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26/07/2003

Larri Passos: "Os resultados vão aparecer"

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Casamento não muda rotina de Larri e Guga
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Por Erick Castelhero

Sempre se esperou muito de Gustavo Kuerten em torneios disputados em quadras de piso lento. Nada mais natural, para quem carrega em seu currículo o tricampeonato do cobiçado Aberto da França.
Mas desde a temporada 2000, o catarinense que já foi apelidado de Rei do Saibro vem brilhando em quadras rápidas. E é nesse tipo de superfície que o catarinense busca pontos para se manter entre os melhores do mundo nesta segunda metade do ano. Ele já está em Los Angeles, onde joga na próxima semana, depois vai disputar Montreal, Cincinnati e Aberto dos Estados Unidos, antes de defender o título no Aberto do Brasil, na Bahia.
Antes do embarque para os Estados Unidos, o técnico Larri Passos atendeu com exclusividade a reportagem da Gazeta Esportiva.Net. Confira!

GE.Net – Como foi a preparação e quais são as expectativas para os torneios em quadras rápidas na América do Norte?
Larri –
Considero muito importante esse período de preparação de meio de temporada. Faço esse trabalho com o Guga desde quando ele tinha 14 anos. Os primeiros seis meses do ano são muito puxados e na metade da temporada fazemos um reforço para suportar os outros seis meses. Muitos técnicos dão férias de 14 dias para seus jogadores no mês de julho. Pra gente não existe isso. Fazemos fortalecimento muscular, resistência, trabalhamos a potência. Aproveitamos para treinar pontos específicos para as quadras rápidas: faço com que ele vá para a frente, ataque e se sinta a vontade para ir à rede. Após a preparação, o Guga me disse que está forte e relaxado. Foram as duas palavras mais lindas que eu poderia ouvir.

GE.Net – Até que ponto a cirurgia abalou a confiança do Guga?
Larri –
Não, não é confiança que falta. O que afetou e vai afetar qualquer atleta que sofre uma operação é a parte mental. É aquele algo a mais que se precisa ter na hora dura do jogo. Isso o Guga só vai readquirir nos momentos difíceis da partida, na hora da competição. Na temporada de saibro, faltaram detalhes para o Guga. Faltou o aspecto mental, o acreditar, faltou ele dizer "quem manda aqui sou eu". Em Roma, exigi isso e ele reagiu. Em Roland Garros, contra o (Gaston) Gaudio e contra o (Tommy) Robredo foram jogos duríssimos. Tecnicamente ele foi bem. A temporada de saibro poderia ter sido melhor, mas não fiquei triste, porque diante das circunstâncias, um ano após a cirurgia, ele voltou a estar altamente competitivo. Estamos indo confiantes para a segunda metade do ano.

GE.Net – Neste ano o Guga ganhou Auckland e foi vice em Indian Wells. O último título no saibro foi conquistado em julho de 2001, em Stuttgart. Está sendo feito algum trabalho específico visando os pisos rápidos?
Larri –
Os pontos duram menos tempo nas quadras duras e nesse aspecto é melhor porque exige menos da parte mental. O Guga consegue dar mais winners, ataca mais, está sendo muito mais agressivo. Com o tempo, ele vai voltar a ser como antes no saibro, quando precisar jogar bem seis, sete ou oito bolas para marcar o ponto. Não preparo um jogador para ser de saibro ou de quadra dura. Preparo para jogar em todas as superfícies, para ser completo. Sinto que meu trabalho técnico é completo, exijo muito no saque, fazemos trabalhos de approach, peço que chegue à rede e marque o ponto. Senti uma evolução muito grande dele nos voleios e na movimentação. Foram 20 dias de treinos em quadras duras, treinamento anaeróbico. Foram dias insuportáveis de treinamento e ele correspondeu. O trabalho foi feito e os resultados vão aparecer.

GE.Net – O Guga apresentou um estilo diferente de jogo em Roland Garros, fugindo dos spins e batendo reto, fundo, sempre com golpes de risco. Ele vai voltar a jogar da maneira que o consagrou?
Larri –
O Guga mudou a história do tênis no saibro. Estou com ele desde os seus 14 anos e posso dizer que fomos copiados pelas escolas espanhola e argentina. Todos mudaram a forma de jogar a partir de Roland Garros’97. Quando estou dando treino para o Guga, tem sempre cinco ou seis treinadores nos assistindo. Todos acham que o (Guillermo) Coria, o (Gaston) Gaudio, o (Juan Ignacio) Chela começaram a jogar bem da noite para o dia. Todos eles são crias nossas. São todos jogadores que foram sparrings do Guga em Roland Garros. Eu levava esses jogadores para treinar conosco. Sou um ídolo para eles, como treinador. Às vezes o Guga brinca comigo: "Larri, os caras copiam a gente. Vamos fazer uns treinos escondidos". Fico feliz e realizado por tudo isso. Recebo convites para ir à Argentina para dar palestras e cursos para 200 treinadores. Os caras que estão ganhando do Guga hoje são os caras que copiaram a nossa maneira de jogar, de treinar. O que acontece é que eles evoluíram e agora preciso manter o Guga no mesmo nível.

GE.Net – Você consegue separar o quanto o Guga chegou onde chegou por méritos próprios e o quanto essas conquistas tiveram o peso direto do seu trabalho?
Larri –
É difícil... Não sei dividir isso em percentuais. Sou treinador, sou suspeito. O grande salto do Guga foi quando ele tinha 14 anos. Eu disse a ele que a gente teria de ganhar alguns anos em seis meses e que ele teria de me suportar porque ele estava atrasado. A grande qualidade dele foi a persistência. Cada centímetro que crescia, tinha de fazer um exercício de coordenação. Em Memphis, em 1997, após ele ter ganho do (Andre) Agassi, disse que ele estava jogando como um top 10. Se ele não tivesse acreditado em mim, certamente não teria chegado a número 1 do mundo. Claro que hoje ele depende bem menos de mim do que há três anos.

GE.Net – Há algo para se progredir no jogo do Guga?
Larri –
É interessante isso. Estávamos num treino onde ele tinha de fazer approach com empunhadura de direita, ataque com a direita, precisava volear com a esquerda e com direita. Ele estava errando e mandando a bola na rede. Para corrigir, tive de parar o treino, conversar com ele, mostrar a posição da raquete. Corrigi e ele passou a acertar todos os voleios. Isso tem de ser feito com ele todos os dias. Na aceleração de direita, quando ele quer bater forte, ele quebra o pulso e a bola fica na rede. Os voleios e approachs precisam ser corrigidos sempre, diariamente, porque não são golpes naturais para ele. Todos os dias tenho de ir lá e mostrar o que ele deve fazer. Treinamos bastante o segundo saque dele, porque os outros vão atacar nesse momento.

GE.Net – Existe um jogo ou uma situação ao longo desse tempo em que está com Guga que te deixou chateado, magoado?
Larri –
Os erros táticos me deixam bravo e depois do jogo normalmente ele sabe que fez errado.

GE.Net – Dê um exemplo.
Larri –
Contra o (Gaston) Gaudio, em Roma neste ano, o Guga venceu o segundo set jogando perfeitamente. No terceiro, resolveu fazer algumas coisas e levou uma bronca. Hoje ele está bem maduro e sabe quando está fazendo algo errado. Todo mundo fala que, atualmente, é muito fácil trabalhar com o Guga. Mas não é nada disso. Preciso estar levantando ele o tempo todo, desde quando ele tinha 14 anos.

GE.Net – E qual foi o jogo ou situação que te deixou mais satisfeito?
Larri –
Um dos jogos mais fantásticos do Guga foi contra o (Andre) Agassi no Masters de Lisboa, em 2000. Disse a ele que o queria ver atacando e batendo forte o tempo todo. Foi o que ele fez e o Agassi não conseguiu fazer nada. Esse jogo vai ficar marcado para o resto da minha vida, fiquei felicíssimo com o triplo 6/4. Foi ali que o Guga ganhou o Masters, numa quadra de carpete, virou o número 1 do mundo... Todo mundo falava que o Guga era jogador só de saibro, agora dizem que ele só é de quadra dura...

GE.Net – Em quem se pode acreditar na nova geração de tenistas no Brasil?
Larri –
Os juvenis brasileiros estão evoluindo bastante. O europeu salta mais rápido, aos 15 anos já está se desvinculando da família, já decide suas coisas. Garoto estrangeiro de 18 anos que é convidado nos torneios olha para o adversário realmente como um rival e não como alguém superior a ele. Passo aos juvenis que têm trabalhado comigo que eles devem acreditar neles. O juvenil brasileiro ainda sai muito inconsistente, demora para dar o salto, precisa sofrer nos treinos para sobrar nos jogos. O (Flávio) Saretta está começando a dar esse salto, logo estará entre os 50 do mundo e pode até ficar entre os 30 do ranking ainda neste ano.

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