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03/05/05

Por Claudia Andrade

Depois de oito temporadas no Banespa, o técnico Mauro Grasso, 41 anos, conseguiu o grande objetivo de qualquer time nacional: o título da Superliga. O elenco jovem, com média de 22 anos de idade, despontou ao longo da competição e levantou o troféu no último domingo, quando venceu o Minas, no quinto jogo da série melhor-de-cinco das finais, no ginásio do Mineirinho, em Belo Horizonte (MG).

A conquista fará os jogadores serem mais assediados, assim como o treinador, que já recebeu propostas de clubes do Brasil e do exterior. Mas a satisfação de trabalhar com todas as categorias, do infanto ao adulto, pode pesar a favor do clube paulista na decisão de Grasso.

Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, o treinador campeão brasileiro fala sobre o futuro do vôlei masculino.

GE.Net – Você conquistou o objetivo máximo no Banespa, que era vencer a Superliga. Qual sua motivação para continuar à frente do grupo? Aí já tem outra pergunta implícita, que é se você vai continuar no clube?
MG
– A intenção é prosseguir, dar seqüência ao trabalho que estamos desenvolvendo desde o infanto até o adulto. A motivação é total. É ruim quando o trabalho não dá certo e quando dá, você tem é que continuar dando chance aos jovens que estão despontando e buscar outro título.

GE.Net – Você destacou antes mesmo da final que estava muito satisfeito com o rendimento da sua equipe de novatos. Quais foram as maiores dificuldades que teve ao lidar com a garotada?
MG –
As dificuldades diminuem com a vontade de aprender dos rapazes e na parte física até facilita, porque tem menos contusão, não tem esses problemas de tendinite crônica, que são comuns.

GE.Net – O Banespa sempre teve ao menos uma estrela em seu elenco. Nesta temporada, qual a importância da presença do Nalbert no meio dos mais novos? É mesmo indispensável um grande nome no meio da prata da casa?
MG
– Como eu disse em várias ocasiões, a principal colaboração do Nalbert foi dar exemplo. Mais do que ficar falando: ‘Sou campeão olímpico, capitão da seleção’, foi no dia-a-dia com o grupo que ele foi imprescindível. Acho sim, muito importante ter um nome de peso no time, pelo menos até ele andar com as próprias pernas.

GE.Net – A sua equipe já chegou nesta fase, de andar com as próprias pernas?
MG –
Ainda não, ainda precisa contar com uma estrela para dar exemplo.

GE.Net – Com os jogadores mais assediados, quais são os planos do clube? Já negociaram com algum jogador, pretendem manter todo o elenco?
MG
– Eu estava conversando agora com o (gerente) Montanaro e falamos sobre as peças que gostaríamos de trocar, mas ainda não posso te adiantar nada. A idéia é continuar investindo nos que vêm da base.

GE.Net – Quais são as características desta nova geração de atletas que surgiu nesta edição da Superliga?
MG
– É uma geração que teve oportunidade. A minha não teve espaço, mas com a saída dos principais ídolos para o exterior, os jovens de agora puderam mostrar o que sabem.

GE.Net – E em relação às expectativas dos jogadores? Eles estão mais ambiciosos, por fazerem parte do melhor vôlei do mundo?
MG
– A gente precisa pôr os pés desses garotos no chão, porque se der espaço você os perde. Acaba aparecendo a vaidade, que não é coerente com o esporte em grupo. Mas eles estão conscientes da responsabilidade e do que precisam fazer.

GE.Net – No aspecto físico, o Brasil deve continuar buscando jogadores mais altos ou vai continuar compensando a estatura mediana com habilidade?
MG
– Depende muito da oferta, mas a idéia é manter a linha de jogadores altos, porque é isso que a gente precisa para enfrentar o cenário internacional. O próprio Banespa é um celeiro de atletas com essa característica. E isso deve me prejudicar na próxima temporada.

GE.Net – Por quê?
MG
– Porque o calendário das seleções infanto, juvenil e adulto está muito fechado, aí, eu tenho que explicar para o patrocinador que dos 18 atletas da minha equipe, 15 estão nas seleções e terei de trabalhar com o pessoal do juvenil que, teoricamente, ainda não está pronto, está sendo preparado. Mas o banco tem sido compreensivo nesse aspecto e nós continuamos formando jogadores. Por isso dou muito valor à continuidade deste trabalho com o Banespa porque não há nenhum outro lugar, talvez só na Itália, onde eu possa fazer o que faço aqui, acompanhando todas as categorias, com o apoio do clube.

GE.Net – Nem no exterior? Você recebeu propostas de clubes estrangeiros?
MG
– Recebi, recebi. Mas preciso ver para crer. Uma coisa é você falar que tem uma estrutura, outra é ter de verdade. É difícil encontrar um clube em que a engrenagem funcione tão bem quanto aqui no Banespa.

GE.Net – Você passou cinco anos na Itália. Atuando no vôlei masculino?
MG
– Não, era no feminino, porque eu vinha do Sadia, time feminino daqui. O último clube que eu treinei lá foi o Perugia, mas pedi rescisão porque tive um problema de saúde do meu pai e precisei voltar. Voltei e fiquei desempregado, trabalhando em uma indústria, que não tinha nada a ver com esporte.

GE.Net – E como você foi para o masculino?
MG
– Foi engraçado. O Cacá (Bizzocchi, então técnico do Banespa) me telefonou chamando pra jogar futebol. Eu disse que não podia, porque como hobby, estava treinando um time feminino juvenil do Tietê, onde me formei. Não queria me desvincular do vôlei. Mas depois, tive um problema no clube e sai de lá. Então liguei pro Cacá, que é meu amigo de faculdade, nós estudamos juntos na USP, e perguntei se o futebol ainda estava em pé. Nessa, ele me disse que estava precisando de um assistente e perguntou se eu não queria trabalhar com ele. Aceitei e destes oito anos no Banespa, fiquei um como assistente e estou há sete como técnico. Infelizmente, naquele ano o time foi mal, ele colocou o cargo à disposição e me convidaram para ocupá-lo. Falei com o Cacá que eu ia aceitar e deu certo.

GE.Net – Então o aprendizado no vôlei masculino foi do zero. Foi muito difícil?
MG
– Eu tinha um lado paternalista, e fui criticado por ser muito amigo dos jogadores, muito bonzinho. Mas é mais fácil trabalhar com os homens sim, principalmente por não ter limite físico. Você manda o jogador passar o peito da rede e ele passa, manda se jogar, e ele se joga. Com a mulher, você precisa de outros argumentos para convencer.

GE.Net – Com a missão cumprida no Banespa, você tem vontade de colaborar com a seleção?
MG
– O técnico que não tiver aspiração de comandar a seleção tem de mudar de profissão. Todo trabalho tem ciclos e sei que o de agora é do Bernardo, mas quando este acabar, quem sabe não será minha vez de assumir o grupo?

GE.Net – Qual será, na sua opinião, a nova cara da seleção sem Nalbert, Giovane e Maurício?
MG
– Será uma perda muito grande, principalmente pelo Nalbert, que ainda tem muito para jogar. Mas o pessoal novo está chegando com muita vontade e o Brasil está bem, ao contrário da Itália, por exemplo, que não fez uma boa renovação e sofreu um pouco.

GE.Net – Estamos bem servidos em todas as posições? Não temos problema em nenhuma delas, como a seleção feminina, que sofre com a falta de levantadoras, por exemplo?
MG
– Temos boas peças em todas as posições, jogadores bons para dar seqüência ao trabalho, atletas como o Riva (oposto), que já nem é tão novo, o Alberto, o Michael (meios), que são mais jovens, e devem engrossar as fileiras da seleção.

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