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Por Marta Teixeira
Campeã mundial (Austrália-94), vice-campeã olímpica (Atlanta-96),
Maria Paula Gonçalves da Silva era nas quadras o que é na
vida real: direta e decidida. No mês passado, foi escolhida
para integrar o Hall da Fama do Basquete nos Estados Unidos
- a cerimônia de premiação será no final de abril de 2006
-, juntando-se a uma antiga amiga e adversária: Hortência
Marcari, que está no Hall da fama do basquete e do esporte.
| Foto: Djalma Vassao/Gazeta Press |
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Politizada, mas não política
- termo que confessa não suportar quando agregado a seu nome
-, a Mágica das quadras nunca viu o esporte com olhos inocentes.
Depois de ser atleta, descobriu o talento para a administração
e, frente ao Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP)
promoveu uma verdadeira revolução no equipamento municipal.
Tanto que foi convidada para comandá-lo em duas gestões políticas
diferentes (PT e PSDB). O retorno à administração do Centro
(em 2003), aliás, foi o que restaurou um pouco do respeito à
política depois de uma passagem frustrante pela Secretaria Nacional
de Alto Rendimento no Ministério do Esporte.
Mesmo longe das quadras há quase seis anos, não resistiu
ao chamado da renovação e aceitou participar da criação da
Nossa Liga de Basquete (NLB), primeira iniciativa independente
dos clubes para gerir o próprio esporte. Com a autoridade
de quem conseguiu nas quadras os mais importantes títulos
para o país, nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net
ela critica o descaso dos dirigentes para desenvolver a modalidade,
aponta falhas na preparação brasileira para o Mundial, que
será realizado no Brasil em 2006, com suas titulares jogando
no exterior e a melhor jogadora do país 'desempregada' e acha
improvável que o evento reverta a situação da modalidade no
país.
Sobre um possível convite para divulgar a competição, acha
que tudo não passa de "conversa de Grego" e aproveita para
discordar também da ex-companheira de quadra Hortência sobre
a responsabilidade do título mundial de 94. "Eu não joguei
tênis, eu não fiz natação, eu não fiz um esporte individual.
Tudo que a gente venceu teve sempre uma equipe por trás, teve
sempre um trabalho de equipe para você poder desenvolver o
seu individual".
GE.Net - Quando você soube da indicação para o Hall da
Fama?
Recebi em agosto esta notícia, por e-mail. Esse (prêmio) é
diferente do que a Hortência recebeu este ano. A Hortência
recebeu esse prêmio em 2002. Foi uma comemoração contida,
tive que segurar. O anúncio tinha que ser feito por eles,
eu não podia dizer nada antes. Num momento desses da minha
vida, ser homenageada em um âmbito desses, quero dividir isso
com todo mundo.
GE.Net - Você ficou surpresa? Como encara esta homenagem?
No estágio em que estou não fico mais esperando homenagens.
Eu faço outra coisa, não vivo do basquete. Acho que o que
vem é lucro, mas é super bacana. Depois de quase seis anos
que deixei as quadras, ser reconhecida por um país que, assim
como o futebol é para o Brasil o basquete é para os EUA. O
Brasil é meio colocado de escanteio. Isso é um título do basquete
feminino, não é meu. Eu não joguei tênis, eu não fiz natação,
eu não fiz um esporte individual. Tudo que a gente venceu
teve sempre uma equipe por trás, teve sempre um trabalho de
equipe para você poder desenvolver o seu individual. É muito
merecido o basquete feminino ter duas jogadoras (no Hall).
A Hortência já está nos dois. Sinto que é uma homenagem para
todo mundo, desde técnico, preparador físico, todas as pessoas
que trabalharam com a gente nestes 22 anos de seleção, meu
e da Hortência, da nossa geração. (todos) Têm que se sentir
super parte desta homenagem.
GE.Net - Então, você não concorda com Hortência quando
ela diz que o título mundial foi conquistado basicamente por
você e ela?
Não. Acho que a gente conseguiu montar uma bela equipe. Na
época, o Miguel não era o melhor técnico do Brasil, mas ele
tinha um super preparador físico, ótimo supervisor, um assistente
técnico muito bom que dava os treinos. E ele foi um cara que
lidou com a gente de uma forma diferente dos outros até então
e conseguiu ter sucesso. Mas era uma equipe, tava todo mundo
no auge de maturidade, de consciência de saber o que quer,
de diálogo. A gente não pode dizer que duas jogadoras fizeram
o verão. No retrospecto de outros mundiais, enquanto (o time)
viveu em cima mim e dela nunca ganhou nada. Então, eu acho
que a gente teve sorte de ter uma geração que veio junto com
a gente: Janeth, Helen, Alessandra, Cíntia e foi muito importante
para essa conquista.
GE.Net - O reconhecimento dado a vocês pode ajudar o basquete
feminino nacional?
Não vai mudar nada, não faz diferença nenhuma porque não aproveitaram
campeonato Pan-americano, não aproveitaram Mundial, não aproveitaram
uma Olimpíada. Eles perderam todas essas chances. Para ter
uma idéia, quando a gente foi campeã do mundo em vez de deixarem
a gente na Argentina para chegar aqui de dia, nós chegamos
aqui de madrugada. O descaso com o feminino sempre aconteceu,
não é de hoje. Não acredito que um título como esse vá mudar
as coisas. Se o campeonato Mundial não mudou...
| Foto:Acervo/Gazeta Press |
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GE.Net - E qual a chance da realização do Mundial em casa
ajudar nisso?
Nenhuma porque é muito pontual e, apesar de ter envolvimento
do Brasil, tem que ser feito da forma como os gringos vão
falar que tem de ser feito.
GE.Net - E a preparação para o torneio, te agrada?
Esse resgate das jogadoras que estão fora, já devia ter acontecido
há dois anos. Ter as meninas jogando aqui, divulgando o trabalho...
É uma equipe muito forte, tem meninas muito boas. Mas para
eles está tudo bom: vamos deixar as meninas jogando fora do
país. Tudo bem que internacionalmente elas estão ali, mais
próximas das grades potências do mundo, mas ninguém treina
como as brasileiras. Lá, treinam uma hora e meia, duas horas
por dia, se treinar, no máximo.
A Janeth, a melhor jogadora do Brasil, joga três meses no
ano, seis meses. Janeth jogou o Brasileiro um mês, foi para
a WNBA jogou três meses, agora está aí sem jogar.
Depois de Atenas o que teve? O que essas meninas participaram?
A Copa América, que foi com time B? Não tem preparação mais...
a cada dois meses devíamos estar disputando um torneio, estar
reunindo, treinando... Por isso que falo que ganha pela qualidade
técnica das jogadoras, pelo envolvimento, pela dedicação que
cada jogadora tem porque se depender de planejamento, não
existe.
Esse Brasileiro feminino... depois que a liga se mexeu, eles
resolveram fazer alguma coisa. Começou dia 4 de novembro e
diz que dia 21 de dezembro já começam os playoffs. Um mês
e pouco de Campeonato Brasileiro? Eles não pensam na jogadora?
Joga dois meses e fica desempregada nove? É um absurdo.
(Com o racha surgido pela criação da Nossa Liga, a CBB
proibiu a convocação de atletas da liga independente para
a seleção. Por causa disso, a Comissão de Esportes pediu para
ouvir a diretoria da NLB e da CBB. A reunião ocorreu dia 30
de novembro, em Brasília, sem a presença de Grego. Como não
participou do encontro, Paula preferiu não comentar o assunto)
GE.Net - Mas você acha que a preparação pode dar certo?
É uma incógnita e isso não é novo. A gente sempre viveu isso.
Quando a gente foi campeã do mundo, a gente ganhou o campeonato
mundial fazendo amistosos com equipes juvenis aqui no Brasil.
A gente jogava contra os meninos porque eles eram mais fortes,
eram mais rápidos, mais altos, exigia mais da gente. É duro
dizer que vai ser um fracasso. No Mundial não vai porque a
gente tem jogadoras boas. Mas em vez de ficar se contentando
em: será que vamos ser terceiro, será que a gente pode chegar
ao pódio? A gente podia estar brigando por título com a equipe
que tem, se fizesse uma coisa mais organizadinha.
GE.Net - O Grego disse que quer usar você, Hortência e
todas as campeãs mundiais para divulgar o evento. Você estaria
disposta a participar?
O Grego sempre fala que as portas da Confederação estão abertas,
mas nunca convida a gente para estar lá. Isso é conversa de
Grego (rindo).
GE.Net - Mas se ele convidar, você participa?
Não sei. Depende. Depende do que for.
GE.Net - E como você vê os preparativos para o Mundial.
Iam ser duas, talvez três cidades em estados diferentes e
agora será só em São Paulo?
Teve quatro anos para você trabalhar em cima disso e em outubro,
em setembro do ano anterior você vai ver se vai ser, onde
vai ser? É a falta de planejamento que eu estou falando. No
ano seguinte, ou no ano mesmo que você foi lá e ganhou o direito
de ser sede, já tem que ir atrás de Prefeitura, das cidades
que poderiam ser (sede). Quantas cidades não poderiam sediar
uma fase do Mundial? Nordeste, Norte têm carência enorme de
receber competições assim. Você acha que governador de estado
não conseguiria uma verba para sediar? É falta de planejamento
e descaso.
GE.Net - Mas apesar de todos os problemas que você vê
na preparação você acha que as chances são reais?
Estou sempre otimista. Além da equipe ser boa, a gente vai
estar jogando no Brasil. Uma equipe super madura, com mescla
de juventude. Gostaria que fosse até um pouco mais jovem,
que começasse a aparecer mais gente. Cíntia, Alessandra, Helen,
Janeth, a base, elas estão há dez anos, no quarto, terceiro
mundial. São jogadoras acostumadas a jogar Mundial, Olimpíada
e Pan e vão estar jogando em casa. Isso motiva também. Isso
é, acredito muito. É uma geração que merece estar entre os
primeiros.
GE.Net - Mas você acha que o Brasil pode ser campeão de
novo?
Não pode falar nunca que não. (o mundo) Sempre achou que jamais
alguém ia bater os Estados Unidos e a gente conseguiu. No
Mundial, tudo pode acontecer. Vai depender. Não dá para fazer
previsão de como a equipe vai chegar. Você tem que, além de
trabalho, ter sorte. Fazer uma preparação que consiga chegar
com sua equipe tecnicamente, fisicamente no ápice, subindo
na competição e, às vezes, isso não acontece. Às vezes, na
hora que você acha que o time vai estar subindo ele tá caindo.
GE.Net - Você voltou para o Centro Olímpico depois de
uma temporada frustrante no Governo...
Quando você é convidada para fazer um trabalho, você acredita
que vai trabalhar. Você não acredita que vai lá ser rainha
da Inglaterra e eu sentia, nos seis meses que fiquei lá, que
eu ia ser só uma figura. Acho que não tem condições hoje de
fazer nada sem planejamento. Senti que ali não se tinha essa
proposta. Você não via as coisas acontecerem. Você tinha promessas,
promessas e sabia que estavam prometendo algo que não iam
poder cumprir.
Meu choque foi porque achava que com a pouca verba não tinha
que estar se preocupando com alto rendimento, já que a lei
Piva estava fazendo isso. Achava que era momento de se pensar
mais no social, no educacional, na formação, né.
GE.Net - Foi decepcionante...
Então, foi uma decepção porque estava aqui, adorava trabalhar
aqui. Recebi o convite, achei que pudesse fazer alguma coisa
pelo esporte em termos de Brasil, mas você chega lá e vê que
não é nada disso.
Na verdade foi decepcionante. Você vê que esporte, infelizmente,
está nas mãos de pessoas que não entendem, que estão ali para
fazer política. É complicado, porque você fica querendo que
o país seja uma potência esportiva e assim não vai ser nunca.
Fica só nessa conversa de dizer, falar as coisas da garganta
para fora, não do coração para fora, da forma como tem de
ser. Eu achei que ali não era meu lugar, não tinha meu perfil.
Eu gosto de trabalhar onde eu sou feliz. Eu não fui brincar
de morar em Brasília, eu deixei minha vida aqui para ir para
Brasília. Não vi futuro nisso e achei melhor voltar.
GE.Net - Sua passagem no CO está sendo no governo de dois
partidos diferentes. Você acha que o esporte está conseguindo
ficar acima da política?
Esporte é uma das poucas coisas que consegue estar acima disso.
Porque, o que tem de ficar claro, o que deveria ser claro,
é que as pessoas estão nas suas posições não por questões
partidárias, mas sim por objetivos. Às vezes, a gente perde
muito por colocar lá uma pessoa que não entende do negócio
porque você prometeu e porque é do partido. Acho que isso
ficou acima dessa questão política. Mas as pessoas confundem
muito. Acham que eu sou política. Isso me irrita, porque na
verdade eu.. eu tenho asco disso. A gente não pode generalizar
nada nessa vida, não pode jogar todo mundo em uma vala comum,
tem pessoas e pessoas. Mas eu não quero este vínculo. A gente
tá mostrando aqui que não precisa desse vínculo para você
tentar fazer a coisa bem feita.
GE.Net - Por que isso é possível na cidade e não no Brasil?
Depende com quem você trabalha. A gente tem toda autonomia
aqui. A diferença é essa. Eu sei se vou ter ou não orçamento.
Eu sei se vou ter ou não planejamento. Na sua casa, você precisa
saber o orçamento que tem para administrar o seu salário.
Era o que não acontecia lá.
GE.Net - Com tudo isso, dá para falar em uma ligação pessoal
sua com o Centro de Treinamento?
É bastante negativo isso porque, de um lado é legal ter a
minha imagem, o que eu represento dirigindo (ligado), mas
isso não pode ser uma tônica do trabalho. Amanhã, se eu sair,
o trabalho tem que continuar. A GV Júnior fez um trabalho
de planejamento. No diagnóstico, um dos pontos negativos era
esse vínculo com a minha imagem. Vai chegar uma hora em que
o CO vai ter que caminhar sem eu estar aqui, todo mundo vai
ter que estar preparado.
Eu gosto de trabalhar aqui, isso é mais de 50% do envolvimento
e do trabalho, mas o Centro não tem que depender de mim. É
um cargo de confiança e amanhã posso não ser a pessoa de confiança.
Principalmente com o Serra em vias de ser candidato a presidente.
Eu, no momento, não penso em sair. Quero acabar os quatro
anos. Mas a gente nunca sabe.
GE.Net - Mas para quem vier depois já fica mais fácil...
Mais complicado, porque um pouquinho que a gente fez já apareceu.
Quem chegar vai ter que mostrar mais trabalho. O CO tem um
papel super importante para a cidade e pouca gente conhece.
Gostaria que as pessoas pudessem conhecer mais, saber mais
o que isso representa para a cidade.
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