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Nas mãos da máfia

Técnico volta ao vôlei fugindo do cartel de empresários do futebol

Foto Gazeta Press
"Os clubes têm os jogadores, mas quem ganha dinheiro, mesmo, são os empresários do futebol."

Por Fernando Soléra
Depois de uma passagem de dois anos pelo futebol, o técnico José Roberto Guimarães está de volta ao esporte em que levou o Brasil a duas conquistas memoráveis - campeão dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, e da Liga Mundial, em 1993. Agora dirige as meninas do BCN. Qualificado, em eleição feita nos Estados Unidos, como um dos quatro melhores treinadores de vôlei do mundo, ele conta como teve o desprendimento de renunciar a um salário invejável que tinha na multinacional parceira do Corinthians para retornar à sua origem. E acusa: há uma máfia tomando conta do futebol brasileiro. "Hoje o jogador só pensa em ganhar dinheiro, não tem mais amor à camisa".

Quando você resolveu retornar ao vôlei?
Durante a Olimpíada de Sidney. Conviví com alguns jogadores que atuaram comigo nos jogos de Barcelona, na Olimpíada de Atlanta, revi técnicos de outras equipes, amigos jogadores de outros paises... Aí, foi aquele clima... os dirigentes, os árbitros - como o Nishikawa, que está apitando agora - enfim, me sentí, de novo, dentro da "voleyball family". Como treinador, eu conheço muita gente, faço parte do Conselho Internacional de Técnicos...Daí, não deu para segurar: a saudade me fez voltar ao voleibol.

E a passagem pelo futebol não valeu, então?
Valeu, valeu... Acho até que foi muito importante. Foram dois anos, e eu saí não foi por encerramento de contrato. Eu nem tinha contrato. Foi uma decisão minha. Inclusive, foi a primeira vez que eu vi um chefe ficar muito, mas muito chateado com a saída de um funcionário.

Quem foi esse chefe, o Dick Law?
Ele mesmo. Ele insistiu muito para que eu repensasse. Parece que nem acreditava que eu fosse embora mesmo, porque até foi assistir à minha apresentação no BCN, o que me deixou muito feliz. Então, mas a gente mantém contato, de vez em quando, ainda, pela amizade que ficou. Foi muito interessante trabalhar no futebol.

Você não ganhava mais dinheiro lá do que aqui?
Muito mais! Eu retornei à minha modalidade até contra a vontade de minha esposa. Muito contra a vontade de Dona Alcione, porque ela achava importante o que eu estava fazendo, a minha participação no futebol. Inclusive pelo lado financeiro, logicamente.

Mesmo com a resistência da família, voltou. Isso é amor... ou voce se achava sem função na parceira do Corinthians?
Minha responsabilidade na Hicks Muse era muito grande. Até o Mundial de Clubes eu era o diretor de esportes, fixado dentro do Corinthians. O clube tinha também um diretor de futebol, o Carlos Nujud. As decisões eram tomadas por nós dois. Só que a parceira não tem autonomia no departamento de futebol. Ou seja, ela manda no orçamento, mas não nas contratações, no técnico e nos jogadores. Minha função era ver, comprar e vender jogadores, acompanhar o time.

Mas, depois, essa função foi alterada, certo?
Verdade, eu passei só a tratar do Corinthians e do Cruzeiro nas categorias de base. Mas não saí do Corinthians por causa disso.

Não chegou a ser um diretor para toda a América do Sul?
Ia ser, mas isso não chegou a acontecer. Nós estávamos em negociações com o Racing, da Argentina. Mas surgiram problemas, porque o Racing tinha um endividamento enorme. Acabou não dando certo. Outra coisa: com as mudanças da lei, a Hicks ficou impedida de ter mais de dois times dentro do Brasil, que era de seu interesse. Daí, ela achou melhor segurar um pouco os investimentos na América do Sul.

Acha que a Hicks Muse deixou de injetar recursos no Corinthians, e é por isso que o time se ressente da falta de jogadores?
Não acredito nisso, não. Eu creio que a motivação de um time que saiu das últimas colocações do campeonato paulista e conseguiu reverter completamente sua situação, ganhando o título, prova que ele é bom. Ademais, tem uma garotada que está subindo e que é ótima. Não percebo falta de jogadores.

O Muller, outro dia, disse que o ambiente do futebol é sujo. Isso também concorreu para você voltar ao vôlei?
O grande problema que acontece há algum tempo no futebol brasileiro é que quem manda nele são os empresários. E o pior é que a gente está cansado de saber disso. Os clubes têm os jogadores, fazem todo um trabalho, mas quem ganha dinheiro, mesmo, são os empresários. Tem algumas pessoas enriquecendo, enquanto os clubes, que deveriam ganhar dinheiro, não ganham.

Você diria que isso é um negócio sujo?
Não sei, mas é armação. Armação, tem muita.

Como é uma armação?
Indicação de jogadores, compra de jogadores... Não é que isso tenha acontecido no Corinthians, na minha época, não. Lá, eu ouví muita coisa sobre esse tipo de armação.

Os diretores de clubes não têm como impedir a pressão dos empresários?
Não, não... Não têm. Existe um pequeno cartel dentro do futebol brasileiro, existe uma máfia dentro do futebol brasileiro. Isso é notório, todo mundo sabe. Pouca gente gosta de falar sobre isso, mas existe. Então, é um meio, hoje, difícil de trabalhar. É um meio onde tudo acaba sendo na base do salve-se quem puder.

E o jogador, está de bobo ou de esperto nisso tudo?
Hoje, o jogador também não pensa muito no clube, não tem muito essa coisa de amor à camisa... Quer saber? Eu acho ridículo esse negócio de beijar a camisa do time. Isso não existe. Hoje, as pessoas têm mais amor ao dinheiro, do que àquilo que fazem. Lógico que tem algumas exceções. Mas a maioria está só vendo o dinheiro na frente. Não que isso seja pecado. Ao contrário, é uma coisa natural, dos tempos modernos. Não somos mais românticos. Só que não precisa beijar camisa.

Tem empresário de atletas no meio do vôlei também?
Tem... E já estão começando a querer mandar demais, na minha opinião. Estão querendo enfiar uma determinada jogadora aqui, outra lá... como se faz no futebol. Acho que tem mais é que começar a parar com essa atuação.

A movimentação de atletas no vôlei entre Brasil e Itália é feita por empresários?
Também, também. Lá na Itália, claro, atuam alguns empresários, alguns procuradores que fazem transação de atletas e que ganham uma porcentagem nessas transferências.

O vôlei tem uma grande experiência em ligas, nacional ou internacionalmente. O futebol pode chegar a isso?
É "a" saída. Eu admiro, por exemplo, o campeonato paulista - sem demagogia em favor do Farah - porque, até hoje, vem sendo um dos pouquíssimos torneios bem feitos, dentro do país, rentável, com disputas interessantes. Agora, com essa mudança no calendário nacional, creio que vá piorar. Os clubes do interior deverão ter problemas seríssimos. A saída para o futebol é constituir ligas independentes. O que cabe às federações é fazer respeitar as regras, os horários, mas tem que ser dos clubes, na liga, a determinação do calendário, os regulamentos das competições e os acordos com a televisão. Os clubes é que vão ter de decidir o que é melhor para eles. As ligas são o futuro no futebol, como em todas as modalidades.

Como campeão masculino da Olimpíada de 92 e da Liga Mundial em 93, como é que você reencontra o volei feminino?
Do jeito que já esperava, uma situação um pouco negativa com relação à renovação. Porque, em alguns anos - eu ainda estava dentro do vôlei - se deixou que alguns clubes patrocinados por grandes empresas entrassem nesta atividade sem a obrigatoriedade de trabalhar nas categorias de base. Isso é inadmissível! Chega uma hora em que você fica sem a atleta, porque ela vai casar, ela vai ter outra atividade na vida... e você tem de ter peças de reposição. Na nossa modalidade, a formação de base não foi feita e isso a gente começa a sentir hoje. Acho que o Marco Aurélio, hoje, na seleção feminina, vai penar um pouco...

Por que o voleibol feminino nunca chegou ao nivel do masculino em nivel mundial?
Para mim, é mais fácil conseguir resultado no feminino, no confronto internacional, do que no masculino. Porque o nível técnico masculino é muito mais equilibrado. O que acontece é que existem duas seleções femininas já tradicionais - Cuba e Russia - que traba1lham muito mais forte. No caso das cubanas, elas não tem objetivos pessoais durante a vida toda. São proibidas de sair de Cuba. Se hoje elas jogam na Itália, têm de ir as doze para lá, porque não são liberadas individualmente. Enfim, existe
a diferença cultural.

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