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27/02/2004
Costa do Sauípe (BA) - 27 de fevereiro de 2004. Esta data ficará marcada na história do tênis brasileiro como o dia do primeiro encontro entre os dois maiores nomes do país na história da modalidade. Nesta sexta-feira, Maria Esther Bueno e Gustavo Kuerten se encontraram na quadra central do complexo de Costa do Sauípe, onde está sendo realizado o único ATP do país.

"Oficialmente nunca nos encontramos no exterior. Já nos vimos, mas nossas participações são diferentes. Nós nos encontramos em Flushing Meadows (local onde é disputado o Aberto dos EUA), mas sempre procurei não incomodar o atleta", explicou Maria Esther.

Os dois se encontraram no final do treino de 'Estherzinha' na tarde desta sexta-feira. Melhor do mundo nos anos 60 e dona de, nada menos que, 19 títulos de torneios de Grand Slam, a paulista treinou por pouco mais de 30 minutos com o ex- tenista profissional Rafael Fontes.

Após o treino, Guga entrou na quadra central, cumprimentou Maria Esther e pediu umas aulas rápidas de voleio, como havia prometido no dia anterior. "Conversamos pouco. Ele está mais preocupado com o jogo dele de hoje (sexta-feira), o que é muito natural. A história do voleio foi rápida e apenas uma brincadeira", disse Maria Esther.

Ela foi a única brasileira em todos os tempos a vencer o Torneio de Wimbledon. Maria Esther conquistou o título na lendária grama londrina em 1959, 1960 e 1964, sendo ainda campeã de duplas em cinco oportunidades (1958, 1960, 1963, 1965 e 1966).

Estherzinha ainda foi campeã por quatro vezes no Aberto dos EUA (1959, 1963, 1964 e 1966) e completou o ciclo de títulos do Grand Slam nas duplas, ao ganhar nos EUA (1960, 1962 e 1966), no Aberto da França (1960) e no Aberto da Austrália (1960).

A paulista teve de deixar as quadras repentinamente no final dos anos 60, em virtude de contusões. Ela ainda tentou um retorno às quadras na década seguinte, mas teve de se aposentar em 1977, após uma última participação em Wimbledon, local em que até hoje é uma das mais homenageadas.

Por todos os seus feitos, a paulista de 64 anos é apontada pelo próprio Guga como o maior nome do Brasil em todos os tempos. "Ela ganhou muito mais do que eu. É muito melhor do que eu. Até li num jornal os feitos dela e vi que são marcas memoráveis. O que ela fez vai ser muito difícil alguém igualar", explicou o catarinense, que foi o único, além de Maria Esther, a vencer um torneio de Grand Slam.

Guga revelou que jamais se esqueceu do primeiro encontro com a ex-tenista. "A primeira vez que vi Maria Esther foi em Wimbledon. Estava como juvenil e foi como convidado de um amigo venezuelano (Jimy Szymanski, vice em 1993) para a festa dos campeões. Estava lá de penetra e fiquei totalmente abismado. Estava feliz só de estar lá e ela sendo homenageada lá. Foi incrível. Jamais esqueço", recorda o brasileiro.

Na quinta-feira, Maria Esther esteve nas tribunas de Costa do Sauípe para assistir à dramática vitória de Guga sobre o argentino Franco Squillari por 2 sets a 1, com parciais de 3/6, 7/5 e 7/5. "Assisto aos jogos dele pela TV e acompanho logicamente que tenho de saber sobre o Guga", explica a ex- tenista.

Homenageada em vários países da Europa e dos EUA, Estherzinha é pouco lembrada no Brasil. Uma das poucas homenagens à paulista são duas estátuas de bronze (uma na Federação Paulista de Tênis e outra no Pacaembu) e placas em alguns clubes paulistanos. Tida por muitos como uma ilustre desconhecida no próprio país, Maria Esther diz que acaba sendo valorizada apenas por pessoas nascidas em sua época.

"Joguei tudo o que tinha de jogar aqui. Não foi passado para a garotada de agora tudo que foi feito na minha época. Isso é muito feito nos EUA e na Europa, faz parte da história. Mas aqui não é da cultura do brasileiro e também um pouco de responsabilidade da imprensa", aponta.

Atualmente, a paulista vive às custas de clínicas que ministra no mundo. "As pessoas nais velhas me conhecem mais, mas isso não me abala tanto", diz Maria Esther, pouco antes de deixar a sala de imprensa, onde realizou uma rara entrevista coletiva. A melhor de todos os tempos ainda participou de eventos promocionais, antes de deixar o complexo. Uma jogadora vítima do ocaso da história que os brasileiros ainda têm tempo de corrigir.

Por Fernando Narazaki, enviado especial

Após o treino na quadra central e o encontro com Guga, Maria Esther participou de uma entrevista coletiva.
Veja abaixo os principais trechos:

Pergunta - Como foi seu encontro com Guga hoje? O que vocês conversaram?
Maria Esther Bueno - Ele estava mais preocupado com o jogo de hoje obviamente e entendi, pois sei como é difícil quando você tem de jogar uma semifinal de torneio. Conversamos sobre o jogo de ontem (quinta, contra Franco Squillari) e a história do voleio foi rápida. Ele não falou muita coisa da grama.

Pergunta - Foi o primeiro encontro de vocês?
Maria Esther Bueno - Oficialmente nunca nos encontramos no exterior, nem aqui. A gente se via, mas nossas participações são diferentes. Ele se preocupa mais com treinos, jogos e eu com outras coisas. Eu também não gosto de incomodar os jogadores nas suas horas de descanso, alimentação, pois sei o quanto isso atrapalha. A gente se encontrou em Flushing Meadows, e acompanho sua carreira.

Pergunta - Porque nunca houve um envolvimento da Maria Esther com projetos no tênis brasileiro?
Maria Esther Bueno - Mais do que fiz pelo tênis do Brasil, da América do Sul e do mundo, é impossível. Eu ganhei tudo que podia ter ganho, isso é mais do que um incentivo para qualquer pessoa que sonhe em chegar lá. Joguei tudo que foi campeonato, tive bastante tempo aqui e não considero que tenha feito pouco.

Pergunta - Acha que tem menos reconhecimento do que merecia no Brasil?
Maria Esther Bueno - Lógico que se houvesse naquela época, a transmissão ao vivo e toda a mídia de hoje, o impacto seria maior. Não foi passado para a garotada tudo que foi feito na minha época. Isso é muito feito nos EUA e na Europa, mas não faz parte da cultura do brasileiro. O pessoal diz aqui que uma pessoa ganhou só um torneio de Wimbledon, não sabem a dificuldade que é chegar lá. Tem gente que passa a vida inteira para passar a segunda rodada. Não me queixo disso, só sei que ganhei tudo que podia e em vários tipos de piso.

Pergunta - Fale um pouco sobre o tênis nos anos 60
Maria Esther Bueno - Era bastante difícil. Saí do Brasil sozinha com 14 anos de idade e isso já faz uns 40 anos. Imagina como era difícil. Não havia ranking no início e depois foi criado, mas baseado semana por semana. Hoje as pessoas falam que existe muita pressão. Eu queria saber qual é a pressão de jogar por US$ 1 milhão, na minha época a preocupação era para saber onde ia dormir, o que ia comer, se ia ter dinheiro para a volta. A temporada que menos joguei foram 32 semanas (equivalente a oito meses) e jogava simples, duplas e duplas mistas. Não tinha dor de estômago, contusão ou nada. Tinha de jogar, pois só saía do Brasil com a passagem de ida. Joguei em todos os pisos (taco, grama, cimento e madeira) e para você ser a melhor tinha de ganhar em todos.

Pergunta - E premiação como era?
Maria Esther Bueno - Tem uma história engraçada. Uma vez consegui ir a final de Hamburgo, mas nas semifinais eu tive uma série de cãimbras e tive uma lesão grave no pé. O médico disse que se jogasse, o tendão pioraria, mas o diretor do torneio disse que precisava de mim. resolvi jogar no sacrifício, aguentei aquela contusão e quando terminou o jogo, ele me deu um urso de pelúcia gigante, que tive de carregar a viagem toda na volta. Este foi o prêmio do esforço tão grande que fiz.

Pergunta - Atualmente, qual o tenista que mais lhe agrada e como vê o aumento dos casos de doping?
Maria Esther Bueno - De todos que tenho visto, o que mais me agrada é o Roger Federer. Ele joga no fundo, na frente, saca bem, voleia e tem tudo. Ele me agrada muito, não gosto muito deste tênis força. Sou mais romântica e também fico triste com a possibilidade do fim do jogo de duplas, que está sendo proposto. Quanto ao doping, nunca acreditei muito neste negócio de droga. Mas parece que estou ficando meio antiquada nisso. Até no refresco tem alguma coisa e todos têm de tomar cuidado. Mas acho muito difícil os tenistas quererem usar doping para melhorar o desempenho, pois não sabem quando e o horário que vão jogar.

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