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9/10/2006


Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Com a autoridade de atual campeão mundial e olímpico, sem contar os cinco títulos da Liga Mundial, o técnico Bernardo Rezende acredita que todo o sucesso dos homens na seleção brasileira de vôlei vai se repetir no feminino. A despeito de qualquer desentendimento com o técnico José Roberto Guimarães – com o qual não fala, por sinal –, ele avalia que o grupo formado após o desastre da quarta colocação em Atenas é o que possui maior potencial na história, com grande chance até de chegar à tão sonhada final olímpica, missão abortada nas últimas três semifinais dos Jogos.

O palpite está longe de ser qualquer provocação a Guimarães. Além de ter comandado a seleção feminina nos Jogos Olímpicos de Atlanta, onde o time conquistou um histórico bronze, Bernardinho atualmente dirige o Rexona/Ades, atual campeão brasileiro feminino, que conta com quatro atletas da seleção: as atacantes Sassá, Fabiana e Renatinha, além da líbero Fabi. E, exatamente por conhecer bem as atletas, ele faz sua análise da situação. “Ajuda o fato de, sem nenhum demérito para as brasileiras, algumas seleções importantes como Cuba estarem passando por uma entressafra. De qualquer forma, o Brasil se manteve à frente no vôlei feminino”, comenta.

Em entrevista concedida antes de um treino do Rexona visando a Salonpas Cup, competição em que a equipe carioca ficou com a taça pela segunda vez, o treinador falou sobre esse e outros assuntos.

GE.Net - Como você avalia a seleção feminina atualmente?
Bernardinho
- Uma medalha olímpica certamente virá porque a geração que está aí é a melhor que nós já tivemos e pode abrir um ciclo inigualável, como faz o atual time masculino. No feminino nós abrimos um corpo de vantagem sobre as outras seleções. Sem dúvida, este grupo tem o maior potencial da história. Primeiro pelo valor da equipe, pela quantidade de boas jogadoras. Isso é muito importante e fruto da geração anterior. Como essa atual do vôlei masculino surgiu? Certamente se mirando no vôlei do Bernard, Renan, Montanaro, Giovane, Tande, Maurício e assim vai...Tenho certeza que essa geração feminina é também um pouco fruto de Ana Moser, Fernanda, Ana Paula.... Você se espelha em grandes jogadoras. Eu sou parte do processo, claro, mas as protagonistas são elas.

GE.Net - Como você está avaliando os jogadores mais novos da seleção masculina?
Bernardinho
- Eles estão crescendo. Em 2005, logo depois das Olimpíadas, talvez eu ainda não tivesse tanta confiança em lançá-los em certos momentos. Antes, se um Nalbert, um Giovane estavam fora, era uma coisa automática substituí-los. É um processo: você tem que ir conhecendo e confiando nos atletas para as coisas serem construídas. Em 2006 isso já mudou bastante: tanto o Murilo quanto o Samuel já participaram efetivamente do time e já mostraram capacidade, conquistando não só a minha confiança como a do grupo. Entraram, foram bem, deram sua contribuição, mas obviamente tem que melhorar muito para continuar crescendo.

GE.Net - A diferença grande de idade dos levantadores da seleção te preocupa (Ricardinho e Marcelinho possuem cerca de 10 anos a mais que o Bruno)?
Bernardinho - Não, isso é ótimo. Que bom que a gente tem um levantador que está se aproximando com 10 anos de distância. Isso nos dá a condição de ter uma continuidade de resultados fantástica. Quando se vêm de resultados difíceis, é fácil de renovar, mas como se coloca um garoto no meio de uma geração que só ganha?

GE.Net - O que faz o Brasil sempre estar um pouco à frente no vôlei masculino?
Bernardinho
- Essa geração atual não escreveu uma página, mas um capítulo na história do vôlei brasileiro, pois são seis anos de títulos. Nunca foi fácil: quando vencemos por mais de dois pontos é um alívio. As vitórias têm a ver com a capacidade dessa equipe enfrentar essas dificuldades. Claro que há talentos individuais, caso do Giba, Ricardinho, Gustavo, André Nascimento, Anderson, mas eu acho que a atitude, a forma de trabalhar, talvez seja o grande legado desta geração. Quando o Henrique foi cortado das Olimpíadas, ele era um cara tão importante no processo todo, que simplesmente representou um sentimento muito importante: a consciência coletiva de que todos importam. Por isso, foi feita a homenagem a ele.

GE.Net - Onde mais este legado pode ser visto?
Bernardinho
- A coisa do merecimento para mim também é muito importante. Na Liga Mundial nós fomos treinar no dia da final contra a França. Quando estávamos chegando, eu encontrei um rapaz da comissão técnica italiana e ele perguntou onde a gente estava indo. Respondi: “Vamos treinar”. Tínhamos jogado na noite anterior contra a Rússia, onde houve um desgaste físico e psicológico grande nos dois últimos sets. Então ele disse: “Vocês são uns cães. Não é possível que vão treinar agora”. Isso, de uma certa forma, incomoda os caras, suscita um certo: “Vamos ter que socá-los até morrer e, de repente, eles vão levantar de novo e vão voltar”. Eu espero que os jogadores nunca se esqueçam disso.

Foto: Divulgação/Luiz Doro Neto
"Somos gente e temos vaidade. As armadilhas estão ai", alerta o técnico
GE.Net - É isso que falta para a Itália que está passando uma crise violenta?
Bernardinho
- A Itália se tornou mais perigosa do que nunca. Essa crise violenta, na minha opinião, vai gerar aquela coisa neles de fazer disso uma lição. Talento não basta e temos esta lição no futebol. Não adianta culpar A, B, C, mas tentar entender os porquês para não cair nas mesmas armadilhas. A Itália tem talento e capacidade, mas falta algo que talvez este episódio dê a eles para correrem atrás e se fortalecerem como grupo. Eu preferia que isso não tivesse acontecido com eles, mas sim que houvesse a zona de conforto. Essa tempestade pode mobilizar a tropa dele de uma forma muito perigosa para nós.

GE.Net - Além da Itália, quais os adversários mais perigosos?
Bernardinho
- A questão física e as ligas européias cresceram tanto no vôlei masculino que as distâncias entre dez times estão muito pequenas. A Bulgária é um exemplo: na fase final da Liga ganhou tudo de 3 a 0 até a semifinal. Além deles, temos a Sérvia, Rússia, Polônia, França, EUA, Cuba ... Estamos apenas um nariz à frente dos outros: se fizer uma plástica acaba vantagem (risos).

GE.Net - A evolução dos rivais era uma coisa que você já esperava ou acabou sendo uma surpresa?
Bernardinho -
Eu esperava. A Polônia há muitos anos vem conquistando muita coisa com seleções de base. A Rússia tende a nos ultrapassar, se não nos prepararmos para algumas situações e, principalmente, não fortalecermos nosso campeonato. Ela tem conseguido uma consistência enorme no infanto, no juvenil, tanto que perdemos dois Mundiais destas categorias para eles.

GE.Net – Você tem um grupo vivido. Ele ainda pode cair em certas armadilhas?
Bernardinho
- Somos gente e temos vaidade. As armadilhas estão aí, apesar de ser mais difícil acontecer com este grupo em função do que ele já demonstrou, das posturas que ele teve ao longo do tempo. A propensão é menor, mas quanto mais aumentam os resultados positivos, mais a sedução aumenta. O bicho “mídia” mexendo com o bicho “gente” é uma coisa complicada. Temos que estar sempre ligados.

GE.Net - Qual é a maior preocupação no momento, às vésperas do Mundial?
Bernardinho
- A preocupação maior hoje é a expectativa grande em função dos resultados. Também haverá uma postura de treinamento muito pequena, não teremos o tempo ideal para a preparação. Serão apenas duas semanas e meia de treinos aqui no Brasil e depois adaptação de menos de uma semana lá no Japão. Então, como eu vou lidar com isso?

GE.Net - Você pensou em algo especial?
Bernardinho
- Como quase todos os jogadores estão atuando lá na Europa, o trabalho físico vai ser preponderante neste momento. Além disso, vamos melhorar algumas questões técnicas individuais e tentar jogar algo novo. Teremos que estudar o máximo possível, ter a maior qualidade e o maior volume sem desgastar os nossos atletas excessivamente.

GE.Net - Como você avalia a chave do Brasil no Mundial?
Bernardinho
- Estamos no que eu chamo de lado da morte. Temos Cuba (estréia), França, Grécia, Alemanha e Austrália na nossa chave. Destes seis, classificam-se quatro. Cuba, França, Grécia e Alemanha incomodam e a Austrália é um time que tem quatro ou cinco jogadores acima do normal. Estes quatro se juntam com os quatro que se classificam da chave da Itália que também tem EUA, Bulgária e mais alguns menos votados. Daí, afunila rápido e saem apenas dois para a semifinal. Já do lado de lá, existem três rivais tradicionais, onde eu acredito que dois deles estarão na semifinal: Polônia, Rússia e Sérvia. Não dá nem para dizer o campeonato é longo e nós vamos crescer na primeira fase, pois você carrega os resultados e se não for bem na primeira fase, pode não ir para a semi. Talvez seja o nosso momento mais difícil, o nosso maior obstáculo, a nossa maior montanha a ser galgada. A montanha mais íngreme é sempre a próxima, porque a anterior já foi escalada. Essa é a mensagem que vai ser dada ao grupo.

GE.Net - Antigamente a sua filosofia era estudar os adversários para saber o que eles faziam para vencer o Brasil. Ou seja, era estudar a gente para vencer a gente mesmo. Você está fazendo algo neste sentido no Mundial?
Bernardinho
- Não ainda tudo o que eu queria, mas eu já fiz algumas coisas, como avaliações, tanto vídeo quanto números e procurar saber os porquês. Um primeiro diagnóstico que salta aos olhos claramente é o saque. Na final da Liga Mundial, contra a França, por exemplo, nós erramos muito sem conseguir o efeito que precisávamos. Esse é um dos fundamentos que a gente vai ter que trabalhar mais, gerar nos caras essa consciência de trabalhar uma estratégia de saque que nos dê uma condição melhor de fazer as coisas. Podemos melhorar o nosso ataque também, que teve um porcentual baixo de aproveitamento na fase final .

GE.Net - Como isso será feito em apenas duas semanas e meia de treinos?
Bernardinho
- No dia-a-dia mesmo, com conversa e implementando o treinamento. Tem que ser direto no que estudamos. Se for o caso (de os jogadores pedirem): “Olha, não vamos saltar muito porque estamos cansados”, ao invés de saltar para bloquear, vamos saltar para sacar. Temos que estabelecer as prioridades nestas duas semanas e meia.

GE.Net - Os jogadores dizem que o Brasil tem duas realidades no vôlei: a da seleção e a da Superliga. Como você faz para aproximar esses dois lados?
Bernardinho
- Temos que pensar nisso. É claro que existe um aspecto que não depende da gente, o econômico: quando se fala em um contrato de R$ 100 mil e outro de 100 mil euros, o segundo é três vezes o primeiro. Como a carreira do atleta é curta, ele tem que aproveitar. Então nós temos que repensar o modelo, angariar investimentos. O nosso calendário é mal planejado, internamente falando, e mal executado. Um exemplo claro é a Salonpas Cup: jogamos um torneio belíssimo, extremamente bem organizado, o único internacional que nós temos. Acho inconcebível que se faça em um momento que as jogadoras de seleção não estão. É um tiro no pé. Também não se fortalece o mercado interno.

Na minha opinião, o ranqueamento não foi bem feito este ano. Muitas jogadoras estão saindo do Brasil e nós tínhamos condições de ficar com algumas delas. O Rexona foi o mais prejudicado: além, de perder a Fernanda – que já é uma perda enorme -, tivemos que abrir mão da Jaqueline. Tínhamos condições de mantê-la e ela queria ficar. A intenção dela, inclusive, era trazer o Murilo de volta da Itália. Conversei com os dois lá em Saquarema e não havia o que fazer: nós já tínhamos acertado com a Sassá e a Fabiana. Ponto. Caímos no seguinte absurdo: os times começam a importar jogadoras, como a Cimed/Macaé trouxe a Danielle Scott, e deixamos as brasileiras irem embora. Um contrasenso.

GE.Net - No masculino também estão faltando estrelas jogando internamente....
Bernardinho
- Mas lá existem 14 equipes, uma garotada forte, apesar de não haver a força do patrocínio do feminino, que conta com Finasa e Rexona. Há um movimento crescente no masculino, mas é impossível concorrer com as cifras. A Rússia, por exemplo, entrou no mercado de uma maneira tão forte que o Giba não saiu da Itália para lá, porque a Pirv não queria morar na Rússia. Mas ele me falou: “Não vai dar para segurar por muito tempo, porque é muito dinheiro”.

GE.Net - Então você não acredita que o problema seja manter os jovens no Brasil?
Bernardinho
- Eu não tenho um modelo amarrado na minha cabeça, mas é claro que ter ídolos melhora o campeonato, dá publicidade, chama patrocínios. Só que tem que haver um mercado grande, com um bom número de atletas, de times, pois isso faz com que haja qualidade. A única coisa com relação à exportação de jogadores é que o êxodo prematuro tem que ser combatido. E uma coisa que me preocupa é o procurador. Nesta ânsia de ganhar dinheiro, ele manda o garoto muito prematuramente para fora. Um Felipe Chupita, por exemplo, foi cedo demais e muitas vezes acaba relegado ao segundo plano, jogando pouco. Isso é a pior coisa.

Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press

Depois da Itália, Bernardinho teme agora ver atletas da seleção indo para Rússia

GE.Net - A Sheilla foi embora jovem e hoje é destaque da seleção. Ela é uma exceção?
Bernardinho
- Não, porque ela foi jogando e isso foi muito bom para ela, que já tinha consciência de trabalho muito boa. No feminino também é um pouco diferente, porque trabalha-se um pouco mais na Itália que no masculino. Talvez este tenha sido um dos agentes da transformação também. A Sheilla foi no momento certo, taí a prova do que ela se tornou: uma fora de série. Ela é, sem dúvida, hoje a principal atacante do mundo e acho que desde que a Ana Moser estava no auge, nós nunca tivemos a maior atacante do mundo. Tínhamos sim uma das melhores levantadoras do mundo e um sistema que funcionava.

GE.Net - Você se considera um ídolo? Como você lida com a pressão de ser Bernardinho?
Bernardinho
- Longe disso. É claro que é bacana, me emociona as pessoas me cumprimentarem no avião, mas minha insônia só aumenta, pois eu não sou nada disso. Tento obviamente ser o mais correto possível, dar o melhor que o meu potencial permite, mas longe de ser qualquer coisa. Sou passível de críticas e tento não repetir os meus erros. Esse assédio é um pouco pelo fato de eu estar no esporte: às vezes você tem gente muito boa em jornais, empresas, mas eles ficam escondidos nas redações. No esporte mesmo isso acontece: veja o Robert Scheidt, que é um ícone em termos de dedicação, trabalho, mas não tem tanto assédio por ser da vela, um esporte mais distante. O mesmo com o Torben Grael, o Rodrigo Pessoa.... Talvez até pelo momento que o Brasil vive, com essa descrença, as pessoas se apegam em qualquer coisa. Não me sinto e não quero ser assim: eu sou uma pessoa como qualquer outra, mas tive a oportunidade e a fortuna de ter grandes equipes, uma boa estrutura para trabalhar. Muitas vezes eu até me questiono se os meus dirigentes não vão pensar simplesmente que “o Bernardinho se vira”.

GE.Net - As pessoas ainda te perguntam se você iria para o futebol?
Bernardinho
- Não, só em casos especiais. Por exemplo: o Fluminense perdeu de 4 a 1, e quando eu chego no Rio, algum tricolor mais fanático me pede para dirigir o time. Mas sempre assim brincando. Eu só imagino: e quando a seleção perder? Porque vai perder, não tem jeito.

GE.Net - Você pensa em dar alguma contribuição em outro esporte?
Bernardinho
- Se não me mandarem embora antes, eu sigo com a seleção masculina até Pequim. Nunca se sabe, técnico é técnico (risos). Se você perde já começam: “Burro, burro...”. Tenho feito muitos questionamentos em relação às minhas escolhas. Nunca esqueço quando a gente era garoto e estava em uma arquibancada qualquer neste mundo afora, comendo porcaria, o Montanaro dizendo: “Larga isso, vai trabalhar com o seu pai, ganhar dinheiro...”. Então eu descobri que a minha atividade não era fruto da necessidade, mas sim da paixão. Muitos de meus colegas, inclusive ele que veio de uma origem mais humilde, encarava o esporte como uma maneira de crescer, uma necessidade. Tenho uma admiração grande por essa luta, porque eu não tive isso, já que nasci em uma condição bem melhor.

GE.Net - Como é essa relação hoje, Bernardinho com os grandes nomes do vôlei: Bebeto, Zé Roberto Guimarães....?
Bernardinho
- Com o Bebeto é distante, a gente quase não se vê, mas é ótimo. Com o Zé Roberto, após o episódio da Fernanda, eu cortei. Não tenho mais nada a dizer, acho que cada um segue a sua vida. Prefiro não falar a respeito disso, porque as pessoas sabem qual é a verdade. Não sei se aquilo foi uma maneira de me valorizar, mas não tenho influência em nada. Só que é claro que eu, como gestor e técnico de uma equipe feminina, trabalho com isso. Dou a minha contribuição, mas nenhuma relação. Eu faço o meu, ele o dele, mais nada. E com os ex-companheiros da seleção de prata, eu tenho mais contato com alguns, caso do Monta, o Renan, Léo, Fernandão, Bernard, que são meus consultores para muita coisa.

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