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08/06/2004

Por Fernando Narazaki

O caso de doping do mineiro Pedro Braga caiu como uma bomba no tênis brasileiro nessa segunda-feira. Em comunicado divulgado no seu noticiário semanal, a Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) divulgou a presença do esteróide anabolizante estanozolol na urina do tenista durante o qualifying para o Torneio de Costa do Sauípe do ano passado.

Por causa do exame, Braga foi suspenso por dois anos de todas as competições e obrigado a devolver pontos e prêmios obtidos a partir de setembro de 2003. Nesta terça-feira, em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva Net, o mineiro afirma acreditar que está servindo de "bode expiatório" para a entidade.

O mineiro garante que jamais fez uso de substâncias proibidas e que apenas tomou os medicamentos e suplementos alimentares dados pela própria entidade. "Eles pegaram um cara que joga por prazer, que não vive do tênis, para servir de lição. Estou pagando um preço que não devo", desabafa.

Com 29 anos, o tenista acredita que o fato praticamente encerra sua carreira como profissional. "Eu tenho 29 anos e fica muito difícil voltar daqui a dois anos. Eles cortaram as minhas pernas e vou aposentar, se isso for mantido", explica.

Braga também questiona a punição de dois anos sofrida. Em casos recentes, a ATP jamais puniu um atleta de forma tão severa. Em 2003, o tcheco Bohdan Ulihrach chegou a ser suspenso por um ano, mas depois foi absolvido por erro da entidade. Antes disso, os argentinos Guillermo Coria, Juan Ignacio Chela e Mariano Zabaleta foram penalizados por sete, três e seis meses, respectivamente.

Veja abaixo a entrevista concedida por telefone pelo mineiro, que promete também recorrer da sentença.

Gazeta Esportiva Net: A ATP divulgou ontem que você foi suspenso por dois anos. O que aconteceu no caso?
Pedro Braga:
Cara, eu ainda não sei. As mesmas respostas que você quer, eu também procuro e não encontro. Sinceramente, eu não sei o que aconteceu. Tomei os mesmos medicamentos de sempre, a creatina, os aminoácidos, as vitaminas que o pessoal dava na Bahia, foi a mesma coisa de sempre e agora veio essa bomba. Não dá para entender.

GE Net: Quais vitaminas eram essas? Você lembra de ter recebido ou ingerido algo diferente na Bahia?
Braga:
Nada demais. Na Bahia, eu recebi uns suplementos específicos para cãibra, que eles deram para todo mundo. São os mesmos suplementos que o Guga recebeu, que todos os outros ganharam da ATP. Não tomei nada de diferente e naquela competição eu caí logo na primeira rodada do qualifying. Não foi nem na chave principal. Eu sou inocente.

GE Net: Então quais os motivos do estanozolol ter aparecido em sua urina?
Braga:
Teve um problema com a minha urina, que ficou 30 dias retida na alfândega da Bahia, sem conservação em geladeira, nem nada. Um dos motivos pode ter sido isso, uma possível alteração provocada na urina. Eu também acredito que a culpa possa ser da ATP.

GE Net: Você se refere aos casos do (tcheco Bohdan) Ulihrach e do (do inglês Greg) Rusedski, que acabaram absolvidos pela ATP, após alegar que o doping foi pego através dos suplementos?
Braga:
Exatamente. Nos casos anteriores do Rusedski e do Ulihrach, foram culpados os suplementos dados pela ATP. A entidade admitiu a culpa, mas no meu caso eles não aceitaram isso. Naqueles casos, foi feito um escândalo e eles admitiram a culpa.

GE Net: Por que você acha que a ATP agiu diferente no seu caso?
Braga:
Não tive melhora depois disso. No ano passado, não atingi meu melhor ranking, não tive resultados expressivos. Não sei se é questão de grana, deles (Rusedski e Ulihrach) terem mais recursos do que eu. De repente me põem de bode expiatório nesta história, pega um cara de ranking 400, pega um cara que joga por prazer e pune de forma exemplar. Estou sendo um bode expiatório. Na minha cabeça, eu não entendo.

GE Net: Nos últimos casos de doping, a ATP jamais aplicou uma pena superior a um ano de suspensão. O que eles argumentaram para que sua punição fosse tão maior?
Braga:
Nada. Eles só deram a pena e não justificaram. Meu advogado botou isso em questão, foi tudo falado e não comentaram nada. Não explicaram se era nova regra, nem nada. Eles me pegaram de sacanagem, lançaram na mídia e me aniquilaram. Eles devem estar sob muita pressão de alguém do doping e tinha de pegar alguém. A Agência Mundial estava pressionando demais e eles tinham de dar uma resposta. Paguei o pato.

GE Net: Como foi o julgamento? Você chegou a ser ouvido?
Braga:
Teve um julgamento no ano passado. Eu não tenho qualquer experiência com isso e fiz a defesa praticamente sozinho. Só no meio do processo, eu consegui um advogado, pois isso custa uma grana. Aí a ATP queria marcar o julgamento para os EUA, mas não tinha como eu ir para lá. Foi via telefone, através de teleconferência, no mesmo tribunal que julgou o Rusedski, o Coria. Não dá para entender e é muito difícil isso (pausa prolongada). Eles cortaram minhas pernas e estão jogando fora uma carreira de 20 anos.

GE Net: E quando recebeu a notificação da suspensão?
Braga:
Na semana passada. Eles me mandaram um comunicado e vou ter de devolver uma quantia de uns US$ 7 mil. Desde então eu não tenho sossego. O telefone aqui em casa não pára, é todo mundo ligando e preciso fazer alguma coisa. Agora que o caso saiu na mídia estão aparecendo algumas pessoas dispostas a me ajudar, advogados e médicos. Vou pegar toda a ajuda possível. Eu vou recorrer e querer justiça.

GE Net: Quanto tempo tem para recorrer?
Braga:
Eu tenho 30 dias. Muita gente ficou sabendo do caso, tenho os medicamentos comigo e vou colocar isso na defesa. Sou inocente e vou provar. A ATP foi mais uma vez a culpada, assim como nos últimos casos.

GE Net: Se a pena for mantida, o que você fará no futuro? Você acha que este é o final da sua carreira?
Braga:
São 20 anos de carreira, com muitos títulos e troféus, mas se isso for mantido, eu vou me aposentar. O (Gastón) Gaudio falou depois que não acreditava que tinha vencido Roland Garros. Eu também estou sentindo mesmo, mas do outro lado. Praticamente eles encerram a minha carreira. Eu não fui treinar mais, meu irmão dá aula em uma academia (em Minas Gerais) e fui lá para esquecer. Ontem foi muito difícil e hoje está sendo também. Acho que vai ser muito difícil todos os dias até ser inocentado. Sei que com 29 anos vai ser muito difícil eu voltar. Fico fora dois anos, volto com 31 anos sem pontos e tenho de começar tudo de novo. Nunca vivi do tênis e por isso devo parar. Largar tudo. (pausa prolongada) Não é fácil, cara. Tudo que vivi vem à tona agora e sei que sou inocente.

GE Net: O esteróide é uma droga que influi diretamente na musculatura. Você acha isso necessário no tênis?
Braga:
Para você ver a ironia, eu perdi na primeira rodada do quali do Brasil Open que eles me pegaram. Antes tinha sido eliminado em Gramado também na primeira rodada. Tanto não há droga que não teve nenhuma influência. Ontem vi no (site) Tenisbrasil que a substância era mesma dada ao Ben Johnson (velocista canadense, que perdeu o ouro em Seul-1988) e não acreditei. Vi as imagens na TV e o Ben Johson parecia um animal, um gorila. E no tênis você não precisa de explosão e força. É trocar bola e ter preparação física. Mais uma vez te falo que fui um bode expiatório, mas espero que tudo mude.

GE Net: Você tem um relacionamento muito próximo com Guga e Larri. Frequentemente você treina em Camboriú com eles. Os dois chegaram a conversar com você após o estouro do caso?
Braga
: Eles me ajudaram bastante, quando precisei, mas não quero falar sobre isso. Não tem nenhuma ligação com eles, mas sei que vão me apoiar. É um caso que nunca aconteceu antes no Brasil e está sendo inédito para todo mundo. Só lamento que um inocente tenha sido o alvo. Um cara que jamais fez do tênis a sua profissão.

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