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25/06/2008
Montagem sobre foto Marcelo Ferrelli / Gazeta Press

Por Marta Teixeira

Uma base nos tablados
Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
Olhando para Fabiana Murer, hoje com 1,72m, é difícil imaginar, mas o início da carreira da atleta foi como ginasta. Aos 16 anos, percebeu que a altura estava atrapalhando, mas não queria deixar os esportes.

Por sugestão do pai, fez o teste para uma escolinha de atletismo em Campinas (SP), onde nasceu. Eram 50m de corrida, salto em distância e corrida de 1.000m. Elson Miranda, seu técnico até hoje, sabendo que ela fazia ginástica, encaminhou a adolescente para o salto com vara.

“No primeiro ano, continuei na ginástica e no salto com vara. Era uma brincadeira, mas depois de um ano consegui índice para o Mundial juvenil e decidi parar com a ginástica. Pensei: 'acho que levo jeito, deixa eu investir nisso'. E hoje é minha vida”.

Formada em fisioterapia, Fabiana dedica 6 horas diárias aos treinos, fora massagem, fisioterapia e os vídeos a que assiste para se aprimorar.

O foco não são as adversárias, mas seus próprios treinamentos. “Às vezes consigo achar um salto (de outras atletas) e vejo. Mas o que mais vejo são os meus saltos, que a gente costuma filmar durante os treinos, e os do Sergei Bubka, que é uma técnica ótima e eu me inspiro nesta técnica para saltar”.

Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press

Ela começou no esporte aos 7 anos, praticando ginástica artística. Durante dez anos, este foi seu universo, até perceber que a altura jogava contra sua evolução. Foi então que o salto com vara entrou em sua trajetória levando-a às principais competições do mundo e ao reconhecimento internacional.


A biografia breve poderia ser da recordista e campeã mundial Yelena Isinbayeva, mas na verdade é da brasileira Fabiana Murer. Sinal de um futuro promissor? “Espero que sim”, responde a campineira sorridente, mas claro que há diferenças. A russa começou como ginasta dois anos mais jovem, em Volgograd, e Fabiana, no último ano, dividiu suas atenções com o salto, no interior paulista.

Fabiana ainda está longe do recorde mundial - 5,01m, registrado por Isinbayeva em Helsinque-2005 -, mas já detém as marcas Sul-americanas em pista aberta (4,66m) e coberta (4,70m). Pré-classificada para os Jogos Olímpicos de Pequim, Fabiana é um dos destaques do programa do Troféu Brasil, a partir desta quarta-feira, em São Paulo.

Aos 27 anos, ela se prepara para disputar a primeira Olimpíada e a competição paulista é a primeira da temporada em pista aberta na qual estará em nível competitivo. Ou seja, o ponto de partida para sua verdadeira avaliação.

Confiante, Fabiana tem um desafio duro para lutar pela medalha. Dez centímetros a separam do mínimo que acredita necessário para entrar na briga. “Cinco”, diz ela, pensando na marca que quase obteve em Valência. Mas nada disso a incomoda, pois com suas marcas atuais acredita que já seria finalista.

A Olimpíada, contudo, não é o único tema que provoca sua empolgação. Fabiana também é consciente do papel que representa na evolução do próprio salto com vara brasileiro.


Da ‘crise’ de desafios que enfrentou algum tempo atrás, ela passou, há dois anos, às temporadas regulares de treinamento ao lado do técnico ucraniano Vitaly Petrov, o mesmo dos recordistas mundiais Isinbayeva e Sergei Bubka, este último a grande inspiração da brasileira. Desde então, Fabiana encarou o desafio de reformular sua técnica e descobriu que além da evolução pessoal havia outro papel a desempenhar: iniciar uma tradição do salto com vara no Brasil.


”Sei que estou fazendo um pouco isso. Hoje, o mundo conhece o salto com vara brasileiro. Não sou só eu e fico muito contente com isto, por estar conseguindo fazer o salto com vara brasileiro ser conhecido”.


Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, Fabiana fala da pressão olímpica, de sua rotina de treinos e da competitividade que enfrenta dentro e fora do país.

Gazeta Esportiva.Net – Você vai disputar sua primeira Olimpíada, como está sua ansiedade?

Fabiana Murer - Sempre tive o sonho de estar em uma Olimpíada e está quase realizado,  é muito legal estar participando deste show do esporte mundial. Começa a dar aquele friozinho na barriga, mas ainda tem bastante competições pela frente e dá para me preparar bem. Eu tento pensar como vou estar na hora, para quando chegar lá e não ser uma coisa desconhecida. Lógico, que cada competição é uma coisa, estádio lotado, o nervosismo vai bater, mas vou tentar estar bem concentrada e fazer o que treinei porque acho que o que importa é fazer uma boa técnica, porque aí o salto sai alto e bom.

Na Olimpíada, temos a Isinbayeva, que está em um patamar diferenciado, mas com relação às outras competidoras o que você espera?
Acho que vai ser uma prova muito forte. O salto com vara feminino está crescendo, ficando cada vez mais forte. A Yelena realmente está um patamar acima, mas como ela mudou de técnico, está se adaptando ainda, porque faz apenas dois anos. Vai ser uma prova bem disputada, tem uma americana (Jennifer Stuczynski), que saltou 4,90m (em Carson, em maio) e tentou bater o recorde da Yelena com 5,02m. Por isso, eu tenho de melhorar minha marca. Eu vou para lá tentar a medalha e sei que não vai ser fácil.

Mas todo mundo espera que você, a Maurren (Maggi, do salto em distância), o Jadel (Gregório, do salto triplo) consigam uma medalha, um pódio. Esta pressão incomoda?

Não incomoda, é até boa esta pressão porque dá mais motivação para treinar, melhorar minha marca. Estou bem consciente do que tenho de fazer na hora. Sei que existe esta cobrança, mas sou uma grande atleta e tenho de aprender a lidar com isto.

Foto: Fernando Pilatos/ Gazeta Press
Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
Fabiana ganhou o ouro no Pan do Rio de Janeiro

Há algum tempo, você tem feito treinamentos na Europa. Como sua técnica mudou e como está sua segurança após todo este tempo treinando lá fora?

Desde 2001, a gente faz este intercâmbio com o Vitaly Petrov (técnico do Sergei Bubka e que hoje treina Isinbayeva, os dois recordistas mundiais). A partir disso que o salto com vara começou a evoluir no Brasil. Levou um tempo de adaptação, não foi fácil. Era totalmente diferente do que eu costumava fazer, como eu segurava a vara, como começava a correr... Levei dois anos para me adaptar e começar a melhorar meus resultados. Até hoje a gente costuma fazer este intercâmbio com a ajuda da Confederação Brasileira, da Caixa, e do Clube de Atletismo BM&F. Tudo para eu e meu técnico Elson (Miranda) termos mais conhecimentos e não nos acomodarmos e isso ajudou o salto com vara a crescer.

A experiência que vocês têm tido lá fora está mudando o panorama aqui também? As meninas novas têm acesso a este tipo de informação?

Acho que meu salto é um parâmetro para estas meninas novas. Há várias atletas novas, dez anos mais novas que eu, que estão aprendendo já do jeito certo, com a técnica certa e não vão precisar fazer mudança, atletas de outras equipes, outras cidades. Meu salto, minha corrida... acabam sendo um parâmetro. Elas já têm uma visão diferente. O Brasil não tem tradição nenhuma de salto com vara, acho que estou conseguindo elevar um pouco o nível.

Você sente esta responsabilidade, abraçou a causa de levar o esporte a outro nível?

Penso nisso, sim. Sei que estou fazendo um pouco isso. Hoje, o mundo conhece o salto com vara brasileiro. Eles sabem que temos atletas bons e que futuramente podem vir outros porque nós temos o Elson, um técnico que conseguiu elevar o salto com vara, tenho eu, o Fábio Gomes, campeão pan-americano e finalista do Mundial no ano passado. Então, não é só uma atleta. Não sou só eu e fico muito contente com isto, por estar conseguindo fazer o salto com vara brasileiro ser conhecido.

Mas no momento, em termos de competitividade, você está em um patamar diferente das meninas que competem no Brasil. Isso dificulta para você, para disputar uma prova realmente forte tem que ser internacional?

O negócio é que eu não posso me acomodar por ter ganhado a prova. Tenho de estar sempre procurando saltar mais alto, melhorar minha marca, pensar que as meninas lá fora estão saltando. Isto é difícil. Já passei algumas épocas atrás por esta acomodação, mas hoje eu cresci psicologicamente. Sei o que as meninas estão fazendo lá fora.

Você conquistou a medalha de bronze no Mundial indoor com 4,70m (março, em Valência), tem o recorde sul-americano, que tipo de resultado você pode ter na Olimpíada e o que você precisa alcançar para conseguir um resultado expressivo?

Este resultado é finalista com certeza, mas medalha é difícil. Acho que tenho de melhorar, pelo menos, 10 centímetros e saltar por volta de 4,80m porque aí sim é medalha certa. Então, estou procurando melhorar minha técnica, detalhezinhos que vão fazer diferença lá em cima.

É complicado explicar, mas quais aspectos específicos você está trabalhando?

É, salto com vara é tão técnico, são detalhezinhos que você acaba nem vendo. Mas tem uma coisa que eu estou pegando bastante: o finalzinho da corrida e a decolagem, a hora que eu saio do chão, quando a vara começa a envergar. Estou trabalhando para não perder energia neste ponto porque se eu não perder energia a vara vai me jogar mais alto. É com o que estou me preocupando bastante. Lógico que há muitas outras coisas, mas acho que esta é a principal que eu tenho para melhorar.

E você acredita que chega aos 4,80m antes de Pequim?

FM - No Mundial em Valência eu fiz 4,70m e a tentativa no 4,75m, e quase passei (Fabiana tocou o sarrafo quando já havia passado metade do corpo e começava a descida). Eu vi que era possível saltar. Então, praticamente, faltam apenas 5 centímetros. Estou treinando super bem, consegui melhorar algumas coisas na minha técnica, mas vou estar realmente bem em julho e agosto, que é o grande objetivo do ano.

Em alguma competição específica?

O Troféu Brasil vai ser a primeira na qual estarei em treinamento realmente para competição. Mas como é a primeira, não dá para saber se já vai sair um bom resultado ou não. Depois participo de um Golden League, na Europa, e mais três Super GPs e nestas competições acho que posso ter um bom resultado.

No ano passado, você não participou da Final Mundial porque faltaram alguns pontinhos. Este ano, Final Mundial é uma meta para você ou você está focada apenas nas Olimpíadas?

No ano passado, deixei algumas competições de lado que davam pontos. Sofri uma lesão e não participei dos GPs do Rio, Fortaleza e Belém, também abri mão de duas Golden Leagues porque preferi treinar para o Pan e o Mundial. Então, faltaram alguns pontinhos. Mas este ano, eu realmente penso (na Final) e tem estas competições em julho para garantir.

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