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Por Fernando Narazaki
O caso de doping do mineiro Pedro Braga caiu como uma bomba
no tênis brasileiro nessa segunda-feira. Em comunicado
divulgado no seu noticiário semanal, a Associação
dos Tenistas Profissionais (ATP) divulgou a presença
do esteróide anabolizante estanozolol na urina do tenista
durante o qualifying para o Torneio de Costa do Sauípe
do ano passado.
Por causa do exame, Braga foi suspenso por dois anos de todas
as competições e obrigado a devolver pontos
e prêmios obtidos a partir de setembro de 2003. Nesta
terça-feira, em entrevista exclusiva à Gazeta
Esportiva Net, o mineiro afirma acreditar que está
servindo de "bode expiatório" para a entidade.
O mineiro garante que jamais fez uso de substâncias
proibidas e que apenas tomou os medicamentos e suplementos
alimentares dados pela própria entidade. "Eles
pegaram um cara que joga por prazer, que não vive do
tênis, para servir de lição. Estou pagando
um preço que não devo", desabafa.
Com 29 anos, o tenista acredita que o fato praticamente encerra
sua carreira como profissional. "Eu tenho 29 anos e fica
muito difícil voltar daqui a dois anos. Eles cortaram
as minhas pernas e vou aposentar, se isso for mantido",
explica.
Braga também questiona a punição de dois
anos sofrida. Em casos recentes, a ATP jamais puniu um atleta
de forma tão severa. Em 2003, o tcheco Bohdan Ulihrach
chegou a ser suspenso por um ano, mas depois foi absolvido
por erro da entidade. Antes disso, os argentinos Guillermo
Coria, Juan Ignacio Chela e Mariano Zabaleta foram penalizados
por sete, três e seis meses, respectivamente.
Veja abaixo a entrevista concedida por telefone pelo mineiro,
que promete também recorrer da sentença.
Gazeta Esportiva Net: A ATP divulgou ontem que você
foi suspenso por dois anos. O que aconteceu no caso?
Pedro Braga: Cara, eu ainda não sei. As mesmas
respostas que você quer, eu também procuro e
não encontro. Sinceramente, eu não sei o que
aconteceu. Tomei os mesmos medicamentos de sempre, a creatina,
os aminoácidos, as vitaminas que o pessoal dava na
Bahia, foi a mesma coisa de sempre e agora veio essa bomba.
Não dá para entender.
GE Net: Quais vitaminas eram essas? Você lembra de
ter recebido ou ingerido algo diferente na Bahia?
Braga: Nada demais. Na Bahia, eu recebi uns suplementos
específicos para cãibra, que eles deram para
todo mundo. São os mesmos suplementos que o Guga recebeu,
que todos os outros ganharam da ATP. Não tomei nada
de diferente e naquela competição eu caí
logo na primeira rodada do qualifying. Não foi nem
na chave principal. Eu sou inocente.
GE Net: Então quais os motivos do estanozolol ter
aparecido em sua urina?
Braga:Teve um problema com a minha urina, que ficou 30
dias retida na alfândega da Bahia, sem conservação
em geladeira, nem nada. Um dos motivos pode ter sido isso,
uma possível alteração provocada na urina.
Eu também acredito que a culpa possa ser da ATP.
GE Net: Você se refere aos casos do (tcheco Bohdan)
Ulihrach e do (do inglês Greg) Rusedski, que acabaram
absolvidos pela ATP, após alegar que o doping foi pego
através dos suplementos?
Braga: Exatamente. Nos casos anteriores do Rusedski e
do Ulihrach, foram culpados os suplementos dados pela ATP.
A entidade admitiu a culpa, mas no meu caso eles não
aceitaram isso. Naqueles casos, foi feito um escândalo
e eles admitiram a culpa.
GE Net: Por que você acha que a ATP agiu diferente no
seu caso?
Braga:Não tive melhora depois disso. No ano passado,
não atingi meu melhor ranking, não tive resultados
expressivos. Não sei se é questão de
grana, deles (Rusedski e Ulihrach) terem mais recursos do
que eu. De repente me põem de bode expiatório
nesta história, pega um cara de ranking 400, pega um
cara que joga por prazer e pune de forma exemplar. Estou sendo
um bode expiatório. Na minha cabeça, eu não
entendo.
GE Net: Nos últimos casos de doping, a ATP jamais
aplicou uma pena superior a um ano de suspensão. O
que eles argumentaram para que sua punição fosse
tão maior?
Braga: Nada. Eles só deram a pena e não
justificaram. Meu advogado botou isso em questão, foi
tudo falado e não comentaram nada. Não explicaram
se era nova regra, nem nada. Eles me pegaram de sacanagem,
lançaram na mídia e me aniquilaram. Eles devem
estar sob muita pressão de alguém do doping
e tinha de pegar alguém. A Agência Mundial estava
pressionando demais e eles tinham de dar uma resposta. Paguei
o pato.
GE Net: Como foi o julgamento? Você chegou a ser
ouvido?
Braga: Teve um julgamento no ano passado. Eu não
tenho qualquer experiência com isso e fiz a defesa praticamente
sozinho. Só no meio do processo, eu consegui um advogado,
pois isso custa uma grana. Aí a ATP queria marcar o
julgamento para os EUA, mas não tinha como eu ir para
lá. Foi via telefone, através de teleconferência,
no mesmo tribunal que julgou o Rusedski, o Coria. Não
dá para entender e é muito difícil isso
(pausa prolongada). Eles cortaram minhas pernas e estão
jogando fora uma carreira de 20 anos.
GE Net: E quando recebeu a notificação da
suspensão?
Braga: Na semana passada. Eles me mandaram um comunicado
e vou ter de devolver uma quantia de uns US$ 7 mil. Desde
então eu não tenho sossego. O telefone aqui
em casa não pára, é todo mundo ligando
e preciso fazer alguma coisa. Agora que o caso saiu na mídia
estão aparecendo algumas pessoas dispostas a me ajudar,
advogados e médicos. Vou pegar toda a ajuda possível.
Eu vou recorrer e querer justiça.
GE Net: Quanto tempo tem para recorrer?
Braga: Eu tenho 30 dias. Muita gente ficou sabendo do
caso, tenho os medicamentos comigo e vou colocar isso na defesa.
Sou inocente e vou provar. A ATP foi mais uma vez a culpada,
assim como nos últimos casos.
GE Net: Se a pena for mantida, o que você fará
no futuro? Você acha que este é o final da sua
carreira?
Braga: São 20 anos de carreira, com muitos títulos
e troféus, mas se isso for mantido, eu vou me aposentar.
O (Gastón) Gaudio falou depois que não acreditava
que tinha vencido Roland Garros. Eu também estou sentindo
mesmo, mas do outro lado. Praticamente eles encerram a minha
carreira. Eu não fui treinar mais, meu irmão
dá aula em uma academia (em Minas Gerais) e fui lá
para esquecer. Ontem foi muito difícil e hoje está
sendo também. Acho que vai ser muito difícil
todos os dias até ser inocentado. Sei que com 29 anos
vai ser muito difícil eu voltar. Fico fora dois anos,
volto com 31 anos sem pontos e tenho de começar tudo
de novo. Nunca vivi do tênis e por isso devo parar.
Largar tudo. (pausa prolongada) Não é fácil,
cara. Tudo que vivi vem à tona agora e sei que sou
inocente.
GE Net: O esteróide é uma droga que influi
diretamente na musculatura. Você acha isso necessário
no tênis?
Braga: Para você ver a ironia, eu perdi na primeira
rodada do quali do Brasil Open que eles me pegaram. Antes
tinha sido eliminado em Gramado também na primeira
rodada. Tanto não há droga que não teve
nenhuma influência. Ontem vi no (site) Tenisbrasil
que a substância era mesma dada ao Ben Johnson (velocista
canadense, que perdeu o ouro em Seul-1988) e não acreditei.
Vi as imagens na TV e o Ben Johson parecia um animal, um gorila.
E no tênis você não precisa de explosão
e força. É trocar bola e ter preparação
física. Mais uma vez te falo que fui um bode expiatório,
mas espero que tudo mude.
GE Net: Você tem um relacionamento muito próximo
com Guga e Larri. Frequentemente você treina em Camboriú
com eles. Os dois chegaram a conversar com você após
o estouro do caso?
Braga: Eles me ajudaram bastante, quando precisei, mas
não quero falar sobre isso. Não tem nenhuma
ligação com eles, mas sei que vão me
apoiar. É um caso que nunca aconteceu antes no Brasil
e está sendo inédito para todo mundo. Só
lamento que um inocente tenha sido o alvo. Um cara que jamais
fez do tênis a sua profissão.
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