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Do correspondente Tadeu Meniconi
Belo Horizonte (MG) - Nicolás Massú
é o maior nome da história olímpica do
Chile. O tenista ganhou duas medalhas de ouro em Atenas, uma
no simples e uma em dupla com Fernando González, nas
duas únicas vezes em que o país subiu ao ponto
mais alto do pódio. Às vésperas de defender
seu título, o atleta de 28 anos participou do Challenger
de Belo Horizonte e, em sua última preparação
antes dos Jogos de Pequim, quase faturou um título
de quebra: foi derrotado na final pelo mexicano Santiago González.
Desta vez, o chileno terá um desafio e tanto para
defender sua medalha de ouro. Mesmo com a presença
de astros como Rafael Nadal e Roger Federer, Massú
garante estar tranqüilo para a competição.
Para o tenista, quem ainda nunca conquistou este título
é que deve se sentir pressionado pela vitória.
Acostumado aos milionários torneios da ATP, Massú
ressalta que as Olimpíadas são uma das raras
oportunidades que os tenistas têm de se relacionar com
outros atletas. Para ele, este intercâmbio e a oportunidade
de representar seu país dão à Vila Olímpica
um ambiente mais agradável que o dos hotéis
de luxo do restante da temporada.
Embora tenha bastante orgulho de sua maior conquista, o tenista
faz questão de lembrar que este não é
o único feito de sua carreira. Além das Olimpíadas,
foram cinco títulos na ATP - incluindo o Torneio da
Costa do Sauípe -, embora nenhum deles de Masters Series
ou Grand Slam. Ganhou ainda seis challengers. Sua melhor colocação
na história do ranking foi um nono lugar, atingido
em setembro de 2004, pouco depois do ouro em Atenas.
Aos 28 anos, na 125ª posição do ranking
e na 107ª da Corrida dos Campeões, Nicolás
Massú só vai a Pequim porque recebeu um convite
para defender seu título. Quem o vê assim, e
ainda mais jogando um torneio challenger em Belo Horizonte,
pode imaginar que se trate de um atleta decadente. O tenista,
no entanto, ficou fora das quadras por lesões e por
isto perdeu pontos. Agora, ele garante lutar para conquistar
o título nas Olimpíadas e, na seqüência,
viaja para Nova York para a disputa do Aberto dos Estados
Unidos.
Se depender de seu ânimo, a carreira de Massú
ainda vai longe. Assim como a sua trajetória nas Olimpíadas
de 2008, que começam para o chileno às 23h30
(de Brasília) deste domingo diante do belga Steve Darcis.
O rival do ex-top 10 é atualmente o número 62
do mundo e bateu o campeão olímpico na única
partida já realizada entre os dois: no Torneio de Sopot
do ano passado, por 2 sets a 1 de virada, com duras parciais
de 6/7 (8-10), 7/6 (7-0) e 6/4.
Ainda em Belo Horizonte, antes de seu embarque, o ídolo
chileno concedeu uma entrevista exclusiva à Gazeta
Esportiva.Net e comentou sobre o panorama do tênis
mundial. Para ele, Roger Federer ainda é o melhor do
mundo e é questão de tempo que recupere o posto
que perderá para o espanhol Nadal dentro de duas semanas.
Massú ainda lamentou ainda a má fase do tênis
brasileiro, mas aposta muitas fichas na promessa paulista
Thomaz Bellucci.
Confira:
Gazeta Esportiva.Net: Você recebeu um convite
para disputar os Jogos de Pequim. Isso foi quase uma homenagem
do mundo do tênis a você, por tudo que você
já conquistou no esporte. O que você pensa ao
ver o mundo do tênis mobilizado para te ver em quadra
na China?
Nicolás Massú: É mais
que uma homenagem. Durante dez anos da minha carreira, estive
com um ranking muito bom. Lamentavelmente, no último
ano perdi algumas posições e pela primeira vez
fiquei fora do top 100. Não estou acostumado, mas acontece.
Se as Olimpíadas fossem em março, eu estaria
dentro. Perdi o ranking em abril, maio... foi uma falta de
sorte, mas estou tranqüilo. O que aconteceu há
quatro anos, nas Olimpíadas, já passou. É
uma lembrança linda, mas é só isso. Estou
tranqüilo porque há muitos jogadores que sonham
em ganhar os Jogos Olímpicos e eu já ganhei,
então eu vou para Pequim muito tranqüilo. Isso
não significa que eu não queira ganhar; tenho
muita vontade de conquistar outra medalha para o meu país,
mas com tranqüilidade, porque já ganhei a de ouro.
É um torneio lindo de se desfrutar, e se eu ganhar
medalha outra vez será incrível.
GE.Net: As Olimpíadas são importantes
para todos os esportes. No tênis, porém, não
eram muito reconhecidas até dez ou 15 anos atrás.
Agora, cada vez mais os jogadores de altíssimo nível
vêm jogando. Isso é bom para o tênis, bom
para as Olimpíadas?
Massú: Basta escutar a Federer, Nadal
e Agassi, que são três jogadores muito bons.
Agassi, dentre todos os títulos que ganhou, disse que
um dos mais importantes de sua vida foram os Jogos Olímpicos
(Atlanta-1996). Ele diz sempre que ganhar a medalha de ouro
foi a coisa mais bonita que aconteceu na sua carreira. E há
declarações de Federer e Nadal também.
Federer disse que os Jogos Olímpicos são o seu
sonho, então daí se tem noção
de quão importante é. Eu estou tranqüilo
porque já consegui os meus ouros, mas não quero
ficar o tempo todo pensando nisso. Minha carreira é
muito mais que isso. Antes de ganhar e, Atenas, já
estava como número dez do mundo, então não
tenho que sempre recordar os Jogos Olímpicos.
Foto: Divulgação
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| Massú não sente pressão
para ir à disputa de Pequim-2008. O chileno não
tinha ranking suficiente para ir às Olimpíadas,
mas foi 'homenageado' com um wild card. |
GE.Net: Você acha que vai ser mais difícil
vencer em Pequim do que foi em Atenas?
Massú: É o mesmo, é
exatamente igual. Em Atenas, eram os mesmos jogadores. Lá
estavam Federer, Roddick, agora estarão Federer, Nadal...
Os mesmos jogadores que estavam há quatro anos estão
agora. Igualmente difícil. Obviamente, há jogadores
que hoje estão jogando muito bem, o Nadal está
passando por um momento incrível. Federer e o Novak
Djokovic também são muito difíceis de
vencer, mas eu também estava assim há quatro
anos. Não havia Nadal, mas havia outros muito bons
também.
GE.Net: Vocês, tenistas, ficam na estrada o
ano inteiro. Quando chegam os Jogos Olímpicos, vão
para a Vila com todos os outros atletas. É um momento
bonito, hora de sentir o clima e o espírito?
Massú: Sim, é bonito. Não é
muito cômodo porque, geralmente, ficamos em casas dentro
da vila, as camas são muito pequenas e as condições
não são as mesmas de quando se joga na ATP e
se fica em hotéis cinco estrelas. São muitos
esportistas, então não dá para colocar
todos em hotéis cinco estrelas. A mim, isso não
importa. O mais importante mesmo a meu ver é a convivência
com o resto dos esportistas. Fico o ano inteiro disputando
torneios de tênis e, nos Jogos Olímpicos, conversar
e estar com outros atletas é o mais importante para
mim, sobretudo com os chilenos. Acredito que seremos 27 esportistas
chilenos, e isso é muito pouco. Só que é
um grande orgulho, eu gosto de estar com eles, em condições
são boas ou ruins. Eu quero estar com os meus companheiros
do Chile.
GE.Net: Você é mais experiente que Nadal
e Federer, viu os dois começando. Como você analisa
o momento dos dois tenistas, com o Federer caindo um pouco
e o Nadal atingindo a melhor fase da carreira?
Massú: Todos sabemos que, se Roger Federer
está bem e com confiança, é o número
um do mundo. Isso está mais que claro, pois ele é
o melhor jogador do mundo. Para mim, não há
dúvidas disso e nem de que o Federer em breve estará
entre os melhores jogadores de todos os tempos. O Nadal está
passando por seu melhor momento e o Federer não é
uma máquina. Ficou quatro anos como número um
do mundo ganhando tudo. É um ser humano, tem direito
a ter um momento ruim, como qualquer atleta. O Rafa está
jogando bem, mas acho que Federer é o melhor jogador
do mundo e, possivelmente, de todos os tempos.
GE.Net: O Nadal é um jogador muito forte.
Você acha que o tênis passará por uma fase
em que os jogadores fisicamente mais fortes jogarão
melhor?
Massú: Não, não. Quando o Federer
voltar a jogar bem, será o número um do mundo.
GE.Net: Mudando um pouco de assunto, você escolheu
o Brasil para se preparar para as Olimpíadas?
Massú: Poderia treinar aqui durante o Challenger
de Belo Horizonte. Como estou perto de casa, no entanto, poderia
voltar para o Chile e treinar por lá antes de ir para
a China. Não queri passar a última semana antes
do meu embarque jogando muito longe.
GE.Net: Como você vê o momento atual
do tênis no Brasil? Para você, por que os brasileiros
não puseram um bom jogador acima do top 30 depois de
Guga?
Massú: São momentos que acontecem.
No Chile, se passaram dez anos sem ninguém de destaque.
Naquela época, o número um do Chile era o Sergio
Cortés, que estava em 120 no ranking. Até que
surgiu o Marcelo Ríos. Depois do Ríos surgi
eu, depois o Fernando González. São momentos.
Mas, no Brasil, eu acredito que o tênis poderia estar
muito melhor do que está. São quase 200 milhões
de habitantes, então creio que não ter ninguém
atualmente nem entre os 50 não é bom. É
a minha opinião.
GE.Net: Você conhece o jogo do Thomaz Bellucci,
e até perdeu para ele recentemente, nas semifinais
do Challenger de Túnis. Você pensa que é
um jogador de potencial?
Massú: O Bellucci joga muito bem e em breve
vai estar lá em cima. Mas, para o Brasil, ter apenas
um jogador entre os 50 não é o melhor, sobretudo
depois de Guga. Como eu disse, é um país de
200 milhões de habitantes onde se joga tênis
e deveria estar muito melhor, assim como o Chile. No meu país
também: depois do González e de mim, não
há mais jogadores. No Chile o tênis também
está mal.
Foto: AFP
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| Massú e González estarão
novamente nos Jogos Olímpicos de Pequim. De acordo
com o próprio Massú, eles são os
únicos tenistas de destaque do Chile. |
GE.Net: E você acredita que falta incentivo,
tanto no Chile como no Brasil?
Massú: Não posso falar do Brasil, porque
não moro aqui para saber o que acontece. Mesmo do Chile
não sei muito, porque estou sempre viajando por causa
da minha carreira. São muitas coisas. Apoio econômico,
ser mais forte mentalmente, os garotos são muito instáveis
e os que jogam bem não têm apoio econômico.
Alguns têm vontade, mas não são bons o
suficiente para serem tenistas. Então é preciso
muita coisa para se criar um tenista, não é
tão fácil. Se alguém está entre
os 100 primeiros, é um dos 100 melhores de todo o mundo.
Cem, para todo o mundo! São milhões e milhões
de pessoas, e só há cem vagas. Não há
porque ser um chileno ou um brasileiro, pode ser de outro
país. Bem, de toda forma, acho que o Brasil, com Bellucci
e com os que vêm atrás, pode melhorar.
GE.Net: E por que a Argentina consegue?
Massú: Acho que eles têm mais coração
que o resto. E também porque se acompanha mais tênis
lá, mais que no Brasil e no Chile. O jogador argentino
tem muito mais incentivo. Há muitos jogadores que não
têm o que comer e vêem no tênis um meio
de vida. Se não jogam tênis, não têm
o que comer. Até por isso se entregam tanto assim.
No Brasil e no Chile vive-se melhor, e até por isso
os dois países merecem ter melhores jogadores no futuro.
No entanto, creio que o Brasil vai ter no Bellucci um jogador
muito bom. Eu gosto muito do Brasil, então gostaria
que pudesse surgir alguém como Guga. Sei que é
difícil. Tomara que algum jogador no top 20.
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