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07/06/2007
Foto: AFP

Guga: dez anos de glória, idolatria e decepção com o “poder”

Por Erick Castelhero e Fernando Narazaki

Foto: AFP
Foto: AFP
Em 8 de junho de 1997, o complexo de Roland Garros assistiu ao “nascimento” do grande nome do esporte brasileiro após a morte de Ayrton Senna. Com uma bandana na cabeça e uma camisa azul e amarela, cores consideradas berrantes para o mundo do tênis, Gustavo Kuerten entrou para a galeria de grandes ídolos do país ao derrotar o espanhol Sergi Bruguera por 3 sets a 0, com parciais de 6/3, 6/4 e 6/2.

Dez anos, 53 semanas na liderança do ranking de entradas e outros 19 títulos se passaram, e o personagem pelo maior feito do tênis masculino brasileiro lamenta o pouco que foi aproveitado de seu êxito nas quadras. Uma década após a conquista, o Brasil não tem um representante entre os 125 melhores do ranking mundial, amarga seguidos cancelamentos de eventos profissionais por falta de patrocínio e torce desesperadamente pelo retorno do manezinho da Ilha, que se recupera de uma complicada lesão no quadril.

“É um pouco triste ver que não foi aproveitado nada em termos de desenvolvimento e estrutura para o tênis profissional”, lamenta o catarinense, que segue treinando em Balneário Camboriú e concedeu entrevista por e-mail à Gazeta Esportiva.Net. Na opinião dele, os tenistas demoraram para agir contra a gestão de Nelson Nastás a frente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), mas evita criticar o atual comando da entidade.

Ao mesmo tempo em que vê com tristeza o momento ruim da modalidade, Guga sabe que impulsionou a modalidade e pôde mudar o rótulo de “esporte de elite”. A criação de projetos sociais, somada à seqüência de títulos e glórias do brasileiro nas quadras, trouxe um conhecimento maior do brasileiro a respeito da modalidade, mais praticantes e a volta de um torneio ATP ao país. Nomes como Roger Federer, Rafael Nadal e Andre Agassi também já não soam mais de forma estranha.

A luta agora é evitar que este não tenha sido apenas um momento fugaz. Com a ciência que talvez não tenha mais condições de lutar pelo topo do ranking, Guga almeja “voltar a ser competitivo”, mas reconhece ser uma etapa difícil de ser superada. O catarinense pretende voltar a Roland Garros, não apenas para ser homenageado, como a organização prevê fazer neste ano, mas também para jogar e fazer o que mais gosta. O que o levou a ser um dos ícones do esporte nacional.

Confira nesta especial um balanço dos dez anos do triunfo de Gustavo Kuerten e leia abaixo a entrevista com o catarinense, que, além de avaliar o resultado de sua conquista na modalidade, fala sobre as lembranças daquele inesquecível domingo, 8 de junho de 1997.

Gazeta Esportiva.Net - Qual a primeira lembrança que vem à sua mente de 8 de junho de 1997? Para você e sua família, o que representou este dia?
Gustavo Kuerten -
Eu recebendo o troféu, o (sueco Bjorn) Borg lá, o (argentino Guillermo) Vilas, pessoas que eram mitos para mim…Na hora em que levantei o troféu, veio à minha cabeça um filme da minha carreira, com toda a trajetória, desde quando comecei a jogar os campeonatos de criança, o juvenil, quando comecei a viajar para competir, até concretizar aquilo tudo… Foi mais do que a realização de um sonho.

GE.Net - Qual o momento mais difícil naquelas duas semanas? Quando você percebeu que as coisas caminhavam para o seu lado?
Guga -
Para mim, o jogo contra o (austríaco Thomas) Muster, na terceira rodada, foi o mais complicado. Foi o primeiro dos jogadores mais tops que eu enfrentei lá - jogadores que eu não estava acostumado a jogar contra, só via jogar - e foi também o primeiro jogo de cinco sets que eu fiz num Grand Slam. Chegou um momento em que achei que não fosse conseguir mais jogar, que não fosse agüentar. E acho que essa partida foi chave, foi a que abriu caminho para o título.

GE.Net - Como está sendo acompanhar o torneio que conseguiu por três vezes pela TV pelo segundo ano seguido? O que está achando da edição deste ano e deste monopólio entre Nadal e Federer?
Guga -
É claro que eu preferia estar lá, mas não vou ficar me lamentando todos os dias. Tenho visto alguns jogos, acompanhado os resultados. O Federer e o Nadal estão jogando um nível acima dos outros. O Nadal, no saibro, está perto da perfeição.

GE.Net - Muitos duvidam que você retornará um dia a Paris. Em 2008, o Guga estará em Roland Garros?
Guga -
Se não fui este ano é porque quero jogar lá no ano que vem.

GE.Net - Você realizou praticamente todos os sonhos que um tenista pode ter. Faltou algo?
Guga -
Nem poderia pensar que faltou algo. Conquistei muito mais do que eu poderia imaginar ou sonhar.

GE.Net - Após seu título, você e muitas pessoas ligadas ao tênis declararam que a conquista seria uma forma de trazer benefícios para os praticantes. Passados dez anos ficou uma frustração pelo pouco que foi aproveitado?
Guga -
É um pouco triste ver que não foi aproveitado nada em termos de desenvolvimento e estrutura para o tênis profissional. Não foi criado um programa qualificado. Mas, em termos do esporte em geral, o tênis ficou muito conhecido, em todos os cantos. Surgiram muitos projetos sociais, o esporte se difundiu e isso acho que é uma coisa que fica, não se perde.

GE.Net - Como você avalia a seguinte afirmação dada por Nelson Nastás após o seu título em 1997: “A atuação de Guga em Roland Garros só traz benefícios para o tênis brasileiro. Tenho certeza de que a performance espetacular do Guga atrairá novos adeptos para o esporte e, o mais importante, vai despertar o interesse para o investimento de novos patrocinadores, que apóiam todos os esportes, menos o tênis. A atuação do Guga pode soar como um despertador”?
Guga -
É isso que falei antes: o tênis mudou muito no Brasil, apesar de não ter surgido nenhum outro jogador de ponta.

GE.Net - Por falar em Nastás, há três anos você foi peça fundamental em um movimento para mudar a gestão da CBT. Acha que valeu a pena? A atual direção conseguiu os objetivos que você esperava dela?
Guga -
Valeu sim. Até acho que poderíamos ter feito alguma coisa antes. O que aconteceu é que nestes últimos três anos não tivemos nenhum resultado em termos de conquistas grandes, como vínhamos tendo anteriormente, e isso acaba atrapalhando.

GE.Net - Sua imagem foi veiculada a muitas coisas positivas e você conseguiu sempre se esquivar de atrelá-la a políticos. Teve algum momento que pensou ser impossível de controlar isso?
Guga -
No começo, todo mundo teve que se adaptar. Mas desde aquele momento que ganhei Roland Garros em 1997, escolhi manter a minha vida privada pra mim e tomar certos direcionamentos. Desde então, com a minha equipe, venho conseguindo manter isso.

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