Por Marta Teixeira
Estrela em ascensão, a ponta Marianne Steinbrecher, ou simplesmente
Mari, conheceu a glória e o peso da fama no curto espaço de
um ano. Reconhecida como um dos principais nomes da nova geração
de vôlei no país, ela foi a sensação da última Superliga. A
paulista de 21 anos foi eleita atleta revelação, melhor atacante
e terminou como a maior pontuadora do torneio com 472 pontos.
Com a seleção, foi campeã do Grand Prix, na Itália, em julho,
logo na primeira convocação e recebeu elogios abertos do técnico
José Roberto Guimarães, que também a comanda no Finasa/Osasco,
da veterana Fernanda Venturini e de outras companheiras de
equipe. O público também soube reconhecer nela um talento
em evolução e Mari já conta com torcida própria.
Mas nem tudo tem sido flores nesse caminho. Menina de ouro
na convocação olímpica para os Jogos de Atenas, tornou-se
alvo das cobranças nacionais depois que a seleção frustrou
as expectativas de medalha na Grécia. Ao contrário das usuais
desculpas de imaturidade e despreparo, Mari encarou a situação
de frente e foi a primeira a desembarcar e conversar com a
imprensa no retorno ao Brasil.
Nesta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, a atleta
confessa que ainda evita pensar no que aconteceu em Atenas,
mas que não se sente pressionada pelas cobranças.
Retornando de uma lesão no abdômen, Mari também comprova
a fama de tranqüila para falar da operação que será feita
em seu ombro e que vai tirá-la da seleção nessa temporada.
Mesmo nesse redemoinho de contratempos, a ponta confessa seu
otimismo quanto ao processo de renovação da equipe para Pequim-2008.
Para Mari, o Brasil tem chances não apenas de se manter entre
os favoritos, mas até de melhorar como equipe.
Gazeta Esportiva.Net - Você está voltando de uma lesão,
mas já sabe que vai ter de passar por uma cirurgia logo após
a Superliga. Como é que você encara essa situação?
Mari - Eu tenho um problema congênito no ombro, que piora
com o impacto na região que é muito constante. Sempre soube
que teria de operar. Tentei tratar fazendo RPG, para abrir
espaço no ombro, acupuntura, fiz de tudo. Mas é difícil porque,
no ombro fica tudo muito próximo, é difícil fazer espaço.
O ideal é a artroscopia. De dois anos para cá, não consigo
jogar sem tomar remédio. Às vezes sinto uma dor que não consigo
nem pentear o cabelo e tenho que tomar remédio sempre, mas
é ruim porque isso prejudica meu fígado, meu estômago e sou
muito nova.
GE – Essa é uma operação planejada para não atrapalhar
muito a temporada, mas compromete sua atuação pela seleção.
Mari – É, vai comprometer o ano na seleção. Vou perder
o Grand Prix. É difícil abrir mão da seleção. Foi lá que conquistei
tudo. Mas sou nova ainda, é um ano, não vou perder tanto assim
e é em prol da saúde. É melhor cuidar agora para poder jogar
amanhã. Estou aumentando minha vida útil nas quadras.
GE – Você está encarando esta situação de maneira bastante
tranqüila. Uma tranqüilidade que já virou marca. O quanto
disso é real na sua personalidade?
Mari – Eu sou assim mesmo. Por dentro entro no jogo, mas
não costumo passar muito isso. É uma característica minha.
Fora (da quadra) sou tranqüila, mas mais falante. Desde criança
sempre fui meio tímida, mas era levada. Não era santinha não.
GE – Essa timidez já te atrapalhou de alguma forma. Você
já quis mudar um pouco isso na sua personalidade?
Mari – A timidez nunca atrapalhou. Pelo contrário, nos
momentos mais difíceis sempre me ajudou a sair das situações.
Mas, às vezes, técnicos que não me conheciam achavam que eu
não estava bem. Uma vez, briguei com o técnico da seleção
paranaense porque ele tentava me obrigar a falar no jogo.
Algumas jogadoras também achavam que não estava a fim. Mas
depois que conheceram meu jeito não tive mais problema.
GE – Foi essa tranqüilidade que fez você assumir a responsabilidade
de descer primeiro no desembarque da seleção brasileira depois
dos Jogos de Atenas? Você se preparou para isso?
Mari - Não me preparei. Na verdade, nem sabia que fui
a primeira. Minha bagagem chegou primeiro e eu saí, mas, de
qualquer forma ia ter que encarar. Conversar com a imprensa
e dar uma satisfação.
GE – Você fala em dar satisfação. Então, sabia que a
cobrança em cima de você seria maior. Essa cobrança te incomodou?
Mari – Não, de maneira nenhuma me incomoda. Na Olimpíada
não era muito em cima de mim. A responsabilidade estava mais
em cima das veteranas, Virna, Fernanda... Mas a partir da
semi o Zé distribuiu mais, disse que cada um tem que fazer
a sua parte. Mas eu já sou assim, sou de chamar a responsabilidade
para mim. Não importa se você é jovem, sua idade. Tem que
assumir.
GE – Passado mais de um mês de tudo que aconteceu em
Atenas, que lição você tira de tudo aquilo?
Mari – Sinceramente, até hoje não quis parar muito para
pensar sobre o que aconteceu. Não era mesmo para ser. Tive
sete passes na mão e não conseguir virar um. Se virasse um
a gente ia para a decisão. A gente fez tudo o que deveria
ter feito e nada deu certo. É difícil tirar alguma coisa boa
disso. Mas a gente tem que saber que não acabou. Tem renovação
aí, são mais quatro anos. Não pode desistir agora. Fizemos
uma campanha muito boa, foram quatro derrotas desde o título
do Grand Prix.
GE – E quanto à renovação, você está otimista?
Mari – Renovação é um ciclo normal. Ia ter que acontecer
de qualquer maneira. As meninas estão com 30 anos. Elas não
vão agüentar ir para outra olimpíada. A gente tem bastante
jogadoras novas. Acho até que vai melhorar. Vamos ter sangue
novo, mais gás.
GE – Dessa safra nova, você é apontada como um dos destaques
e acaba ficando com um papel que foi da Fernanda Venturini
que, como você, entrou nova na equipe principal mas acabou
sendo a veterana entre as novatas da geração dela. Está preparada
para a responsabilidade de ser o exemplo das que chegam agora?
Mari – É, a responsabilidade aumenta. Mas vou tentar ajudar
do jeito que posso. Tentar passar o que passei neste período.
Mostrar que em Olimpíadas o que muda é só o nome do campeonato,
porque são os mesmos times contra os quais estamos acostumadas
a jogar.
GE – Você diz que a seleção vai até melhorar. O que será
fundamental nesse trabalho de renovação?
Mari – Material humano nós temos, decisivo para a renovação
vai ser a forma de treinamento, a determinação e aplicação
de cada uma. Nós temos o exemplo de Cuba, que é um time novo,
mas já tem medalha olímpica (bronze em Atenas).
GE – Você não se diferencia apenas pela experiência que
já possui, tem a versatilidade também. Você é ponta, meio,
oposto...
Mari – É mesmo. Na verdade, não sei o que sou. Um dia
treino na saída, no meio do treino o Zé me manda para o meio,
depois estou na ponta. Mas é até bom não ser especificamente
uma coisa. Só não pode pôr para levantar e defender, porque
aí não ia dar conta. Mas é positivo isso. Para o treinador
é muito bom, abre mais o leque.
GE – É uma tendência internacional, não?
Mari – Sim, acho que é uma tendência que vai continuar.
Os técnicos procuram isso, mas é difícil. As atletas se especializam
mais em uma função, até porque é totalmente diferente a característica
das bolas, uma é mais rápida, outra mais baixa. No vôlei moderno
a tendência é esta. A Rússia tem isso com a Sokolova (a atacante
Lioubov Sokolova, de 26 anos). Vão exigir cada vez mais das
atletas, mas são poucas as jogadoras que conseguem (diversificar).
Vai ser difícil, mas é um diferencial.
GE – O Brasil em renovação e o Zé Roberto não é certeza
na seleção. Se dependesse de você, o que gostaria que acontecesse?
Mari – Ah, o Zé Roberto podia dar continuidade no trabalho.
Adoro trabalhar com ele, estou há três anos com ele como técnico
e é muito bom. Ele poderia dar seqüência ao que vem fazendo.
Desde que ele assumiu, se formos ver a relação de vitórias
e derrotas, vai dar noventa e tantos por cento de aproveitamento.
Seria muito bom se ele continuasse.
GE – Dúvida quanto à permanência de Zé Roberto
e ao mesmo tempo Bernardinho voltando a comandar equipes femininas.
O que você acha desse retorno dele ao feminino?
Mari – O país anda carente de jogadoras e técnicos ídolos.
Decaiu o nível em relação ao que era. Assim, quanto mais técnicos
bons ficarem aqui, melhor. O retorno do Bernardinho é uma
coisa boa para o vôlei brasileiro, é uma crescente.
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