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Por Erick Castelhero
Sempre se esperou muito de Gustavo Kuerten em torneios
disputados em quadras de piso lento. Nada mais natural, para
quem carrega em seu currículo o tricampeonato do cobiçado
Aberto da França.
Mas desde a temporada 2000, o catarinense que já foi
apelidado de Rei do Saibro vem brilhando em quadras rápidas.
E é nesse tipo de superfície que o catarinense
busca pontos para se manter entre os melhores do mundo nesta
segunda metade do ano. Ele já está em Los Angeles,
onde joga na próxima semana, depois vai disputar Montreal,
Cincinnati e Aberto dos Estados Unidos, antes de defender
o título no Aberto do Brasil, na Bahia.
Antes do embarque para os Estados Unidos, o técnico
Larri Passos atendeu com exclusividade a reportagem da Gazeta
Esportiva.Net. Confira!
GE.Net Como foi a preparação e quais
são as expectativas para os torneios em quadras rápidas
na América do Norte?
Larri
Considero muito importante esse período
de preparação de meio de temporada. Faço
esse trabalho com o Guga desde quando ele tinha 14 anos. Os
primeiros seis meses do ano são muito puxados e na
metade da temporada fazemos um reforço para suportar
os outros seis meses. Muitos técnicos dão férias
de 14 dias para seus jogadores no mês de julho. Pra
gente não existe isso. Fazemos fortalecimento muscular,
resistência, trabalhamos a potência. Aproveitamos
para treinar pontos específicos para as quadras rápidas:
faço com que ele vá para a frente, ataque e
se sinta a vontade para ir à rede. Após a preparação,
o Guga me disse que está forte e relaxado. Foram as
duas palavras mais lindas que eu poderia ouvir.
GE.Net Até que ponto a cirurgia abalou a
confiança do Guga?
Larri Não, não é confiança
que falta. O que afetou e vai afetar qualquer atleta que sofre
uma operação é a parte mental. É
aquele algo a mais que se precisa ter na hora dura do jogo.
Isso o Guga só vai readquirir nos momentos difíceis
da partida, na hora da competição. Na temporada
de saibro, faltaram detalhes para o Guga. Faltou o aspecto
mental, o acreditar, faltou ele dizer "quem manda aqui
sou eu". Em Roma, exigi isso e ele reagiu. Em Roland
Garros, contra o (Gaston) Gaudio e contra o (Tommy) Robredo
foram jogos duríssimos. Tecnicamente ele foi bem. A
temporada de saibro poderia ter sido melhor, mas não
fiquei triste, porque diante das circunstâncias, um
ano após a cirurgia, ele voltou a estar altamente competitivo.
Estamos indo confiantes para a segunda metade do ano.
GE.Net Neste ano o Guga ganhou Auckland e foi vice
em Indian Wells. O último título no saibro foi
conquistado em julho de 2001, em Stuttgart. Está sendo
feito algum trabalho específico visando os pisos rápidos?
Larri Os pontos duram menos tempo nas quadras duras
e nesse aspecto é melhor porque exige menos da parte
mental. O Guga consegue dar mais winners, ataca mais, está
sendo muito mais agressivo. Com o tempo, ele vai voltar a
ser como antes no saibro, quando precisar jogar bem seis,
sete ou oito bolas para marcar o ponto. Não preparo
um jogador para ser de saibro ou de quadra dura. Preparo para
jogar em todas as superfícies, para ser completo. Sinto
que meu trabalho técnico é completo, exijo muito
no saque, fazemos trabalhos de approach, peço que chegue
à rede e marque o ponto. Senti uma evolução
muito grande dele nos voleios e na movimentação.
Foram 20 dias de treinos em quadras duras, treinamento anaeróbico.
Foram dias insuportáveis de treinamento e ele correspondeu.
O trabalho foi feito e os resultados vão aparecer.
GE.Net O Guga apresentou um estilo diferente de
jogo em Roland Garros, fugindo dos spins e batendo reto, fundo,
sempre com golpes de risco. Ele vai voltar a jogar da maneira
que o consagrou?
Larri O Guga mudou a história do tênis
no saibro. Estou com ele desde os seus 14 anos e posso dizer
que fomos copiados pelas escolas espanhola e argentina. Todos
mudaram a forma de jogar a partir de Roland Garros97.
Quando estou dando treino para o Guga, tem sempre cinco ou
seis treinadores nos assistindo. Todos acham que o (Guillermo)
Coria, o (Gaston) Gaudio, o (Juan Ignacio) Chela começaram
a jogar bem da noite para o dia. Todos eles são crias
nossas. São todos jogadores que foram sparrings do
Guga em Roland Garros. Eu levava esses jogadores para treinar
conosco. Sou um ídolo para eles, como treinador. Às
vezes o Guga brinca comigo: "Larri, os caras copiam a
gente. Vamos fazer uns treinos escondidos". Fico feliz
e realizado por tudo isso. Recebo convites para ir à
Argentina para dar palestras e cursos para 200 treinadores.
Os caras que estão ganhando do Guga hoje são
os caras que copiaram a nossa maneira de jogar, de treinar.
O que acontece é que eles evoluíram e agora
preciso manter o Guga no mesmo nível.
GE.Net Você consegue separar o quanto o Guga
chegou onde chegou por méritos próprios e o
quanto essas conquistas tiveram o peso direto do seu trabalho?
Larri
É difícil... Não sei dividir
isso em percentuais. Sou treinador, sou suspeito. O grande
salto do Guga foi quando ele tinha 14 anos. Eu disse a ele
que a gente teria de ganhar alguns anos em seis meses e que
ele teria de me suportar porque ele estava atrasado. A grande
qualidade dele foi a persistência. Cada centímetro
que crescia, tinha de fazer um exercício de coordenação.
Em Memphis, em 1997, após ele ter ganho do (Andre)
Agassi, disse que ele estava jogando como um top 10. Se ele
não tivesse acreditado em mim, certamente não
teria chegado a número 1 do mundo. Claro que hoje ele
depende bem menos de mim do que há três anos.
GE.Net Há algo para se progredir no jogo
do Guga?
Larri É interessante isso. Estávamos
num treino onde ele tinha de fazer approach com empunhadura
de direita, ataque com a direita, precisava volear com a esquerda
e com direita. Ele estava errando e mandando a bola na rede.
Para corrigir, tive de parar o treino, conversar com ele,
mostrar a posição da raquete. Corrigi e ele
passou a acertar todos os voleios. Isso tem de ser feito com
ele todos os dias. Na aceleração de direita,
quando ele quer bater forte, ele quebra o pulso e a bola fica
na rede. Os voleios e approachs precisam ser corrigidos sempre,
diariamente, porque não são golpes naturais
para ele. Todos os dias tenho de ir lá e mostrar o
que ele deve fazer. Treinamos bastante o segundo saque dele,
porque os outros vão atacar nesse momento.
GE.Net Existe um jogo ou uma situação
ao longo desse tempo em que está com Guga que te deixou
chateado, magoado?
Larri Os erros táticos me deixam bravo e
depois do jogo normalmente ele sabe que fez errado.
GE.Net Dê um exemplo.
Larri Contra o (Gaston) Gaudio, em Roma neste ano,
o Guga venceu o segundo set jogando perfeitamente. No terceiro,
resolveu fazer algumas coisas e levou uma bronca. Hoje ele
está bem maduro e sabe quando está fazendo algo
errado. Todo mundo fala que, atualmente, é muito fácil
trabalhar com o Guga. Mas não é nada disso.
Preciso estar levantando ele o tempo todo, desde quando ele
tinha 14 anos.
GE.Net E qual foi o jogo ou situação
que te deixou mais satisfeito?
Larri Um dos jogos mais fantásticos do Guga
foi contra o (Andre) Agassi no Masters de Lisboa, em 2000.
Disse a ele que o queria ver atacando e batendo forte o tempo
todo. Foi o que ele fez e o Agassi não conseguiu fazer
nada. Esse jogo vai ficar marcado para o resto da minha vida,
fiquei felicíssimo com o triplo 6/4. Foi ali que o
Guga ganhou o Masters, numa quadra de carpete, virou o número
1 do mundo... Todo mundo falava que o Guga era jogador só
de saibro, agora dizem que ele só é de quadra
dura...
GE.Net Em quem se pode acreditar na nova geração
de tenistas no Brasil?
Larri Os juvenis brasileiros estão evoluindo
bastante. O europeu salta mais rápido, aos 15 anos
já está se desvinculando da família,
já decide suas coisas. Garoto estrangeiro de 18 anos
que é convidado nos torneios olha para o adversário
realmente como um rival e não como alguém superior
a ele. Passo aos juvenis que têm trabalhado comigo que
eles devem acreditar neles. O juvenil brasileiro ainda sai
muito inconsistente, demora para dar o salto, precisa sofrer
nos treinos para sobrar nos jogos. O (Flávio) Saretta
está começando a dar esse salto, logo estará
entre os 50 do mundo e pode até ficar entre os 30 do
ranking ainda neste ano.
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