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27/08/05
Sem pressa e com muita cautela

O processo de recuperação de Minuzzi está sendo realizado de forma lenta e gradual. Com todas as despesas pagas pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), o atleta, que vive no Rio Grande do Sul, vem todo início de semana para São Paulo, onde permanece até a manhã de sexta. Sua rotina em uma clínica da capital paulista inclui exercícios físicos e até alguns movimentos de vôlei, como o deslocamento.

Tudo, no entanto, é feito com o máximo de cuidado. “Estou até pecando pelo excesso. A partir do momento que me sinto um pouco cansado, paro de me exercitar. Mas até agora não apareceu nada que comprometa a minha volta”, explica o atleta, que, em breve, deve começar a se tratar em Belo Horizonte.

O momento é de transição para o ponteiro. Ao mesmo tempo em que trabalha para voltar às quadras, Minuzzi aguarda o resultado dos exames que vão revelar a causa de seu aneurisma, o que ainda permanece um mistério. Para isso, o jogador ainda terá que se submeter a uma consulta com um geneticista.

Com o resultado de todos os exames em mãos, os médicos do Minas (Carlos Antônio Ferreira Pereira) e da seleção brasileira (João Olyntho Machado Neto) contarão com a ajuda de especialistas no exterior para avaliar se Minuzzi poderá ou não retomar sua carreira. Por precaução, a equipe médica prefere não estabelecer nenhuma data para revelar sua decisão final.

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

As aposentadorias de Nalbert e Giovane Gávio eram a grande chance de Roberto Minuzzi conquistar seu espaço na seleção brasileira masculina de vôlei, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas. Eleito o melhor atacante da Superliga por três anos consecutivos, Minuzzi era, ao lado de Dante e Murilo, uma das esperanças do técnico Bernardinho para solucionar a carência de ponteiros passadores que atormenta o time nacional, em especial quando Giba não está em quadra.

Porém, às vésperas da última Liga Mundial, no último mês de maio, durante exames de rotina, foi detectada uma dilatação acima do normal na aorta do atleta. Apesar de não se tratar do mesmo problema de Serginho, o mal poderia provocar um colapso cardíaco em Minuzzi no meio de uma partida, com sério risco de morte para o jogador. A recomendação dos médicos foi enfática: afastar-se do esporte imediatamente. Também necessária, a cirurgia poderia até ser adiada por um ou dois meses, mas a prática de atividades físicas estava vetada no mínimo até a operação, que durou quatro horas e foi realizada no último dia 3 de junho pelo médico José Pedro da Silva, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Motivo suficiente para arrasar o equilíbrio psicológico de qualquer atleta, o aneurisma na aorta do ponteiro do Minas Tênis Clube acabou superado por um “adversário” que ainda apenas esboça seus primeiro passos e suas primeiras palavras: a pequena Isabela, filha do jogador, de quase um ano de idade. “Passo quase todos os dias com ela. Não foi nada mais do que eu pedi. Claro que qualquer lesão te deixa abalado, ainda mais uma cirurgia que mexe com a sua vida. Só que me apeguei ao lado família e não iria perder este momento por causa uma doença”, revela o jogador.

Comandado pela esposa do atleta, o “exército” que dá força para Minuzzi ganhará um reforço em breve, já que Luciene está grávida de três meses e meio. Para o ponteiro de 24 anos, o fato de poder acompanhar o crescimento da filha e a chegada de um novo bebê é a maior recompensa por tudo o que tem passado. Além disso, ele acredita que sem esse apoio a depressão seria inevitável. “Na semana que descobri o problema, tinha uma viagem marcada com a seleção e iria passar uns quarenta dias fora. Achava que a minha vida estava perfeita, só precisava de um tempinho a mais com a Isabela. Ainda falei com a minha esposa que tinha que ser assim mesmo, pois o vôlei era tudo na minha vida. Depois, fui para o banheiro e comecei a chorar. Logo em seguida, fui para o Rio, fiz os exames e o aneurisma foi diagnosticado”, conta.

Ainda sem uma previsão concreta para voltar às quadras, Minuzzi concedeu uma entrevista exclusiva para a GE.Net, onde fala sobre como enfrentou a descoberta do problema cardíaco, seu processo de recuperação, o apoio recebido nos últimos meses e suas expectativas para o futuro. Confira:

GE.Net: Como foi o momento em que o médico te contou sobre o resultado do exame?
Minuzzi -
Na hora que fiz o exame, desconfiei que alguma coisa estava errada. Lembrei que aparecia a expressão “dilatação da aorta”. Cheguei em Saquarema, procurei na Internet e achei um artigo que falava se a aorta fosse maior que um certo diâmetro a cirurgia era recomendada. Quando eu estava na frente do médico, já sabia que teria que operar. Só quis saber como era a cirurgia.

GE.Net: Você chegou a lembrar do caso do zagueiro Serginho, do São Caetano?
Minuzzi -
Não. Só agradeci por ter descoberto a tempo e quis fazer todos os procedimentos da maneira mais certa possível. Esse é o meu pensamento até hoje. Parece que os médicos tinham falado para o Serginho parar e ele não quis, mas não vou desobedecer ordens médicas: se tiver que parar, tudo bem. Quando descobri o problema no meu coração, fiquei feliz por não ter sido mais um, porque eu poderia ter uma morte súbita em quadra. Isso me motivou a fazer a cirurgia.

GE.Net: Em que você se apoiou neste período após a cirurgia?
Roberto Minuzzi -
Minha filha foi essencial. Agora tudo o que acontece na minha vida é ela. Toda a atitude que tomo, penso nela. No momento que soube da cirurgia, vi que eu não poderia me entregar e nem fraquejar. Isso me ajudou muito. Tinha alguém que me olhava toda risonha, sem saber o que estava acontecendo. Ficava fortalecido para sair logo do hospital e pegá-la no colo, o que eu não conseguia por causa do corte no peito. No começo, minha esposa tinha que encostar a Isabela no meu ombro para eu conseguir brincar com ela.

GE.Net: Você já pensou no período em que jogou sem saber que possuía um problema desta gravidade?
Minuzzi -
Não dá para saber quanto tempo fiquei com a aorta dilatada. Quando descobri o problema, as primeiras imagens que vieram na minha cabeça foram a das finais da Superliga, onde fiz um esforço absurdo. Fiquei pensando em uma imagem do terceiro jogo da série, em Belo Horizonte: depois que fiz um ponto de bloqueio no tie-break, comecei a gritar. A câmera deu um close e a força que eu fazia era tanta que apareceram as veias da garganta. Depois, sabendo que fiz aquilo com um problema cardíaco, tive um grande susto. Isso me fez decidir operar logo.

GE. Net: Chegou a cogitar a hipótese de não operar?
Minuzzi -
Não. Minha vida era aquela vibração em quadra e eu tinha que operar para viver sem medo. Ficaria preocupado com qualquer cansaço que sentisse. O médico poderia me indicar um remédio para controlar o aneurisma, mas também disse que a cirurgia era o recomendável. Só pedi uns três ou quatro dias para conversar com minha família e com o Minas.

 
Foto: Divulgação

Minuzzi reencontrou a seleção em São Leopoldo, na Copa América

GE.Net: Também não pensou em acompanhar a seleção durante a Liga Mundial antes de fazer a cirurgia?
Minuzzi -
Preferi operar logo porque não poderia treinar e nem jogar. O tempo que eu esperasse para fazer isso, demoraria para voltar às quadras. Só fui assistir mesmo a Copa América, quando revi a seleção em São Leopoldo (RS). Fui em todos os jogos, mas na semifinal contra Cuba eles me aprontaram uma “sacanagem”. O jogo já tinha acabado e eu estava com a Isabela no colo. Aí, o Giba pegou o microfone e começou a agradecer a torcida. De repente, ele falou: “Quero que todo mundo dê uma salva de palmas para nosso amigo Roberto, que está de fora”. Sentei e comecei a chorar. Foi a primeira vez que senti falta de estar dentro da quadra. Depois da cirurgia, choro vendo Faustão. Estou dando um valor completamente diferente à vida, às pequenas coisas e à família.

GE.Net: Sentiu medo antes da cirurgia?
Minuzzi -
Os médicos me passaram uma tranqüilidade tão grande que cheguei completamente acordado na mesa de cirurgia. Dormi superbem na noite anterior. Só rezei e pedi proteção. Acordei como se estivesse indo para o jogo, todo atento e concentrado. Quando a maca chegou, vi que meu pai começou a ficar nervoso, mas virei para ele e falei: “Não tem motivo nenhum para ficar triste: estou indo salvar a minha vida”. Entrei na cirurgia tão pronto para qualquer tipo de dor que não sentia nada. Comentei com a equipe médica que eu confiava muito neles e apaguei por causa da anestesia. Na hora em que acordei na UTI, estava todo entubado, mas levantava o braço e ficava vibrando.

GE.Net: Como foi o pós-operatório?
Minuzzi -
Antes da cirurgia, achava que meu maior obstáculo seria a dor, mas me preparei tanto para ela que nunca precisei pedir um remédio. Só que não sabia que o corpo se abate tanto com uma cirurgia. Lembro que fiquei dois dias na UTI deitado, meio sentado e cheio de tubos e fios. Não podia me mexer porque incomodava. Então tentei dormir, mas não conseguia. Pelo menos, as minhas costas não começaram a doer, porque não saberia o que fazer se isso acontecesse.

GE.Net: E aquela fase em que se cansava ao fazer qualquer de esforço físico, por menor que fosse?
Minuzzi -
Quando levantei pela primeira vez, senti meu corpo muito fraco e não consegui ficar em pé. Sentei na cadeira de rodas e comecei a sentir o que é um pós-operatório. Tentava caminhar no corredor do hospital e, na metade, começava a me sentir tonto. Quando ficava bem, tentava fazer as coisas e cansava rapidinho. Não conseguia tomar banho sozinho: tinha que ficar numa cadeira e a minha esposa me jogava água. Era um doente total. Um dia fui tentar fazer a barba e, na terceira vez que fui raspar, vi que estava ofegante e todo encharcado de suor. Começava a conversar e já estava exausto. Perdi sete quilos em uma semana. Só consegui me recuperar em casa. Foram dez dias ruins. Mas só fui descansar mesmo, quando não precisei mais dormir só de barriga para cima.

GE. Net: O que aconteceu depois que saiu do hospital?
Minuzzi -
Quando saí, queria apenas tomar um banho de mar e comer alguma coisa porque estava com a garganta fechada. Não conseguia comer nada, mas pedi para que me trouxessem um picolé de uva para tentar. Quando experimentei, era um sabor indescritível. Nunca vou esquecer na minha vida. Ficava mexendo pela boca antes de engolir e chorava por estar conseguindo as coisas de novo. Fui para a praia novamente, depois de um mês e comecei a chorar. Já havia visto o mar umas mil vezes, mas nunca havia curtindo tanto.

GE.Net: Acredita que vai sentir medo quando voltar a atacar uma bola?
Minuzzi -
Acho que não. Já até fiz três manchetes e três ataques com o Marlon, do Minas, uma vez que fui para Belo Horizonte. Fiz bem devagarinho, mas me senti um pouco cansado. Na hora vai ser complicado porque não tenho idéia de como vou voltar. Sei que vou errar os exercícios, mas acho que a felicidade de estar jogando vai me ajudar.

GE.Net: Mas acha que vai ficar com receio?
Minuzzi -
Tenho certeza que nos primeiros saltos vou atacar e ficar atento ao coração, porque para tudo que estou fazendo é assim. Agora, presto atenção aos meus batimentos. Só não sei se vou ter coragem para dar um peixinho. Não consigo mais me atirar de peito nem em cima da cama. É um trauma. Mas acho que no dia em que estiver jogando, vou estar com a confiança tão grande que vou fazer qualquer coisa. Só faltava o cara fazer uma cirurgia de coração e não poder tropeçar na rua.

GE.Net: Você já pensou na possibilidade de não poder voltar a jogar?
Minuzzi -
Se minha equipe médica me disser que não posso voltar a jogar e me provar isso, eu paro. Da mesma forma que só jogo quando eles me provarem que eu posso. Se me tirassem do vôlei apenas por medo das mortes súbitas, eu iria à luta. Porém, a minha vontade de estar bem é maior que a de querer voltar às quadras.

GE.Net: Você sabe o que vai fazer profissionalmente caso tenha que se afastar definitivamente do vôlei?
Minuzzi -
Já, mas ainda não tenho nada certo. Tenho algumas coisas extras, como a informática e poderia seguir nisso. Até já criei um programa de estatística para o Minas, pois quero me sentir útil ao time. Posso até fazer isso, se quiser ficar perto do vôlei. Também iria fazer um curso universitário. No dia que descobri o problema, o Bernardinho veio me falar: “Olha cara, mesmo que não der para você voltar, você vai dar certo com a atividade que escolher se levar com a mesma dedicação que joga vôlei.” Só que estou tão perto de voltar que essa possibilidade não me assusta mais.

GE.Net: Está ansioso para pisar em quadra novamente?
Minuzzi -
Estamos indo com calma. Para mim, voltar agora ou em janeiro é a mesma coisa. De repente, em novembro, pode sair um parecer dos médicos me autorizando a jogar.

GE.Net: Antes da cirurgia, havia até a previsão de que você poderia voltar em três meses. Por que ainda não pôde pisar na quadra novamente?
Minuzzi -
Para os médicos, o sucesso já aconteceu na cirurgia. Neste tempo de recuperação houve muitos altos e baixos. Quando operei, eles diziam que eu iria voltar a jogar, mas aos poucos a gente foi investigando e o meu caso não é tão simples. Acho que eles fizeram o certo porque eu tinha que ficar confiante. Dentro do esporte, não se tem conhecimento de outras pessoas com este problema, não há um protocolo de tratamento. Se tivesse outra profissão, em um mês e meio estaria trabalhando, porque me sentia apto para isso. Ainda quero lutar contra os médicos que colocavam em jornais que eu não poderia fazer nenhum tipo de atividade física. Guardei todas essas matérias junto com os meus exames. Sempre falo que gosto de jogar com torcida contra.

GE. Net: Então você ainda não tem um prazo concreto para voltar às quadras?
Minuzzi -
Sempre tive na cabeça que ao virar o ano, eu iria voltar a jogar. Quero me recuperar a tempo de jogar essa Superliga, nem que seja a fase final, para ajudar o Minas ainda esta temporada. A minha ascensão foi rápida, mas com certeza a minha carreira não vai ser curtinha. Acho que vai chegar um tempo em que vou jogar de novo, porque não seria justo encerrar minha carreira agora. Fui o melhor atacante porque me esforcei para isso: acabava o treino e ficava me aperfeiçoando. Está tudo dando tão certo que mereço voltar a jogar.

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