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10/08/2008
Montagem sobre foto AFP

Do correspondente Tadeu Meniconi

Belo Horizonte (MG) - Nicolás Massú é o maior nome da história olímpica do Chile. O tenista ganhou duas medalhas de ouro em Atenas, uma no simples e uma em dupla com Fernando González, nas duas únicas vezes em que o país subiu ao ponto mais alto do pódio. Às vésperas de defender seu título, o atleta de 28 anos participou do Challenger de Belo Horizonte e, em sua última preparação antes dos Jogos de Pequim, quase faturou um título de quebra: foi derrotado na final pelo mexicano Santiago González.

Desta vez, o chileno terá um desafio e tanto para defender sua medalha de ouro. Mesmo com a presença de astros como Rafael Nadal e Roger Federer, Massú garante estar tranqüilo para a competição. Para o tenista, quem ainda nunca conquistou este título é que deve se sentir pressionado pela vitória.

Acostumado aos milionários torneios da ATP, Massú ressalta que as Olimpíadas são uma das raras oportunidades que os tenistas têm de se relacionar com outros atletas. Para ele, este intercâmbio e a oportunidade de representar seu país dão à Vila Olímpica um ambiente mais agradável que o dos hotéis de luxo do restante da temporada.

Embora tenha bastante orgulho de sua maior conquista, o tenista faz questão de lembrar que este não é o único feito de sua carreira. Além das Olimpíadas, foram cinco títulos na ATP - incluindo o Torneio da Costa do Sauípe -, embora nenhum deles de Masters Series ou Grand Slam. Ganhou ainda seis challengers. Sua melhor colocação na história do ranking foi um nono lugar, atingido em setembro de 2004, pouco depois do ouro em Atenas.

Aos 28 anos, na 125ª posição do ranking e na 107ª da Corrida dos Campeões, Nicolás Massú só vai a Pequim porque recebeu um convite para defender seu título. Quem o vê assim, e ainda mais jogando um torneio challenger em Belo Horizonte, pode imaginar que se trate de um atleta decadente. O tenista, no entanto, ficou fora das quadras por lesões e por isto perdeu pontos. Agora, ele garante lutar para conquistar o título nas Olimpíadas e, na seqüência, viaja para Nova York para a disputa do Aberto dos Estados Unidos.

Se depender de seu ânimo, a carreira de Massú ainda vai longe. Assim como a sua trajetória nas Olimpíadas de 2008, que começam para o chileno às 23h30 (de Brasília) deste domingo diante do belga Steve Darcis. O rival do ex-top 10 é atualmente o número 62 do mundo e bateu o campeão olímpico na única partida já realizada entre os dois: no Torneio de Sopot do ano passado, por 2 sets a 1 de virada, com duras parciais de 6/7 (8-10), 7/6 (7-0) e 6/4.

Ainda em Belo Horizonte, antes de seu embarque, o ídolo chileno concedeu uma entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net e comentou sobre o panorama do tênis mundial. Para ele, Roger Federer ainda é o melhor do mundo e é questão de tempo que recupere o posto que perderá para o espanhol Nadal dentro de duas semanas. Massú ainda lamentou ainda a má fase do tênis brasileiro, mas aposta muitas fichas na promessa paulista Thomaz Bellucci.

Confira:

Gazeta Esportiva.Net: Você recebeu um convite para disputar os Jogos de Pequim. Isso foi quase uma homenagem do mundo do tênis a você, por tudo que você já conquistou no esporte. O que você pensa ao ver o mundo do tênis mobilizado para te ver em quadra na China?
Nicolás Massú: É mais que uma homenagem. Durante dez anos da minha carreira, estive com um ranking muito bom. Lamentavelmente, no último ano perdi algumas posições e pela primeira vez fiquei fora do top 100. Não estou acostumado, mas acontece. Se as Olimpíadas fossem em março, eu estaria dentro. Perdi o ranking em abril, maio... foi uma falta de sorte, mas estou tranqüilo. O que aconteceu há quatro anos, nas Olimpíadas, já passou. É uma lembrança linda, mas é só isso. Estou tranqüilo porque há muitos jogadores que sonham em ganhar os Jogos Olímpicos e eu já ganhei, então eu vou para Pequim muito tranqüilo. Isso não significa que eu não queira ganhar; tenho muita vontade de conquistar outra medalha para o meu país, mas com tranqüilidade, porque já ganhei a de ouro. É um torneio lindo de se desfrutar, e se eu ganhar medalha outra vez será incrível.

GE.Net: As Olimpíadas são importantes para todos os esportes. No tênis, porém, não eram muito reconhecidas até dez ou 15 anos atrás. Agora, cada vez mais os jogadores de altíssimo nível vêm jogando. Isso é bom para o tênis, bom para as Olimpíadas?
Massú: Basta escutar a Federer, Nadal e Agassi, que são três jogadores muito bons. Agassi, dentre todos os títulos que ganhou, disse que um dos mais importantes de sua vida foram os Jogos Olímpicos (Atlanta-1996). Ele diz sempre que ganhar a medalha de ouro foi a coisa mais bonita que aconteceu na sua carreira. E há declarações de Federer e Nadal também. Federer disse que os Jogos Olímpicos são o seu sonho, então daí se tem noção de quão importante é. Eu estou tranqüilo porque já consegui os meus ouros, mas não quero ficar o tempo todo pensando nisso. Minha carreira é muito mais que isso. Antes de ganhar e, Atenas, já estava como número dez do mundo, então não tenho que sempre recordar os Jogos Olímpicos.
Foto: Divulgação
Foto: AFP
Massú não sente pressão para ir à disputa de Pequim-2008. O chileno não tinha ranking suficiente para ir às Olimpíadas, mas foi 'homenageado' com um wild card.

GE.Net: Você acha que vai ser mais difícil vencer em Pequim do que foi em Atenas?
Massú: É o mesmo, é exatamente igual. Em Atenas, eram os mesmos jogadores. Lá estavam Federer, Roddick, agora estarão Federer, Nadal... Os mesmos jogadores que estavam há quatro anos estão agora. Igualmente difícil. Obviamente, há jogadores que hoje estão jogando muito bem, o Nadal está passando por um momento incrível. Federer e o Novak Djokovic também são muito difíceis de vencer, mas eu também estava assim há quatro anos. Não havia Nadal, mas havia outros muito bons também.

GE.Net: Vocês, tenistas, ficam na estrada o ano inteiro. Quando chegam os Jogos Olímpicos, vão para a Vila com todos os outros atletas. É um momento bonito, hora de sentir o clima e o espírito?
Massú:
Sim, é bonito. Não é muito cômodo porque, geralmente, ficamos em casas dentro da vila, as camas são muito pequenas e as condições não são as mesmas de quando se joga na ATP e se fica em hotéis cinco estrelas. São muitos esportistas, então não dá para colocar todos em hotéis cinco estrelas. A mim, isso não importa. O mais importante mesmo a meu ver é a convivência com o resto dos esportistas. Fico o ano inteiro disputando torneios de tênis e, nos Jogos Olímpicos, conversar e estar com outros atletas é o mais importante para mim, sobretudo com os chilenos. Acredito que seremos 27 esportistas chilenos, e isso é muito pouco. Só que é um grande orgulho, eu gosto de estar com eles, em condições são boas ou ruins. Eu quero estar com os meus companheiros do Chile.

GE.Net: Você é mais experiente que Nadal e Federer, viu os dois começando. Como você analisa o momento dos dois tenistas, com o Federer caindo um pouco e o Nadal atingindo a melhor fase da carreira?
Massú:
Todos sabemos que, se Roger Federer está bem e com confiança, é o número um do mundo. Isso está mais que claro, pois ele é o melhor jogador do mundo. Para mim, não há dúvidas disso e nem de que o Federer em breve estará entre os melhores jogadores de todos os tempos. O Nadal está passando por seu melhor momento e o Federer não é uma máquina. Ficou quatro anos como número um do mundo ganhando tudo. É um ser humano, tem direito a ter um momento ruim, como qualquer atleta. O Rafa está jogando bem, mas acho que Federer é o melhor jogador do mundo e, possivelmente, de todos os tempos.

GE.Net: O Nadal é um jogador muito forte. Você acha que o tênis passará por uma fase em que os jogadores fisicamente mais fortes jogarão melhor?
Massú:
Não, não. Quando o Federer voltar a jogar bem, será o número um do mundo.

GE.Net: Mudando um pouco de assunto, você escolheu o Brasil para se preparar para as Olimpíadas?
Massú:
Poderia treinar aqui durante o Challenger de Belo Horizonte. Como estou perto de casa, no entanto, poderia voltar para o Chile e treinar por lá antes de ir para a China. Não queri passar a última semana antes do meu embarque jogando muito longe.

GE.Net: Como você vê o momento atual do tênis no Brasil? Para você, por que os brasileiros não puseram um bom jogador acima do top 30 depois de Guga?
Massú:
São momentos que acontecem. No Chile, se passaram dez anos sem ninguém de destaque. Naquela época, o número um do Chile era o Sergio Cortés, que estava em 120 no ranking. Até que surgiu o Marcelo Ríos. Depois do Ríos surgi eu, depois o Fernando González. São momentos. Mas, no Brasil, eu acredito que o tênis poderia estar muito melhor do que está. São quase 200 milhões de habitantes, então creio que não ter ninguém atualmente nem entre os 50 não é bom. É a minha opinião.

GE.Net: Você conhece o jogo do Thomaz Bellucci, e até perdeu para ele recentemente, nas semifinais do Challenger de Túnis. Você pensa que é um jogador de potencial?
Massú:
O Bellucci joga muito bem e em breve vai estar lá em cima. Mas, para o Brasil, ter apenas um jogador entre os 50 não é o melhor, sobretudo depois de Guga. Como eu disse, é um país de 200 milhões de habitantes onde se joga tênis e deveria estar muito melhor, assim como o Chile. No meu país também: depois do González e de mim, não há mais jogadores. No Chile o tênis também está mal.
Foto: AFP
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Massú e González estarão novamente nos Jogos Olímpicos de Pequim. De acordo com o próprio Massú, eles são os únicos tenistas de destaque do Chile.

GE.Net: E você acredita que falta incentivo, tanto no Chile como no Brasil?
Massú:
Não posso falar do Brasil, porque não moro aqui para saber o que acontece. Mesmo do Chile não sei muito, porque estou sempre viajando por causa da minha carreira. São muitas coisas. Apoio econômico, ser mais forte mentalmente, os garotos são muito instáveis e os que jogam bem não têm apoio econômico. Alguns têm vontade, mas não são bons o suficiente para serem tenistas. Então é preciso muita coisa para se criar um tenista, não é tão fácil. Se alguém está entre os 100 primeiros, é um dos 100 melhores de todo o mundo. Cem, para todo o mundo! São milhões e milhões de pessoas, e só há cem vagas. Não há porque ser um chileno ou um brasileiro, pode ser de outro país. Bem, de toda forma, acho que o Brasil, com Bellucci e com os que vêm atrás, pode melhorar.

GE.Net: E por que a Argentina consegue?
Massú:
Acho que eles têm mais coração que o resto. E também porque se acompanha mais tênis lá, mais que no Brasil e no Chile. O jogador argentino tem muito mais incentivo. Há muitos jogadores que não têm o que comer e vêem no tênis um meio de vida. Se não jogam tênis, não têm o que comer. Até por isso se entregam tanto assim. No Brasil e no Chile vive-se melhor, e até por isso os dois países merecem ter melhores jogadores no futuro. No entanto, creio que o Brasil vai ter no Bellucci um jogador muito bom. Eu gosto muito do Brasil, então gostaria que pudesse surgir alguém como Guga. Sei que é difícil. Tomara que algum jogador no top 20.

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