| Foto: GP |
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Três meses antes do Campeonato Mundial, o técnico
Marco Aurélio Mota se viu com um "problemaço"
na mão. As principais jogadoras pediram dispensa e ele
simplesmente não tinha time para colocar em quadra. O
treinador foi buscar as jogadoras em três grupos: da seleção
B, que ele convocara um ano antes, da seleção
juvenil, campeã mundial em 2001, e da adulta, algumas
chamadas pela primeira vez para a seleção. A única
experiente era Karin Rodrigues. As 12 jogadoras nunca tinham
entrado juntas em quadra uma vez sequer. Depois de duas competições
- o Grand Prix e o Campeonato Mundial -, ele respira aliviado,
com a sensação do dever cumprido. "Fomos
ao sumo da laranja", diz.E o Brasil chegou do Mundial mostrando
uma nova geração que tem tudo para chegar ao pódio
nas próximas competições.
Como você analisa essa nova geração
brasileira?
Antes de mais nada, é um grupo inteligente, fica mais
fácil trabalhar com elas porque se adaptam mais rapidamente
à parte tática. Não se perde tempo com
muitos detalhes, com discussões banais. Não
falo em nível intelectual, mas de inteligência
mesmo. Dessa maneira, tivemos mais tempo para o treinamento
individual, sem ter que ficar uma semana nos preparando para
enfrentar determinado adversário. Contra o Japão,
por exemplo, fizemos algumas marcações de bloqueio
com muita facilidade.
Quais jogadoras mais evoluíram nesse período
de seleção? Foi mérito da comissão
técnica?
A Paula foi extraordinária. Sua eficiência no
ataque, jogando contra as melhores equipes do mundo, foi 50%
superior ao que teve na Superliga. A Sheila tem um braço
muito forte, um excelente controle dos golpes de ataque. A
Luciana melhorou muito, ainda está lenta atrás
e a Marcelle, que nunca tinha sido titular em um clube, acabou
como a melhor do Mundial. O primeiro campeonato dela como
titular foi o Grand Prix. Acho que o grupo como um todo cresceu
muito. Precisa ainda de ajustes, mas hoje já é
um time.
Você diz que a primeira competição
da Marcelle como titular de um time foi o Grand Prix. E ela
acabou sendo eleita a melhor levantadora do mundo em sua segunda
competição. Como isso aconteceu?
Em primeiro lugar, tivemos a preocupação de
criar um estilo de jogo simples, de fácil execução,
mais linear, que ela pudesse executar. Depois nos preocupamos
com o ritmo das jogadas, dando mais velocidade. Nos preocupamos
em não idealizar mais coisas do que ela pudesse fazer.
À medida que se sentiu mais segura, foi ficando mais
à vontade. Dizia para ela "faz o seu,
não tenta fazer mais do que pode". Treinamos muita
recepção, para dar a ela confiança nas
bolas de meio, e aos poucos ela foi se acertando com as atacantes
de meio. No Grand Prix ela foi bem, chegou motivada à
seleção. E teve a responsabilidade de crescer.
Nossa vitória na primeira etapa do Grand Prix deu personalidade
ao time, deu uma identidade. Todas cresceram.
E a mentalidade das jogadoras?
Isso é o mais importante. Hoje no grupo se fala e se
discute voleibol. A gente nota que todas estão interessadas
em fazer a coisa crescer.
Depois da saída das jogadoras, a sua capacidade
foi posta em discussão. Como você fez para que
as que ficaram continuassem acreditando em você?
Isso não foi problema. A dificuldade não era
a minha figura, mas a auto-estima de cada uma delas. Se elas
fossem mal no Grand Prix, seria ruim para todo mundo. Na véspera
da viagem, perdemos a Jacqueline e a Kátia, ambas machucadas.
Fizemos um trabalho para aumentar a auto-estima, sem fixar
uma meta muito grande. Mostramos que, mesmo perdendo, se jogássemos
100%,
seria bom. Fizemos com que elas centrassem o trabalho nelas
mesmas, sem pensar em adversários, sem temer enfrentar
Rússia, Japão e outros. Com isso, tiramos um
pouco o estresse de cima delas.
Como você conseguiu montar um time com apenas três
meses de treinos?
Ninguém nunca tinha jogado com ninguém, isso
três meses antes do Mundial. Fizemos amistosos contra
a República Dominicana. Foi a primeira vez que reunimos
aquele time. Mas elas se uniram e com o espírito de
coletividade saíram da situação difícil.
Jogamos bem no Grand Prix, ganhamos da Rússia, do Japão,
da Alemanha. Isso elevou o moral do time, a auto-estima. Na
preparação, vencemos a Itália e a os
Estados Unidos. O sétimo lugar talvez não expressa
a nossa evolução. O sétimo lugar no Mundial
ficou mais perto do primeiro do que o quinto lugar no Grand
Prix do ano passado.
Algumas pessoas estão dizendo que, se as jogadoras
que saíram estivessem no Mundial, a seleção
poderia ter conseguido uma classificação muito
melhor. Você acha isso?
Isso é um estudo de futurologia, não se pode
dizer o que aconteceria. Mas, se elas ficassem do jeito que
estavam, com certeza seria muito pior. Não queriam
dar espaço para as mais novas, criando um clima difícil.
O grupo ficou desunido. Não posso cobrar de nenhuma
das que ficaram mais do que deram no Mundial. Treinamos apenas
três meses. O grupo estava com uma energia muito boa,
muito legal. Quando acabou o jogo com a Bulgária, todas
se abraçaram e choraram. Foram três meses de
muito trabalho, de tensão.
É possível a volta das que saíram?
A seleção está aberta, a questão
é a atitude. O problema não é pessoal,
é contra atitudes. A responsabilidade é das
jogadoras. Pela bola, algumas não voltam mais, pelo
crescimento dessas que jogaram. Os espaços foram ocupados.
Algumas não voltam mais pela parte técnica,
outras por atitudes. O ano passado, tentei durante algum tempo
convencê-las de ficar. Hoje, vejo que
perdemos uns três, quatro meses de trabalho por causa
disso. O nosso sétimo lugar hoje está mais próximo
do primeiro do que se tivéssemos continuado.
Como você vê o futuro da seleção?
Vamos crescer muito ainda, com certeza. Todas vão jogar
a Superliga, vão evoluir. Como time, somos um dos que
mais tem a evoluir. O cenário internacional para nós
é muito bom. Recebemos elogios de todos os treinadores.
Os alemães, principalmente, viram como evoluímos
depois do Grand Prix. Temos correção de rotas,
o time não está fechado. A Jacqueline e a Kátia
voltarão, vamos melhorar. Em apenas três meses
montamos um time, fizemos um grupo. Jogamos de igual para
igual contra as melhores equipes do mundo, isso me motiva
para o futuro. Se tivéssemos terminado em quinto lugar,
não mudaria minha avaliação em relação
ao futuro. Proporcionalmente, vamos melhorar mais do que as
outras seleções.
Quais foram o seu maior mérito e seu maior erro
nessa campanha do Mundial?
Maior mérito foi a melhora individual do Grand Prix
para o Mundial. Primeiro, nos preocupamos em montar um time
para o Grand Prix; depois, focamos na melhora individual.
Meu maior questionamento é em relação
ao jogo contra a China. Fico me perguntando se não
poderia ter mudado alguma coisa no quarto set. Me cobro um
pouco sobre isso. Psicologicamente era importante jogar na
frente e deixamos fugir.
Em 1987, você levou para a seleção brasileira
juvenil uma geração que acabaria se destacando
na década de 90, com Ana Moser, Fernanda Venturini,
Ana Paula, Ana Flávia, Márcia Fu. Com a seleção
italiana que acaba de conquistar o título mundial,
você também foi um dos responsáveis pelo
trabalho de renovação e descobriu algumas das
campeãs. Agora você é o responsável
por mais um trabalho de renovação, levando para
a seleção brasileira jogadoras desconhecidas,
reservas em seus clubes. Você é um caça-talentos?
Algumas circunstâncias coincidiram na minha carreira.
Sempre trabalhei com jogadoras novas, desde a época
do Botafogo, com a Ana Richa e a Adriana Samuel, entre outras,
depois no Bradesco, quando fomos campeões brasileiros
com oito jogadoras juvenis, vencendo a Supergasbrás
no Maracanãzinho. Foi por isso que o Nuzman me convidou
para treinar a seleção infanto-juvenil,
depois a juvenil e acabamos campeões mundiais em 87
- depois em 89, já com o Wadson Lima.
Em 91, fui para a Itália, convidado pelo Julio Velasco,
então treinador do masculino adulto de lá. Eles
queriam fazer uma reformulação no vôlei
feminino, que não tinha jogadoras altas nem boa qualidade
técnica e achavam que o treinador tinha que ser latino.
Fizemos um trabalho que se chamou "piano alteza"
(plano altura), onde rodamos o país inteiro à
procura de jogadoras altas. Éramos três treinadores
e chegamos a ser ridicularizados porque chegávamos
nos ginásios com fita métrica e balança
de cozinha. Mas fizemos um diagnóstico completo de
todas as jogadoras, com três níveis de avaliação.
As que ganhavam o código A eram as com potencial, B
deveriam ser mais observadas e C não interessavam.
Numa segunda etapa, as de códigos A e B eram reunidas
em três regiões do país e daí foram
selecionadas 30 para o processo de seleção para
o infanto-juvenil. Foi aí que criamos a seleção
infanto-juvenil, mesmo a Europa não tendo campeonato
para essa modalidade.
Na seleção adulta, troquei algumas veteranas
por juvenis. O que aconteceu na Itália foi que essas
jogadoras demoraram a aparecer por causa da presença
de muitas estrangeiras no campeonato nacional. Mas a base
começou a ser montada no início dos anos 90.
Aqui no Brasil também foi assim. Só que se esquecem
que a seleção feminina foi quarto lugar nas
Olimpíadas de Barcelona, e que no masculino, também
foi armada uma base durante alguns anos que agora está
se revelando.
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