| Por Carolina Canossa, especial para
a GE.Net
O racismo que assombra o futebol há alguns meses abalou
a Superliga masculina de vôlei este mês. Após
a partida contra Bento Gonçalves no início de
fevereiro, o atacante Dirceu de 2 metros e 103 quilos foi
xingado por alguns torcedores gaúchos por conta de
sua cor, além de ter recebido um tapa na cabeça.
O jogador registrou queixa na polícia e o time catarinense
iniciou uma campanha contra racismo no vôlei nacional.
O Bento, porém, nega que o fato tenha acontecido e
usa como defesa uma entrevista que Dirceu deu para uma rádio
local após o duelo, em que ele aparece elogiando a
torcida presente no ginásio.
Em entrevista nesta semana, o presidente da Confederação
Brasileira de Vôlei, Ary Graça, disse que não
pode acreditar que houve racismo, já que o delegado
do jogo não citou nada no relatório da partida.
Por outro lado, o técnico da Cimed, Renan Dal Zotto,
garante que isso não abalou o grupo. “Foi um
fato isolado, que acredito que não vai ocorrer novamente.
Foi uma idéia infeliz de um ou dois torcedores, mas
tenho certeza que isso não representa a torcida do
Bento”, declarou.
Sereno, o ponteiro, que já teve passagens pela Unisul,
Suzano e Olympiakos (Grécia), disse em entrevista exclusiva
para a GE.Net que nem pensa mais no assunto, não
vai levar isso adiante e isentou a torcida gaúcha de
qualquer culpa. “Se me chamassem, jogaria no Bento com
prazer”, comentou. Porém ele evitou a palavra
racismo, preferindo dizer o “acontecido”.
GE.Net: O presidente da CBV, Ary
Graça, admitiu esta semana que é obrigado a
acreditar que não teve racismo no jogo contra o Bento,
porque o delegado não escreveu isso no relatório
da partida. O que você tem a dizer?
Dirceu: É o posicionamento da CBV. Nós
mandamos o nosso relatório, e Bento mandou o deles
se defendendo. Infelizmente aconteceu isso, mas foi um fato
isolado, foram três ou quatro pessoas. Não podemos
levar em consideração, porque quatro ou cinco
não fazem a diferença. A torcida de Bento está
de parabéns e logo após o jogo eu já
falei isso. O acontecido foi depois. Porém, o que interessa
são as 2000 pessoas que estavam lá e apoiaram
o time. Quanto ao posicionamento da CBV, eu não tenho
nada a dizer. Fiz o meu papel que é mandar o relatório
do que aconteceu.
GE.Net: O Bento também nega as acusações,
inclusive utilizando a entrevista que você deu. O que
você acha desta postura?
Dirceu: É a maneira de eles
se defenderem, mas se pegarem o radialista ele vai falar que
a entrevista foi logo depois do jogo. O acontecido foi quando
a gente saiu da quadra, dez minutos depois da entrevista.
Acho que é um fato isolado e o meu pensamento agora
é no campeonato, como ontem a gente estava pensando
no Santo André. O que aconteceu ficou no passado. Não
tenho nada contra Bento, nem contra ninguém de lá.
E se, um dia, eles quiserem me contratar eu irei com prazer.
A vida segue.
GE.Net: Você vai processar essas pessoas, fazer
algo do tipo?
Dirceu: Quando eu fui na polícia,
após o jogo, eu só falei que tinha sido agredido
verbalmente. Nem especifiquei o racismo, por se tratar de
quatro ou cinco pessoas. Não foi uma torcida inteira
me xingando. Seria injusto da minha parte manter uma coisa
contra uma torcida inteira, que não tem culpa de nada.
Quero esquecer isso e agradecer as pessoas do Brasil inteiro
e até do Japão que me mandaram mensagens de
solidariedade.
GE.Net: Você enfrentou algum problema na Europa?
Dirceu: Nada, foi tranqüilo,
assim como sempre que eu joguei na seleção e
em Porto Rico, onde eu já atuei também. Eu acho
que realmente foi um fato isolado.
GE.Net: Foi a primeira vez que isso aconteceu na
sua vida?
Dirceu: Foi a primeira vez sim.
Eu fiquei triste. Tristeza foi o meu sentimento na hora.
GE.Net: Você tem medo que isso ocorra novamente?
Dirceu: Não tenho medo não.
Estou preparado para isso e acho que as pessoas que me cercam
também. O que importa é o voleibol. O resto
está para trás.
GE.Net: Você pretende se tornar um símbolo
contra o racismo?
Dirceu: Eu não me coloco
nem como símbolo nem como mártir de nada. O
que acontecer infelizmente foi comigo e eu encaro isso, mas
não me coloco como vítima. Acho que só
tenho a agradecer à minha equipe que lançou
esse manifestou ao meu favor. Fiquei contente pela defesa
do meu time.
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