|
Por Marta Teixeira
Uma base nos tablados |
Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
 |
| Olhando para Fabiana Murer, hoje com 1,72m, é difícil imaginar, mas o início da carreira da atleta foi como ginasta. Aos 16 anos, percebeu que a altura estava atrapalhando, mas não queria deixar os esportes.
Por sugestão do pai, fez o teste para uma escolinha de atletismo em Campinas (SP), onde nasceu. Eram 50m de corrida, salto em distância e corrida de 1.000m. Elson Miranda, seu técnico até hoje, sabendo que ela fazia ginástica, encaminhou a adolescente para o salto com vara.
“No primeiro ano, continuei na ginástica e no salto com vara. Era uma brincadeira, mas depois de um ano consegui índice para o Mundial juvenil e decidi parar com a ginástica. Pensei: 'acho que levo jeito, deixa eu investir nisso'. E hoje é minha vida”.
Formada em fisioterapia, Fabiana dedica 6 horas diárias aos treinos, fora massagem, fisioterapia e os vídeos a que assiste para se aprimorar.
O foco não são as adversárias, mas seus próprios treinamentos. “Às vezes consigo achar um salto (de outras atletas) e vejo. Mas o que mais vejo são os meus saltos, que a gente costuma filmar durante os treinos, e os do Sergei Bubka, que é uma técnica ótima e eu me inspiro nesta técnica para saltar”. |
Foto: Marcelo Ferrelli /
Gazeta Press
 |
Ela começou no esporte aos 7 anos, praticando ginástica
artística. Durante dez anos, este foi seu universo,
até perceber que a altura jogava contra sua evolução.
Foi então que o salto com vara entrou em sua trajetória
levando-a às principais competições
do mundo e ao reconhecimento internacional.
A biografia breve poderia ser da recordista e campeã mundial
Yelena Isinbayeva, mas na verdade é da brasileira
Fabiana Murer. Sinal de um futuro promissor? “Espero
que sim”, responde a campineira sorridente, mas claro
que há diferenças. A russa começou como
ginasta dois anos mais jovem, em Volgograd, e Fabiana, no último
ano, dividiu suas atenções com o salto, no
interior paulista.
Fabiana ainda está longe do recorde mundial - 5,01m,
registrado por Isinbayeva em Helsinque-2005 -, mas já detém
as marcas Sul-americanas em pista aberta (4,66m) e coberta
(4,70m). Pré-classificada para os Jogos Olímpicos
de Pequim, Fabiana é um dos destaques do programa
do Troféu Brasil, a partir desta quarta-feira, em
São Paulo.
Aos 27 anos, ela se prepara para disputar
a primeira Olimpíada
e a competição paulista é a primeira
da temporada em pista aberta na qual estará em nível
competitivo. Ou seja, o ponto de partida para sua verdadeira
avaliação.
Confiante, Fabiana tem um desafio duro para lutar pela medalha.
Dez centímetros a separam do mínimo que acredita
necessário para entrar na briga. “Cinco”,
diz ela, pensando na marca que quase obteve em Valência.
Mas nada disso a incomoda, pois com suas marcas atuais acredita
que já seria finalista.
A Olimpíada, contudo, não é o único
tema que provoca sua empolgação. Fabiana também é consciente
do papel que representa na evolução do próprio
salto com vara brasileiro.
Da ‘crise’ de desafios que enfrentou algum tempo
atrás, ela passou, há dois anos, às temporadas
regulares de treinamento ao lado do técnico ucraniano
Vitaly Petrov, o mesmo dos recordistas mundiais Isinbayeva
e Sergei Bubka, este último a grande inspiração
da brasileira. Desde então, Fabiana encarou o desafio
de reformular sua técnica e descobriu que além
da evolução pessoal havia outro papel a desempenhar:
iniciar uma tradição do salto com vara no Brasil.
”Sei que estou fazendo um pouco isso. Hoje, o mundo
conhece o salto com vara brasileiro. Não sou só eu
e fico muito contente com isto, por estar conseguindo fazer
o salto com vara brasileiro ser conhecido”.
Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net,
Fabiana fala da pressão olímpica, de sua rotina
de treinos e da competitividade que enfrenta dentro e fora
do país.
Gazeta Esportiva.Net – Você vai disputar
sua primeira Olimpíada, como está sua ansiedade?
Fabiana Murer - Sempre tive o sonho de
estar em uma Olimpíada e está quase realizado, é muito
legal estar participando deste show do esporte mundial. Começa
a dar aquele friozinho na barriga, mas ainda tem bastante
competições pela frente e dá para me
preparar bem. Eu tento pensar como vou estar na hora, para
quando chegar lá e não ser uma coisa desconhecida.
Lógico, que cada competição é uma
coisa, estádio lotado, o nervosismo vai bater, mas
vou tentar estar bem concentrada e fazer o que treinei porque
acho que o que importa é fazer uma boa técnica,
porque aí o salto sai alto e bom.
Na Olimpíada, temos a Isinbayeva, que está em
um patamar diferenciado, mas com relação às
outras competidoras o que você espera?
Acho que vai ser uma prova muito forte. O salto
com vara feminino está crescendo, ficando cada vez
mais forte. A Yelena realmente está um patamar acima,
mas como ela mudou de técnico, está se adaptando
ainda, porque faz apenas dois anos. Vai ser uma prova bem
disputada, tem uma americana (Jennifer Stuczynski), que saltou
4,90m (em Carson, em maio) e tentou bater o recorde da Yelena
com 5,02m. Por isso, eu tenho de melhorar minha marca. Eu
vou para lá tentar a medalha e sei que não
vai ser fácil.
Mas todo mundo espera que você, a Maurren
(Maggi, do salto em distância), o Jadel (Gregório,
do salto triplo) consigam uma medalha, um pódio.
Esta pressão incomoda?
Não incomoda, é até boa
esta pressão porque dá mais motivação
para treinar, melhorar minha marca. Estou bem consciente
do que tenho de fazer na hora. Sei que existe esta cobrança,
mas sou uma grande atleta e tenho de aprender a lidar com
isto.
Foto:
Fernando Pilatos/ Gazeta Press |
| Fabiana ganhou o ouro no Pan do Rio de Janeiro |
Há algum tempo, você tem feito treinamentos
na Europa. Como sua técnica mudou e como está sua
segurança após todo este tempo treinando
lá fora?
Desde 2001, a gente faz este intercâmbio
com o Vitaly Petrov (técnico do Sergei Bubka e que
hoje treina Isinbayeva, os dois recordistas mundiais). A
partir disso que o salto com vara começou a evoluir
no Brasil. Levou um tempo de adaptação, não
foi fácil. Era totalmente diferente do que eu costumava
fazer, como eu segurava a vara, como começava a correr...
Levei dois anos para me adaptar e começar a melhorar
meus resultados. Até hoje a gente costuma fazer este
intercâmbio com a ajuda da Confederação
Brasileira, da Caixa, e do Clube de Atletismo BM&F. Tudo
para eu e meu técnico Elson (Miranda) termos mais
conhecimentos e não nos acomodarmos e isso ajudou
o salto com vara a crescer.
A experiência que vocês têm tido
lá fora está mudando o panorama aqui também?
As meninas novas têm acesso a este tipo de informação?
Acho que meu salto é um parâmetro
para estas meninas novas. Há várias atletas novas,
dez anos mais novas que eu, que estão aprendendo já do
jeito certo, com a técnica certa e não vão
precisar fazer mudança, atletas de outras equipes,
outras cidades. Meu salto, minha corrida... acabam sendo
um parâmetro. Elas já têm uma visão
diferente. O Brasil não tem tradição
nenhuma de salto com vara, acho que estou conseguindo elevar
um pouco o nível.
Você sente esta responsabilidade, abraçou
a causa de levar o esporte a outro nível?
Penso nisso, sim. Sei que estou fazendo
um pouco isso. Hoje, o mundo conhece o salto com vara brasileiro.
Eles sabem que temos atletas bons e que futuramente podem
vir outros porque nós temos o Elson, um técnico
que conseguiu elevar o salto com vara, tenho eu, o Fábio
Gomes, campeão pan-americano e finalista do Mundial
no ano passado. Então, não é só uma
atleta. Não sou só eu e fico muito contente
com isto, por estar conseguindo fazer o salto com vara brasileiro
ser conhecido.
Mas no momento, em termos de competitividade, você está em
um patamar diferente das meninas que competem no Brasil.
Isso dificulta para você, para disputar uma prova
realmente forte tem que ser internacional?
O negócio é que eu não
posso me acomodar por ter ganhado a prova. Tenho de estar sempre
procurando saltar mais alto, melhorar minha marca, pensar
que as meninas lá fora estão saltando.
Isto é difícil. Já passei algumas épocas
atrás por esta acomodação, mas hoje
eu cresci psicologicamente. Sei o que as meninas estão
fazendo lá fora.
Você conquistou a medalha de bronze no Mundial
indoor com 4,70m (março, em Valência), tem
o recorde sul-americano, que tipo de resultado você pode
ter na Olimpíada e o que você precisa alcançar
para conseguir um resultado expressivo?
Este resultado é finalista
com certeza, mas medalha é difícil. Acho que
tenho de melhorar, pelo menos, 10 centímetros e saltar
por volta de 4,80m porque aí sim é medalha
certa. Então, estou procurando melhorar minha técnica,
detalhezinhos que vão fazer diferença lá em
cima.
É complicado explicar, mas quais aspectos
específicos você está trabalhando?
É, salto com vara é tão
técnico, são detalhezinhos que você acaba
nem vendo. Mas tem uma coisa que eu estou pegando bastante:
o finalzinho da corrida e a decolagem, a hora que eu saio
do chão, quando a vara começa a envergar. Estou
trabalhando para não perder energia neste ponto porque
se eu não perder energia a vara vai me jogar mais
alto. É com o que estou me preocupando bastante. Lógico
que há muitas outras coisas, mas acho que esta é a
principal que eu tenho para melhorar.
E você acredita que chega aos 4,80m antes
de Pequim?
FM - No Mundial em Valência eu fiz
4,70m e a tentativa no 4,75m, e quase passei (Fabiana tocou
o sarrafo quando já havia passado metade do corpo
e começava a descida). Eu vi que era possível
saltar. Então, praticamente, faltam apenas 5 centímetros.
Estou treinando super bem, consegui melhorar algumas coisas
na minha técnica, mas vou estar realmente bem em julho
e agosto, que é o grande objetivo do ano.
Em alguma competição específica?
O Troféu Brasil vai ser a primeira
na qual estarei em treinamento realmente para competição.
Mas como é a primeira, não dá para saber
se já vai sair um bom resultado ou não. Depois
participo de um Golden League, na Europa, e mais três
Super GPs e nestas competições acho que posso
ter um bom resultado.
No ano passado, você não participou
da Final Mundial porque faltaram alguns pontinhos. Este
ano, Final Mundial é uma meta para você ou
você está focada apenas nas Olimpíadas?
No ano passado, deixei algumas competições
de lado que davam pontos. Sofri uma lesão e não
participei dos GPs do Rio, Fortaleza e Belém, também
abri mão de duas Golden Leagues porque preferi treinar
para o Pan e o Mundial. Então, faltaram alguns pontinhos.
Mas este ano, eu realmente penso (na Final) e tem estas competições
em julho para garantir. |