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O poderoso chefão


Por Fernando Narazaki
O Brasil está nas quartas-de-final da Copa Davis e ainda tem o tenista número um do mundo, Gustavo Kuerten. Mesmo assim, o País não possui nenhum torneio da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) há sete anos e o esporte ainda é praticado, em sua maioria, por pessoas com maior poder aquisitivo. Para mudar esse quadro, o presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), Nelson Nastás, tem o poder para comandar a modalidade no País, mas sabe que terá o árduo desafio de popularizar o esporte, melhorar o nível dos tenistas infanto-juvenis, desenvolver programas para expansão do tênis e ainda trazer de volta as competições do circuito da ATP para o Brasil. Um problema que ele lutará para ser resolvido até 2004, quando encerra seu mandato na entidade do tênis.
No cargo há sete anos, o dirigente está envolvido desde 1975 com os bastidores da modalidade. Nastás foi presidente da Federação Paulista, antes de assumir a CBT em 94. Neste período, o Brasil estabeleceu-se no Grupo Mundial da Davis, competição em que está desde 97, chegou a colocar dois tenistas entre os 30 melhores do mundo, em 99, e ainda viu Guga conseguir os dois primeiros títulos em um torneio de Grand Slam, que foram obtidos no saibro de Roland Garros. Apesar disso, o País enfrenta problemas com a renovação e nomes, como Miriam D'Agostini, a tenista número um do Brasil, ainda lida com dificuldades financeiras e a falta de patrocinadores.
Para isso, Nastás sonha com a construção de quadras públicas. No momento, existem projetos em Florianópolis, que pretende montar um complexo internacional com 31 quadras, e no Rio, que começa a projetar um centro de tênis no bairro de Vargem Grande. Nesta entrevista exclusiva concedida a A Gazeta Esportiva Net, Nastás critica a falta de ação das federações estaduais para conseguir espaços com as prefeituras para montagem das quadras públicas. Além disso, ele desmente que tenha feito qualquer leilão entre as cidades do Rio de Janeiro e de Florianópolis para decidir quem ficaria com a sede do confronto contra a Austrália pelas quartas-de-final da Copa Davis.

Em 91, o Brasil chegou a ter cinco torneios da ATP. Em uma década, o País saiu do calendário e ainda perdeu o Masters deste ano. Por que o Brasil não tem um torneio, mesmo tendo o tenista número um do mundo?
Todos os eventos anteriores eram das promotoras. A saída foi motivada pela situação econômica do Brasil e até eu considero que o número de eventos era faraônico naquela época. Além disso, a CBT era muito omissa.

Por que aconteceu isso?
As empresas começaram a se retirar e não tinha ninguém para cobrir isso. Se a CBT tivesse um mínimo de estrutura, ela segurava alguns eventos aqui. Começou a esvaziar os eventos, as promotoras diversificaram suas atividades e não teve ninguém para suprir isso. Agora, temos o nosso momento. Temos outra imagem lá fora, bons resultados em Davis e o Guga. Temos credibilidade no Exterior e as pessoas podem começar a voltar a acreditar.

Como está a imagem do Brasil diante da ITF (Federação Internacional de Tênis)?
No passado, tivemos muitos problemas com organização e segurança. Hoje, eles reconhecem nosso trabalho e nos elogiam. Não tivemos sequer uma advertência. A última foi contra a Áustria, na Davis de 96. Temos de ter este cuidado em atender a ITF e manter uma boa imagem do Brasil. Copa Davis não é para turismo e, sim, para mostrar a capacidade do local em receber evento

Já existe algum planejamento para que um evento da ATP volte a ser realizado aqui?
Eu pretendo que isso aconteça em outubro ou novembro. A meta é realizar um challenger de R$ 100 mil. A minha preferência seria São Paulo, já que a cidade precisa ter eventos e é um grande centro. Mas, além da volta dos torneios, ainda temos de nos preocupar com a popularização do esporte.

Como a CBT está trabalhando para concretizar essa meta?
É difícil popularizar um esporte, quando você não tem uma indústria nacional que faça os equipamentos. Mas o grande problema é que o Brasil não tem quadras públicas. A pessoa carente não tem acesso ao tênis. Os únicos meios são particulares.

Mas como é o funcionamento lá na Argentina, que vive revelando tenistas?
Na Argentina, a Associação não tem participação nenhuma, mas em toda esquina de Buenos Aires tem uma quadra pública.

O que deve ser feito para que possam ser abertas mais quadras públicas?
Temos de procurar parcerias com o governo para abrirmos espaços, sempre vinculado à CBT. As federações estaduais precisam ter iniciativa, mantendo contatos com a prefeitura e o governo do Estado. As federações tinham de bater mais de frente com a prefeitura e brigar por estes espaços. Aí, nós vamos lá e dizemos que as quadras são nacionais e isso impulsiona o projeto. Se as federações se mexerem neste sentido, a gente descentraliza o tênis e o espalha. O ideal é termos centros de treinamento feitos pelas federações, em parceria com a CBT.

Atualmente, apenas Rio e Florianópolis têm projetos claros para a criação de quadras públicas. Qual é o envolvimento da CBT nestes projetos?
Rio de Janeiro e Florianópolis tem apoio logístico da CBT. É importante ter quadras públicas lá e temos de estar juntos com eles. Só aí você torna viável os recursos e um projeto em si.

Existem outros Estados que já apresentaram seus projetos à CBT?
Minas Gerais estava com um projeto que eu não sei se andou. Seriam seis quadras ao lado do Mineirinho. Em Aracaju, os sergipanos têm cinco quadras públicas ao lado da Federação, mas ainda são poucos os estados. Precisamos ter um trabalho mais intenso para isso e conseguir o apoio das prefeituras. O momento é esse de aproveitar o fenômeno Guga.

Por tudo isso, podemos considerar o tênis um esporte de elite?
O tênis não é um esporte de elite, mas de difícil acesso. Eu cito o tênis, como cito o hipismo, iatismo e golfe. Não são esportes que abrem com facilidade. Os custos dos materiais atrapalham bastante.

Esta falta de abertura pode explicar a ausência de bons tenistas juvenis do Brasil?
Nós temos bons juvenis, mas é uma questão de talento nato e também do apoio. O Guga é um caso único e um fenômeno, assim como tivemos a Maria Esther Bueno. Mas não temos de jogar nas costas do Guga a formação de novos valores. Temos um bom calendário de infanto-juvenil, que é extenso e vai pelo Brasil todo.

Como está sendo feito o trabalho fora das quadras?
Tem o curso do Kirmayr (Carlos Alberto Kirmayr, ex-jogador e ex-treinador de Gabriela Sabatini e Conchita Martinez), que é de capacitação de professores, e agora tem o reconhecimento da ITF. Com ele, podemos aprimorar o conhecimento dos técnicos que queiram trabalhar com infanto-juvenis. Outro projeto é o tênis nas escolas. Já atingimos 100 escolas públicas e 35 mil crianças só em São Paulo.

Quais são os nomes mais fortes que o senhor vê entre os juvenis brasileiros?
O Flávio Saretta é um nome para se olhar com carinho. Temos ainda o Thiago Alves e o Bruno Soares. Já o feminino tem nomes, como Carla Tiene e Maria Fernanda Alves, mas ainda são incógnitas.

Falando em tênis feminino, o que está acontecendo com as jogadoras brasileiras, que acabam não se destacando no profissional?
O tênis feminino, infelizmente, não decolou. Nós oferecemos de tudo para que as meninas desenvolvessem o seu jogo. Organizamos duas das últimas quatro etapas da Fed Cups (espécie de Copa Davis feminina) aqui no Brasil e nunca explodiu. Não sei explicar os motivos.

O quanto pode atrapalhar neste desenvolvimento a possível parada da Miriam D'Agostini, atual número um do Brasil?
Eu torço para que a Miriam não pare. Ela é uma jogadora que dá gosto ver em quadra, ela é uma lutadora e sua despedida será ruim. Será uma grande perda para o tênis feminino.

Caso aconteça, para quem o brasileiro poderá torcer entre as mulheres?
A Joana Cortez pode crescer e a Bruna Colossio, que está treinando nos EUA, nos surpreendeu de uma forma positiva no BCP Classic.

A cidade de São Paulo realiza uma etapa do WTA. Existe possibilidade de ser ampliada a premiação deste evento?
Não é o momento para realizarmos grandes eventos aqui. Temos de oferecer condições para que nossas tenistas desenvolverem. De setembro até o final do ano, organizaremos quatro torneios de até US$ 10 mil para revelarmos novas tenistas e elas adquirirem experiência. Serão dez a 12 torneios de US$ 10 mil para tenistas que estão entre 18 anos e ainda não têm experiência.

Houve leilão entre as cidades de Rio de Janeiro e Florianópolis para receber o jogo contra a Austrália?
Eu não fiz leilão. Se quisesse fazer leilão, eu fechava com Rio de Janeiro, que já tinha o dinheiro em mãos. Eu não parti para isso e tinha de ouvir as duas partes. A vontade do Guga também foi importante. Mas, não foi ele quem definiu, e sim a CBT. Não devemos cobrar o Guga, mas a opinião dele pesa e muito.

E por que os preços dos ingressos estavam tão caros para a série contra o Marrocos?
Aumentamos demais a capacidade do estádio e também o preço dos ingressos. E não tivemos apoio do governo, o que fez com que nós descontássemos este custo na bilheteria.

Quais são os planos para a série contra os australianos em Florianópolis?
Nós estamos em uma faixa de 40% de arquibancada para a série. A intenção é fecharmos um anel para arquibancada e o resto em cadeira. A nossa experiência em outras Copas Davis mostraram que esgota camarote, box, cadeira e só depois as arquibancadas. O tênis é um público que quer a cadeirinha dele, não quer chegar duas horas antes.

Qual a expectativa da CBT para a série contra a Austrália na Copa Davis?
A expectativa é de uma vitória sobre a Austrália. O time é fortíssimo e temos de respeitar. Copa Davis é um evento muito diferente e muda tudo, tanto para nós quanto para eles. Temos a vantagem de jogar em casa e no piso que escolhemos. Temos muitas chances de ganhar e isso seria importante. A possível volta do Mark Philippoussis é uma força a mais.

Em caso de uma eventual final no Brasil, o País corre risco de perder o direito por falta de segurança?
Temos 50% de chances de receber a final. Se jogarmos contra Suíça e Holanda, a final será aqui. Caso o confronto seja contra Alemanha e França, teremos de ir disputar lá. A ITF e associação nacional organizam juntos a final. Toda a segurança precisa ser cuidada, mas acho que não vamos ter problemas nesse sentido.

São Paulo tem dois tenistas na equipe da Davis, mas não recebe uma disputa desde 97, quando enfrentamos os EUA em Ribeirão Preto. Por que os paulistas estão sendo preteridos?
Temos de obedecer o interesse da equipe. Eles me pedem nível do mar e, com isso, a cidade de São Paulo está descartada. Depois, vem as exigências da ITF, como boa rede hoteleira, cidade grande e aeroporto internacional com conexões para várias cidades do mundo. Por isso, Florianópolis e Rio de Janeiro acabam sendo as preferidas, pois atendem muito bem a esses requisitos.
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