| Por Carolina Canossa, especial para
a GE.Net
Um é conhecido pelo apelido de “block machine”, tamanha a sua capacidade em acabar com os ataques adversários. O outro possui um saque venenoso e uma defesa difícil de ser superada. Campeões olímpicos em Atenas-2004, Ricardo e Emanuel não saíram do topo desde então, acumulando o recorde de cinco títulos do Circuito Mundial consecutivos. Além disto, garantiram a medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos e no mês de novembro podem ganhar o quarto título do Circuito Brasileiro da dupla.
Com todos estes atributos, é impossível não considerar o grandalhão Ricardo, de 2m e 102kg, e o ágil Emanuel, 1,90m e 80kg, favoritos ao bicampeonato olímpico em Pequim. Os dois ainda não possuem vaga garantida, mas estão no caminho certo: são os atuais líderes do ranking mundial e as 24 duplas que conseguirem os oito melhores resultados entre janeiro de 2007 e julho de 2008 estarão na China, com o limite de duas parcerias por país.
Enquanto isso, os dois conversaram com a Gazeta Esportiva.Net sobre os últimos e os próximos passos na carreira, o que abrange desde o maior reconhecimento nos últimos anos até a possível separação depois das Olimpíadas. O tema, aliás, ainda é tratado com uma certa distância pelos dois. “Se a gente estiver competitivo, vamos ver em 2009...”, disfarça Emanuel, ao todo nove vezes campeão do Circuito Mundial. “O momento agora é até Pequim”, afirma Ricardo, seis vezes vencedor da competição e representante nacional nas duas últimas finais olímpicas: em 2000, ao lado de Zé Marco, ele ficou com o vice-campeonato. Acompanhe:
| Foto: Túlio Vidal/Gazeta Press |
 |
| Pronto para abdicação, Ricardo inicia busca pela terceira final olímpica |
|
Gazeta Esportiva.Net: Faltou alguma coisa neste ano de tantas conquistas?
Emanuel: Pois é, este ano de 2007 tem sido muito bom. É um daqueles anos que a gente tem que lembrar para sempre porque as conquistas foram importantíssimas. Nós conseguimos alcançar todos os objetivos que estabelecemos. E ainda falta o Circuito Brasileiro para fechar o pacote, no dia 17 de novembro, em João Pessoa.
Ricardo: Foi um ano vitorioso, uma temporada de conquistas. Foi um ano difícil, pois tive uma lesão e fiquei mais de um mês parado às vésperas do Circuito Mundial, mas consegui recuperar o ritmo durante as competições.
GE.Net: Como vocês estão fisicamente neste final de temporada?
Emanuel: Estamos cansados. Por outro lado, o que mais me deixa feliz em nossa equipe é que fizemos um planejamento bom e chegamos bem nos momentos em que precisávamos, como o Pan.
GE.Net: Como trabalhar o aspecto físico em um esporte tão puxado quanto o vôlei de praia?
Ricardo: O vôlei de praia é um esporte que exige muito do nosso corpo. Colocamos toda a responsabilidade em nosso preparador físico, que tem de nos deixar sempre 100%. Durante os cinco anos de parceria, tentamos fazer o nosso melhor. É difícil manter a regularidade, pois tem época em que o corpo cansa, tem fase que o corpo está ótimo, mas você não consegue fazer o jogo fluir... Acredito que a nossa experiência equilibra quando a preparação não está boa.
GE.Net: Vocês já estão montando o planejamento para o ano que vem?
Ricardo: Não. Estamos tentando terminar esta temporada e entrar em férias. Durante a folga, vamos ver com a comissão técnica comoserá feito o planejamento. Ainda não sentamos para conversar sobre isso. Sabemos que o próximo ano é especial porque é olímpico e teremos que começar antes a nossa preparação, abdicando de algumas coisas...
Emanuel: Praticamente será uma continuação do que nós já tivemos este ano. As nossas melhores férias foram de 2006 para 2007, quando descansamos 45 dias. Agora, tenho certeza que teremos só uns 20 dias.
GE.Net: Abdicar de algumas coisas, como disse o Ricardo, seria não participar de algumas competições ou diminuir a dedicação à vida social?
Ricardo: Um pouco de tudo. É um ano em que ficaremos um pouco mais ausente com os familiares, porque teremos que ter uma preparação diferenciada. Vamos sentar e ver em quais eventos vamos participar para não atrapalhar o nosso treino. Isso tudo vai ser visto e combinado.
GE.Net: Ricardo, você disputou as duas últimas finais olímpicas. O que é melhor: ficar “escondido” nos meses que antecedem a competição ou disputar muitas etapas de alto nível?
Ricardo: Tem que ser um treinamento em que você se sinta bem para jogar, independente de ser um local onde você esteja perto das pessoas e tenha uma vida mais corrida ou um em que você fique mais tranqüilo e focado no objetivo. Na Olimpíada que passou, fizemos uma base em Portugal e acredito que não será diferente este ano. Vamos tentar ficar um pouco mais distantes. Mas tem que estar bem, treinar feliz e confiante. É o que faz a diferença em um evento importante como as Olimpíadas.
| Foto: Túlio Vidal/Gazeta Press |
 |
| Emanuel se aliou ao "rival" Ricardo para formar a dupla mais vencedora da praia |
GE.Net: O que vocês estão planejando para depois das Olimpíadas? A parceria continua ou não?
Emanuel: Vôlei de praia é regido por um ciclo olímpico. Acredito que estaremos muito bem em 2008, que é quando termina o ciclo que programamos. E, se estivermos competitivos, vamos ver em 2009... Se um ainda tiver paciência com o outro, creio que temos condições de chegar não a um próximo ciclo olímpico, mas pelo menos a um ciclo pan-americano.
Ricardo: No momento, estamos pensando nos próximos jogos do Circuito Brasileiro... Pensamos tudo por partes para não atropelar o futuro. Mantemos sempre um foco no mesmo objetivo para que nada venha nos atrapalhar. O momento agora é até Pequim.
GE.Net: Vocês ganharam as Olimpíadas de 2004 com relativa facilidade. Olhando três anos depois, qual foi o diferencial da dupla na competição?
Ricardo: Era uma dupla nova, mas com atletas experientes que já tinham passado por outras Olimpíadas: duas no caso do Emanuel e uma final olímpica, no meu caso. Isso nos deu um pouco mais de maturidade. Temos ainda um grande poder de jogo: eu estava no meu melhor em termos de bloqueio e o Emanuel é um grande defensor e sacador. Isso facilitou muito. O mais difícil é manter essa força durante muito tempo, porque o esporte evolui e surgem novos atletas que te estudam muito.
GE.Net: Vocês eram amigos quando fizeram a parceria, em 2002?
Emanuel: Na realidade, não. Quando formamos a parceria, nós éramos até rivais. A gente fazia sempre os principais duelos no vôlei de praia, mas aprendemos que quando duas pessoas são rivais, elas devem unir forças para conseguir um bem comum. E foi isso o que aconteceu. A rivalidade se tornou uma grande amizade e esta amizade trouxe vários títulos.
GE.Net: Como foi montar uma parceria bem no meio do ciclo olímpico?
Emanuel: Tem certos momentos em que isso tem que ser feito. Muitas vezes, é necessário formar uma equipe para um evento grande. Idealizá-la e depois fazer dar certo é difícil, mas acho que foi um desafio prazeroso.
GE.Net: Como vocês lidam com a vaidade na dupla?
Ricardo: Vaidade? Acho que nem eu, nem o Emanuel temos vaidade. Pensamos sempre em querer mais pelo lado bom, não pelo lado da vaidade. Queremos sempre ter novos títulos e isso é o que nos incentiva. Pelo menos no que eu vejo, não tem nada de vaidade.
Emanuel: Nestes últimos anos, eu e o Ricardo temos evoluído também bastante nesta parte fora de quadra, pois sabemos que um depende do outro. Nenhum é mais estrela que o outro. Por isso, priorizamos a equipe, que tem que estar bem.
GE.Net: O que a dupla faz para se manter focada em uma competição como o Circuito Mundial, que é desgastante e vocês já ganharam várias vezes?
Emanuel: Acredito que seja o espírito vencedor que eu e o Ricardo temos. Quando formamos a nossa parceria, nós não priorizávamos alguns eventos: queríamos jogar sempre o nosso melhor. Esta idéia é a nossa motivação interna. O Ricardo é aquele jogador que gosta de vencer tudo e eu também sou dessa forma. Ter alguém ao seu lado com o mesmo objetivo é mais fácil. Eu quero sempre estar quebrando recordes: fomos pentacampeões mundiais juntos, mas sempre tem uma sexta vez. Estar sempre pensando em um novo recorde faz com que eu jogue mais.
Ricardo: Você tem que estar sempre criando novos desafios. Nenhuma outra dupla conseguiu vencer cinco anos seguidos o Circuito Mundial. Nós conseguimos, então queremos vencer a sexta, a sétima... Tudo o que fazemos é por amor, então esses recordes vão surgindo naturalmente através de um trabalho bem feito. E temos mostrado que nosso caminho é o certo.
GE.Net: Disputar o Pan se traduziu em alguma dificuldade no Circuito Mundial deste ano?
Emanuel: Não. Foi a melhor escolha que fizemos. O nosso planejamento de jogar o Pan foi espetacular. O retorno que tivemos em termos de respeito ao nosso esporte foi muito grande. Eu, que sou um apaixonado pelo vôlei de praia, vejo que as pessoas estão nos vendo com bons olhos, melhores do que era antes. Até então, o povo brasileiro não via que o vôlei de praia é um esporte muito divertido, bem legal de se assistir.
GE.Net: Vocês costumam enfrentar muitas vezes os mesmos rivais durante a temporada. O que fazer para se manter sempre um passo à frente deles?
Ricardo: O principal é tentar manter o nosso nível de jogo e estar sempre estudando os adversários. As duplas estão evoluindo, criando novas táticas... Temos que nos reciclar para isso: quando eles mudam a estratégia, nós estamos preparados.
Emanuel: Como jogamos muitas vezes com a mesma dupla, nós temos sempre que estar mudando alguma coisa. Analisamos sempre as partidas dos adversários para ter uma arma secreta. Durante os últimos anos, este grande número de partidas fez com que todos evoluíssem o jogo. Foi o que aconteceu comigo e com Ricardo depois que o Márcio e o Fábio Luiz se uniram (parceria brasileira que atualmente está na segunda posição do ranking mundial). Eles nos forçaram a sempre buscar o nosso melhor. É importantíssimo ter esta rivalidade.
GE.Net: O fato de os norte-americanos ficarem fora de boa parte da temporada internacional, disputando o Circuito deles, dificulta ou facilita na hora de enfrentá-los em um torneio como as Olimpíadas e o Mundial?
Emanuel: Essa escolha dos americanos faz com que eles não tenham tanta experiência internacional. Por um lado é bom para nós, porque evitamos jogar contra eles. Mas também tem o fato de que quando eles vêm, chegam com o fator surpresa. Nem eles sabem o nosso estilo de jogo e nem nós o deles. Demora um pouco para achar uma estratégia ou uma forma de vencer estas equipes. Os americanos sempre têm um trabalho mental muito forte e vêm preparados psicologicamente para eventos grandes. Mas a forma como o Brasil tem evoluído nos dá grandes possibilidades de vencer os Estados Unidos.
Ricardo: Fica no meio termo. Dificulta porque eles podem vir com um sistema de jogo diferente, mas eles podem também dar de frente com uma dupla que está em um ritmo muito bom. E nós com novas jogadas, um ritmo diferente... acho que equilibra. Na hora do jogo, o estudo é o diferencial, porque são duplas que sempre estão brigando. E os americanos têm sempre parcerias que dificultam para os brasileiros.
GE.Net: Vocês já pensaram em passar uma temporada inteira nos EUA?
Ricardo: Eu já tive vontade, mas acho que não é o momento. Temos outros objetivos até Pequim. Depois, quem sabe, podemos tentar jogar alguns eventos fora.
GE.Net: Hoje, dos cinco primeiros do ranking mundial, quatro são brasileiros. A que vocês atribuem este domínio?
Ricardo: O nosso Circuito é um evento fortíssimo e tem proporcionado novos atletas que já possuem experiência grande, caso do Pedro Cunha e do Pedro Solberg. Isso mostra a força que é o nosso esporte, junto com a CBV, com o Banco do Brasil e os patrocinadores que acreditam no nosso esporte.
Emanuel: É a evolução do esporte mesmo. Nestes últimos dez anos, o vôlei de praia se tornou um esporte muito mais profissional e as mudanças de regra nos ajudaram muito. E o Brasil tem um povo criativo, que é um elemento que você tem que ter nesta modalidade. Isso se aliou com a nossa estrutura. Acredito que por muitos anos o Brasil vai continuar dominando o vôlei de praia.
GE.Net: É complicado se manter financeiramente no vôlei de praia?
Ricardo: O começo é muito difícil. Quando eu comecei, tive a ajuda dos familiares. Cada um dava um pouco para comprar a passagem de ônibus para eu ir jogar. Mas é isso que valoriza as conquistas. O atleta até ganha uma motivação maior depois que chega ao topo: ele olha para trás e diz: “Pô, já passei por isso”.
Emanuel: O vôlei de praia chegou a uma maturidade profissional. Há empresas investindo, que sabem que o esporte tem uma grande visibilidade na mídia. O vôlei de praia é a cara do Brasil. Todos os atletas da próxima geração terão muito mais condições financeiras para jogar.
GE.Net: O vôlei de praia às vezes fica na sombra do indoor?
Ricardo: Apesar de ser vôlei, são dois esportes diferentes. O Bernardinho, sem dúvida, é magnífico com a equipe que forma, mas o vôlei de praia não fica atrás. É um esporte novo, mas que está conquistando o seu espaço. Que não é o mesmo do vôlei de quadra. Mostramos que também somos um esporte vitorioso.
Emanuel: São casos diferentes. No começo, até era possível comparar as duas modalidades, mas nestes últimos anos dá para ver que são dois esportes totalmente distintos. Muitos atletas que vêm da quadra não conseguem se firmar na praia, porque o nível está bem alto. São dois esportes que têm rumos diferentes em Olimpíadas e Mundiais.
GE.Net: Mas existe uma ilusão dos atletas que mudam da quadra para a praia?
Ricardo: No vôlei de quadra, o jogador tem geralmente poucas funções, como só atacar, bloquear ou passar. No vôlei de praia, não. Você tem que participar de todas as ações e ter a técnica apurada em todos momentos, o que exige muito mais de um atleta. Tem jogador que não se adapta e volta para a quadra, outros ficam... Cada um tem o seu brilho.
|