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18/09/02
Foto: GP
Foto: GP

Três meses antes do Campeonato Mundial, o técnico Marco Aurélio Mota se viu com um "problemaço" na mão. As principais jogadoras pediram dispensa e ele simplesmente não tinha time para colocar em quadra. O treinador foi buscar as jogadoras em três grupos: da seleção B, que ele convocara um ano antes, da seleção juvenil, campeã mundial em 2001, e da adulta, algumas chamadas pela primeira vez para a seleção. A única experiente era Karin Rodrigues. As 12 jogadoras nunca tinham entrado juntas em quadra uma vez sequer. Depois de duas competições - o Grand Prix e o Campeonato Mundial -, ele respira aliviado, com a sensação do dever cumprido. "Fomos ao sumo da laranja", diz.E o Brasil chegou do Mundial mostrando uma nova geração que tem tudo para chegar ao pódio nas próximas competições.

Como você analisa essa nova geração brasileira?
Antes de mais nada, é um grupo inteligente, fica mais fácil trabalhar com elas porque se adaptam mais rapidamente à parte tática. Não se perde tempo com muitos detalhes, com discussões banais. Não falo em nível intelectual, mas de inteligência mesmo. Dessa maneira, tivemos mais tempo para o treinamento individual, sem ter que ficar uma semana nos preparando para
enfrentar determinado adversário. Contra o Japão, por exemplo, fizemos algumas marcações de bloqueio com muita facilidade.

Quais jogadoras mais evoluíram nesse período de seleção? Foi mérito da comissão técnica?
A Paula foi extraordinária. Sua eficiência no ataque, jogando contra as melhores equipes do mundo, foi 50% superior ao que teve na Superliga. A Sheila tem um braço muito forte, um excelente controle dos golpes de ataque. A Luciana melhorou muito, ainda está lenta atrás e a Marcelle, que nunca tinha sido titular em um clube, acabou como a melhor do Mundial. O primeiro campeonato dela como titular foi o Grand Prix. Acho que o grupo como um todo cresceu muito. Precisa ainda de ajustes, mas hoje já é um time.

Você diz que a primeira competição da Marcelle como titular de um time foi o Grand Prix. E ela acabou sendo eleita a melhor levantadora do mundo em sua segunda competição. Como isso aconteceu?
Em primeiro lugar, tivemos a preocupação de criar um estilo de jogo simples, de fácil execução, mais linear, que ela pudesse executar. Depois nos preocupamos com o ritmo das jogadas, dando mais velocidade. Nos preocupamos em não idealizar mais coisas do que ela pudesse fazer. À medida que se sentiu mais segura, foi ficando mais à vontade. Dizia para ela "faz o seu,
não tenta fazer mais do que pode". Treinamos muita recepção, para dar a ela confiança nas bolas de meio, e aos poucos ela foi se acertando com as atacantes de meio. No Grand Prix ela foi bem, chegou motivada à seleção. E teve a responsabilidade de crescer. Nossa vitória na primeira etapa do Grand Prix deu personalidade ao time, deu uma identidade. Todas cresceram.

E a mentalidade das jogadoras?
Isso é o mais importante. Hoje no grupo se fala e se discute voleibol. A gente nota que todas estão interessadas em fazer a coisa crescer.

Depois da saída das jogadoras, a sua capacidade foi posta em discussão. Como você fez para que as que ficaram continuassem acreditando em você?
Isso não foi problema. A dificuldade não era a minha figura, mas a auto-estima de cada uma delas. Se elas fossem mal no Grand Prix, seria ruim para todo mundo. Na véspera da viagem, perdemos a Jacqueline e a Kátia, ambas machucadas. Fizemos um trabalho para aumentar a auto-estima, sem fixar uma meta muito grande. Mostramos que, mesmo perdendo, se jogássemos 100%,
seria bom. Fizemos com que elas centrassem o trabalho nelas mesmas, sem pensar em adversários, sem temer enfrentar Rússia, Japão e outros. Com isso, tiramos um pouco o estresse de cima delas.

Como você conseguiu montar um time com apenas três meses de treinos?
Ninguém nunca tinha jogado com ninguém, isso três meses antes do Mundial. Fizemos amistosos contra a República Dominicana. Foi a primeira vez que reunimos aquele time. Mas elas se uniram e com o espírito de coletividade saíram da situação difícil. Jogamos bem no Grand Prix, ganhamos da Rússia, do Japão, da Alemanha. Isso elevou o moral do time, a auto-estima. Na
preparação, vencemos a Itália e a os Estados Unidos. O sétimo lugar talvez não expressa a nossa evolução. O sétimo lugar no Mundial ficou mais perto do primeiro do que o quinto lugar no Grand Prix do ano passado.

Algumas pessoas estão dizendo que, se as jogadoras que saíram estivessem no Mundial, a seleção poderia ter conseguido uma classificação muito melhor. Você acha isso?
Isso é um estudo de futurologia, não se pode dizer o que aconteceria. Mas, se elas ficassem do jeito que estavam, com certeza seria muito pior. Não queriam dar espaço para as mais novas, criando um clima difícil. O grupo ficou desunido. Não posso cobrar de nenhuma das que ficaram mais do que deram no Mundial. Treinamos apenas três meses. O grupo estava com uma energia muito boa, muito legal. Quando acabou o jogo com a Bulgária, todas se abraçaram e choraram. Foram três meses de muito trabalho, de tensão.

É possível a volta das que saíram?
A seleção está aberta, a questão é a atitude. O problema não é pessoal, é contra atitudes. A responsabilidade é das jogadoras. Pela bola, algumas não voltam mais, pelo crescimento dessas que jogaram. Os espaços foram ocupados. Algumas não voltam mais pela parte técnica, outras por atitudes. O ano passado, tentei durante algum tempo convencê-las de ficar. Hoje, vejo que
perdemos uns três, quatro meses de trabalho por causa disso. O nosso sétimo lugar hoje está mais próximo do primeiro do que se tivéssemos continuado.

Como você vê o futuro da seleção?
Vamos crescer muito ainda, com certeza. Todas vão jogar a Superliga, vão evoluir. Como time, somos um dos que mais tem a evoluir. O cenário internacional para nós é muito bom. Recebemos elogios de todos os treinadores. Os alemães, principalmente, viram como evoluímos depois do Grand Prix. Temos correção de rotas, o time não está fechado. A Jacqueline e a Kátia voltarão, vamos melhorar. Em apenas três meses montamos um time, fizemos um grupo. Jogamos de igual para igual contra as melhores equipes do mundo, isso me motiva para o futuro. Se tivéssemos terminado em quinto lugar, não mudaria minha avaliação em relação ao futuro. Proporcionalmente, vamos melhorar mais do que as outras seleções.

Quais foram o seu maior mérito e seu maior erro nessa campanha do Mundial?
Maior mérito foi a melhora individual do Grand Prix para o Mundial. Primeiro, nos preocupamos em montar um time para o Grand Prix; depois, focamos na melhora individual. Meu maior questionamento é em relação ao jogo contra a China. Fico me perguntando se não poderia ter mudado alguma coisa no quarto set. Me cobro um pouco sobre isso. Psicologicamente era importante jogar na frente e deixamos fugir.

Em 1987, você levou para a seleção brasileira juvenil uma geração que acabaria se destacando na década de 90, com Ana Moser, Fernanda Venturini, Ana Paula, Ana Flávia, Márcia Fu. Com a seleção italiana que acaba de conquistar o título mundial, você também foi um dos responsáveis pelo trabalho de renovação e descobriu algumas das campeãs. Agora você é o responsável por mais um trabalho de renovação, levando para a seleção brasileira jogadoras desconhecidas, reservas em seus clubes. Você é um caça-talentos?

Algumas circunstâncias coincidiram na minha carreira. Sempre trabalhei com jogadoras novas, desde a época do Botafogo, com a Ana Richa e a Adriana Samuel, entre outras, depois no Bradesco, quando fomos campeões brasileiros com oito jogadoras juvenis, vencendo a Supergasbrás no Maracanãzinho. Foi por isso que o Nuzman me convidou para treinar a seleção infanto-juvenil,
depois a juvenil e acabamos campeões mundiais em 87 - depois em 89, já com o Wadson Lima.

Em 91, fui para a Itália, convidado pelo Julio Velasco, então treinador do masculino adulto de lá. Eles queriam fazer uma reformulação no vôlei feminino, que não tinha jogadoras altas nem boa qualidade técnica e achavam que o treinador tinha que ser latino. Fizemos um trabalho que se chamou "piano alteza" (plano altura), onde rodamos o país inteiro à procura de jogadoras altas. Éramos três treinadores e chegamos a ser ridicularizados porque chegávamos nos ginásios com fita métrica e balança de cozinha. Mas fizemos um diagnóstico completo de todas as jogadoras, com três níveis de avaliação. As que ganhavam o código A eram as com potencial, B deveriam ser mais observadas e C não interessavam.

Numa segunda etapa, as de códigos A e B eram reunidas em três regiões do país e daí foram selecionadas 30 para o processo de seleção para o infanto-juvenil. Foi aí que criamos a seleção infanto-juvenil, mesmo a Europa não tendo campeonato para essa modalidade.

Na seleção adulta, troquei algumas veteranas por juvenis. O que aconteceu na Itália foi que essas jogadoras demoraram a aparecer por causa da presença de muitas estrangeiras no campeonato nacional. Mas a base começou a ser montada no início dos anos 90.

Aqui no Brasil também foi assim. Só que se esquecem que a seleção feminina foi quarto lugar nas Olimpíadas de Barcelona, e que no masculino, também foi armada uma base durante alguns anos que agora está se revelando.

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