado este recorde mundial?
Vanzella – Ele sempre teve muita auto-estima
e, por isso, é um nadador tão especial também. Mas isto aumenta ainda mais, porque a natação é
como uma escada, feita de vários degraus.
Com o recorde, ele começa a acreditar que pode vencer
aqueles que são seus principais adversários: Cseh,
Lochte, Phelps. Porque, como em qualquer esporte, ninguém
é imbatível. Ele sabe que pode ganhar ou se aproximar
muito destes nomes.
Além disso, o recorde te coloca no cenário internacional
de maneira diferente. As pessoas passam a te olhar de forma
especial. Tudo isso ajuda na estrutura para lutar pela medalha.
GE.Net – A torcida pensa em mais recordes.
E vocês, o que traçaram como objetivos
para Belo Horizonte?
Vanzella – As etapas estão sendo usadas
como preparação para aprimorar os fundamentos
nas provas dele e quero encerrar a temporada pensando nisso.
Em Minas, o Thiago vai nadar uma prova de crawl (200m livre),
que não tinha disputado nas etapas anteriores, justamente
por isso.
Vamos competir pensando em vencer estas provas (Thiago também
nadará os 100m, 200m e 400m medley), buscando melhorar
seus tempos. Sabemos que no nível que os recordes estão
é cada vez mais difícil, mas o objetivo é
estar sempre melhorando. O Thiago chegou cansado das viagens,
teve o resfriado, mas foi se recuperando ao longo da semana
e ontem (quarta-feira) fez um treino muito bom. Vamos ver.
GE.Net
– Thiago, César Cielo, Kaio Márcio, o que
já se pode falar da nova geração da natação
brasileira?
Vanzella – É uma geração
muito boa, que veio para consolidar a natação
brasileira. O Cielo é um velocista excelente, um nadador
de qualidade, que vai brigar por medalha nas Olimpíadas.
Nossos revezamentos têm chances de finais e se melhorarem,
quem sabe não podem conquistar também medalhas?
No Pan, o Nicolas Oliveira surpreendeu nos 200m livre. O Kaio,
na borboleta, já vinha nadando bem. Os 50m (distância
na qual é recordista mundial) não participa das
Olimpíadas, mas ele vai nadar os 100m e 200m.
Status eles já têm. Este é um grupo que
vai conseguir bons resultados (em Pequim).
GE.Net
– Futuro promissor, mas, de repente, a natação
brasileira é abalada pelo caso Rebeca Gusmão.
Que tipo de reflexo isto pode produzir?
Vanzella – Infelizmente, para o esporte, é
sempre ruim. É uma publicidade negativa. A gente vê
indícios de coisas erradas que aconteceram, mas temos
de aguardar os resultados. São coisas ruins para quem
trabalha por um esporte limpo, mas vamos esperar porque ainda
estão investigando.
GE.Net –
Pode servir para alguma coisa boa esta experiência?
Vanzella – Caso seja concretizada a acusação,
é um alerta para a geração nova que está
chegando porque mostra que o caminho não é por
aí. Temos a ciência nos ajudando muito na parte
de biomecânica, um trabalho que dá resultado, mas
é mais lento, mais demorado. Mas é isto que contribui
para um esporte melhor e limpo.
GE.Net –
O que torna o Thiago um nadador especial?
Vanzella – Ele é extremamente competitivo,
quando coloca um objetivo como principal compete focado nisso
e consegue sair-se muito bem.
GE.Net - E como é o Thiago para treinar?
Vanzella - Ele é tranqüilo. Às
vezes, brinca durante o treino, dizendo que está chato,
está ruim. É uma maneira provocativa de mexer
com o técnico, mas na hora faz o que precisa com qualidade.
Natação é um esporte que exige muita
disciplina, dedicação. Estas brincadeiras são
naturais, para descontrair.
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