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17/02/2006

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

O racismo que assombra o futebol há alguns meses abalou a Superliga masculina de vôlei este mês. Após a partida contra Bento Gonçalves no início de fevereiro, o atacante Dirceu de 2 metros e 103 quilos foi xingado por alguns torcedores gaúchos por conta de sua cor, além de ter recebido um tapa na cabeça.

O jogador registrou queixa na polícia e o time catarinense iniciou uma campanha contra racismo no vôlei nacional. O Bento, porém, nega que o fato tenha acontecido e usa como defesa uma entrevista que Dirceu deu para uma rádio local após o duelo, em que ele aparece elogiando a torcida presente no ginásio.

Em entrevista nesta semana, o presidente da Confederação Brasileira de Vôlei, Ary Graça, disse que não pode acreditar que houve racismo, já que o delegado do jogo não citou nada no relatório da partida. Por outro lado, o técnico da Cimed, Renan Dal Zotto, garante que isso não abalou o grupo. “Foi um fato isolado, que acredito que não vai ocorrer novamente. Foi uma idéia infeliz de um ou dois torcedores, mas tenho certeza que isso não representa a torcida do Bento”, declarou.

Sereno, o ponteiro, que já teve passagens pela Unisul, Suzano e Olympiakos (Grécia), disse em entrevista exclusiva para a GE.Net que nem pensa mais no assunto, não vai levar isso adiante e isentou a torcida gaúcha de qualquer culpa. “Se me chamassem, jogaria no Bento com prazer”, comentou. Porém ele evitou a palavra racismo, preferindo dizer o “acontecido”.

GE.Net: O presidente da CBV, Ary Graça, admitiu esta semana que é obrigado a acreditar que não teve racismo no jogo contra o Bento, porque o delegado não escreveu isso no relatório da partida. O que você tem a dizer?
Dirceu:
É o posicionamento da CBV. Nós mandamos o nosso relatório, e Bento mandou o deles se defendendo. Infelizmente aconteceu isso, mas foi um fato isolado, foram três ou quatro pessoas. Não podemos levar em consideração, porque quatro ou cinco não fazem a diferença. A torcida de Bento está de parabéns e logo após o jogo eu já falei isso. O acontecido foi depois. Porém, o que interessa são as 2000 pessoas que estavam lá e apoiaram o time. Quanto ao posicionamento da CBV, eu não tenho nada a dizer. Fiz o meu papel que é mandar o relatório do que aconteceu.

GE.Net: O Bento também nega as acusações, inclusive utilizando a entrevista que você deu. O que você acha desta postura?
Dirceu: É a maneira de eles se defenderem, mas se pegarem o radialista ele vai falar que a entrevista foi logo depois do jogo. O acontecido foi quando a gente saiu da quadra, dez minutos depois da entrevista. Acho que é um fato isolado e o meu pensamento agora é no campeonato, como ontem a gente estava pensando no Santo André. O que aconteceu ficou no passado. Não tenho nada contra Bento, nem contra ninguém de lá. E se, um dia, eles quiserem me contratar eu irei com prazer. A vida segue.

GE.Net: Você vai processar essas pessoas, fazer algo do tipo?
Dirceu: Quando eu fui na polícia, após o jogo, eu só falei que tinha sido agredido verbalmente. Nem especifiquei o racismo, por se tratar de quatro ou cinco pessoas. Não foi uma torcida inteira me xingando. Seria injusto da minha parte manter uma coisa contra uma torcida inteira, que não tem culpa de nada. Quero esquecer isso e agradecer as pessoas do Brasil inteiro e até do Japão que me mandaram mensagens de solidariedade.

GE.Net: Você enfrentou algum problema na Europa?
Dirceu: Nada, foi tranqüilo, assim como sempre que eu joguei na seleção e em Porto Rico, onde eu já atuei também. Eu acho que realmente foi um fato isolado.

GE.Net: Foi a primeira vez que isso aconteceu na sua vida?
Dirceu: Foi a primeira vez sim. Eu fiquei triste. Tristeza foi o meu sentimento na hora.

GE.Net: Você tem medo que isso ocorra novamente?
Dirceu: Não tenho medo não. Estou preparado para isso e acho que as pessoas que me cercam também. O que importa é o voleibol. O resto está para trás.

GE.Net: Você pretende se tornar um símbolo contra o racismo?
Dirceu: Eu não me coloco nem como símbolo nem como mártir de nada. O que acontecer infelizmente foi comigo e eu encaro isso, mas não me coloco como vítima. Acho que só tenho a agradecer à minha equipe que lançou esse manifestou ao meu favor. Fiquei contente pela defesa do meu time.

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