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Por Marta Teixeira
| Foto: Divulgação/ZDL |
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| Bom companheiro... Depois de uma temporada fazendo esforço extra para que Scheidt pudesse competir na Laser e Star, Bruno Prada ganhou como recompensa sua primeira participação olímpica |
Quando os bicampeões olímpicos Torben Grael
e Marcelo Ferreira anunciaram que não iriam disputar
a vaga na classe Star para os Jogos Olímpicos de Pequim-2008,
a primeira coisa que se imaginou é que a vida seria
muito fácil para os campeões mundiais Robert
Scheidt e Bruno Prada. Na raia montada na Baía da Guanaraba, no entanto, a realidade se mostrou bem diferente.
A dupla teve trabalho para assegurar a vaga na seleção
olímpica e por pouco não foi desbancada pela parceria
formada por Lars Grael e Marcelo Jordão. Com direito
a acordo de cavalheiros para evitar uma decisão nos tribunais
e muita competição na água, Scheidt e Prada
acabaram se classificando e agora já definem as estratégias
para lutar pelo pódio olímpico.
Programada para a cidade de Qingdao, próxima a Pequim,
a competição de vela será disputada em
uma área de ventos fracos e muita correnteza. Conhecido
como um atleta que combina como poucos qualidade técnica,
preparo físico e estratégia de competição,
não é surpresa que Scheidt e seu parceiro já
tenham toda uma estratégia preparada para lidar com
isso.
Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, Scheidt revela
que a dupla já tem em construção dois
novos barcos e que, após a experiência na Semana
Pré-olímpica, elegeu a velejada em vento fraco
como aspecto prioritário a ser melhorado para Pequim.
“Esta é a grande novidade, nosso grande trunfo
para testar estes dois barcos e ver qual é mais rápido
na raia na China”.
Octacampeão mundial e bicampeão olímpico
na classe laser, o velejador paulista não teme a responsabilidade
de defender a tradição em uma classe que chegou
ao pódio nas últimas quatro Olimpíadas.
Acostumado à pressão pela expectativa de resultados,
Scheidt destaca o momento de transição na equipe
olímpica. Afirma que não vai a Pequim como única
esperança de pódio e aposta em bons resultados
também na 470 feminina e na RS:X (prancha a vela).
Quanto a sua ex-classe, a Laser, também é otimista
e destaca o catarinense Bruno Fontes não apenas como
um substituto, mas um provável candidato a importantes
resultados internacionais.
Traçando os planos para Pequim, Scheidt acredita que
os brasileiros poderão transformar em vantagem até
as esperadas dificuldades de adaptação e com
a alimentação na China.
Gazeta Esportiva.Net - Você acaba de confirmar
a vaga olímpica ao lado de Bruno Prada, mas, ao contrário
do que alguns imaginavam foi uma disputa acirrada...
Robert Scheidt - Muito acirrada, com o Lars velejando
muito bem, principalmente nos ventos fracos. Ele começou
muito bem o campeonato, chegou a estar liderando no segundo
dia, mas conseguimos manter uma boa regularidade e velejar
o final do campeonato mais em função dele, tentando
sempre marcá-lo e ter maiores chances de ficar com
a vaga. O final do campeonato foi um pouco melhor para nós,
conseguimos chegar às quatro últimas regatas
à frente dele e garantir a vaga. Mas foi um campeonato
muito tenso porque é uma seletiva, só o primeiro
sai de lá feliz. Só o primeiro sai classificado
para Pequim. Queríamos muito isso. Foram dois anos e
meio na classe Star lutando para esta vaga, agora conseguimos respirar um pouco mais aliviado e se preparar bem
para Pequim.
GE.Net - Vocês esperavam uma disputa tão
acirrada?
Scheidt - Sabíamos que dependeria muito da condição
de vento. Se ele aumentasse, passasse de 10-12 nós,
acho que por sermos a tripulação mais bem
treinada, mais bem preparada fisicamente levaríamos mais vantagem.
Mas como os ventos eram fracos, a velocidade dos barcos se
equiparou muito e como Lars tecnicamente é muito forte,
é um velejador com técnica muito apurada, eu
sabia que teríamos muito trabalho se o vento fosse fraco.
GE.Net - E como está a programação
até Pequim?
Scheidt – Está pronta. Começamos
em Bacardi Cup, em março, em Miami, embarcamos domingo
que vem e depois temos o Mundial, em Miami. São
os dois eventos grandes no começo do ano. Em maio,
partimos para a Europa para a preparação final
e, em julho, embarcamos para Pequim. Temos
um programa bem intenso, o que precisava mesmo era sacramentar
esta vaga.
GE.Net - Vocês pretendem fazer algo especial
para Pequim?
Scheidt - Pequim é raia com ventos fracos também
e com muita correnteza. Estamos fazendo um trabalho
de desenvolvimento de equipamento. Temos dois barcos novos
na Europa - um em estaleiro na Alemanha (Mader), outro em
um estaleiro italiano (Lilia) -, que já estão
ficando prontos. Esta é a grande novidade, nosso grande
trunfo para testar estes dois barcos e ver qual é mais
rápido na raia na China. Também pretendemos
velejar muito em ventos fracos nos próximos meses para
melhorar como dupla no vento fraco. Em vento
forte, sempre nos garantimos e velejamos bem. No ano passado,
ganhamos o Campeonato Mundial em Portugal, e era vento forte.
Precisamos trabalhar muito esta questão da velejada
em vento fraco e do equipamento que usaremos para
essa condição.
GE.Net - Quando estes equipamentos serão entregues?
Scheidt - O alemão já está pronto
e o italiano fica pronto no começo de março.
GE.Net - Então, quando forem para a Europa
poderão começar os treinos já com eles...
Scheidt - Já. E vamos selecionar um que vamos mandar
para a China.
GE.Net - A China é um país muito diferente
em relação aos costumes e com um problema sério
de poluição. Vocês têm uma preocupação
especial quanto a isso? Porque nos Jogos Pan-americanos do
Rio (em 2007), a poluição na baía da
Guanabara (onde foram disputadas as regatas da vela) foi um
problema sério.
Scheidt - Vamos velejar em Qingdao, a 800km de Pequim,
e lá não tem muito problema de poluição.
Apesar de ser uma cidade grande, não é tão
poluída quanto Pequim. O maior cuidado que a gente
tem de ter é com a alimentação e o calor.
É muito quente e muito úmido, mas isso normalmente
o brasileiro está acostumado. A marina olímpica
é muito semelhante à de Atenas e vamos
ficar bem instalados porque ficaremos morando dentro da marina.
No evento-teste do ano passado (que venceu juntamente com
Prada), houve atletas com problemas de alimentação.
Eu, felizmente, não sofri muito, não. O brasileiro
é uma pessoa adaptável a muitas situações:
calor, alimentação diferente, a isso tudo a gente
consegue se adaptar muito melhor que os europeus, por exemplo.
Então, eu acho que a equipe brasileira vai contar isso
como vantagem. Esta situação de ser cidade grande,
alimentação difícil para nós não será ruim, não.
GE.Net - E quanto à competição
em Pequim, os principais adversários, que previsões
vocês já fazem?
Scheidt - Os principais nomes já estão garantidos.
O francês Xavier Rohar (e Pascal Rambeau), que é
o mais consistente, está sempre entre os três
primeiros. O neozelandês Hamish Pepper (e Carl Williams),
o inglês (Iain Percy e Andrew Simpson), o sueco (Tom
Lofstedt e Krister Carlsson) e o suíço (Flavio
Marazzi e Enrique de Maria) são os principais nomes.
Mas, Olimpíadas a gente nunca sabe. Pode aparecer alguém
velejando muito bem, sem pressão, tranqüilo como
o português (Afonso Domingos e Bernardo Santos) e também surpreenderem. Vamos
ter somente 15 países na Olimpíada. É
um campeonato de pouco barco, mas todos eles vão vir
muito fortes.
GE.Net - No Mundial (em Cascais, 2007), vocês
foram a surpresa. Agora não tem mais este elemento.
A vida será mais difícil em Pequim?
Scheidt - Sempre digo que é muito mais difícil
você defender um título do que ganhar ele pela
primeira vez, porque tem todo o peso do favoritismo, de você
mesmo cobrar um resultado, no mínimo, igual ao que
você fez no ano anterior. Mas sempre foi assim na minha
carreira. Na Laser, passei muito por isso, fui para vários
Mundiais e Olimpíadas como favorito. Acho que sei bem
como administrar essa questão. O que precisamos
fazer agora é trabalhar muito duro estes próximos
meses. O foco tem de ser melhorar nossa velejada no vento
fraco e chegar tranqüilos nas Olimpíadas. Não
mistificar muito a questão de serem Jogos Olímpicos,
aquele glamour todo que envolve a Olimpíada. É
ir tranqüilo, velejar com calma, tentar ser regular.
Acho que temos tudo para fazer um bom resultado.
GE.Net - Por falar em cobrança, vocês estão
na vaga que antes era ocupada por uma dupla bicampeã
olímpica. Você acha que especificamente quanto
a isso haverá muita cobrança?
Scheidt - Acho que em cima disso, especificamente, não.
Mesmo porque o Torben (Grael) optou por fazer outra campanha. O curioso
é que quando eu optei por mudar da Laser para a Star,
a primeira reação das pessoas foi: 'pôxa,
mas o Brasil perde com isso porque a gente vai ter chance
de ganhar um medalha só'. Continuei velejando
e depois se criou aquela fantasia toda da disputa da vaga
entre eu e o Torben e, no final, ele optou por fazer a Volvo
Ocean Race. Isso deu
um novo gás na vela brasileira porque as coisas mudaram.
Eu saí da Laser, abri espaço para alguém
entrar e vou para a Star.
Sei que tem toda a tradição
da classe no Brasil. O Torben representou o país nas últimas cinco
Olimpíadas e, em quatro, foi medalhista. Temos realmente uma responsabilidade grande em fazer
bonito. O que é saudável nisso
é que o Marcelo Ferreira e mesmo o Torben, tenho certeza,
se pedirmos algumas dicas, eles vão se abrir.
Já trocamos muita idéia (com o Marcelo),
ele já me passou algumas regulagens, o que faziam,
o que não faziam, que velas usavam. Este intercâmbio
é bom, é saudável para a vela brasileira.
E o mesmo eu quero fazer com os velejadores de Laser, ajudar.
Poder contribuir.
| De malas prontas |
Foto:
Divulgação

Agora ao lado de Isabel Swan, Fernanda Oliveira - que em Atenas-2004 velejou ao lado de Adriana Kostiw - repete campanha olímpica na 470 feminina |
O Brasil possui vaga em oito
das 11 classes que serão disputadas em Pequim.
O país ainda pode obter representação
na Tornado e na Laser Radial feminino, dependendo do
resultado nos Mundiais. O de Tornado de 22 de fevereiro
a 1º de março e o de Laser radial, de 13
a 20 de março, e ambos em Auckland, na Nova Zelândia.
Com exceção das classes 470 masculina
e 49er, que definiram seus representantes nos campeonatos
mundiais, todas as outras o fizeram através de
seletiva. No último dia 15, terminou a Seletiva
Brasil de Vela, no Rio de Janeiro, com a definição
de sete nomes da equipe. A única classe pendente
é a Laser, que fará sua seleção
a partir desta sexta-feira, novamente no Rio.
Scheidt e Prada não são os únicos
classificados com calendário estabelecido para
a preparação olímpica. A Confederação
Brasileira de Vela e Motor (CBVM) levará todos
os convocados para a Holland Regatta, de 21 a 25 de
maio, em Medemblik, na Holanda. Além disso, os
titulares das classes RS:X masculina, 470 feminina e
49er farão um estágio de adaptação
à raia de Qingdao, entre os dias 15 e 29 de junho.
Confira a relação dos velejadores
já confirmados para Pequim:
Star – Robert Scheidt e Bruno Prada
470 feminino – Fernanda Oliveira e Isabel Swan
470 masculino – Fabio Pillar e Samuel Albrecht
49er – André Fonseca (Bochecha) e Rodrigo
Duarte
RS:X feminino – Patrícia Freitas
RS:X masculino – Ricardo Winicki (Bimba)
Finn – Eduardo Couto
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GE.Net - A vela é uma modalidade com tradição
de sempre conseguir, pelo menos, uma medalha para o Brasil
e que atravessa um momento de renovação. O que
nós podemos esperar de resultados em Pequim?
Scheidt - Esta Olimpíada é totalmente diferente. Vamos ter uma equipe renovada. Não vamos mais depender
dos nomes dos quais sempre dependemos. Acho que há outros
jovens talentos que vão poder surpreender. Podemos esperar resultados
na 470 feminina, com a Fernanda Oliveira e a Isabel
Swan. Elas têm andado entre as dez do mundo, foram quartas
no Mundial há dois anos, estão fazendo um trabalho
excelente e vão chegar bem na Olimpíada. Depois
temos o Ricardo Winick, o Bimba, indo para a terceira Olimpíada.
Da última vez, ele esbarrou em uma medalha, que acabou
não conseguindo. Eu apontaria a prancha a vela, com o Bimba, e a
470 feminina como as duas classes que vão entrar muito
fortes nesta Olimpíada.
GE.Net - E a Star...
Scheidt - (rindo) Creio que a Star também. Vamos
ver. Espero que a gente possa mostrar nosso trabalho.
GE.Net - A renovação na Laser é um tema que todos remoem porque saindo Scheidt fica uma lacuna. Como você avalia este processo especificamente em sua antiga classe, está garantido? O Bruno já está preparado?
Scheidt - Ele amadureceu muito neste último ano e meio. Sempre sofria para ficar entre os 20 e agora está ficando
entre os dez nos principais torneios (foi 11º no Mundial,
na Austrália, no início do mês). Acho
que ele é um nome mais bem cotado para conseguir a
vaga no Rio (a Laser terá uma Pré-olímpica
separada, a partir de sexta-feira no Rio de Janeiro). Espero
que ele consiga porque o vejo como o atleta mais maduro
para representar o Brasil este ano. E chegando na Olimpíada,
uma Olimpíada de vento fraco, os principais favoritos
vão dar umas escorregadas. Acho que neste momento,
se o Bruninho começar bem, pode ganhar confiança
ao longo da competição. Não vai ter aquele
peso do favoritismo, vai entrar tranqüilo e pode surpreender
sim. Eu torço por isso.
GE.Net - Você fala em fim de ciclo e está
aqui (ele esteve em Costa do Sauípe, durante a disputa
do torneio da ATP e aproveitou para matar as saudades da raquete
jogando), que marca o começo da despedida do Guga.
Como você avalia a trajetória dele e sua importância
no esporte brasileiro?
Scheidt - Sempre é difícil o momento de
parar. Olho para mim e não consigo me imaginar parando
de velejar. Mas o tênis é um esporte que exige
muito do físico. Jogar nestas quadras rápidas
hoje em dia, na intensidade e com a força que os jogadores
profissionais jogam, é natural que o corpo realmente
sofra um grande desgaste. Para ele, infelizmente, aconteceu
bem cedo. Acho que temos de dar grande força
para ele, porque a vida continua e terá mil outras coisas
que ele poderá fazer.
O Guga deu uma grande contribuição para o esporte
brasileiro. Será sempre um
grande ídolo e será muito difícil alguém
ganhar três Roland Garros como ele. E o Guga é
uma grande figura. Uma simpatia de pessoa, uma pessoa admirável,
carismático, legal com todo mundo. Ele nunca teve nenhum
tipo de estrelismo e isto é admirável porque,
normalmente, um atleta quando fica muito famoso costuma se
distanciar e ele sempre teve as pessoas muito próximas.
Admiro muito ele e vai fazer falta sim do circuito.
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