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16/10/04
Por Marta Teixeira

Estrela em ascensão, a ponta Marianne Steinbrecher, ou simplesmente Mari, conheceu a glória e o peso da fama no curto espaço de um ano. Reconhecida como um dos principais nomes da nova geração de vôlei no país, ela foi a sensação da última Superliga. A paulista de 21 anos foi eleita atleta revelação, melhor atacante e terminou como a maior pontuadora do torneio com 472 pontos.

Com a seleção, foi campeã do Grand Prix, na Itália, em julho, logo na primeira convocação e recebeu elogios abertos do técnico José Roberto Guimarães, que também a comanda no Finasa/Osasco, da veterana Fernanda Venturini e de outras companheiras de equipe. O público também soube reconhecer nela um talento em evolução e Mari já conta com torcida própria.

Mas nem tudo tem sido flores nesse caminho. Menina de ouro na convocação olímpica para os Jogos de Atenas, tornou-se alvo das cobranças nacionais depois que a seleção frustrou as expectativas de medalha na Grécia. Ao contrário das usuais desculpas de imaturidade e despreparo, Mari encarou a situação de frente e foi a primeira a desembarcar e conversar com a imprensa no retorno ao Brasil.

Nesta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, a atleta confessa que ainda evita pensar no que aconteceu em Atenas, mas que não se sente pressionada pelas cobranças.

Retornando de uma lesão no abdômen, Mari também comprova a fama de tranqüila para falar da operação que será feita em seu ombro e que vai tirá-la da seleção nessa temporada. Mesmo nesse redemoinho de contratempos, a ponta confessa seu otimismo quanto ao processo de renovação da equipe para Pequim-2008. Para Mari, o Brasil tem chances não apenas de se manter entre os favoritos, mas até de melhorar como equipe.

Gazeta Esportiva.Net - Você está voltando de uma lesão, mas já sabe que vai ter de passar por uma cirurgia logo após a Superliga. Como é que você encara essa situação?
Mari -
Eu tenho um problema congênito no ombro, que piora com o impacto na região que é muito constante. Sempre soube que teria de operar. Tentei tratar fazendo RPG, para abrir espaço no ombro, acupuntura, fiz de tudo. Mas é difícil porque, no ombro fica tudo muito próximo, é difícil fazer espaço. O ideal é a artroscopia. De dois anos para cá, não consigo jogar sem tomar remédio. Às vezes sinto uma dor que não consigo nem pentear o cabelo e tenho que tomar remédio sempre, mas é ruim porque isso prejudica meu fígado, meu estômago e sou muito nova.

GE – Essa é uma operação planejada para não atrapalhar muito a temporada, mas compromete sua atuação pela seleção.
Mari –
É, vai comprometer o ano na seleção. Vou perder o Grand Prix. É difícil abrir mão da seleção. Foi lá que conquistei tudo. Mas sou nova ainda, é um ano, não vou perder tanto assim e é em prol da saúde. É melhor cuidar agora para poder jogar amanhã. Estou aumentando minha vida útil nas quadras.

GE – Você está encarando esta situação de maneira bastante tranqüila. Uma tranqüilidade que já virou marca. O quanto disso é real na sua personalidade?
Mari –
Eu sou assim mesmo. Por dentro entro no jogo, mas não costumo passar muito isso. É uma característica minha. Fora (da quadra) sou tranqüila, mas mais falante. Desde criança sempre fui meio tímida, mas era levada. Não era santinha não.

GE – Essa timidez já te atrapalhou de alguma forma. Você já quis mudar um pouco isso na sua personalidade?
Mari –
A timidez nunca atrapalhou. Pelo contrário, nos momentos mais difíceis sempre me ajudou a sair das situações. Mas, às vezes, técnicos que não me conheciam achavam que eu não estava bem. Uma vez, briguei com o técnico da seleção paranaense porque ele tentava me obrigar a falar no jogo. Algumas jogadoras também achavam que não estava a fim. Mas depois que conheceram meu jeito não tive mais problema.

GE – Foi essa tranqüilidade que fez você assumir a responsabilidade de descer primeiro no desembarque da seleção brasileira depois dos Jogos de Atenas? Você se preparou para isso?
Mari -
Não me preparei. Na verdade, nem sabia que fui a primeira. Minha bagagem chegou primeiro e eu saí, mas, de qualquer forma ia ter que encarar. Conversar com a imprensa e dar uma satisfação.

GE – Você fala em dar satisfação. Então, sabia que a cobrança em cima de você seria maior. Essa cobrança te incomodou?
Mari –
Não, de maneira nenhuma me incomoda. Na Olimpíada não era muito em cima de mim. A responsabilidade estava mais em cima das veteranas, Virna, Fernanda... Mas a partir da semi o Zé distribuiu mais, disse que cada um tem que fazer a sua parte. Mas eu já sou assim, sou de chamar a responsabilidade para mim. Não importa se você é jovem, sua idade. Tem que assumir.

GE – Passado mais de um mês de tudo que aconteceu em Atenas, que lição você tira de tudo aquilo?
Mari –
Sinceramente, até hoje não quis parar muito para pensar sobre o que aconteceu. Não era mesmo para ser. Tive sete passes na mão e não conseguir virar um. Se virasse um a gente ia para a decisão. A gente fez tudo o que deveria ter feito e nada deu certo. É difícil tirar alguma coisa boa disso. Mas a gente tem que saber que não acabou. Tem renovação aí, são mais quatro anos. Não pode desistir agora. Fizemos uma campanha muito boa, foram quatro derrotas desde o título do Grand Prix.

GE – E quanto à renovação, você está otimista?
Mari –
Renovação é um ciclo normal. Ia ter que acontecer de qualquer maneira. As meninas estão com 30 anos. Elas não vão agüentar ir para outra olimpíada. A gente tem bastante jogadoras novas. Acho até que vai melhorar. Vamos ter sangue novo, mais gás.

GE – Dessa safra nova, você é apontada como um dos destaques e acaba ficando com um papel que foi da Fernanda Venturini que, como você, entrou nova na equipe principal mas acabou sendo a veterana entre as novatas da geração dela. Está preparada para a responsabilidade de ser o exemplo das que chegam agora?
Mari –
É, a responsabilidade aumenta. Mas vou tentar ajudar do jeito que posso. Tentar passar o que passei neste período. Mostrar que em Olimpíadas o que muda é só o nome do campeonato, porque são os mesmos times contra os quais estamos acostumadas a jogar.

GE – Você diz que a seleção vai até melhorar. O que será fundamental nesse trabalho de renovação?
Mari –
Material humano nós temos, decisivo para a renovação vai ser a forma de treinamento, a determinação e aplicação de cada uma. Nós temos o exemplo de Cuba, que é um time novo, mas já tem medalha olímpica (bronze em Atenas).

GE – Você não se diferencia apenas pela experiência que já possui, tem a versatilidade também. Você é ponta, meio, oposto...
Mari –
É mesmo. Na verdade, não sei o que sou. Um dia treino na saída, no meio do treino o Zé me manda para o meio, depois estou na ponta. Mas é até bom não ser especificamente uma coisa. Só não pode pôr para levantar e defender, porque aí não ia dar conta. Mas é positivo isso. Para o treinador é muito bom, abre mais o leque.

GE – É uma tendência internacional, não?
Mari –
Sim, acho que é uma tendência que vai continuar. Os técnicos procuram isso, mas é difícil. As atletas se especializam mais em uma função, até porque é totalmente diferente a característica das bolas, uma é mais rápida, outra mais baixa. No vôlei moderno a tendência é esta. A Rússia tem isso com a Sokolova (a atacante Lioubov Sokolova, de 26 anos). Vão exigir cada vez mais das atletas, mas são poucas as jogadoras que conseguem (diversificar). Vai ser difícil, mas é um diferencial.

GE – O Brasil em renovação e o Zé Roberto não é certeza na seleção. Se dependesse de você, o que gostaria que acontecesse?
Mari –
Ah, o Zé Roberto podia dar continuidade no trabalho. Adoro trabalhar com ele, estou há três anos com ele como técnico e é muito bom. Ele poderia dar seqüência ao que vem fazendo. Desde que ele assumiu, se formos ver a relação de vitórias e derrotas, vai dar noventa e tantos por cento de aproveitamento. Seria muito bom se ele continuasse.

GE – Dúvida quanto à permanência de Zé Roberto e ao mesmo tempo Bernardinho voltando a comandar equipes femininas. O que você acha desse retorno dele ao feminino?
Mari –
O país anda carente de jogadoras e técnicos ídolos. Decaiu o nível em relação ao que era. Assim, quanto mais técnicos bons ficarem aqui, melhor. O retorno do Bernardinho é uma coisa boa para o vôlei brasileiro, é uma crescente.

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