| Sem
pressa e com muita cautela |
O processo de
recuperação de Minuzzi está sendo realizado de
forma lenta e gradual. Com todas as despesas pagas
pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), o
atleta, que vive no Rio Grande do Sul, vem todo
início de semana para São Paulo, onde permanece
até a manhã de sexta. Sua rotina em uma clínica
da capital paulista inclui exercícios físicos
e até alguns movimentos de vôlei, como o deslocamento.
Tudo, no entanto, é feito com o máximo de cuidado.
“Estou até pecando pelo excesso. A partir do momento
que me sinto um pouco cansado, paro de me exercitar.
Mas até agora não apareceu nada que comprometa
a minha volta”, explica o atleta, que, em breve,
deve começar a se tratar em Belo Horizonte.
O momento é de transição para o ponteiro. Ao
mesmo tempo em que trabalha para voltar às quadras,
Minuzzi aguarda o resultado dos exames que vão
revelar a causa de seu aneurisma, o que ainda
permanece um mistério. Para isso, o jogador ainda
terá que se submeter a uma consulta com um geneticista.
Com o resultado de todos os exames em mãos,
os médicos do Minas (Carlos Antônio Ferreira Pereira)
e da seleção brasileira (João Olyntho Machado
Neto) contarão com a ajuda de especialistas no
exterior para avaliar se Minuzzi poderá ou não
retomar sua carreira. Por precaução, a equipe
médica prefere não estabelecer nenhuma data para
revelar sua decisão final. |
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Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net
As aposentadorias de Nalbert e Giovane Gávio eram a grande
chance de Roberto Minuzzi conquistar seu espaço na seleção
brasileira masculina de vôlei, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos
de Atenas. Eleito o melhor atacante da Superliga por três
anos consecutivos, Minuzzi era, ao lado de Dante e Murilo,
uma das esperanças do técnico Bernardinho para solucionar
a carência de ponteiros passadores que atormenta o time nacional,
em especial quando Giba não está em quadra.
Porém, às vésperas da última Liga Mundial, no último mês
de maio, durante exames de rotina, foi detectada uma dilatação
acima do normal na aorta do atleta. Apesar de não se tratar
do mesmo problema de Serginho, o mal poderia provocar um colapso
cardíaco em Minuzzi no meio de uma partida, com sério risco
de morte para o jogador. A recomendação dos médicos foi enfática:
afastar-se do esporte imediatamente. Também necessária, a
cirurgia poderia até ser adiada por um ou dois meses, mas
a prática de atividades físicas estava vetada no mínimo até
a operação, que durou quatro horas e foi realizada no último
dia 3 de junho pelo médico José Pedro da Silva, no Hospital
Beneficência Portuguesa, em São Paulo.
Motivo suficiente para arrasar o equilíbrio psicológico
de qualquer atleta, o aneurisma na aorta do ponteiro do Minas
Tênis Clube acabou superado por um “adversário” que ainda
apenas esboça seus primeiro passos e suas primeiras palavras:
a pequena Isabela, filha do jogador, de quase um ano de idade.
“Passo quase todos os dias com ela. Não foi nada mais do que
eu pedi. Claro que qualquer lesão te deixa abalado, ainda
mais uma cirurgia que mexe com a sua vida. Só que me apeguei
ao lado família e não iria perder este momento por causa uma
doença”, revela o jogador.
Comandado pela esposa do atleta, o “exército” que
dá força para Minuzzi ganhará um reforço em breve, já que
Luciene está grávida de três meses e meio. Para o ponteiro
de 24 anos, o fato de poder acompanhar o crescimento da filha
e a chegada de um novo bebê é a maior recompensa por tudo
o que tem passado. Além disso, ele acredita que sem
esse apoio a depressão seria inevitável. “Na
semana que descobri o problema, tinha uma viagem marcada com
a seleção e iria passar uns quarenta dias fora. Achava que
a minha vida estava perfeita, só precisava de um tempinho
a mais com a Isabela. Ainda falei com a minha esposa que tinha
que ser assim mesmo, pois o vôlei era tudo na minha vida.
Depois, fui para o banheiro e comecei a chorar. Logo em seguida,
fui para o Rio, fiz os exames e o aneurisma foi diagnosticado”,
conta.
Ainda sem uma previsão concreta para voltar às quadras,
Minuzzi concedeu uma entrevista exclusiva para a GE.Net,
onde fala sobre como enfrentou a descoberta do problema cardíaco,
seu processo de recuperação, o apoio recebido nos últimos
meses e suas expectativas para o futuro. Confira:
GE.Net: Como foi o momento em que o médico te contou
sobre o resultado do exame?
Minuzzi - Na hora que fiz o exame, desconfiei que alguma
coisa estava errada. Lembrei que aparecia a expressão “dilatação
da aorta”. Cheguei em Saquarema, procurei na Internet e achei
um artigo que falava se a aorta fosse maior que um certo diâmetro
a cirurgia era recomendada. Quando eu estava na frente do
médico, já sabia que teria que operar. Só quis saber como
era a cirurgia.
GE.Net: Você chegou a lembrar do caso do zagueiro Serginho,
do São Caetano?
Minuzzi - Não. Só agradeci por ter descoberto a tempo
e quis fazer todos os procedimentos da maneira mais certa
possível. Esse é o meu pensamento até hoje. Parece que os
médicos tinham falado para o Serginho parar e ele não quis,
mas não vou desobedecer ordens médicas: se tiver que parar,
tudo bem. Quando descobri o problema no meu coração, fiquei
feliz por não ter sido mais um, porque eu poderia ter uma
morte súbita em quadra. Isso me motivou a fazer a cirurgia.
GE.Net: Em que você se apoiou neste período após a cirurgia?
Roberto Minuzzi - Minha filha foi essencial. Agora tudo
o que acontece na minha vida é ela. Toda a atitude que tomo,
penso nela. No momento que soube da cirurgia, vi que eu não
poderia me entregar e nem fraquejar. Isso me ajudou muito.
Tinha alguém que me olhava toda risonha, sem saber o que estava
acontecendo. Ficava fortalecido para sair logo do hospital
e pegá-la no colo, o que eu não conseguia por causa do corte
no peito. No começo, minha esposa tinha que encostar a Isabela
no meu ombro para eu conseguir brincar com ela.
GE.Net: Você já pensou no período em que jogou sem saber
que possuía um problema desta gravidade?
Minuzzi - Não dá para saber quanto tempo fiquei com a
aorta dilatada. Quando descobri o problema, as primeiras imagens
que vieram na minha cabeça foram a das finais da Superliga,
onde fiz um esforço absurdo. Fiquei pensando em uma imagem
do terceiro jogo da série, em Belo Horizonte: depois que fiz
um ponto de bloqueio no tie-break, comecei a gritar. A câmera
deu um close e a força que eu fazia era tanta que apareceram
as veias da garganta. Depois, sabendo que fiz aquilo com um
problema cardíaco, tive um grande susto. Isso me fez decidir
operar logo.
GE. Net: Chegou a cogitar a hipótese de não operar?
Minuzzi - Não. Minha vida era aquela vibração em quadra
e eu tinha que operar para viver sem medo. Ficaria preocupado
com qualquer cansaço que sentisse. O médico poderia me indicar
um remédio para controlar o aneurisma, mas também disse que
a cirurgia era o recomendável. Só pedi uns três ou quatro
dias para conversar com minha família e com o Minas.
| Foto: Divulgação |
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Minuzzi reencontrou a seleção
em São Leopoldo, na Copa América
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GE.Net: Também não pensou em acompanhar a seleção durante
a Liga Mundial antes de fazer a cirurgia?
Minuzzi - Preferi operar logo porque não poderia treinar
e nem jogar. O tempo que eu esperasse para fazer isso, demoraria
para voltar às quadras. Só fui assistir mesmo a Copa América,
quando revi a seleção em São Leopoldo (RS). Fui em todos os
jogos, mas na semifinal contra Cuba eles me aprontaram uma
“sacanagem”. O jogo já tinha acabado e eu estava com a Isabela
no colo. Aí, o Giba pegou o microfone e começou a agradecer
a torcida. De repente, ele falou: “Quero que todo mundo dê
uma salva de palmas para nosso amigo Roberto, que está de
fora”. Sentei e comecei a chorar. Foi a primeira vez que senti
falta de estar dentro da quadra. Depois da cirurgia, choro
vendo Faustão. Estou dando um valor completamente diferente
à vida, às pequenas coisas e à família.
GE.Net: Sentiu medo antes da cirurgia?
Minuzzi - Os médicos me passaram uma tranqüilidade tão
grande que cheguei completamente acordado na mesa de cirurgia.
Dormi superbem na noite anterior. Só rezei e pedi proteção.
Acordei como se estivesse indo para o jogo, todo atento e
concentrado. Quando a maca chegou, vi que meu pai começou
a ficar nervoso, mas virei para ele e falei: “Não tem motivo
nenhum para ficar triste: estou indo salvar a minha vida”.
Entrei na cirurgia tão pronto para qualquer tipo de dor que
não sentia nada. Comentei com a equipe médica que eu confiava
muito neles e apaguei por causa da anestesia. Na hora em que
acordei na UTI, estava todo entubado, mas levantava o braço
e ficava vibrando.
GE.Net: Como foi o pós-operatório?
Minuzzi - Antes da cirurgia, achava que meu maior obstáculo
seria a dor, mas me preparei tanto para ela que nunca precisei
pedir um remédio. Só que não sabia que o corpo se abate tanto
com uma cirurgia. Lembro que fiquei dois dias na UTI deitado,
meio sentado e cheio de tubos e fios. Não podia me mexer porque
incomodava. Então tentei dormir, mas não conseguia. Pelo menos,
as minhas costas não começaram a doer, porque não saberia
o que fazer se isso acontecesse.
GE.Net: E aquela fase em que se cansava ao fazer qualquer
de esforço físico, por menor que fosse?
Minuzzi - Quando levantei pela primeira vez, senti meu
corpo muito fraco e não consegui ficar em pé. Sentei na cadeira
de rodas e comecei a sentir o que é um pós-operatório. Tentava
caminhar no corredor do hospital e, na metade, começava a
me sentir tonto. Quando ficava bem, tentava fazer as coisas
e cansava rapidinho. Não conseguia tomar banho sozinho: tinha
que ficar numa cadeira e a minha esposa me jogava água. Era
um doente total. Um dia fui tentar fazer a barba e, na terceira
vez que fui raspar, vi que estava ofegante e todo encharcado
de suor. Começava a conversar e já estava exausto. Perdi sete
quilos em uma semana. Só consegui me recuperar em casa. Foram
dez dias ruins. Mas só fui descansar mesmo, quando não precisei
mais dormir só de barriga para cima.
GE. Net: O que aconteceu depois que saiu do hospital?
Minuzzi - Quando saí, queria apenas tomar um banho de
mar e comer alguma coisa porque estava com a garganta fechada.
Não conseguia comer nada, mas pedi para que me trouxessem
um picolé de uva para tentar. Quando experimentei, era um
sabor indescritível. Nunca vou esquecer na minha vida. Ficava
mexendo pela boca antes de engolir e chorava por estar conseguindo
as coisas de novo. Fui para a praia novamente, depois de um
mês e comecei a chorar. Já havia visto o mar umas mil vezes,
mas nunca havia curtindo tanto.
GE.Net: Acredita que vai sentir medo quando voltar a
atacar uma bola?
Minuzzi - Acho que não. Já até fiz três manchetes e três
ataques com o Marlon, do Minas, uma vez que fui para Belo
Horizonte. Fiz bem devagarinho, mas me senti um pouco cansado.
Na hora vai ser complicado porque não tenho idéia de como
vou voltar. Sei que vou errar os exercícios, mas acho que
a felicidade de estar jogando vai me ajudar.
GE.Net: Mas acha que vai ficar com receio?
Minuzzi - Tenho certeza que nos primeiros saltos vou atacar
e ficar atento ao coração, porque para tudo que estou fazendo
é assim. Agora, presto atenção aos meus batimentos. Só não
sei se vou ter coragem para dar um peixinho. Não consigo mais
me atirar de peito nem em cima da cama. É um trauma. Mas acho
que no dia em que estiver jogando, vou estar com a confiança
tão grande que vou fazer qualquer coisa. Só faltava o cara
fazer uma cirurgia de coração e não poder tropeçar na rua.
GE.Net: Você já pensou na possibilidade de não poder
voltar a jogar?
Minuzzi - Se minha equipe médica me disser que não posso
voltar a jogar e me provar isso, eu paro. Da mesma forma que
só jogo quando eles me provarem que eu posso. Se me tirassem
do vôlei apenas por medo das mortes súbitas, eu iria à luta.
Porém, a minha vontade de estar bem é maior que a de querer
voltar às quadras.
GE.Net: Você sabe o que vai fazer profissionalmente caso
tenha que se afastar definitivamente do vôlei?
Minuzzi - Já, mas ainda não tenho nada certo. Tenho algumas
coisas extras, como a informática e poderia seguir nisso.
Até já criei um programa de estatística para o Minas, pois
quero me sentir útil ao time. Posso até fazer isso, se quiser
ficar perto do vôlei. Também iria fazer um curso universitário.
No dia que descobri o problema, o Bernardinho veio me falar:
“Olha cara, mesmo que não der para você voltar, você vai dar
certo com a atividade que escolher se levar com a mesma dedicação
que joga vôlei.” Só que estou tão perto de voltar que essa
possibilidade não me assusta mais.
GE.Net: Está ansioso para pisar em quadra novamente?
Minuzzi - Estamos indo com calma. Para mim, voltar agora
ou em janeiro é a mesma coisa. De repente, em novembro, pode
sair um parecer dos médicos me autorizando a jogar.
GE.Net: Antes da cirurgia, havia até a previsão de que
você poderia voltar em três meses. Por que ainda não pôde
pisar na quadra novamente?
Minuzzi - Para os médicos, o sucesso já aconteceu na cirurgia.
Neste tempo de recuperação houve muitos altos e baixos. Quando
operei, eles diziam que eu iria voltar a jogar, mas aos poucos
a gente foi investigando e o meu caso não é tão simples. Acho
que eles fizeram o certo porque eu tinha que ficar confiante.
Dentro do esporte, não se tem conhecimento de outras pessoas
com este problema, não há um protocolo de tratamento. Se tivesse
outra profissão, em um mês e meio estaria trabalhando, porque
me sentia apto para isso. Ainda quero lutar contra os médicos
que colocavam em jornais que eu não poderia fazer nenhum tipo
de atividade física. Guardei todas essas matérias junto com
os meus exames. Sempre falo que gosto de jogar com torcida
contra.
GE. Net: Então você ainda não tem um prazo concreto para
voltar às quadras?
Minuzzi - Sempre tive na cabeça que ao virar o ano, eu
iria voltar a jogar. Quero me recuperar a tempo de jogar essa
Superliga, nem que seja a fase final, para ajudar o Minas
ainda esta temporada. A minha ascensão foi rápida, mas com
certeza a minha carreira não vai ser curtinha. Acho que vai
chegar um tempo em que vou jogar de novo, porque não seria
justo encerrar minha carreira agora. Fui o melhor atacante
porque me esforcei para isso: acabava o treino e ficava me
aperfeiçoando. Está tudo dando tão certo que mereço voltar
a jogar.
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