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22/02/2008
Montagem sobre foto Fernando Pilatos/Gazeta Press

Por Marta Teixeira

Foto: Divulgação/ZDL
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Bom companheiro... Depois de uma temporada fazendo esforço extra para que Scheidt pudesse competir na Laser e Star, Bruno Prada ganhou como recompensa sua primeira participação olímpica
Quando os bicampeões olímpicos Torben Grael e Marcelo Ferreira anunciaram que não iriam disputar a vaga na classe Star para os Jogos Olímpicos de Pequim-2008, a primeira coisa que se imaginou é que a vida seria muito fácil para os campeões mundiais Robert Scheidt e Bruno Prada. Na raia montada na Baía da Guanaraba, no entanto, a realidade se mostrou bem diferente.

A dupla teve trabalho para assegurar a vaga na seleção olímpica e por pouco não foi desbancada pela parceria formada por Lars Grael e Marcelo Jordão. Com direito a acordo de cavalheiros para evitar uma decisão nos tribunais e muita competição na água, Scheidt e Prada acabaram se classificando e agora já definem as estratégias para lutar pelo pódio olímpico.

Programada para a cidade de Qingdao, próxima a Pequim, a competição de vela será disputada em uma área de ventos fracos e muita correnteza. Conhecido como um atleta que combina como poucos qualidade técnica, preparo físico e estratégia de competição, não é surpresa que Scheidt e seu parceiro já tenham toda uma estratégia preparada para lidar com isso.

Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, Scheidt revela que a dupla já tem em construção dois novos barcos e que, após a experiência na Semana Pré-olímpica, elegeu a velejada em vento fraco como aspecto prioritário a ser melhorado para Pequim. “Esta é a grande novidade, nosso grande trunfo para testar estes dois barcos e ver qual é mais rápido na raia na China”.

Octacampeão mundial e bicampeão olímpico na classe laser, o velejador paulista não teme a responsabilidade de defender a tradição em uma classe que chegou ao pódio nas últimas quatro Olimpíadas. Acostumado à pressão pela expectativa de resultados, Scheidt destaca o momento de transição na equipe olímpica. Afirma que não vai a Pequim como única esperança de pódio e aposta em bons resultados também na 470 feminina e na RS:X (prancha a vela).

Quanto a sua ex-classe, a Laser, também é otimista e destaca o catarinense Bruno Fontes não apenas como um substituto, mas um provável candidato a importantes resultados internacionais. Traçando os planos para Pequim, Scheidt acredita que os brasileiros poderão transformar em vantagem até as esperadas dificuldades de adaptação e com a alimentação na China.

Gazeta Esportiva.Net - Você acaba de confirmar a vaga olímpica ao lado de Bruno Prada, mas, ao contrário do que alguns imaginavam foi uma disputa acirrada...
Robert Scheidt -
Muito acirrada, com o Lars velejando muito bem, principalmente nos ventos fracos. Ele começou muito bem o campeonato, chegou a estar liderando no segundo dia, mas conseguimos manter uma boa regularidade e velejar o final do campeonato mais em função dele, tentando sempre marcá-lo e ter maiores chances de ficar com a vaga. O final do campeonato foi um pouco melhor para nós, conseguimos chegar às quatro últimas regatas à frente dele e garantir a vaga. Mas foi um campeonato muito tenso porque é uma seletiva, só o primeiro sai de lá feliz. Só o primeiro sai classificado para Pequim. Queríamos muito isso. Foram dois anos e meio na classe Star lutando para esta vaga, agora conseguimos respirar um pouco mais aliviado e se preparar bem para Pequim.

GE.Net - Vocês esperavam uma disputa tão acirrada?
Scheidt -
Sabíamos que dependeria muito da condição de vento. Se ele aumentasse, passasse de 10-12 nós, acho que por sermos a tripulação mais bem treinada, mais bem preparada fisicamente levaríamos mais vantagem. Mas como os ventos eram fracos, a velocidade dos barcos se equiparou muito e como Lars tecnicamente é muito forte, é um velejador com técnica muito apurada, eu sabia que teríamos muito trabalho se o vento fosse fraco.

GE.Net - E como está a programação até Pequim?
Scheidt –
Está pronta. Começamos em Bacardi Cup, em março, em Miami, embarcamos domingo que vem e depois temos o Mundial, em Miami. São os dois eventos grandes no começo do ano. Em maio, partimos para a Europa para a preparação final e, em julho, embarcamos para Pequim. Temos um programa bem intenso, o que precisava mesmo era sacramentar esta vaga.

GE.Net - Vocês pretendem fazer algo especial para Pequim?
Scheidt -
Pequim é raia com ventos fracos também e com muita correnteza. Estamos fazendo um trabalho de desenvolvimento de equipamento. Temos dois barcos novos na Europa - um em estaleiro na Alemanha (Mader), outro em um estaleiro italiano (Lilia) -, que já estão ficando prontos. Esta é a grande novidade, nosso grande trunfo para testar estes dois barcos e ver qual é mais rápido na raia na China. Também pretendemos velejar muito em ventos fracos nos próximos meses para melhorar como dupla no vento fraco. Em vento forte, sempre nos garantimos e velejamos bem. No ano passado, ganhamos o Campeonato Mundial em Portugal, e era vento forte. Precisamos trabalhar muito esta questão da velejada em vento fraco e do equipamento que usaremos para essa condição.

GE.Net - Quando estes equipamentos serão entregues?
Scheidt -
O alemão já está pronto e o italiano fica pronto no começo de março.

GE.Net - Então, quando forem para a Europa poderão começar os treinos já com eles...
Scheidt -
Já. E vamos selecionar um que vamos mandar para a China.

GE.Net - A China é um país muito diferente em relação aos costumes e com um problema sério de poluição. Vocês têm uma preocupação especial quanto a isso? Porque nos Jogos Pan-americanos do Rio (em 2007), a poluição na baía da Guanabara (onde foram disputadas as regatas da vela) foi um problema sério.
Scheidt -
Vamos velejar em Qingdao, a 800km de Pequim, e lá não tem muito problema de poluição. Apesar de ser uma cidade grande, não é tão poluída quanto Pequim. O maior cuidado que a gente tem de ter é com a alimentação e o calor. É muito quente e muito úmido, mas isso normalmente o brasileiro está acostumado. A marina olímpica é muito semelhante à de Atenas e vamos ficar bem instalados porque ficaremos morando dentro da marina.
No evento-teste do ano passado (que venceu juntamente com Prada), houve atletas com problemas de alimentação. Eu, felizmente, não sofri muito, não. O brasileiro é uma pessoa adaptável a muitas situações: calor, alimentação diferente, a isso tudo a gente consegue se adaptar muito melhor que os europeus, por exemplo. Então, eu acho que a equipe brasileira vai contar isso como vantagem. Esta situação de ser cidade grande, alimentação difícil para nós não será ruim, não.

GE.Net - E quanto à competição em Pequim, os principais adversários, que previsões vocês já fazem?
Scheidt -
Os principais nomes já estão garantidos. O francês Xavier Rohar (e Pascal Rambeau), que é o mais consistente, está sempre entre os três primeiros. O neozelandês Hamish Pepper (e Carl Williams), o inglês (Iain Percy e Andrew Simpson), o sueco (Tom Lofstedt e Krister Carlsson) e o suíço (Flavio Marazzi e Enrique de Maria) são os principais nomes. Mas, Olimpíadas a gente nunca sabe. Pode aparecer alguém velejando muito bem, sem pressão, tranqüilo como o português (Afonso Domingos e Bernardo Santos) e também surpreenderem. Vamos ter somente 15 países na Olimpíada. É um campeonato de pouco barco, mas todos eles vão vir muito fortes.

GE.Net - No Mundial (em Cascais, 2007), vocês foram a surpresa. Agora não tem mais este elemento. A vida será mais difícil em Pequim?
Scheidt -
Sempre digo que é muito mais difícil você defender um título do que ganhar ele pela primeira vez, porque tem todo o peso do favoritismo, de você mesmo cobrar um resultado, no mínimo, igual ao que você fez no ano anterior. Mas sempre foi assim na minha carreira. Na Laser, passei muito por isso, fui para vários Mundiais e Olimpíadas como favorito. Acho que sei bem como administrar essa questão. O que precisamos fazer agora é trabalhar muito duro estes próximos meses. O foco tem de ser melhorar nossa velejada no vento fraco e chegar tranqüilos nas Olimpíadas. Não mistificar muito a questão de serem Jogos Olímpicos, aquele glamour todo que envolve a Olimpíada. É ir tranqüilo, velejar com calma, tentar ser regular. Acho que temos tudo para fazer um bom resultado.

GE.Net - Por falar em cobrança, vocês estão na vaga que antes era ocupada por uma dupla bicampeã olímpica. Você acha que especificamente quanto a isso haverá muita cobrança?
Scheidt -
Acho que em cima disso, especificamente, não. Mesmo porque o Torben (Grael) optou por fazer outra campanha. O curioso é que quando eu optei por mudar da Laser para a Star, a primeira reação das pessoas foi: 'pôxa, mas o Brasil perde com isso porque a gente vai ter chance de ganhar um medalha só'. Continuei velejando e depois se criou aquela fantasia toda da disputa da vaga entre eu e o Torben e, no final, ele optou por fazer a Volvo Ocean Race. Isso deu um novo gás na vela brasileira porque as coisas mudaram. Eu saí da Laser, abri espaço para alguém entrar e vou para a Star.
Sei que tem toda a tradição da classe no Brasil. O Torben representou o país nas últimas cinco Olimpíadas e, em quatro, foi medalhista. Temos realmente uma responsabilidade grande em fazer bonito. O que é saudável nisso é que o Marcelo Ferreira e mesmo o Torben, tenho certeza, se pedirmos algumas dicas, eles vão se abrir. Já trocamos muita idéia (com o Marcelo), ele já me passou algumas regulagens, o que faziam, o que não faziam, que velas usavam. Este intercâmbio é bom, é saudável para a vela brasileira. E o mesmo eu quero fazer com os velejadores de Laser, ajudar. Poder contribuir.

De malas prontas
Foto: Divulgação
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Agora ao lado de Isabel Swan, Fernanda Oliveira - que em Atenas-2004 velejou ao lado de Adriana Kostiw - repete campanha olímpica na 470 feminina

O Brasil possui vaga em oito das 11 classes que serão disputadas em Pequim. O país ainda pode obter representação na Tornado e na Laser Radial feminino, dependendo do resultado nos Mundiais. O de Tornado de 22 de fevereiro a 1º de março e o de Laser radial, de 13 a 20 de março, e ambos em Auckland, na Nova Zelândia.

Com exceção das classes 470 masculina e 49er, que definiram seus representantes nos campeonatos mundiais, todas as outras o fizeram através de seletiva. No último dia 15, terminou a Seletiva Brasil de Vela, no Rio de Janeiro, com a definição de sete nomes da equipe. A única classe pendente é a Laser, que fará sua seleção a partir desta sexta-feira, novamente no Rio.

Scheidt e Prada não são os únicos classificados com calendário estabelecido para a preparação olímpica. A Confederação Brasileira de Vela e Motor (CBVM) levará todos os convocados para a Holland Regatta, de 21 a 25 de maio, em Medemblik, na Holanda. Além disso, os titulares das classes RS:X masculina, 470 feminina e 49er farão um estágio de adaptação à raia de Qingdao, entre os dias 15 e 29 de junho.

Confira a relação dos velejadores já confirmados para Pequim:
Star – Robert Scheidt e Bruno Prada
470 feminino – Fernanda Oliveira e Isabel Swan
470 masculino – Fabio Pillar e Samuel Albrecht
49er – André Fonseca (Bochecha) e Rodrigo Duarte
RS:X feminino – Patrícia Freitas
RS:X masculino – Ricardo Winicki (Bimba)
Finn – Eduardo Couto

GE.Net - A vela é uma modalidade com tradição de sempre conseguir, pelo menos, uma medalha para o Brasil e que atravessa um momento de renovação. O que nós podemos esperar de resultados em Pequim?
Scheidt -
Esta Olimpíada é totalmente diferente. Vamos ter uma equipe renovada. Não vamos mais depender dos nomes dos quais sempre dependemos. Acho que há outros jovens talentos que vão poder surpreender. Podemos esperar resultados na 470 feminina, com a Fernanda Oliveira e a Isabel Swan. Elas têm andado entre as dez do mundo, foram quartas no Mundial há dois anos, estão fazendo um trabalho excelente e vão chegar bem na Olimpíada. Depois temos o Ricardo Winick, o Bimba, indo para a terceira Olimpíada. Da última vez, ele esbarrou em uma medalha, que acabou não conseguindo. Eu apontaria a prancha a vela, com o Bimba, e a 470 feminina como as duas classes que vão entrar muito fortes nesta Olimpíada.

GE.Net - E a Star...
Scheidt -
(rindo) Creio que a Star também. Vamos ver. Espero que a gente possa mostrar nosso trabalho.

GE.Net - A renovação na Laser é um tema que todos remoem porque saindo Scheidt fica uma lacuna. Como você avalia este processo especificamente em sua antiga classe, está garantido? O Bruno já está preparado?
Scheidt - Ele amadureceu muito neste último ano e meio. Sempre sofria para ficar entre os 20 e agora está ficando entre os dez nos principais torneios (foi 11º no Mundial, na Austrália, no início do mês). Acho que ele é um nome mais bem cotado para conseguir a vaga no Rio (a Laser terá uma Pré-olímpica separada, a partir de sexta-feira no Rio de Janeiro). Espero que ele consiga porque o vejo como o atleta mais maduro para representar o Brasil este ano. E chegando na Olimpíada, uma Olimpíada de vento fraco, os principais favoritos vão dar umas escorregadas. Acho que neste momento, se o Bruninho começar bem, pode ganhar confiança ao longo da competição. Não vai ter aquele peso do favoritismo, vai entrar tranqüilo e pode surpreender sim. Eu torço por isso.

GE.Net - Você fala em fim de ciclo e está aqui (ele esteve em Costa do Sauípe, durante a disputa do torneio da ATP e aproveitou para matar as saudades da raquete jogando), que marca o começo da despedida do Guga. Como você avalia a trajetória dele e sua importância no esporte brasileiro?
Scheidt -
Sempre é difícil o momento de parar. Olho para mim e não consigo me imaginar parando de velejar. Mas o tênis é um esporte que exige muito do físico. Jogar nestas quadras rápidas hoje em dia, na intensidade e com a força que os jogadores profissionais jogam, é natural que o corpo realmente sofra um grande desgaste. Para ele, infelizmente, aconteceu bem cedo. Acho que temos de dar grande força para ele, porque a vida continua e terá mil outras coisas que ele poderá fazer.
O Guga deu uma grande contribuição para o esporte brasileiro. Será sempre um grande ídolo e será muito difícil alguém ganhar três Roland Garros como ele. E o Guga é uma grande figura. Uma simpatia de pessoa, uma pessoa admirável, carismático, legal com todo mundo. Ele nunca teve nenhum tipo de estrelismo e isto é admirável porque, normalmente, um atleta quando fica muito famoso costuma se distanciar e ele sempre teve as pessoas muito próximas. Admiro muito ele e vai fazer falta sim do circuito.


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