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Guga: dez anos de glória, idolatria e decepção
com o “poder”
Por Erick Castelhero e Fernando Narazaki
Foto: AFP
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Em 8 de junho de 1997, o complexo de Roland Garros assistiu
ao “nascimento” do grande nome do esporte brasileiro
após a morte de Ayrton Senna. Com uma bandana na cabeça
e uma camisa azul e amarela, cores consideradas berrantes
para o mundo do tênis, Gustavo Kuerten entrou para a
galeria de grandes ídolos do país ao derrotar
o espanhol Sergi Bruguera por 3 sets a 0, com parciais de
6/3, 6/4 e 6/2.
Dez anos, 53 semanas na liderança do ranking de entradas
e outros 19 títulos se passaram, e o personagem pelo
maior feito do tênis masculino brasileiro lamenta o
pouco que foi aproveitado de seu êxito nas quadras.
Uma década após a conquista, o Brasil não
tem um representante entre os 125 melhores do ranking mundial,
amarga seguidos cancelamentos de eventos profissionais por
falta de patrocínio e torce desesperadamente pelo retorno
do manezinho da Ilha, que se recupera de uma complicada lesão
no quadril.
“É um pouco triste ver que não foi aproveitado
nada em termos de desenvolvimento e estrutura para o tênis
profissional”, lamenta o catarinense, que segue treinando
em Balneário Camboriú e concedeu entrevista
por e-mail à Gazeta Esportiva.Net. Na opinião
dele, os tenistas demoraram para agir contra a gestão
de Nelson Nastás a frente da Confederação
Brasileira de Tênis (CBT), mas evita criticar o atual
comando da entidade.
Ao mesmo tempo em que vê com tristeza o momento ruim
da modalidade, Guga sabe que impulsionou a modalidade e pôde
mudar o rótulo de “esporte de elite”. A
criação de projetos sociais, somada à
seqüência de títulos e glórias do
brasileiro nas quadras, trouxe um conhecimento maior do brasileiro
a respeito da modalidade, mais praticantes e a volta de um
torneio ATP ao país. Nomes como Roger Federer, Rafael
Nadal e Andre Agassi também já não soam
mais de forma estranha.
A luta agora é evitar que este não tenha sido
apenas um momento fugaz. Com a ciência que talvez não
tenha mais condições de lutar pelo topo do ranking,
Guga almeja “voltar a ser competitivo”, mas reconhece
ser uma etapa difícil de ser superada. O catarinense
pretende voltar a Roland Garros, não apenas para ser
homenageado, como a organização prevê
fazer neste ano, mas também para jogar e fazer o que
mais gosta. O que o levou a ser um dos ícones do esporte
nacional.
Confira nesta especial um balanço dos dez anos do
triunfo de Gustavo Kuerten e leia abaixo a entrevista com
o catarinense, que, além de avaliar o resultado de
sua conquista na modalidade, fala sobre as lembranças
daquele inesquecível domingo, 8 de junho de 1997.
Gazeta Esportiva.Net - Qual a primeira lembrança
que vem à sua mente de 8 de junho de 1997? Para você e sua
família, o que representou este dia?
Gustavo Kuerten - Eu recebendo o troféu, o (sueco
Bjorn) Borg lá, o (argentino Guillermo) Vilas, pessoas que
eram mitos para mim…Na hora em que levantei o troféu, veio
à minha cabeça um filme da minha carreira, com toda a trajetória,
desde quando comecei a jogar os campeonatos de criança, o
juvenil, quando comecei a viajar para competir, até concretizar
aquilo tudo… Foi mais do que a realização de um sonho.
GE.Net - Qual o momento mais difícil naquelas duas
semanas? Quando você percebeu que as coisas caminhavam para
o seu lado?
Guga - Para mim, o jogo contra o (austríaco Thomas)
Muster, na terceira rodada, foi o mais complicado. Foi o primeiro
dos jogadores mais tops que eu enfrentei lá - jogadores que
eu não estava acostumado a jogar contra, só via jogar - e
foi também o primeiro jogo de cinco sets que eu fiz num Grand
Slam. Chegou um momento em que achei que não fosse conseguir
mais jogar, que não fosse agüentar. E acho que essa partida
foi chave, foi a que abriu caminho para o título.
GE.Net - Como está sendo acompanhar o torneio que
conseguiu por três vezes pela TV pelo segundo ano seguido?
O que está achando da edição deste ano e deste monopólio entre
Nadal e Federer?
Guga - É claro que eu preferia estar lá, mas não
vou ficar me lamentando todos os dias. Tenho visto alguns
jogos, acompanhado os resultados. O Federer e o Nadal estão
jogando um nível acima dos outros. O Nadal, no saibro, está
perto da perfeição.
GE.Net - Muitos duvidam que você retornará um dia
a Paris. Em 2008, o Guga estará em Roland Garros?
Guga - Se não fui este ano é porque quero jogar lá
no ano que vem.
GE.Net - Você realizou praticamente todos os sonhos
que um tenista pode ter. Faltou algo?
Guga - Nem poderia pensar que faltou algo. Conquistei
muito mais do que eu poderia imaginar ou sonhar.
GE.Net - Após seu título, você e muitas pessoas
ligadas ao tênis declararam que a conquista seria uma forma
de trazer benefícios para os praticantes. Passados dez anos
ficou uma frustração pelo pouco que foi aproveitado?
Guga - É um pouco triste ver que não foi aproveitado
nada em termos de desenvolvimento e estrutura para o tênis
profissional. Não foi criado um programa qualificado. Mas,
em termos do esporte em geral, o tênis ficou muito conhecido,
em todos os cantos. Surgiram muitos projetos sociais, o esporte
se difundiu e isso acho que é uma coisa que fica, não se perde.
GE.Net - Como você avalia a seguinte afirmação dada
por Nelson Nastás após o seu título em 1997: “A atuação de
Guga em Roland Garros só traz benefícios para o tênis brasileiro.
Tenho certeza de que a performance espetacular do Guga atrairá
novos adeptos para o esporte e, o mais importante, vai despertar
o interesse para o investimento de novos patrocinadores, que
apóiam todos os esportes, menos o tênis. A atuação do Guga
pode soar como um despertador”?
Guga - É isso que falei antes: o tênis mudou muito
no Brasil, apesar de não ter surgido nenhum outro jogador
de ponta.
GE.Net - Por falar em Nastás, há três anos você
foi peça fundamental em um movimento para mudar a gestão da
CBT. Acha que valeu a pena? A atual direção conseguiu os objetivos
que você esperava dela?
Guga - Valeu sim. Até acho que poderíamos ter feito
alguma coisa antes. O que aconteceu é que nestes últimos três
anos não tivemos nenhum resultado em termos de conquistas
grandes, como vínhamos tendo anteriormente, e isso acaba atrapalhando.
GE.Net - Sua imagem foi veiculada a muitas coisas
positivas e você conseguiu sempre se esquivar de atrelá-la
a políticos. Teve algum momento que pensou ser impossível
de controlar isso?
Guga - No começo, todo mundo teve que se adaptar.
Mas desde aquele momento que ganhei Roland Garros em 1997,
escolhi manter a minha vida privada pra mim e tomar certos
direcionamentos. Desde então, com a minha equipe, venho conseguindo
manter isso. |